Pérola

1 Capítulo 1 - Minha Chegada


Nunca imaginei em terminar a vida sentada numa cadeira de balanço em frente de casa, tricotando um novo suéter enquanto uso outros dois, e fitando com um olhar frio as crianças do bairro. Mas talvez, esta seria a minha melhor opção, pelo menos viveria em paz.

Poderia ser mais uma manhã de quinta-feira idêntica as outras do dia-a-dia repetitivo dos poucos mais que 980 moradores de Fraser, porém aquela simples manhã iria mudar minha vida por completo; eu nasci. Mas minha vinda ao mundo foi um verdadeiro sacrifício. Minha mãe sempre quis ter filhos, passou sua vida inteira tentando-os ter, tentativas em vão. Após sete anos de contínuas tentativas, em 1997 ela descobre uma notícia que queria ter escutado há muito tempo atrás; ela finalmente estaria grávida. Um ano depois eu nasci trazendo a sua morte no parto. Sim, ela sabia que a gravidez era de risco, mas ela quis lutar pela minha vida, porque após tantos anos de tentativa ela não iria desistir por culpa disso, ela estava disposta a sacrificar a sua própria vida por sua primogênita. E foi o que ela fez.

Dezesseis anos se passaram então, e eu simplesmente não consigo perdoar minha mãe pelo seu ato. Não vou dizer que sinto repugnância por isso, sua ousadia é um verdadeiro ato de bravura. Por outro lado, acho que existiria outras formas de realizar o seu desejo materno. Não me acho feliz, tampouco triste. Tenho momentos de felicidade, como também de tristeza. Acho que um estado permanente de sentimentos não é algo acessível ao ser humano.

Moro em uma típica casa do sonho americano, cercada por uma verde e macia cerca de cedro que exala um cheiro maravilhoso de natureza. Uma caixa de correio de madeira feita por mim mesma, aos meus oito anos, já estava desgastada demais, porém, não tinha tempo para restaura-lá. No jardim, uma bela alameda nos conduz até a porta da frente, ao contrário do restante, a porta já não era tão bonita e tão nova. Estava velha, na verdade ela era velha o bastante para ter tido a chance de sentir o macio e amável toque das mãos da minha mãe em sua maçaneta, talvez por esta razão, ela tenha durado tantos anos.

Vivo com meu pai Leon, um exímio ator de artes cênicas, meus dois irmãos Michael e Jack, gêmeos bivitelinos frutos do segundo casamento do meu pai, e minha Madrasta Vicky. Temos uma família, que ao público seria classificada “a família perfeita”, infelizmente, isso fica apenas nas palavras. Meu pai me renega, afinal eu sou a causa da morte da mulher da vida dele.

Meu refúgio é um cubículo de pouco mais que 4 m², revestido por uma madeira maciça nas paredes, e um carpete vermelho velho e já com um cheiro forte de comida e mofo. Coloquei na cabeça de meus ingênuos irmãos que lá, havia os piores e mais aterrorizantes monstros que eles poderiam imaginar, e assim consigo pelo menos passar algumas horas sozinha.

Escuto alguns passos em direção ao meu quarto, e em seguida três toques suaves na porta entreaberta.

- Beatrice, o jantar está pronto. Hoje é você quem lavará as louças.

Pude ouvir o baixo riso após a conclusão de sua fala, afinal, sou eu quem lava todas as louças após as refeições. Não respondi nada, coloquei meu diário sobre o criado mudo que fora de minha mãe, e levantei-me da cama velha que rangia como os dentes de um monstro. Desci os 16 degraus, e caminhei até a mesa.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.