Meu celular tocava já há um bom tempo, mas eu não conseguia abrir os olhos para procura-lo, e muito menos levar a mão a qualquer lugar para pelo menos taca-lo na parede, apenas fiquei ouvindo o barulho irritante dele, que por um acaso não era mais a música do One Direction, e nem eu mesma sabia o porquê. Assim que o barulho finalmente parou eu pude fechar os olhos e voltar a dormir, pelo menos os primeiros 30 segundos, até me lembrar de que eu tinha que ir para a aula. Levantei rapidamente da cama e quase cai quando meus pés se embolaram no cobertor, me livrei deles e corri para o banheiro tomar um banho. Meu celular novamente voltou a despertar e eu espero de verdade que seja apenas a segunda vez, por que se não eu estaria muito atrasada e provavelmente Megan já devia ter ido.

Não, não era a segunda vez, já era a terceira, e antes de eu pegar e desligar o despertador ele novamente tocou, só para me mostrar o quanto eu estava atrasada.

Assim que terminei de me arrumar e arrumar as coisas, desci e encontrei Megan e Clarie tomando seus cafés tranquilamente. Deixei a mochila sobre o chão e me sentei na cadeira, enquanto olhava para as duas e decidia o que iria comer, até por que Megan não parecia tão interessada no horário como ela estava na revista de perfumes na sua frente.

Peguei um pouco de achocolatado pronto e tomei enquanto pensava no quanto Megan foi legal comigo ontem, por um momento eu me senti especial para alguém e é tão estranho eu sentir isso justamente com ela, já que a conheço a pouco tempo, ou melhor, nem a conheço direito.

Depois de terminar de tomar, Megan olhou para mim e se levantou deixando a revista sobre a mesa e pegando sua mochila, peguei a minha também e ambas saímos depois de dar tchau a Clarie.

― Obrigada ― digo olhando para o asfalto embaixo de mim e depois para Megan.

― Pelo que? ― perguntou sem desviar sua atenção para a rua.

― Por ter me entendido ― murmurei e naquele momento ela desviou o olhar da rua pela primeira vez e me encarou.

― Eu não te entendi ― disse. ― Não é como se eu tivesse entendido porque você se mutila, ou pelo menos tivesse aceitado isso.

― Eu sei, mas você pelo menos tentou.

― É ― disse enquanto sorria, depois voltou sua atenção para a rua novamente.

Continuamos andando e confesso que odiava a forma como ela sempre estava sorrindo. Não que a felicidade dela me incomode, mas será que alguém consegue ser sempre feliz? Será que alguém consegue ter uma vida sem problemas, ou que consiga os resolver da melhor forma possível?

Fui tirada de meus pensamentos quando sinto meu corpo se esbarrar em outro, um pouco — ou talvez muito mais forte que o meu. Megan nem estava mais do meu lado, quando a vi já estava subindo a escada para entrar no colégio.

― Desculpa ― digo pegando o livro que estava no chão que provavelmente caiu com o nosso esbarro. O livro era “A Cidade do Sol”, eu amo esse livro.

― Presta atenção por onde anda ― disse uma voz rude e só ai que eu olhei para o garoto a minha frente, seu cabelo era meio cacheado e seus olhos verdes, o que deixava sua boca mais rosada do que o normal. Ele usava uma jaqueta de couro preta e uma calça jeans preta um pouco mais apertada do que eu esperava.

Era definitivamente lindo.

― Não precisa ser grosso ― digo e me levanto.

― Olha quem fala: a esquisita. Não preciso dos seus conselhos.

― Não estou te dando conselho, idiota. Não sei como alguém como você pode ter bom gosto. ― Coloquei o livro em seu peitoral, e ele o pegou antes de cair novamente no chão e sai, enquanto ignorava qualquer olhar e subia as escadas rapidamente até dar de cara com a porta fechada da minha sala. Dou duas leves batidas e a abro enquanto vejo a atenção do professor e dos alunos sobre mim.

― Posso entrar? ― pedi, e o professor disse que “sim” e em seguida avisou que era a primeira e última vez que isso aconteceria, que era um homem que não admitia atrasos e que compromisso é o ponto chave de tudo.

Fui para o meu lugar de costume, e mesmo com o professor dando um sermão em mim que acabou virando um sermão para a turma toda, eu só conseguia pensar no idiota da entrada.

