Pupilo
3 Capítulo 03: Verde
Notas iniciais
Verde. Capítulo 03
Eu saio do carro como um morto-vivo levanta de seu descanso.
Deixando o último fio de humanidade e vida para trás, eu bato a porta com uma esperança frustrada que Thomas saia também.
Ele apenas me olhou com um certo descaso enquanto dava marcha ré quase me derrubando.
Eu estava meio apoiado com o braço em cima do capô, eu mal me aguento em pé.
Preciso de um compri...aonde ele vai?
— Aonde você vai?
Ele apenas acenou com os dedos por cima da cabeça: ” Eu tenho que ver se aqueles garotos chegaram bem em casa.” Foi isso que ele disse, da forma mais sarcástica possível, acompanhada de uma risada sem graça.
Bom, é isso que me resta.
Ergo meu braço direito como um grande guindaste tenta erguer algumas toneladas de aço.
Finalmente ele chega na altura certo para que eu possa puxar um pouco minha blusa marrom, que sinceramente não me lembro de ter posto, para ver meu relógio.
Está tudo embaçado.
Não consigo ver bem os ponteiros.
Será possível que continuo andando de óculos na chuva?
Espere um pouco, a chuva parou.
E pensar que parecia infinita.
Espero que deus não possa ouvir meus pensamentos.
Ergo minha cabeça colocando as mãos na cintura estalando elas.
Parece que meu corpo inteiro está revestido de plástico bolha.
Plástico bolha e álcool.
— Café?
Uma voz um tanto familiar e bastante serena ecoa por trás de mim.
Me viro como um gato ao sentir alguém pisar em seu rabo.
— Como é?
— Bem... Preto e com creme. Te mantêm acordado e é doce.
— Ah... o café. Desculpe, eu estou meio fora do lugar.
— Não se preocupa, isso parece estar bem comum nessa manhã.
— E quem é você mesmo...? – Espremo os olhos na tentativa de ver o nome daquele cara. Ele tem um crachá branco em cima daquele uniforme branco que mais parecia um jaleco. Ele é da forense? -... Você é da forense, né? Foi mal, Johnatan.
— É o que está escrito no meu crachá, não é mesmo, senhor? Veio por causa da mulher também, não foi? Espere só até aqueles abutres dos jornais chegarem aqui. Vai ser como jantar em noite de ação de graças.
— Eu espero que eles não cheguem a tempo de ver alguma coisa interessante aqui, e espero que você se certifique disso. Aliás onde ela está?
O tal forense levanta os óculos com o indicador enquanto se encosta numa caminhonete logo atrás de suas costas.
Minha visão panorâmica está tão eficaz quanto um par de olhos para um cego.
Eu só notei aquela coisa agora.
Deve ter algo realmente errado com a minha cabeça hoje, eu preciso ir para casa.
Casa.
Eu tenho uma esposa?
Ele faz um sinal com os olhos para trás enquanto bate a mão no capô.
Me fazendo prestar atenção.
— Bem, setenta e cinco por cento estão na nossa carroceria.
— O que você quer dizer com setenta e cinco por cento?
— Beba seu café, detetive. Antes que fique Forte e amargo.
Não tenho certeza se ele falava mesmo sobre o café.
Mas o peguei da mesma forma.
Ainda estava quente e pude sentir o contraste com o resto do meu corpo.
Enquanto erguia um pouco a minha cabeça para tentar beber um gole daquilo junto com um comprimido amais percebi o logotipo pintado naquele copo de plástico.
Era verde, diferente.
Acho que devo ter passado por esse lugar no caminho.
Meus olhos finalmente se abrem por completo.
Acho que esse café deve ter me acordado, quem sabe o que aconteceu até aqui fora apenas um pesadelo.
Johnnatan, um dos forenses, se movia até a traseira da caminhonete segurando dois sacos pretos.
Um em cada mão.
Ainda estou muito confuso.
— O que está havendo aqui?
Sussurrei enquanto bebia outro gole.
Ele tinha razão sobre o amargo.
Assim como tenho razão sobre o quão estranho esse cara é.
Mais dois sacos pretos.
Ele parece mais um daqueles reprovados pelos testes da academia, com problemas de acne e coluna.
