Pure Heart

4 Capítulo 4 - Chá e Bolos


Hiroto sentia-se desconfortável. Estava sentado, tentando ocupar o menor espaço possível, quase se camuflando entre o chão e a mesa. Ao seu redor seis garotas falavam, riam e gesticulavam sem parar.

A animada conversa de garotas nunca tem fim...

Ao saber que as amigas de Yui estavam vindo, Hiro tentou escapar, mas Ui quase implorou que ele ficasse, e Yui é bastante forte para sua estatura.

Pouco tempo depois a campainha tocou e as colegas de Yui entraram na sala, e se apresentaram. Todas olhavam para ele com indiscreta curiosidade, o que o fazia desejar que um buraco se abrisse no chão e o engolisse, se fechando logo depois para não haver risco de Yui pular e trazê-lo para fora novamente.

Ele reconheceu uma delas, a loira que sorria constantemente. Ela era herdeira da família Kotobuki, ele já havia visto a garota em algumas festas e reuniões de ambas as famílias. Lembrou-se de que seu pai havia comentado há algum tempo que ela seria uma noiva perfeita, mas Hiroto nunca se interessou por nenhuma das garotas ricas que seu pai lhe apresentava, e também repudiava a idéia de um casamento arranjado.

Depois de todas as apresentações e primeiras impressões, todos se sentaram ao redor da pequena mesa e serviram-se de chá e bolos. A mesa não era grande, então todos se comprimiam no pequeno espaço. Yui estava sentada em um lado de Hiro, e do outro lado, Ritsu, que discretamente dava empurrões e cotoveladas no garoto para que se aproximasse de Yui, o que o deixava constrangido.

A animada conversa de garotas nunca tem fim...

Apesar de todo o embaraço da situação, Hiro sentia-se contentede estar ali. Yui conseguiu facilmente com que a conversa passasse a incluí-lo, e ele gostava de vê-la animada com as amigas. O chá e os bolos eram deliciosos, e de alta classe, ele observou, como os que sua mãe servia nas recepções que ela organizava, mas ninguém fazia comentários sobre o assunto, o que o fez pensar que já estivessem acostumadas com doces caros, e talvez a Hora do Chá houvesse se tornado um tipo de tradição.

Ele conversou bastante com Ritsu, sobre a temporada de Baseball, com Azusa, sobre cozinhar (logo após Yui ter comentado sobre Hiro fazer a melhor comida que ela já provou... depois da sua é claro Ui-chan!) e com Tsumugi, quando ela o reconheceu. Mio não falou muito, depois de Ritsu comentar sobre os filmes de terror que andou assistindo com seu irmão mais novo. Ela parecia um pouco paralisada.

— E como Hirasawa-san se comporta na escola? – indagou Hiro curioso. Ele já estava completamente à vontade, e não percebeu os risinhos e olhares maliciosos que foram lançados a ele após a pergunta.

—Ela é completamente irresponsável! – Azusa começou.

— E só estuda na ajuda na última hora... – Mio continuou.

— E dorme nas aulas. -Ritsu complementou.

— Mas é uma ótima guitarrista! – Mugi tentou defende-la. Um “obrigado Mugi-chan” fraquinho pode ser ouvido da direção de Yui, que, com lágrimas nos olhos, parecia deprimida com a sua descrição.

—Quando não está bebendo chá – Azusa murmurou aborrecida.

—Nee... então esse é o namorado da Yui-chan! Ei! Mugi, me sirva um pouco de chá.

Hiro sobressaltou-se ao ouvir a voz desconhecida. Quem falou foi uma mulher, aparentemente tinha uns 30 anos, os cabelos compridos e castanhos e usava óculos. Ninguém parecia se importar com a sua presença, nem haviam notado sua aparição repentina. De fato, Mugi até mesmo estava servindo-a com chá e bolos. Ele tinha certeza que ela não estava ali à 10 segundos atrás. Seus pensamentos foram interrompidos pela mulher que se aproximou indiscretamente.

— Kya! Ele é fofinhoo ! – ela exclamou, puxando as bochechas de Hiro num gesto que pretendia ser delicado.

—Sawa-chan, solte o Hiro-kun! – Yui interveio.

Sawako soltou o garoto, que se afastou rapidamente massageando o rosto dolorido, e olhou sugestivamente para Yui.

— Não precisa ter ciúmes Yui-chan! – ela sorriu de forma irônica – Hiro-chan é todo seu!

Hiroto corou furiosamente com a afirmação da professora. Escondeu o rosto com as mãos o quanto pode, novamente naquele mesmo dia desejando poder sumir daquela sala.

Yui ficou estática.

— Eu... não entendo – ela balbuciou, fitando Sawako-sensei com ar confuso e curioso. A cabeça pendeu para o lado, fazendo com que ela lembrasse um cachorrinho pedindo comida.

— Tudo bem – ela passou a mão na cabeça da garota, tentando ao máximo parecer compreensiva, mas soando um pouco sádica – você vai acabar entendendo... não se force...

— Então – Mugi tentou mudar de assunto – você já fizeram as tarefas de férias?

Logo a conversa retomou o ritmo anterior, e todos voltaram a se divertir. Ui trouxe mais alguns lanches, e mais tarde serviu o jantar. Ninguém mais se importava com o tempo passando e já estava tarde quando Hiro percebeu que já devia estar em casa há horas atrás. Despediu-se de todos rapidamente, prometendo à Ritsu que teriam uma partida de vídeo game na próxima vez que se encontrassem. Correu o mais rápido que pode na direção da estação de metrô. Se perdesse aquele, teria de esperar até a manhã seguinte para pegar outro.

Ao chegar à mansão onde morava, deparou com a sua mãe esperando-o no hall de entrada. Ela parecia à beira de um ataque de nervos.

—Onde você estava até essa hora? – ela lutava para controlar o tom de voz.

—Eu... – Hiro tentou responder mas foi interrompido bruscamente.

— Você tem idéia do quanto eu fiquei preocupada? – Hiro sorriu imperceptivelmente. As raras demonstrações de afeto por parte de seus pais sempre o deixavam feliz, mesmo que fossem em forma de sermões ou castigos – Você sabe o que poderia ter acontecido?

A senhora Kinoshita não o deixou responder novamente e continuou, agora gritando:

— Você poderia ter sido sequestrado, sabia? Não pensou nisso não é mesmo? Já imaginou quantos problemas isso traria? Gastar dinheiro com resgate! E ter de explicar essa sua irresponsabilidade para a imprensa! Isso poderia prejudicar seu pai! Mas você não se importa...

Ela prosseguiu berrando com Hiroto, mas ele já não ouvia mais nada. Então era isso? Ela não se importava com o que podia acontecer com ele, mas sim com a imagem da família. Era apenas disso de que se tratava a sua preocupação! Queria manter-se com uma boa reputação, ser vista com bons olhos por aqueles amigos da alta sociedade.

Seus olhos ardiam, mas ele não queria chorar ali, não na frente da sua mãe, seria só mais um motivo que ela teria para apontar seus defeitos e dizer o quanto ele era fraco.

Virou as costas para ela e seguiu rumo à porta de entrada.

—Onde que você pensa que vai?

—Não sei... se tiver sorte, vou ser sequestrado... – disse saindo, sem olhar para trás. Intimamente desejava que sua mãe tentasse o impedir de alguma forma de sair dali... que dissesse que estava com medo de perde-lo... que pedisse desculpas... que falasse que o amava.

Isso não aconteceu.

Ela apenas o deixou partir.

Notas finais
Reviews Onegaai! *.*