A aula de geografia acabou e acabei copiando nada, ainda bem que o professor não viu, talvez ele desse outro sermão que ocuparia até a próxima aula. O olhar da amiga de Megan já estava a me incomodar, se bem que não é muito diferente do de ontem, a não ser pelo sorriso perverso nos lábios. Será que Megan contou para ela? Ela não faria isso. Ela disse pra mim confiar, vou confiar. Logo a professora de matemática chega, eu não a conhecia, mas a primeira impressão foi a pior possível. Ela andava com um salto enorme e com o nariz arrebitado, talvez ela precisasse de umas aulinhas de ética, junto com o grupinho da frente.

― E quem é você? ― perguntou olhando para mim.

― Amanda Swain Carter, mas me chame de Mand ― respondo.

― Então... Amanda, saiba que a carteira é para se sentar e não para deitar. Se ajeite. ― Seu tom de voz era um tanto intimidador, mas eu não seria intimidade por alguém como ela, não mesmo. Ainda mais sabendo que fez isso para me provocar. Alinhei minhas costas na cadeira e encarei ela, me preparando para ser sarcástica.

― Está bem assim?

― Por enquanto sim ― respondeu e abriu o livro que havia em sua mão. ― Página 23 a 33. Todos os exercícios, para hoje! ― disse e deixou o livro sobre minha mesa e começou andar para a frente da sala novamente.

― 35 questões? ― pergunto revoltada.

― Acha pouco? Se quiser tem o livro todo.

Fiquei olhando para ela e comecei a fazer a tarefa, terminei e levei para ela corrigir. Ela deu seu visto, e eu voltei para minha carteira. Megan estava sorrindo para mim. A aula dela acabou e fomos para o recreio. Sai, e Megan e suas amigas logo atrás de mim. Os BadBoys estavam lá já, no mesmo lugar de costume. E quando vejo, o menino da entrada senta-se com eles. "Só podia ser! ". Ele dá um selinho na amiga da Megan, a qual se chamava Liviane, fiz questão de acompanhar a chamada só para saber seu nome. Desvio o olhar e compro meu lanche e me sento na mesa de costume. Eu não conseguia parar de olha-lo, e percebi que mesmo por detrás da Liviane, ele também me olhava. Sua mão fez um movimento para dentro do bolso da calça e tirou uma pulseira e a mostrou para o grupo na mesa enquanto sorria, e falava algo que não conseguia ouvir, e nem decifrar pelo movimento de seus lábios. Olho para o meu pulso e vejo que minha pulseira não está, droga garoto. Deixo meu lanche sobre a mesa, me levanto e começo a andar em passos rápidos para a mesa deles.

― Essa pulseira é da Mand. ― Ouço Megan dizer.

― Me devolve ― digo irritada.

― Você deixou cair, agora é minha ― ele disse e os amigos idiotas dele começam a rir. Menos o garoto que "dá encima " de Megan.

― Devolve Luke ― disse Megan. Então o Idiota tem um nome.

― Eu até devolveria, mas eu já dei pra Liv. ― Observou a pulseira e colocou na mão da garota de cabelos loiros e olhos azuis.

― Devolve para a garota, Luke ― disse o garoto que dá encima da Megan, eu realmente preciso saber o nome dele.

― Por favor, devolve. É a única lembrança que tenho de meu pai ― digo com os olhos cheios de lágrimas, tudo que me levava ao meu pai me fazia ficar assim. Limpei as lágrimas com o dorso da mão.

― Oh vai chorar e se cortar Mand? ― Liviane pergunta, todos do grupinho começaram a rir, até esse tal de Luke. Megan apenas olhou para mim como se pedisse desculpas com os olhos. Meus olhos já encheram de lágrimas novamente, e a dor de mais uma vez quebrar a cara começou a pesar em meu coração.

― Liv, você prometeu ― Megan disse olhando para ela.

― Oh, escapou ― disse e começou a rir.

― Eu confiei em você ― digo e saio correndo, só queria sair dali, só queria fugir, não acredito, tudo de novo. Por que fui confiar na idiota da Megan, porquê? Como não havia uma forma de sair do colégio, entrei no banheiro e tranquei a porta, sentando-me no chão.

Eu estava sentada ao lado do vazo sanitário, na terceira porta. De instantâneo peguei a lamina que carregava no bolso direito de minha calça e comecei a me cortar, essa será a última vez que confio em alguém, por que nunca aprendo? Por que me fazem acreditar que existe pessoas em que posso confiar? Novamente quebrei a cara. E novamente, doeu.

