Notas iniciais
Esses dias estive relendo a parte onde William Herondale morre, um capítulo em Princesa Mecânica onde eu não consigo segurar minhas lágrimas e meus soluços, e por eu ser extremamente masoquista, resolvi escrever a parte da morte de Will, apenas por "diversão". Espero que vocês gostem, de verdade.
Atque in pepetuum, frater, ave atque vale."

O dia em estava abafado e chuvoso, a neblina cobria todo centímetro de ar, adentrando a roupa das pessoas que se aventuravam no fraco sol inglês. Era o ano de 1937, mais precisamente no mês de junho. As pessoas andavam apressadas pelas ruas da cidade, se movimentando de casa para o trabalho e do trabalho para restaurantes, curtindo seus horários de intervalo para apreciarem a melhor gastronomia da cidade. Era mais um dia comum para todos, exceto para a a família Herondale.

William Herondale já estava deitado em seu leito há dias, sem conseguir se mover, com sua esposa, Theresa, sempre ao seu lado. A feiticeira ainda era uma garota, com seus cabelos pretos, seus olhos permaneciam cinzas, mas tinham certa característica de quem já vira muitas coisas na vida, um olhar de um idoso em uma menina que aparentava ter apenas vinte anos. Will tinha seus cabelos brancos ainda espessos, assim como seus cílios, que invejava a esposa. O Caçador de Sombras nunca perdera a cor azul escura de seus olhos, eles ainda brilhavam como no dia que o marido a salvara na casa das irmãs Sombrias, pensou Tessa. Era doloroso ver a expressão cansada do homem ao seu lado, Theresa não sabia como lidar com o fato de que ele logo morreria.

Tessa passou horas, todos os dias, lendo os livros que marcaram a vida dos dois, dando uma especial ênfase na leitura deUm Conto de Duas Cidadesde Charles Dickens. Ela sabia que isso traria uma calma para o marido, assim como para si mesma. Em certo momento da leitura, ela virou-se para o homem e olhou em seus olhos, abaixando o livro em seu colo e segurando na mão esguia e calejada de Will, uma mão de um lutador, a mão de um Caçador de Sombras.

– Você não é Sydney, Will. – Suspirou Tessa, falando em uma voz baixa. – Você sempre valeu o amor que eu te dei, mesmo quando você acreditava que era amaldiçoado, você sempre valeu à pena. – Uma lágrima escorreu pela face de Tessa, caindo na mão que ela segurava de William.

Ele olhou para a mulher que passara sua eternidade ao lado dele, ela ainda tinha o mesmo rosto doce, o mesmo olhar carinhoso, pensou ele.

–Tess – Sussurrou ele, sem força para manter a voz em um tom normal, enquanto lembrava da analogia à sinos que o nome dela trazia. – Eu te magoei no inicio da nossa história, isso nunca poderia mudar. Eu tentei me redimir, assim como Carton.

– Querido, oh, Will, é claro que você se redimiu meu querido! Eu te amo, eu te amo tanto. – Tessa abraçou o marido com força, deixando seu corpo se apoiar completamente no corpo do homem, as lágrimas escorriam de seus olhos com voracidade, não davam um segundo de descanço para ela. Cada respiração dela acabava em soluços que ela não conseguia controlar.

***

Era inverno em Londres, William tinha 50 anos e era dia de seus netos lhe visitarem. Domingo era o dia da semana mais esperado por Will e Tessa, o dia que eles se encontrariam com seus filhos James e Lucie e seus netos. O cabelo de Will era ainda negro como piche, mas tinha algumas mechas cinza começando a aparecer próximas ao seu couro cabeludo. Foi nessa época que Tessa percebeu que o amado estava envelhecendo.

O Instituto estava muito agitado, com risadas e gritos ecoando pelos grandes corredores. Os netos brincavam de esconde-esconde e Will podia ouvir Owen, seu neto, dizendo para Lydia que já havia matado mais de dez demônios, que esses dias se encontrara com um vampiro que tinha transgredido os acordos e dera uma surra no bendito. Ele sabia que o neto estava mentindo, mas ele não podia ignorar que Owen era muito parecido com ele, até nas mentiras e desejos mais profundos.

Quando Will percebeu que as histórias do neto estavam começando a aborrecer seu filho, ele chamou os netos para a sala de estar e começou a recitar uma música muito antiga que ele tinha inventado no caso da morte de Benedict Lightwood.

