Pérolas e Safiras
12 O Passar Lento do Relógio
Notas iniciais
“Uma situação está tomando conta de mim, você pode ver? Estou encrencada. A paixão cega me pegou, um pouco de ciúme. Não sou eu mesma, nem um pouco. Oh, estou arrodeada por confusão. Oh, estou perdida nessa ilusão.” – Kylie Minogue, Illusion.
A lua estava prestes a ceder seu glorioso espaço no céu, para que o majestoso sol banhasse a Terra com seus raios quentes e vívidos.
Em Konoha, muitos de seus habitantes ainda repousavam em suas camas. Os que não, já pensavam em trabalho. Do grupo que se mantinha acordado era Uzumaki Naruto.
Deitado em seu sofá, tentava descansar ao máximo o seu corpo. O seu lençol cobria apenas boa parte do seu tronco, apenas o suficiente para se manter aquecido naquela manhã fria. Não lembrava mais quando havia sido a última vez em que tivera uma boa noite de sono em sua cama. Desde que Hinata ou seu corpo – ele não gostava de pensar dessa maneira. – havia ido embora, suas noites de sono eram substituídas por pesadelos e movimentação constante em sua cama. Tinha de admitir que não eram pesadelos todas as noites, mas sonhos doces sobre a noite em que a levaria para aquele prometido encontro, onde imaginava tê-la como namorada, alguém constante em sua vida... Era pior do que ter pesadelos.
Sonhar algo que nunca teve, era... Desumano!
Depois de bocejar e aceitar que não poderia mais dormir, se levantou e foi preparar um desajeitado café da manhã composto por cereais. Enquanto esperava o café ficar pronto, colocou a mão esquerda no bolso da calça de moletom e encontrou o suave tecido que arrancou da blusa da morena naquela noite.
Tirou o objeto do seu esconderijo e ficou um bom tempo olhando para ele. Era como se tivesse dentro de sua casa um pedaço dela.
Cinco meses... Cinco meses e nada de você aparecer. – pensou tristonho e novamente com aquela dor em seu coração. – Tanta coisa aconteceu, tanta coisa para te contar...
E foi com esse pensamento que teve a primeira ideia em meses. Não seria o mesmo que olhar nos olhos perolados, mas se pensasse nela, talvez algo a chamaria de volta para ele. Sendo assim, decidiu que contaria tudo o que se passou nos cinco meses em que Hinata esteve fora da vila.
*****
Depois de ter escutado a história e a negação de Tsunade, Naruto voltou para sua casa, ignorando os protestos das ninjas médicas, que pediam para que ele ficasse na casa da loura e continuasse o tratamento.
Ele não queria continuar ali, iria arranjar uma maneira de sair em busca da morena. Quando chegou em casa, caiu diretamente na cama e adormeceu por quase três dias.
Acordou renovado e pronto para sair à procura da Hyuuga perdida, mas quando entrou no escritório da Hokage teve sua primeira decepção.
A Senju já havia mandado uma equipe de busca e ele estava terminantemente proibido de sair sem sua permissão. Irado por ter tido sua vontade novamente negada, saiu do escritório pronto para escapar de Konoha. Era um dia chuvoso e combinava com o humor do rapaz. Foi ai que algo o impediu. No caminho até sua casa, deu de cara com um furioso Sasuke. Naruto até tentou conversar com o amigo, mas este o ignorou e continuou seu caminho. Enquanto permanecia parado na chuva, confuso com aquele comportamento estranho do Uchiha, Naruto escutou um choro feminino muito próximo de si.
Ele seguiu o som e encontrou Sakura se debulhando em lágrimas, toda ensopada, sentada no batente da porta de entrada da sua casa. O rapaz prontamente foi ajudar a amiga que ao ver o amigo, se levantou e deu um abraço sufocante e desesperado no louro.
