Punhado de Histórias de Um Atirador

4 Barro, Cachoeira, Trincheira e Sumiço de Armas


Chega de falar de guarda, né?

Lá para Setembro nós fomos para a mata, nossa primeira vez. Os monitores foram uma semana antes, de cara pintada e tudo mais. Quando voltaram nos contaram coisas totalmente estranhas, como: “Tivemos que caçar uma galinha que soltaram lá no mato, matá-la e beber seu sangue, e vocês farão o mesmo”.

Eu não acreditei. Tava na cara que estavam mentindo e aqui vai um spoiler: eles estavam mentindo. Antes de irmos, cada um se preparou e colocou em sua mochila o que acreditava que ia precisar. Meu inventário foi:

No corpo:

Camisa, boina, farda, cinto, calça, meia, liga, botina, fuzil, cantil de água (que estourou no caminho e precisei enfiar na mochila) e duas peras dentro dos bolsos da farda (escondidas, não podia levar comida).

Na mochila:

Camisa, farda, calça, meia e botina novas; uma toalha, papel higiênico (levem um rolo sempre que for para um lugar desconhecido ficar mais de um dia!) e cobertor. Como eu disse, madrugada faz frio.

Acoplado à mochila:

Um futon de acampamento enrolado em um saco de lixo para protegê-lo da chuva. "Mas como você sabia que ia chover?", bem, eu não sabia se ia, mas o Sub sempre repetia "lá sempre chove", eu sabia que isso significava algo, então me precavi.

Chegamos cedo para sair com o raiar do sol. Fomos separados em grupos de oito pessoas aproximadamente, cada grupo liderado por um ou dois monitores. Um mapa foi entregue ao líder contendo o caminho que teríamos que fazer a pé até o local.

Certo, façamos uma pausa aqui para falar sobre mim e minha condição física naquela época. Eu era gordinho, daqueles com pouca resistência. Agora imagina um garoto assim andar 16 Km carregando um fuzil e uma mochilona tendo que andar no ritmo de pessoas mais bem preparadas? Foi difícil, eles inclusive, levaram minhas coisas por um tempo para eu não atrasá-los muito.

Fomos uns dos primeiros grupos a chegar no local, então pudemos ficar sentados, descansando e esperando o restante. Comi as duas peras que trouxe escondidas e tivemos instrução para andar rastejando segurando o fuzil. Para quem não sabe, a arma não pode molhar por conta da pólvora, e também não pode ficar com o cano alto enquanto se rasteja, e isso era necessário ser dito para nós por conta de algo que fizemos mais tarde.

Metade dos atiradores foram cavar trincheiras e a outra metade foi para o mato. Fui primeiro para o mato e tive a ideia genial de deixar o celular na mochila, pois o que fizemos depois teria acabado com o celular. Nos enfiamos na lama, rastejamos pelas pedras pelo caminho, subimos em pedras grandes para continuar até eu descobrir porque que chove todo dia lá: Ao passar por dentro de um tubo, na saída, jogaram um balde de água do rio na minha cabeça. Após isso, abracei a arma e desci um inclive deitado, rolando até o rio para então estar livre.

Após isso, ao chegar na área de quem já tinha finalizado, ouvimos o som de uma cachoeira. Todos sujos de barro, tivemos a ideia de procurar por ela! O ponto acessível à água ficava bem alto, seguindo uma estrada feita ali na subida até a metade e então entrar no matagal, passar por umas árvores caídas e pular outras. As pedras estavam bem escorregadias, nos molhamos e voltamos para almoçar. Para nos secar, fomos cavar trincheiras enquanto a outra metade ia para o barro.

O engraçado da trincheira é que cavamos buracos bem fundos, mas o povo conseguia se divertir mesmo assim, jogando pedras como se fossem granadas e irritando os mosquitos com ferrão que existiam por lá. Foi bem divertido. A surpresa foi que, após cavar, tivemos que fechar o buraco novamente e camuflá-lo! Ficamos bem putos por ter que destruir o trabalho que fizemos.

Com o chegar da noite, descemos para ir dormir. No caminho para o barracão onde dormiríamos, fomos contando história de terror com o 76. Ao chegar no barracão, botei em prática meu plano de trocar de roupa. Lembram-se do meu inventário? Que levei uma farda toda a mais? Foi para exatamente isso, não ficar molhado a noite toda. Usei o papel higiênico para me secar, troquei de roupa e fiquei tranquilo, só restava jantar, dormir e fazer a guarda da madrugada junto com os cavalos e patos. Porém, existia uma regra para dormir: Não podia dormir separado do seu fuzil, se alguém acordasse sem o seu fuzil a mão do Sub ia descer. Para me garantir, enfiei o meu fuzil (que eu chamava de Donna) dentro do futon, rá! Estou feito, ninguém tocará nele.

Quando fui fazer ronda, vi um dos monitores pegando os fuzis desprotegidos e jogando eles em cima do telhado, para que quando os atiradores acordassem ficassem procurando sua arma. Fui fazer guarda lá para as 3 da manhã, por ter muita gente, a guarda seria de somente uma hora para cada pessoa do grupo. Fiz a guarda normalmente, mas quando voltei tinham roubado meu cobertor! E por estar muito escuro eu não via como poder distinguir meu cobertor dos outros cobertores, então, para não criar comoção, dormi sem. Ele me foi devolvido no dia seguinte.

Durante a madrugada, algumas histórias engraçadas sobre os animais do local foram contadas por quem fez guarda em um local mais distante do galpão. Animais que faziam barulhos estranho, que se teletransportavam ou que pareciam mortos mas que os olhos brilhavam.

Voltamos para o TG, todos sujos de barro e úmidos (menos quem levou roupa extra, como eu). Fizemos manutenção das armas e as devolvemos para irmos embora. Aliás, me troquei todo, exceto a cueca, e ela estava toda suja de barro, inclusive por dentro. Tirar aquela sujeira grudada em mim foi gostoso.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.