“Demon pox, oh demon pox
Just how is it acquired?
One must go down to the bad part of town
Until one is very tired.
Demon pox, oh demon pox, I had it all along—
Not the pox, you foolish blocks,
I mean this very song—
For I was right, and you were wrong!"
Depois de muitas tentativas, Tessa podia ouvir os netos correndo pela casa e recitando os versos que Will tinha inventado tantos anos antes. A garota não conseguiu segurar a risada e o orgulho de ouvir as crianças cantando em plenos pulmões a música horrível de Will. *** Era o ano de 1896 e James Herondale já estava com dez anos. Ele havia começado seu treinamento havia pouco tempo e estava na hora dele ter a sua primeira runa marcada. William tinha levado o filho à cidade do silêncio e exigia que apenas o Irmão Zacariah estivesse presente. Ele afirmava que deixaria apenas ele fazer a marca no seu filho. James sabia que o pai tivera tido um parabatai que se tornara um Irmão do Silêncio e ele sabia que tinha sido nomeado em homenagem a James Carstairs, o irmão Zacariah que seu pai tanto queria que fizesse seu ritual. Era a primeira vez do menino na cidade do Silêncio e ele estava assustado, porque todo mundo sempre falava que os Irmãos do Silêncio eram assustadores, mas ele não sentiu medo quando o Irmão Zacariah apareceu no salão, com seu robe cor de pergaminho cobrindo a sua face. Quando ele chegara na frente dos dois Caçadores de Sombras, ele tirou o capuz e seu rosto desfigurado apareceu, com uma marca em cada bochecha. Seus olhos ainda estavam presentes, mas fechados e sua boca não estava costurada. O cabelo do Irmão era escuro e seus olhos castanhos com algumas partes prateadas. — Olá, William. – Falou Jem com a voz etérea e sem emoção que ele adquirira durante seus anos de irmandade. – Vejo que trouxe seu filho para receber a primeira runa. – Um sorriso aparecia em seus lábios, quase imperceptíveis. Uma pitada de orgulho estava presente na sua voz. – Dê um passo à frente, rapazinho. James olhou para o pai, depois para o Irmão, com dúvida e medo estampados em seu rosto. O menino era muito parecido com o pai, exceto pelos seus olhos que eram dourados vibrantes, como o pôr do sol. Will acenou com a cabeça, dando segurança para o filho apresentar-se diante de Jem. — Em nome de Raziel, através do poder dado a mim pela irmandade, venho colocar a primeira runa na mão de... – O irmão parou a frase no meio, percebendo que não sabia o nome do filho do seu próprioparabatai.- James, James Herondale. – Falou o menino com sua pureza infantil. Jem olhou para Will e depois para o seu filho, uma tontura leve o atingira. Se ele ainda fosse humano ele provavelmente estaria com o rosto vermelho de vergonha. Ele abaixou o rosto e virou-se de costas, impossibilitado de olhar nos olhos de qualquer um dos dois. *** Cecily estava sentada na ponta da mesa da sala de jantar da casa do seu irmão, tomando um chá com leite e olhando para a grande janela, olhando os campos e os morros de York, os campos nos quais ela crescera. A mulher foi tirada de seu devaneio pelo barulho de tecido batendo no chão e se movimentando com um andar. Era Tessa. Ela tinha os olhos vermelhos e inchados, suas bochechas tinham marcas vermelhas, como se assadas, nos lugares onde as lágrimas faziam seu caminho ao escorrer. — Tessa... – Falou Cecily em tom brando. – Como está Will? — Ele está dormindo agora, ele anda muito cansado. – Theresa terminou a frase limpando algumas lágrimas que insistiam em continuar molhando sua face. – Jem disse que dormir ajudaria, fazia ele prolongar a vida. Will não está nada feliz com todo esse chá de cama que ele está tendo que levar, seu espírito é lutador e ele não deveria estar tendo que passar por tudo isso. – Os soluços tomaram conta da voz de Tessa, impossibilitantoq eu ela continuasse falando. — Ó, querida, não chore. – Charlotte entrara na sala agora, carregando uma pequena bolsa e tirando as luvas de suas pequenas mãos. – Você sabe que Will não gostaria de te ver chorando, ainda mais por ele. *** Era 1873, Charlotte Branwell estava na sala de armas do Instituto de Londres treinando o seu arremesso, pois seu pai mandara. Ela estava cansada e queria banhar-se e dormir, mas ela ouviu o barulho dos sinos da Igreja, um claro