Pétalas no poço & Desejo
6 O vestido
Os músculos de Carmina doíam, mas havia conforto em repousar dentro da banheira de latão com água morna. Depois de trabalhar ao longo da tarde do dia anterior e naquela manhã, ela havia se dado ao luxo de se limpar melhor além das esponjas úmidas que usava ao raiar do dia. "Luxo", porém, ainda era uma palavra azeda em sua boca. A última conversa com sua mãe repetia-se em sua cabeça de novo e de novo, mas ela não queria pensar mais nisso. Afundou a cabeça na água.
Ela se lembrava do começo daquela história toda, a falência. Porém, sendo honesta, não se lembrava tão bem a sequência dos fatos ou justificativas, só que as coisas foram minguando até seu pai declarar a ausência de fundos, assim como a venda de alguns bens. Os funcionários não vieram mais e Mina deixou de frequentar eventos, também foi obrigada a se despedir de sua tutora. Nenhum deles sabia o quanto duraria, mas a mãe fazia-na acreditar que seria pouco. A sugestão da Casa de Chás era quase como uma brincadeira para uma adolescente e dificilmente atrapalharia as chances com propostas de casamento — o objetivo primário de seus pais com sua erudição.
Ela notava agora que sempre fora uma ferramenta, um meio, uma criada; mudavam apenas as condições: fosse para trabalhar ou fosse para casar-se bem, Mina servia para o sustento da casa e de seus pais. E ela aceitou. O que mais poderia fazer? Onde mais poderia ir e encontrar condições que não fossem iguais ou piores?
Ergueu o corpo para respirar. Imaginou-se como o chá das flores vermelhas que testou durante a madrugada, sanguíneo e um tanto amargo, espalhando sua cor rubra na banheira assim como as ervas faziam em xícaras. A cor era belíssima, mas Carmina não confiava muito no sabor. Precisava acertar a proporção ou a mistura. Estivera ligeiramente enjoada depois de beberica-lo.
E depois de acertar tais detalhes, poderia apresentar o chá àqueles tais homens de negócios. Usaria a louça mais fina para exibi-lo, bem como adequaria os novos ingredientes à disposição. Seria um chá para encontrar o divino, disso ela tinha certeza. E para ela, seria uma forma de encontrar uma adocicada riqueza. Ou, no mínimo, maior comodidade. Não ousava pensar na palavra liberdade, pois ela caminhava junto à esperança e nenhuma delas descrevia bem o tom amargo dos devaneios dela.
"Mina. Mina!," A voz da mãe ressoou atrás da porta do lavatório, “Seu pai enviou um vestido. Preciso que experimente agora.”
Ela não quis ter seu banho ou suas fantasias de fartura interrompidos, mas atendeu ao chamado por curiosidade. Secou-se, vestiu um roupão leve — o último que tinha. E quase não acreditou ao ver o tecido rosáceo, leve e lindo do tal vestido. Não era um presente, porém.
“Me deixe vê-la."
Atrás do biombo, em seu quarto sem grandes decorações, Mina ouviu a nova instrução. Não gostava do tom. Não era a mãe, era a patroa quem falava. Esperando algo traiçoeiro, Mina revelou-se e deu uma giro comedido com o vestido novo. Sentiu-se uma flor desbotada caindo e girando ao vento.
Sua mãe aprovou.
“Depois coloque o avental por cima para ver se combina. E não suje até amanhã. Iremos ao festival.”
Mina sorriu tristemente. O encanto havia durado pouco, embora ela tenha conseguido enxergar a si mesma por um breve momento como alguém que merecia algo mais do que o serviço braçal. Imaginar-se com o avental, provavelmente somado ao restante de seu uniforme, transportou-a para a realidade tátil. Aquele vestido ainda só um uniforme mais bonito.
Teria questionado a mãe sobre o que levariam ao festival, afinal de contas. Os ovos tinham acabado. Apesar do estoque de chá e mais ingredientes sofisticados na despensa, não poderiam atender um público grande — Mina sentiria dor física se tivesse que usar demais as favas de baunilha. No entanto, sua mãe já estava atravessando a porta do quarto, prestes a descer as escadarias.
"Como vou servir as pessoas?"
"Ora, como sempre servimos," ela disse, sem notar que não era tanto um trabalho coletivo como implicava, "Eu já escolhi as louças e os homens acertaram o local onde vamos servir o chá lá na vila. Um local arejado e agradável, devo dizer. É mais próximo das árvores."
"Não temos tantos biscoitos, falta farinha."
Era a forma indireta e educada de Carmina alertá-la que teriam chá e apenas chá, praticamente. Combinaria com o conceito de "Casa de Chá", mas ela duvidava que fosse muito atraente ou lucrativo. Era uma receita para o desastre.
Sua mãe não pareceu interessada no lembrete. Continuou descendo as escadas e, ao final do último degrau, adiantou-se para pegar sua bolsa e suas luvas. Iria sair da casa.
"Eu vou acertar agora os detalhes das mesas e toalhas, Mina. Não tenho tempo para acompanhar o processo na cozinha, mas deixei a lista do que vamos levar. O carregamento de ingredientes chega daqui a meia hora. E daqui a uma hora, Lena e Anna virão para te auxiliar no serviço."
A criada parou no lugar, como se os pés estivessem frios pelo Inverno. Encarou a mãe com a expressão parva, enquanto dentro de seu crânio corriam os pensamentos mais aguçados. Sim, havia algum dinheiro em algum lugar para a compra de última hora de tantos ingredientes e para a contratação de novas funcionárias — não eram nem as mesmas que cobravam barato por algumas horas de trabalho na Primavera passada.
"Parece que você tem tudo planejado."
Foi só o que ela conseguiu dizer, aceitando os fatos. Se não pensasse que a situação era absurda — de repente, existiam fundos para especiarias, vestidos, criados — poderia dizer que parecia uma piada ruim. E no fim, não julgou a mãe e patroa pelo distanciamento, pelo planejamento frio. Ela própria estava fazendo novos planos sozinha.
"É claro. Os preparativos são essenciais," A outra suspirou, sem prestar atenção na expressão de Carmina, "Você não está empolgada? Vai poder aproveitar o Festival das Flores depois de trabalhar."
Saiu, enquanto o sangue de Mina fervia.
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