― Idiota ― grito. Eu era uma idiota, ela era uma idiota. Ela me fez querer viver, mas agora já não tenho nada, nem ninguém. Eu estou com muita raiva, mas também muito magoada. Comecei a perfurar meus pulsos, e ouço a porta do banheiro se abrindo e paro.

― Mand? ― A voz soa alto e percebo que é da Megan. Parecia um pouco ofegante, provavelmente havia corrido para me alcançar.

― Me deixe ― digo e ela olha em qual delas estou, percebendo que estou na terceira, senta-se na porta e passa a mão por baixo, mostrando minha pulseira. Peguei a pulseira e coloquei no meu pulso.

― Está se cortando? ― perguntou.

― Estava, mas você me atrapalhou. Como sempre.

― Para de ser idiota. Você tem que parar de achar que se cortar vai mudar algo. ― Seu tom de voz já não era mais calmo e suave como sempre, ela estava irritada. Quem devia estar alguma coisa era eu.

― Por que você fez isso? ― pergunto chorando.

― Eu não fiz por mal.

― Megan, mas eu confiei em você ― digo e coloco a mão para frente olhando minha pulseira.

― Me desculpe eu confiei nelas também. Eu só queria que elas entendem-se o que você passa, e talvez me ajuda-se te ajudar. Eu não pensei que a Liviane faria aquilo.

― Você só queria rir de mim.

Por um momento Megan não disse nada, talvez ela não soubesse o que falar e estivesse aceitando o fato de que eu estava certa, mas não era isso.

― E eu ri de você? ― perguntou incrédula. E naquele momento quem estava calada, sem saber o que falar, era eu. ― Responde, Amanda. Eu ri de você por um acaso?

― Não ― admiti. ― Mas não importa, eu confiei em você.

― Para com isso.

― Sai Megan, eu tenho meus problemas.

― Está vendo essa cicatriz aqui? ― Ela passou seu braço por baixo da porta, não dava de ver nenhuma cicatriz, já que as pulseiras tampavam seu pulso todo. Levei a mão até elas e as puxei para cima e foi quando vi cicatrizes em sua pele.

― O que foi isso? E tem várias.

― Não interessa. Essa do meio, a mais profunda. ― Havia uma entre suas veias, e era mais profunda que as outras pelo que me pareceu. Eu não conseguia entender o que eu estava vendo, o que seria essas marcas?

― Sim. Estou vendo.

― Se quiser se matar, perfure nesse mesmo local no seu braço, vai ser impossível viver ― disse, e congelei. Meus lábios começaram a tremer, e meus olhos se arregalaram.

― Me... Me... Megan.

― Vá em frente. Quer que eu chame a ambulância depois?

― Por que você está dizendo isso? ― perguntei um pouco assustada, ela estava me dando medo, principalmente por que seu tom de voz não era mais suave como antes.

― Só te digo uma coisa, você não tem motivos para isso. Ninguém tem.

― Eu tenho meus problemas. Você não entende ― digo. ― Que merda ― gritei.

― Você acha que só você tem problemas.

― Ah e você tem? Já sei... Você é tão feliz e contente que sua boca dói de tanto sorrir... Certo?

― Você é uma idiota. ― Megan começa a chorar e se escora na porta. Percebo por conta do barulho que fez.

― E você uma vadia ― rebato.

― Como?

― Isso que você ouviu. Vive com aquele BadBoy. Se agarrando na frente do colégio sendo que seu pai nem sonha com isso.

― Ele se chama Marcus, cala a boca. ― Dessa vez quem gritou foi ela.

― O que foi Megan? Não é tão certinha quanto demonstra ser?

― Eu nunca disse que era certinha.

― Ah claro.

― Não é só você que tem problemas, Mand. ― Sua voz que antes estava totalmente alterada, agora voltava ao seu normal.

― Os meus são os piores.

― Dois anos atrás, minha mãe saiu para trabalhar e eu fiquei cuidando do meu irmão mais novo, que havia acabado de completar um ano. Fiz ele dormir na minha cama, era aquelas King, alta. Mas não achei que teria problema. Eu só ia pegar um lanche... ― Ela parou e percebi que estava chorando já.

― Megan... oque é?