sinal de que alguém exigia que ela se apresentasse na porta do Instituto. Charlotte, ainda menina, correu pelos corredores do Instituto até chegar na porta. Abriu-a rapidamente e viu um menino pequeno e com a beleza de uma menina olhando para ela. Suas roupas estavam rasgadas, suas mãos e pés machucados. Ele estava completamente sujo e seus olhos não paravam de derrubar lágrimas. — Meu nome é Will, eu sou um Caçador de Sombras e não tenho para onde ir, você tem que me deixar ficar aqui. – A voz do menino era baixa e esganiçada, demonstrando todo o seu medo de ser recusado, assim como o cansaço de toda a viagem que ele fizera para chegar até ali. Charlotte rapidamente pegou-o pelos ombros e levou ele para um quarto em uma das torres da catedral. O menino estava com frio e medo, Lottie percebeu. Rapidamente chamou uma de suas criadas para que ela aquecesse a água para o menino tomar um banho, correndo para o quarto do pai e pegando algumas roupas que não serviam mais nele e dando a Will. Ela percebera que o menino era frágil e ela queria mais do que tudo proteger Will de tudo de ruim que pudesse ocorrer. — Durante os próximos meses ela atendeu muitas vezes os pais de Will na porta, gritando e implorando pelo filho, dizendo que ele não tinha que ficar ali. Eles não queriam que o filho carinhoso se tornasse rude e assassino como os Caçadores de Sombras. Will não queria ver os pais e se escondia debaixo da cama quando ouvia os gritos desesperados da mão. A única coisa que restava a Charlotte era dispensar os pais do menino. *** Todos os filhos de Tessa e Will, assim como Sophie, Gabriel, Cecily e Charlotte, estavam ao redor da grande cama de dossel onde o homem, cansado e velho estava deitado e com a esposa ao seu lado, segurando sua mão com força e apoiando seu rosto no ombro do marido. Horas de passaram, enquanto todos lembravam de momentos de Will na vida deles. James lembrou do medo do pai por patos. Cecily comentou sobre a infância dos dois juntos, onde ela sempre queria copiar o irmão mais velho, mas ele sempre cortava ela e a repreendia, lembrou de como ele ficou bravo ao vê-la pedindo para morar no Instituto e ser treinada, a raiva nos seus olhos ao perceber que não importasse o que ela fizesse, ela se casaria com um Lightworm.Charlotte contou do menininho assustado que batera na porta do Instituto, chorou ao dizer que o amou como um filho e que era difícil vê-lo partindo. Sophie falou que ela sempre tivera um pé atráscom o senhorHerondale,mas depois percebeu como ele era um bom homem e nunca iria machucá-la. A única pessoa a não se pronunciar foi Tessa, que não conseguia espaço entre as lágrimas e os soluços para declarar sobre a sua vida com o amado. A cada palavra falada pelos presentes, ela se lembrava mais da sua vida com ele, do bracelete que ele dera a ela no aniversário de trinta anos dos dois, da vez que eles foram para Paris e ele começou a assustar os pedestres gritando que ele podia ver o sangue caído nas escadarias de uma praça, a qual ele decidira que era a de Um Conto de Duas Cidades. Ela lembrou-se da primeira vez que o viu, o seu herói salvador que clamava nunca estar errado, da alegria ao ver ele na caverna de Mortmain. Lembrou-se dos corpos nus dos dois naquele dia, na sensação da pele dele roçando na dela, como cada toque dele ainda passava a ela choques elétricos. Ela nunca perdera nem um pouco do seu amor por Will, ele apenas crescera mais a cada dia que ela acordava e encontrava o marido dormindo ao seu lado, com seu rosto sereno e calmo. A respiração dele era reconfortante e fazia com que ela chorasse ainda mais ao pensar que logo ela não teria mais ela para se acalmar. Em algum momento, Will não sabia dizer, todos saíram do quarto e o barulho dos robes dos irmãos do silêncio foi ouvido. Ele nem precisava abrir os olhos para saber que era Jem que estava ali, seu parabatai, para presenciar a sua morte. — Que patético isso. – Falou Will, forçando muito a voz para que ela saísse como era antes. – Você me enterrando, quando eu estava preparado desde o primeiro momento para assistir a sua morte. – Os olhos do velho ficaram vidrados e ele falou com uma voz que parecia um resmungo. – James, eu não quero morrer. Ao ouvir isso, Tessa caiu em