Pátria Amada
1 Capítulo 1
“Brasil, e aí, como foi sua independência, cara?”
“Ouviram do Ipiranga.”
“Onde?”
“As margens plácidas.”
“O quê?!”
“De um povo heroico um grito retumbante!”
Cara estranho, era o que América podia pensar de um alguém tão extravagante. E afinal de contas, o que era mesmo “retumbante” e “plácido”?
–-- # ---
“Brasil, o sol está forte hoje, né?”
“E o sol da liberdade...”
“Como?”
“Em raios fulgidos!”
“Você tá lega...”
“Brilhou no céu da pátria neste instante!”
Paraguai ignorou a rudeza da interrupção olhando preocupado para o Brasil, que saia correndo e rindo – como se tivesse descoberto algo incrível.
–-- # ---
“Brasil, devo dizer que sinto muito por sua conjuração não ter dado certo! Caso contrário a igualdade seria conquistada mais cedo!”
“Se o penhor dessa igualdade, conseguimos conquistar de braço forte...”
“Sim, sim, vocês tiveram que ser muito fortes, a liberdade é dura de ser conquistada.”
“Em teu seio, ó liberdade, desafia o nosso peito a própria morte!”
França olhou consternado, Brasil não estava soando um pouco poético além da conta? E olha que ele próprio era um iluminista alucinado, fanático revolucionário, e nem assim falava desse jeito!
–-- # ---
“Bom, como eu ia dizendo, idiota, é difícil encontrar verdadeiros patriotas nos dias de hoje.”
“Ó pátria amada, idolatrada, salve! Salve!”
Argentina estalou a língua, aquele Brasil só podia estar zoando a sua cara.
–-- # ---
“Brasil, um sonho intenso, um raio vivido...”
“Tá fazendo o quê, Brasil? Recitando um poema de amor para si mesmo?”
“De amor...”
“Terra pro Brasil! Alô?”
“E de esperança à terra desce!”
Uruguai ainda tentou chamar a atenção dele mais algumas vezes, mas desistiu e foi embora depois que o Brasil começou a falar de gigante, beleza, força, espelho e grandeza.
–-- # ---
“Brasil... Quanto tempo, não é?”
“...”
“Sabe, mesmo que tenhamos passado por tudo isso, espero que ainda possamos ser amigos; como pessoas, sabe?”
“...”
“E-Eu sei, talvez você nunca possa me perdoar, m-mas não precisa me ignorar! Eu realmente adorava fica...”
“Terra adorada! Entre outras mil és tu, Brasil, ó pátria amada!”
Portugal grunhiu, decidindo que preferia não entender que diabos o Brasil queria proferir. Contentou-se em murmurar mais uns dois pedidos de desculpas e foi embora sem que o outro ao menos olhasse para ele. Talvez nunca fosse perdoado.
–-- # ---
“...Dos filhos deste solo, és mãe gentil, pátria amada, Brasil!”
“Ficou bom, gostei. Se quer saber não achei que você fosse conseguir compor por você mesmo.”
“Sabe como é, eu tive umas ideias por ai, depois foi só improvisar!”
“Bem, de qualquer forma vai ser esse, acho que todos vão ficar muito empolgados com o novo hino!”
Brasil sorrio, o chefe lhe sorrio de volta antes de dar as costas e cruzar a porta de saída. Ah, finalmente o merecido descanso depois de tantos dias para criar aquele bendito hino. Já estava pronto para ir tirar um cochilo ou fazer qualquer outra coisa até que ponderou momentaneamente – coçando a cabeça como faziam os senhores de idade – tinha quase certeza que começou a ouvir vozes desde o fim de semana em que se propôs a criar o hino nacional, não seria melhor ir ver uma mãe de santo ou algo do gênero?
Rio para si mesmo, que besteira, devia ter sido só a impressão, até porque era muito distraído.
No fim resolveu passear pelas ruas, andava tranquilo e topou coincidentemente com o Paraguai.
“E ai, cara?”
Paraguai olhou estranho para ele, não disse sequer uma palavra e foi embora, sem partir o contato visual por um misero segundo até que se afastasse completamente; devem ser mesmo loucos esses latino-hispânicos.
E mal educados, nem respondem quando você fala!
Fale com o autor