― Fui até a cozinha, e enquanto fazia o lanche, ouço um barulho, um único choro e depois um silencio aterrorizante. Fui correndo para o meu quarto, e vi a pior cena em toda minha vida, meu irmão estava no chão. Desacordado e sangrando. Meus olhos se encheram de lágrimas e eu congelei. Não conseguia me mover, nem falar nada. " Calma Megan está tudo bem " meu consciente dizia, mas nada estava bem. Me recuperei do susto e peguei me celular que estava no chão ao lado dele. " Droga, ele deixou meu celular cair e foi pegar para mexer " disse a mim mesmo. Liguei para a ambulância, elas demoraram quinze minutos, os piores quinze minutos da minha vida, ele não acordava, ele não me respondia, ele não parava de sangrar e eu não podia encostar nele e também nem conseguia. A ambulância chegou e os enfermeiros entraram no meu quarto com uma maca e o colocou com cuidado em cima dela. Tranquei a casa correndo e entrei na ambulância com eles, mas fui na frente com o motorista, eles não queriam que eu visse mais do que já vi. Eu não conseguia conter o choro e minhas mãos estavam tremendos.

O motorista disse que precisava da nossa mãe enquanto conduzia ao hospital... Procurei o nome da minha mãe na agenda do celular, mas estava impossível, eu estava tremendo muito. Consegui e liguei para minha mãe. Ela só disse, "você é uma irresponsável" e desligou. Ela estava certa. A ambulância chegou no hospital e desci rapidamente, e deu de ver eles levando o meu irmão na maca pra dentro do hospital. Uma enfermeira veio até mim pediu o nome dele e a idade, depois de responder ela perguntou se eu queria uma agua, mas eu não conseguia pensar em nada, eu não respondi, não conseguia responder, me sentei na cadeira. Eu estava desesperada, perdida e com medo, com muito medo. Logo vejo minha mãe e meu pai chegando, ela foi para a recepção. Ela me olhou, balançou a cabeça e virou o rosto. Meu pai veio até mim tentando me confortar. Me deu um abraço forte. Logo minha mãe veio para perto de nós e por um momento eu achei que ela fosse dizer que eu não tinha culpa, e que ficaria tudo bem, mas eu tinha culpa e não ficaria tudo bem. Ela só disse que o Niall precisava de sangue e como meu pai tinha o mesmo que ele, ele teve que ir lá, depois de tentar convencer minha mãe que isso acontecia e que eu não tinha culpa de nada disso e que ela cuidasse de mim. Ela apenas disse que não era eu quem estava fazendo uma cirurgia de risco e que preferia não ter me tido.

Meu pai me deu um dinheiro e voltei para a casa de taxi, voltei para o lugar do ocorrido, peguei uma gilete e tirei a lamina, eu nunca havia feito isso, mas pra tudo tem uma primeira vez. O meu irmão [estava em uma U.T.I por minha causa e minha mãe me odeia. Peguei a lamina e comecei a perfurar. Eles não precisariam de mim, sem eu a vida deles seria melhor. Fiquei perfurando meus pulsos inteiro, não sabia como se matar, mas achei que assim daria, havia muito sangue saindo de meus braços e depois disso, não me lembro de mais nada. Acordei e meu pai estava em frente à minha cama de hospital chorando, eu não consegui e agora fiz tudo ficar pior. Ele disse que fiquei dois meses em coma... ― Ela parou novamente, sua respiração estava ofegante, eu nunca podia imaginar isso.

― Megan, sinto muito.

― Cala a boca ― disse e voltou a falar: ― Disse que o Nini estava melhor e que teve alta semana passada, mas havia quebrado o braço e uns troços na cabeça que machucaram, mas não entendi muito bem. Ele me deu um abraço e o médico apareceu dizendo o quanto eu era sortuda por estar viva. No outro dia fui para casa e vi minha mãe dando uma sopa para o Niall, seu braço e sua cabeça estava enfaixado, o que partiu meu coração. Fui até ele para beija-lo, abraça-lo. Mas fui impedida por uma mulher que antes eu achava que era minha mãe mas me tratou da pior forma possível. Me disse que eu nunca mais chegaria perto do Niall e que eu não era mais a filha dela. A única coisa que fiz foi correr para o meu quarto e chorar, eu nunca havia sentido uma dor dessa.

Acabei dormindo e acordei com meus pais brigando, dava de ouvir tudo. Ela dizendo que preferia que eu tivesse morrido, congelei e ouvi algo como uma batida, desci correndo, minha mãe estava no chão, meu pai havia batido nela. Meu pai disse que íamos embora, e arrumamos nossas coisas e fomos logo depois que ela disse que nunca mais iriamos chegar perto do Niall. Depois ele comprou uma casa e ficamos morando nela, minha mãe nunca veio me procurar e impediu que eu e meu pai se aproximasse do Niall. Nunca mais vi aqueles cabelos loiros e nem seus lindos olhos azuis, e minha mãe, ela esqueceu que um dia teve filha... ― Megan ficou sem dizer nada, ela se levantou. ― Talvez o problema seja você e não eles ― disse e saiu. Eu estava congelada, não consegui impedi-la. Minhas mãos tremiam, e as lagrimas caiam, eu estava me sentindo a pessoa mais idiota do mundo, talvez eu realmente fosse nesse momento.

