Pó de Anjo
1 Pó de Anjo
Notas iniciais
Em uma noite chuvosa, cinco amigos conversavam animadamente, rindo de fatos ocorridos ao longo da semana de cada um. Nico, o dono da casa onde estavam, foi até a cozinha pegar a pipoca para acompanhar o filme a ser visto. Chegando à cozinha, ele deparou-se com a torneira pingando e as luzes da geladeira apagadas. O menino achou aquilo muito estranho, pois todas as outras estavam acesas. Foi até a pia e fechou o vazamento bem forte. De volta a sala, todos ouviram o latido do cachorro, mais insistente do que o normal. De repente, o animal se calou e o grupo achou aquilo estranho. Nico estava prestes a verificar, mas foi impedido por Ryan.
— Deixe isso para lá, deve ter sido um gato. Venha, vamos logo escolher um filme.
Inesperadamente, os meninos escutam batidas na porta. Quando espiaram pelo olho mágico, tudo estava escuro. Ryan saiu e demorou um pouco lá fora. No momento em que o resto começou a se preocupar, o garoto volta com uma interrogação na cabeça.
— Não tem nada lá fora.
— Você viu se o Bob está bem? — perguntou Nico.
— Bob?
— Meu cachorro.
— Ah... Não o vi, não...
Então, a turma voltou a assistir ao longa. No entanto, alguns minutos depois, começaram a ouvir barulhos no segundo piso da residência, e logo Leo se expressou:
— Vei... Sua casa tá assombrada!
— Foi apenas um trovão Leo – disse Nico
— Mas foram batidas! Tenho certeza de que trovões não batem em paredes!
Ryan se adiantou e disse:
— É melhor todo mundo ir lá em cima e investigar.
Porém, nem todos queriam ir e, depois de muitas discussões, decidiu-se que Leo, Nico e Ryan iriam ver o que estava acontecendo – apesar de Leo estar morrendo de medo – enquanto Eric e Felipe ficavam de guarda na sala. Finalmente, os três começaram a subir a escada e, quanto mais eles continuavam, mais distante parecia estar o fim dela.
— Caramba! Isso não acaba não? — Leo reclamou.
— Não demorava tanto assim – lembrou Nico
— Tá ficando escuro... Vou pegar minha lanterna, pera aí...
Quando Leo pega o item e o liga, bem a frente dos meninos apareceu uma figura completamente desfigurada. Com o susto, os três perderam o equilíbrio e rolaram escada abaixo. Chegando ao chão, Ryan percebeu que estava esmagando Nico e rapidamente levantou para que o garoto pudesse respirar direito. O tapete sobre o qual caíram começou a se mexer, até que os enrolou por completo.
— Felipe!! Eric!! Socorro!! — gritou Nico.
Na sala, Felipe e Eric assistiam ao filme tranquilamente.
— Será que eles estão bem? — perguntou Eric.
— Devem estar – disse Felipe – Vamos voltar a ver o filme, está na melhor parte.
— O que nós vamos fazer?! — desesperou-se Leo.
— Vamos tentar nos mexer o máximo possível para ver se esse tapete maldito desenrola – falou o anfitrião.
Depois de muito esforço, os garotos conseguiram sair do tapete e não demoraram muito para perceber que estavam no andar de cima da casa, bem em frente ao depósito.
— Ué! Eu pensava que a gente tinha caído. Como viemos parar aqui? — questionou Leo.
— É como se o tapete tivesse nos transportado... Mas como isso é possível? — replicou Ryan.
— Não estou gostando nada disso... — argumentou Nico.
No andar de baixo, Eric se enchia de pipoca, ao mesmo tempo em que ele e Felipe ficavam com os olhos atentos a televisão.
— Os meninos estão demorando – disse Felipe – estou ficando preocupado.
— Verdade cara, vamos pausar aqui e ir lá ver se eles estão bem – concordou Eric.
Os amigos se levantaram do sofá e direcionaram-se a escada. Chegando lá, avistaram um tapete próximo aos degraus, não se importando muito com o mesmo. Ao pisarem nele, foram enrolados do mesmo jeito que os outros três e levados para junto deles.
— O que aconteceu?! — perguntaram os dois em uníssono.
— Bem vindos à festa mis amigos! — brincou Leo.
— Leo, não é hora para brincadeiras – disse Ryan.
— Ok, vou parar.
Os barulhos recomeçaram com mais intensidade, vindos exatamente do quarto a frente. Leo tremia, e Ryan cutucava o fiapo da calça com raiva. De repente, a lanterna apagou, deixando-os apenas com a claridade dos relâmpagos vindos da rua.