Assustado, ele a arrastou para dentro da casa e assim que a rosada se acalmou pediu explicações. E mesmo que a Haruno demonstrasse temor em falar, acabou por admitir seu relacionamento com o moreno. Dai veio à surpresa quando o louro disse já saber do relacionamento. Sakura pediu infinitas desculpas que irritou Naruto.
O Uzumaki chocou a médica ao dizer que aquilo não era da conta dele e que se os dois se gostavam não tinham de esconder o relacionamento, não importando quem vá machucar. Apenas vivessem o momento. A sabedoria das palavras do louro causou mais um ataque de choro da rosada. Quando finalmente o choro terminou, ela explicou o motivo de sua visita.
Sakura estava grávida.
Ela havia descoberto não fazia nem dois dias e chocada com a noticia, veio pedir conselhos ao louro. Foi nessa caminhada que se encontrou com o moreno. Ele estava irritado com a rosada por ela tê-lo evitado por esses dias. O Uchiha alegou estar sendo abandonado e que se a Haruno quisesse terminar o relacionamento que fizesse isso da maneira mais dolorosa e cruel possível.
– Estou com medo de contar a ele... – Ela admitiu com sua voz chorosa. – Eu não quero que pense que estou tentando enganá-lo, que rejeite a criança...
– O Sasuke não é assim e você sabe. – Naruto a interrompeu. Sakura o olhou esperançosa de que aquelas palavras acalentasse seu coração. – Conte a ele... Se o teme te ama... Vai morrer de felicidade com a notícia.
– Você acha? – A rosada perguntou meio desconfiada.
– Tenho certeza.
E foi assim que a conversa se encerrou. Sakura agradeceu o apoio do seu amigo e tomou um chá para se acalmar. Na hora em que iria embora, Naruto a impediu alegando que ela não tinha nenhum guarda-chuva e não queria que adoecesse. Devido a isso, pediu para que trocasse aquela roupa molhada e esperasse a chuva acabar.
Justo no momento em que Sakura voltou para sala do louro vestida com uma de suas calças e camisetas velhas, a campainha de sua casa toca e ao abri-la, dá de cara com Sasuke.
O moreno ficou atônito em ver sua rosada daquela maneira na casa do Naruto. A raiva borbulhou em sua cabeça. O Uchiha iria matar o louro, mas com o coração ferido decidiu dar meia volta e repensar melhor no que estava fazendo. A Haruno entrou em desespero, pronta para seguir o moreno, mas o Uzumaki a impediu e foi atrás do amigo.
Quando chegou próximo dele, irado, Sasuke agarrou a blusa molhada do amigo e o jogou com força na parede. O moreno estava cego pelo ciúme, não dava bola para nenhuma das tentativas de conversação do amigo. Ele apenas tentava bater e bater. Naruto apenas desviava, até que chegaram a um ponto em que ninguém mais tinha força para continuar aquela briga sem sentido. Pela primeira vez – pelo que ele se lembra. – Naruto viu o amigo chorar.
O Uchiha encostou-se a uma parede mais próxima e permaneceu chorando até que finalmente as palavras do Uzumaki entraram em seus ouvidos.
As palavras que saíram da boca do amigo, o deixou estático. As desconfianças foram dissipadas, como o vento carrega a poeira. Naruto não queria ter de estragar a surpresa, mas era para o bem de seus amigos. Contou da verdadeira situação. Situação que fez o jovem ANBU se arrepender amargamente de ter se deixado levar pelo ciúme. Quem era ele para negar que amava Sakura? Por que não conseguia dizer isso a ela?
Com essas perguntas em sua cabeça, pediu perdão ao louro e seguiu diretamente para a casa do amigo concertar as coisas.
E foi assim que Naruto viu os melhores amigos felizes. Depois de ter de esperar uma hora fora de sua casa, o Uzumaki viu os sorrisos enormes e aliviados nos rostos do senhor e — futura — senhora Uchiha.
Imagina Hinata... Eu vou ser o padrinho de casamento. Pelo menos foi o que me prometeram... – pensou enquanto repassava as memórias.