Acabei ficando um bom tempo tentando tomar coragem de me levantar e sair daquele banheiro. Me limpei e fui atrás de Megan, mas a aula já havia acabado e não a achava em lugar nenhum. “Marcus” estava sentado no banco junto com o idiota do esbarrão. Tomei coragem e fui até ambos enquanto me concentrava só no garoto dos olhos castanhos.

― Onde está Megan? ― pergunto.

― Ela foi embora chorando ― respondeu e meu coração partiu, eu definitivamente sou uma idiota. ― Amanda, o que aconteceu lá dentro do banheiro? ― perguntou. Olhei para ele por alguns segundos, minha garganta estava seca e por mais que eu conseguisse falar, eu não sabia necessariamente o que. Então apenas desviei o olhar do dele e me virei de costas indo embora, fingindo não ter ouvido sua pergunta. Cheguei em casa e minha mãe estava na sala preocupada, era fácil perceber, já que ela não fazia nem questão de disfarçar.

― O que ouve? ― perguntou rapidamente, antes mesmo de eu conseguir fechar a porta.

― Que eu saiba nada ― menti.

― Megan chegou chorando e se trancou no quarto. E você não sabe de nada?

― Não, não sei ― digo. ― Quem chegou chorando foi ela, não eu. Lembra? Tentou perguntar para ela? ― perguntei e subi as escadas, não era uma pergunta da qual eu queria a resposta. Me dirigi até a porta do quarto dela e dei leves batidas.

― Megan... me desculpe ― digo, enquanto torno a bater. Não ouve resposta de sua parte. Fiquei em frente à sua porta a chamando por um bom tempo, até resolver dar um tempo a ela. Fui para o meu quarto e tomei um banho, nem desci para almoçar.

Como fui tão egoísta? Só me importei com os meus problemas. Ela está certa, talvez o problema seja eu, que só me importo com meus problemas. Deitei-me na cama e comecei a chorar. Megan deve ter sofrido tanto, ainda deve sofrer, mas mesmo assim está sempre sorrindo, ela ouviu coisas que eu nunca ouvi de ninguém e mesmo assim ela consegue sorrir, como se isso nunca tivesse acontecido.

Acordei com minha mãe me chamando para jantar.

― Você não almoçou hoje e vai dormir sem jantar? ― pergunta indignada comigo.

― Estou sem fome.

― Amanda ― disse brava, e naquele momento ela estava preparada para me dar um sermão, mas antes que fizesse me levantei e fui para mesa, Will estava lá. Ele também deve ter sofrido muito, e eu tão preocupada comigo e nem reparei nas pessoas a minha volta.

― Onde está Megan? ― perguntou Will.

― Chegou da aula chorando e se trancou no quarto ― minha mãe disse e ele pede licença e sobe. Logo depois voltou com a Megan. Ela me olhou e sentou-se.

― Está tudo bem? ― minha mãe perguntou.

― Está sim, obrigada ― Megan disse e sorri, terminei de jantar, levei meu prato na pia e fui até o sofá onde me sentei, pegando o controle e colocando no filme Need For Speed. Megan acabava de terminar de colocar o seu prato na pia também, e se dirigia a escada.

― Quer assistir? ― pergunto e ela apenas para de andar um pouco, mas em seguida volta e sobe as escadas sem falar comigo. Torno a olhar para a televisão e começo a chorar, não sei bem porquê, talvez por que aquela cena do filme é triste ou talvez porquê dentro de mim eu já não aguentava mais.

― Você sempre chora nessa parte ― minha mãe disse atrás de mim, em pé. Viro meu rosto e olho para ela, eu poderia falar algo, mas preferi ficar quieta, eu estava tão magoada com ela, e talvez ela também estivesse comigo. Limpei as lágrimas e depois de desligar a televisão e se levantar, eu subi para o meu quarto e chorei enquanto olhava para pulseira, pensando em tudo, pensando em meu pai.

Onde será que ele está? Será que por um momento ele pensa em mim também?