prantos, não conseguindo mais controlar seus soluços. Ela sempre fora uma mulher forte, mas ela não conseguia ser forte em um momento como esse, no momento que o amor da sua vida estava dizendo adeus. O aviso na entrada do Instituto londrino não poderia estar mais correto para descrever-nos. Amei William como ninguém jamais amou outra pessoa, não aguento vê-lo partir desse mundo. Jem, agora o Irmão Zacariah, foi até a caixa do violino que tinha sido mantida seguramente e muito bem cuidada por Will e Tessa durante todos esses anos e sentou-se à cama doparabatai. Nesse instante, ele pegou uma folha em seu bolso e entregou-a a Tessa, que secou as lágrimas e começou a lê-la em voz alta.“ William, você sempre soube que não sou bom com palavras e por isso resolvi escrever a ti essa carta.Meu parabatai, nunca vou esquecer do momento em que te vi pela primeira vez, você estava na sala de armas tentando acertar o alvo com suas facas, mas você era péssimo. Ainda bem que eu te ajudei...Você olhou para mim e disse que não precisava de uma pessoa rastejando para fora da cova para te ensinar a fazer isso, mas eu o fiz. No instante que me disseste que chamar-me de Jem seria comum, pois todos o faziam, seu sabia que algo raro e especial estava nascendo.Intreat me not to leave thee,orto return from following after thee: for whither thou goest, I will go; and where thou lodgest, I will lodge: thy peopleshall bemy people, and thy God my God:Sei que detestas quando cito o nosso juramento, mas não há outras palavras que possam descrever o que quero dizer. William, eu te amo como a minha própria alma. Apenas me juntei à Irmandade para não te abandonar, não enquanto você vivesse. Você me falou isso e eu não queria te decepcionar. Estive sempre contigo, por ti e sempre estarei aqui, lembrando de ti. Não importa se deixes a terra ou a vida como conhecemos, eu nunca esquecerei do meu parabatai, porque você é meu irmão de sangue e nada nunca tirará isso de mim. Eu sempre te amarei, Will.”Ao terminar de ler a carta, os olhos de Tessa e de Will estavam cheios de lágrimas. A respiração dos dois eram sincronizadas e os dois olharam para Jem ao mesmo tempo. Eles nunca chamaram ele de Zacariah, para Tessa e Will ele sempre seria o Jem. Ao perceber isso, Jem segurou seu violino e começou a tocar uma música suave, que contava a história de vida dos três, o amor dele por Will e o amor de Tessa por ele, assim como o seu amor por Tessa. Ele tocou sobre dois meninos lutando juntos, protegendo-se sempre e amando-se mais do que a si mesmos. Ele tocou sobre a sua doença e as buscas de Will pela sua droga. Jem tocou sobre a dor de se tornar um Irmão do Silêncio para não ter que deixar o parabatai. Ele tocou sobre quando Will chegara com James Herondale para receber suas runas e a vergonha que ele sentira por ter seu nome do filho dele. A música tinha seu tom modificado a cada parte da vida de Will. Ela contava sobre toda a vida dos três juntos e sobre como eles se amaram, um amor puro e intenso, algo que nunca iria acabar. No final da música, Tessa estava apoiada no marido, uma cena que seria chocante para todos os de fora, mas sempre fora muito comum para todos os que eram próximos dos dois, uma menina jovem e um senhor idoso se amando intensamente, como se ambos fossem adolescentes descobrindo a paixão. E assim, sem mais nem menos, Will morreu. Seus olhos fechados finalmente descansavam para sempre, enquanto os de Tessa estavam vermelhos e irritados. James, então, levantou-se e foi até o lado do parabatai e tocou o topo da sua cabeça enquanto recitava: — “Atque in pepetuum, frater,ave atque vale,” – Jem sussurrou.as palavras do poema nunca pareceram mais corretas – Para todo o sempre,meu irmão,Saudações e adeus. Ao terminar de pronunciá-las, James Carstairs caiu ao lado de William Herondale, como se toda a razão de sua existência estivesse perdida para todo o sempre. Uma eternidade sem um parabatai seria dolorosa, era a única coisa que realmente cabia na mente de Jem naquele instante.

Notas finais
Espero que vocês tenham gostado, se gostaram ou não, por favor deixem reviews. Esse é um one shot, mas pretendo fazer um epílogo se vocês se interessarem...
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!