Perdedor.
Outro gole e ao abaixar o copo branco com logotipo familiar percebo uma imagem nova.
Como se alguém tivesse enxugado meus óculos.
O cheiro típico da beira daquele rio se misturava ao cheiro do café e eu sinceramente... Prefiro o do café.
Percebo que a distância entre mim e o rio é de uns dez metros e logo a minha frente vejo boiando, balançando com o movimento das águas.
Um amontoado daqueles mesmos copos brancos.
Há quanto tempo eles estão aqui? Quanto tempo passou desde o chamado?
Volto a olhar para o que está na minha mão, não para conferir se são os mesmos, mas para ver se é café mesmo.
Meus olhos seguem contornando o leito do rio.
Cerca de dez oficias juntos com alguns da forense, usando botas plásticas e luvas enormes entrando no leito do rio.
Merda, Pablo, seu lerdo de bosta.
Estão procurando os vinte e cinco.
— Ei, Johnnatan. – Caminho o mais rápido que posso em direção á caminhonete. – Há quanto tempo vocês estão aqui?
Meus passos são lentos, mas firmes.
Não consigo vê-lo, mas sim ouvi-lo.
Ele está abaixado logo atrás da carroceria daquele automóvel.
Quanto mais eu caminho, mais eu vejo o topo de sua cabeça e sinto algo desagradável.
Algo que poderia competir muito bem com o cheiro de peixe podre vindo do rio.
Era como se pequenos demônios beliscassem o interior das minhas narinas.
E só por diversão ateassem fogo nos meus intestinos.
Á cada passo sinto a necessidade de retornar dois ou mais.
Procuro rapidamente um lenço no bolso, não o encontro.
Sei que tenho um lenço mas a urgência em acabar com aquele fedor me impede na busca.
Uso a gola da minha blusa para tapar meu rosto.
Contorno lentamente me apoiando no material frio da lataria.
Eu não me lembro de ser tão frio. Eu não me lembro de ter tocado nisso.
Eu não me...Jesus cristo...
— Eu não sei ao certo, o tempo passa rápido quando a gente se diverte.
Ele se levanta rápido passando uma de suas mãos na testa, evidenciando seu esforço.
Ele não reparou na mancha esverdeada que ficou na sua testa... Eu não avisarei.
Minha respiração parece machucar meus pulmões.
Uma tentativa de mantê-la em curtas durações me dá pequenas doses do cheiro da morte.
Meu cenho se franze com repúdio, medo... Mas minha alma se preenche de pena.
Um suspiro forte.
É tudo o que o nosso escultor pode oferecer ao expor sua obra.
Me lembro de uma excursão no ensino médio.
Um dos alunos, o mais ridículo. O mais alto, forte e nobre opressor.
Esbarra em uma das estatuetas.
Eu pisco os olhos e viro o rosto com o barulho.
Agora há pedaços pelo chão.
Nós nos olhamos. Ficamos sérios, mas ainda reconhecíamos aquela escultura.
Sabíamos como montar.
Mas isso só aumentava a noção de que estava tudo fora do lugar.
— Pelo amor de deus. – Cuspo numa tentativa inútil de tirar o cheiro que afeta meu paladar. – Esse tipo de merda não acontecia antes do Julgamento...
— Não, senhor. Não acontecia.
— Eu quero... Eu quero os detalhes da autópsia.
— Mas o comissário pediu que eu entregasse todos os relatórios para ele.
”Urrrgh”
O café que antes me acordou agora servirá de alimento para as minhocas.
Por sorte, ou reflexo, virei o rosto rápido o bastante para não piorar as juntas cortadas da pobre mulher.
Todos aqueles cortes, aqueles... Aquele maldito manequim de carne.
— O comissário está ocupado demais fazendo as próprias vítimas!
— O que isso significa? Nós não sabemos o que pode ter acontecido... dívidas de drogas, crime passional...
Eu não queria ouvir, não quis.
Não ouvi.
Isso era mais do que uma resposta simples para aquela garotinha.
Era mais do que isso.
É um caso pra mim.
— É um caso pra mim! Significa que eu quero a porra do caso!
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