Depois daquele pedido de casamento, se passou dois meses até que Naruto tivesse coragem em pedir uma chance para procurar Hinata.
Mas suas esperanças foram varridas ao receber a notícia, da própria Hokage, de que Hyuuga Hinata estava sendo considerada uma traidora. Ela agora era uma Nukenin da Aldeia da Folha e deveria ser capturada o mais rápido possível.
O ódio que o Uzumaki sentiu não foi comum. Ele acusou Tsunade de tudo que veio em sua cabeça. Eram palavras ferinas que machucaram o coração da velha Senju. Depois da retirada forçada do rapaz de sua sala, a loura chorou da dor intensa que aquela cena havia lhe causado. Ela não queria ter permitido que fizessem isso a Hinata, mas não pode evitar tal desfecho. Kaguya estava disseminando o medo e caos em alguns países, fazendo com que Konoha se pronunciasse e tomasse suas devidas precauções. Se não colocasse um preço na cabeça da morena, ocorreria uma guerra.
Naruto passou uma semana se remoendo de remorsos ao descobrir das lágrimas da loura, coisa que Shizune fizera questão em contar. Ele se sentiu o pior dos homens e foi pedir desculpas a mulher. E assim eles tiveram uma séria conversa. O louro ficou sabendo da situação delicada e teve de concordar com as atitudes tomadas pela Senju.
– Eu quero trazer a Hinata de volta, principalmente em nome da Himiko... – Disse para o rapaz que a olhou de maneira desolada. – Mas não podemos fazer nada, a equipe não tem pistas... Kaguya é esperta demais para ser pega de surpresa. – Admitiu e se levantou da cadeira indo ficar na frente do rapaz. – Você vai ter de ser forte. Continue sua vida por aqui... – Falou para ele e puxou um envelope pardo de sua mesa. – Aqui dentro tem a designação de um time para você. É o time que o Kakashi estava treinando, mas eu o quero na equipe de busca e como não podemos deixar um time sem um professor, ele me designou você para o trabalho.
Ela falou com muito orgulho e depositou com suavidade nas mãos do rapaz o envelope.
– Aceite essa responsabilidade e continue a busca de seus sonhos. Eu sei que Hinata diria a mesma coisa.
Utilizando este argumento, Tsunade viu o rapaz alavancar sua carreira ninja.
Na semana seguinte Naruto foi apresentado ao seu time. A primeira coisa que ele pensou foi que – como diz o Shikamaru – a equipe era problemática. Os dois meninos Gray e Dan eram gêmeos idênticos, o que causava certa confusão na cabeça do louro. Sempre trocava seus nomes. Mio era, digamos muito esquentada. Os garotos sofriam na mão da garota, que com certeza, não levava desaforo para casa. Fora este detalhe, com o tempo passando e a convivência rotineira, Naruto se acostumou com as crianças e percebeu o grande potencial que eles tinham. E mesmo que tivessem apenas dois meses de convivência e experiência, Naruto colocou sua equipe na prova chinin. Foram as duas semanas mais tensas que já vivera em sua vida. Havia se apegado aos garotos e estava confiante de um bom resultado, mas sempre tremia quando via seus machucados.
Enquanto ocorria a segunda fase, o Uzumaki esbarrou com Hanabi nos corredores da prova. Ele estava à procura de sua equipe, que havia passado e a Hyuuga estava atrás de seu sensei, que era o Lee.
A morena tentou ignorar o louro, não queria conversar com ele. Mas a promessa à fez olhá-lo com um olhar indecifrável.
– Não se preocupe com nada. – Ele falou para a garota que girou em seus calcanhares para olhá-lo. – Eu vou trazer a Hinata, isso é uma promessa e eu cumpro minhas promessas. Você tem minhas palavras.
