Punhado de Histórias de Um Atirador
2 O Velinho, o Clarão e o Relógio
Reza a lenda que lá no TG foi enterrado um antigo atirador. O motivo de ele ter sido enterrado lá foi de que ele simplesmente gostava muito de lá, aparentemente. Com isso, obviamente vem histórias de assombração.
Essas histórias são situadas em uma pracinha que fica num dos cantos do TG. Passamos lá somente quando vamos correr ou quando fomos pintar os muros. Antes de nós, a guarda também era feita lá na pracinha, com somente um atirador naquele cantinho meio assustador com pouca luz e muita vegetação e talvez, exatamente por conta desse clima, surgiram as histórias de barulhos e de um velho sentado nos bancos da praça.
Mas o que aconteceu comigo não tem haver com o velhinho (eu acho) e sim com algumas coisas estranhas que aconteceram consecutivamente em uma guarda minha.
Como as coisas estranhas acontecem de madrugada, geralmente após as 3 horas, a história toda se dá durante minha guarda da madrugada, obviamente. Como eu disse anteriormente, de madrugada faz muito frio, além de ventar por todo aquele papo de condensação do ar ou algo assim, fazer neblina densa e mesmo com meu plano de fazer guarda das 22 horas às 24 horas, nesse dia em específico eu perdi e peguei bem durante o horário do tinhoso, das 2 às 4.
Foi uma noite ou manhã chuvosa. Nossas ordens eram de, se chover, ficar no palco, que fica bem no centro do pátio que patrulhamos dando assim visão geral da área. O problema era o sono; sei que muitos dos proletariados brasileiros enfrentam essa rotina de só dormir quatro horas por dia e trabalhar muito. Era mais ou menos assim comigo, dormia quatro horas, trabalhava o dia todo e ia pra guarda, então eu estava com sono. O Sub ou o Sargento não sairiam naquele dia todo chuvoso para verificar a guarda, então subi no palco e abaixei a cabeça pra descansar... ou dormir. Quando eu começava a dormir eu ouvia passos no pátio, como se alguém estivesse de botina e perto de mim, vindo na minha direção. Subitamente eu levantava a cabeça com medo que fosse alguém, mas não havia ninguém. E isso aconteceu nas três vezes seguintes, os passos só vinham se eu abaixasse a cabeça.
Cansado disso, decidi deixar de ser molenga e aproveitar que a chuva acabou pra andar e acordar um pouco. Não estou dizendo que existe algo sobrenatural nisso tudo, mas foi uma sequência de coisas estranhas acontecendo, porque agora, quando estava indo para o portão, um clarão acontece na guarita, uma explosão e uma folha gigante de bananeira cai. Não fiquei assustado por isso, só impressionado.
Após isso voltou a chover e chegou um caminhão para entrar. Por motivo nenhum, o motorista do caminhão, ao eu abrir o portão, me entrega um relógio de pulso. Obviamente não era de marca, mas era claramente um relógio de pulso feminino infantil, ainda no saquinho plástico embrulhado. A razão por ele ter me entregado aquilo eu nunca descobri, e nem mesmo porque ele tinha um relógio feminino infantil com ele. Um presente pra alguém ou um daqueles brindes que se compra no ônibus? Não sei. E também não fiquei com o relógio, deixei na guarita para quem precisasse.
Fale com o autor