— Calma gente – Ryan alertou – vamos nos dividir: eu e Nico vamos entrar no depósito pra ver o que está acontecendo. Leo, você pode ir com Felipe e Eric para sala.
— Uhuuu! — Leo animou-se.
— Ei! Por que sou eu que tenho que ir? — questionou Nico.
— Você é o dono da casa – respondeu Ryan.
— Afe...
Durante a descida dos outros, Ryan e Nico tentavam abrir a porta do depósito, a qual, por acaso, estava trancada.
— Você tem um grampo, cartão, qualquer coisa que possa abrir isso? — perguntou Nico.
— Devo ter um cartão aqui...
Enquanto Ryan procurava o objeto, Nico o observava. Os olhos azuis do loiro brilhavam por causa dos relâmpagos.
— Por que você tá me olhando assim? — Ryan perguntou, com um sorriso bobo no rosto.
— É... Nada não, deixa pra lá – respondeu o moreno, um pouco vermelho.
— Consegui!
Os meninos empurraram a porta e entraram no pequeno cômodo. A primeira vista, parecia um depósito normal: baús com brinquedos velhos, vários cadernos empilhados, vassouras, entre outros utensílios. De repente, a entrada atrás dos garotos se fechou, trancando-os lá.
— Mas o quê?! Ei! Abram essa porta!
— Nico, esquece. Estamos condenados aqui dentro.
— Use seu cartão novamente!
— Então... Eu deixei ele lá fora...
— Ah, caramba! O pior de tudo é que não dá pra ver nada!
— Não tem luz aqui?
— Não... tá queimada faz tempo. Ninguém tava com saco pra trocar.
POU!
Um barulho vindo do térreo os assustou.
— Gente?! — gritou Ryan – vocês estão bem?
Nenhuma resposta.
Na sala, sem motivo ou lógica, chovia pedras. Pequenos diamantes caiam fazendo um estrondo horroroso.
— O que é isso? — perguntou Eric.
— Como pode? — Felipe olhava boquiaberto para o teto, que estava cheio de buracos, depois para o chão, o qual estava ficando coberto das preciosidades. Nico e Ryan, no andar de cima, tentavam se proteger da queda delas.
— Ai, minha cabeça! — reclamou o loiro.
— Acho que tem um guarda-chuva por aqui. Vai tateando aí até encontrar...
Antes de terminar a frase, a porta do quarto foi se abrindo lentamente. Os dois colegas estranharam, mas os desespero falou mais alto e saíram correndo dali. Quando chegaram aonde deveria estar a escada, viram uma espécie de tobogã descendo em espiral na escuridão, abaixo deles.
— E aí – disse Ryan – a gente encara?
Nico respira fundo.
— Não temos outra opção.
Então eles pularam, e foram escorregando pelo brinquedo nada agradável. Caindo, caindo, caindo... Até o ponto de nem mais lembrarem a quanto tempo estavam ali. Poderia ter passado uma, duas ou até mesmo três horas. De repente, pararam de sentir a rampa e caíram no molhado, preferindo acreditar que o líquido fosse água.
— Nossa... aqui tá escuro – indagou Ryan.
— Na minha casa não tem piscina... Onde estamos?
— Não faço a mínima ideia...
Depois de um tempo boiando, os meninos avistaram uma luz brilhando e nadaram em direção a ela: era uma pequena ilha, com apenas areia e pedras. Ryan e Nico saíram da água e, numa enorme rocha estava entalhada uma charada.
“Qual o animal que de manhã, anda com quatro pernas, de tarde, com duas e à noite, com três?”
Os dois se entreolharam.
— Sabe o que é? — perguntou o moreno.
— Nem um pouco.
— Então vamos ficar fazendo o que aqui nessa ilha? Não tem outra saída! — Nico se sentou nos cascalhos, desesperançoso, afogando a cabeça em seus braços.
— Ei, não fique assim – Ryan tenta consolar o amigo — Você não pode simplesmente desistir. Tem que se esforçar, tomar controle da situação. Vamos Nico! Seja homem!
No mesmo instante, a grande pedra que continha o enigma começou a se arrastar. Após alguns minutos, a mesma parou. No lugar onde estava, havia um buraco estreito, porém suficiente para a dupla passar.
— Não acredito que a resposta era “homem” — Ryan indignou-se.
— Não reclame, respondemos a charada. Anda, vamos descer.