Hanabi parecia raivosa, mas seu coração se incendiou de esperanças. Sua casa não era mais a mesma sem sua irmã e se para tê-la de volta significava confiar no Uzumaki, então o faria, com todo o seu coração. Sorrindo para a moreninha, Naruto bagunçou os cabelos da Hyuuga e em troca daquela ação carinhosa, recebeu uma joelhada no meio de suas pernas.
– Jamais. Toque. No. Meu. Cabelo. – Ameaçou pausadamente e voltou a andar ao receber os acenos frenéticos do louro que se contorcia de dor.
O louro ficou no corredor por um bom tempo tentando recuperar os sentidos. A garota tinha ótimos reflexos e uma força admirável.
Novamente os dias se passaram muito lentamente, quase se arrastando e uma semana antes de completar cinco meses de seu desaparecimento, ocorreu um encontro bem peculiar.
Naruto treinava com seus alunos no campo de treinamento. Ele observava risonho o time tentar a todo custo montar armadilhas e estratégias mirabolantes. Gray e Dan tentavam irritar Mio utilizando a Técnica Sensual, ensinado dois dias antes pelo sensei. A cena era hilária e o Uzumaki se esforçava para não gargalhar.
Até que sua atenção é desviada por alguém que pediu sua atenção ao tocar seu ombro. Olhando para o lado encontrou o Hyuuga do sorriso. O rapaz que sempre insistia em aparecer nos momentos importunos quando estava com Hinata.
Ko pediu educadamente para conversar com o louro. Intrigado, ele aceitou a oferta e depois de dispensar o grupo para almoçar, esperou que o ansioso Hyuuga começasse a falar.
– Você não pode desistir da Hinata-sama. – Foi à primeira coisa dita por ele.
Naruto ficou surpreso com aquele pedido fervoroso e sério. E por muitos minutos escutou os apelos rápidos e meio exaltados do rapaz. Ko alegava que ele não deveria desistir da morena, pois se fosse o contrário ela nunca desistiria dele. Exaltou do amor que sua senhora sentia e que devido a isso a obrigação do garoto era de salvá-la.
Depois de muitos pedidos, o Uzumaki pediu calma e fez uma pergunta que veio de imediato em sua cabeça. Mesmo não sendo tão necessária, ele a fez.
– Você ama a Hinata? – Ele questionou com o semblante carrancudo e uma amargura na voz.
E para a surpresa do louro, o Hyuuga começou a gargalhar e não parou mais. Quando isso já começava a irritá-lo, Ko explicou suas motivações.
– Eu nunca pensaria na Hinata-sama dessa maneira. – Disse com convicção que de alguma maneira aliviou um peso no coração do Uzumaki. – Além disso, eu sou casado e amo minha esposa.
*****
– Sabe Hinata, — ele falou para o pano voltando seus pensamentos para o presente. – até que eu gosto do Ko-san...
Admitiu rindo de si por estar falando com um pano. Quando escutou o som de que seu café iria passar do tempo, guardou o pedaço de tecido com pressa e voltou sua atenção para o que fazia.
Soltou um gemido frustrado ao escutar o poderoso ressoar de um trovão e a consequente chuva. Agora teria de alterar seus planos, já que a chuva impediria de levar seus alunos em um passeio, como um presente por terem conseguido se graduar como chunin.
Ele tomou seu café da manhã e se preparou para ir ao quarto tomar um banho e trocar de roupa. Um barulho alto ressoou em sua casa o assustando e interrompeu sua caminhada. Prontamente foi ver o que fizera aquele barulho e seguiu para o cômodo onde o som havia sido originado.
Ao abrir a porta do seu quarto, encontrou a janela de madeira batendo contra a parede, aberta pelo vento. Mas ao entrar no cômodo, viu que não havia sido o forte vento da chuva que abriu a janela. Seu coração deu um salto em seu peito ao ver quem estava parado próximo à janela, ensopada pela chuva e tremendo devido ao vento frio que adentrava todo o quarto.
– Hinata...
Naruto suspirou ainda imóvel perto da porta, sem saber como reagir aquele inesperado reencontro.
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