Se Carmina não participava dos lucros ou decisões da Casa de Chá, não havia obrigação moral de manter a boa imagem frente a desastres. A responsabilidade não era sua. Mas, ela também não tinha nada sólido quanto aos seus novos planos de enriquecimento e vingança, portanto não queria ver esgotar-se sua única fonte de renda. Os testes de chás de flores estavam espalhados na cozinha em concentrações diferentes lá em sua casa. Quem sabe, em um deles houvesse a resposta que tanto queria: um chá atraente, uma proposta irrecusável, fundos para si própria e só.

Por enquanto, ela precisava ser inteligente.

Ao ver senhoras e senhoritas incertas do que aconteceria em seguida — já que todas haviam se levantado das mesas devido ao susto — Carmina soube que tanto seu plano quanto o plano de seus pais estava em jogo. Se aqueles homens estivessem ofendidos pelo vexame, apenas sumiriam dali e tudo permaneceria como sempre foi.

"Ora, ora!, Ela riu, atraindo atenção, "Até a Dona Raposa veio para a hora do chá! Pena que ela não tem bons modos."

Piscou em direção à Lena e Anna, enquanto ela própria se adiantava para pegar de volta a bandeja e começar a juntar os cacos no chão. Talvez fosse só solidariedade ou apenas o medo de não serem remuneradas após o incidente, mas o fato é que as duas captaram o que Carmina estava tentando fazer.

"Com esses bolinhos, fica duro resistir!"

"Essa raposa não desdenhou mesmo, só abocanhou."

Foi falsidade, mas as damas pareceram querer acreditar. O clima tenso ainda tinha cacos pontiagudos, entretanto se desfazia. Mina pegou o avental e conduziu algumas senhoras à própria mesa intocada pelas patas da raposa. Com a ajuda de Lena, juntou mais de um grupo para acomodar a todos, enquanto Anna havia coletado a porcelana na grama e os restos de comida. Aos poucos, a normalidade retornava.

Carmina lembrava-se bem das palavras dos homens em sua casa, sobre seus planos criteriosos para levantar dinheiro. Se fossem mentiras ou histórias bobas como lendas que nem eles próprios acreditavam, muito melhor. Eles usavam o clima bucólico e florido do Festival das Flores para tentar um negócio novo, Carmina poderia inventar algo para aliviar os ânimos e provocar um pouco mais de simpatia em uma sequência de ofensas à etiqueta feitas por um animal silvestre.

Afinal, as pessoas adoravam histórias, estivessem cientes disso ou não.

“E quem não ouviu falar das peripécias dessa Dona Raposa? É cada coisa que se ouve dela. E frutas vermelhas são sua comida favorita!”

Pronto. As senhoritas que trouxeram meninas tiveram que se render a pedir bolinhos de frutas vermelhas, adolescentes pediram para esse ingrediente ser adicionado ao chá e de repente não parecia mais ser um problema o fato de que a barra do vestido novo de Carmina ter se sujado um pouco de geleia quando agachou-se para limpar o caos.

Enquanto serviam as mesas, Carmina, Lena e Anna inventavam fábulas. A Dona Raposa era travessa, mas não traiçoeira. Comia frutas vermelhas e adorava biscoitos. Oh, sim! Sabia falar, mas escolhia fazer isso pouco. Se você fosse sortudo, veria-a andar sobre as duas patas. E na Primavera passada, tinha perdido seu colete elegante, cor de framboesa.

"E, um dia,” Carmina serviu a mesa seguinte, satisfeita porque uma criança ainda pouco ligava para postura correta do corpo ou para a norma de não se dar atenção aos criados, "A Dona Raposa já foi uma menina que sabia dançar."

Pelo burburinho ao longo da multidão do festival adentro, vieram mais pessoas a testemunhar a cena do adorável desastre com mesas, flores vermelhas das árvores e chás. E ao colocar o avental de volta no corpo, o bolso pareceu mais e mais pesado pelas moedas. Mas, o fim das festividades veio logo. O sol desceu e logo foi necessário guardar tudo o que tinha sido organizado no dia.

Ao menos não existiam tantas sobras para levar de volta à casa.

Já era tarde quando Mina despediu-se das outras criadas, após organizarem as louças restantes na Casa de Chá e beberem um pouco de gin. Elas levaram o acerto do próprio trabalho e riram das histórias inventadas, assim como debocharam das senhoras demasiado impressionadas pelo ocorrido. E é claro, falaram sobre o pequeno furto de frutas e bolos cometido por elas, nas pausas do serviço. Mina não se sentiu tão sozinha enquanto estava com Lena e Anna. E por causa disso, doeu um pouco mais quando assistiu as duas partirem.

Mina ficou um pouco do lado de fora, segurando ainda a garrafa de gin. Sabia que sua mãe estava em luto pela porcelana, ainda que não quisesse reclamar por conta do óbvio sucesso da empreitada no Festival das Flores. Enquanto isso, indiferentes ao desgosto alheio, seu pai e o grupo de homens se congratulavam na sala.

A criada inspirou fundo e observou o cenário verde à sua frente. Mesmo com a pouca luz vinda de dentro da casa, o pelo fulgurante de uma raposa era inconfundível. Porém, ela andava devagar e deixava um rastro ao caminhar.

E não conseguiu se desvencilhar quando Mina aproximou-se, logo ajoelhando ao seu lado. Sua pata dianteira estava ferida: a bala havia acertado-a de raspão durante a confusão.

"Ah, querida," Mina disse como se falasse à um bebê, "Não foi nada educado roubar galinhas ou frutas, mas você é só uma garota com fome, não? Não tem culpa de ser quem é."

Os olhos dourados da raposa reluziam, porém não se intimidou. O pouco de álcool que havia tomado impedia-a de ter mais senso. Mina segurou a pata ferida do animal, observando que, apesar do sangue, o estrago não era tão grave quanto poderia. Jogou álcool em cima, desviou de um avanço reativo e breve da raposa. Depois, rasgou a própria barra do vestido novo para limpar e enfaixar a pata.

Não soube dizer quanto tempo a raposa ficou encarando-a. Mas sentiu saudades dela assim que o animal partiu.

"Confabulando com o inimigo?"

Atrás de Mina, veio o pai.