Os dois desceram por uma escada que lá havia, por um tempo que parecia eterno. Então, eles começaram a cair, gritando desesperados. Quando perceberam, desabaram sobre um arbusto, no meio de uma floresta desconhecida. Não aguentando o cansaço da queda, acabaram dormindo por ali mesmo.
Os garotos já estavam quase se afogando naqueles tantos diamantes. Tinham que arranjar um jeito rápido de sair dali, se não o pior aconteceria. Foram correndo para qualquer canto que tivesse uma saída. Ao abrirem uma porta, ficaram impressionados ao ver a enorme floresta que se estendia sem um fim aparente. Andaram com cuidado por ela, desviando de alguns insetos que batiam em seus rostos. Após seguirem por um bom tempo, pararam para descansar.
— Cara... essa casa do Nico é uma viagem – expressou-se Leo.
— Achava que, se continuássemos, poderíamos encontrar ele e o Ryan – argumentou Eric.
Felipe, que era o mais velho do grupo, começou a pensar em um plano para saírem dali e achar seus outros amigos. Mas como faria isso? Não tinha a menor ideia da área daquela mata, muito menos aonde estariam os “heróis” perdidos. Xingou-se mentalmente. Sentia-se responsável por tudo o que estava acontecendo naquele momento. Seus pensamentos foram interrompidos ao ouvir vozes ao longe. A turma se entreolhou assustada, entretanto, ao se aproximarem mais delas, reconheceram que eram dos desaparecidos, apressando-se em encontrá-los.
— O que aconteceu com vocês?! — disse Leo eufórico.
— Nós fomos parar numa ilha e aí tivemos que resolver uma charada pra poder sair de lá – falou Nico, arfando da corrida que fizera.
— É, e acabamos parando aqui – complementou Ryan.
O mais velho ficou aliviado ao saber que os amigos estavam bem. Contudo, tinha que arranjar logo um jeito de encontrar a saída daquele local. De repente, uma pedra o atingiu na cabeça, fazendo-o cair aos poucos. Tudo o que pôde ver foi os garotos tentando socorrê-lo e, então, caindo um ao lado do outro.
Apagão.
Quando acordou, Felipe estava no chão da casa de Nico, com pipoca espalhada ao redor. O resto dormia tranquilamente, não havia sinal de diamante nem de furos no teto.
— Pessoal, acordem!
Aos poucos foram acordando, um por um, com grandes papos pairando sob seus olhos. Ele e o anfitrião foram até a cozinha beber água, enquanto os demais se perguntavam o que havia sido a noite passada.
— Gente, o que aconteceu ontem à noite? — disse Leo sonolento.
— Não sei. Acho que foi muito sal na pipoca – riu Eric. Suas olheiras estavam mais profundas que as dos outros.
Felipe e Nico voltaram da cozinha. O segundo estava segurando um potinho com um pó branco.
— Pessoal, quem colocou o sal na pipoca ontem? — perguntou Nico.
— Fui eu – Felipe respondeu – Por quê?
— Bom, acho que não era sal, não – observou Ryan.
— Pois é, isso é do meu irmão. Ele é... — o moreno não conseguiu terminar a frase.
— Sabemos o que ele é, Nico – replicou o loiro.
— Eu não sei! — falou Leo – O que é isso?
Ninguém respondeu. No fundo, até Leo sabia do que se tratava. A resposta estava estampada na face de todos.
Aos poucos os meninos foram embora, ficando apenas Ryan na casa de Nico.
— Então... — começou Ryan – do que você se lembra?
— Não muita coisa, apenas o depósito e a ilha – disse Nico.
— A ilha foi bem maluca, mas não passava de um sonho.
— Pois é.
Depois de meia hora, os pais de Ryan chegaram.
— Bem, vejo você no colégio – despediu-se o loiro.
— Até lá.
Os dois deram um aperto de mão, um pouco demorado, e logo Ryan seguiu para a saída. Bob, o cachorro, entrou pela porta após o colega sair. Nico foi até a cozinha e jogou fora o pequeno pote e a pipoca no lixo. Depois, ele e o cão foram terminar de ver o filme.
Nico ficou o dia todo pensando na noite passada, nas bobagens e idiotices que sonharam. Pensou em Ryan. E se não tivessem descoberto o enigma? Mas por que Ryan? Havia outros três e o sonho escolheu Ryan. Nico achou injusto. Contudo, não iria esquecer daquilo, não tão cedo. E nem o nome da droga: pó de anjo.
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