Pulsos
3 Dois
Acordei e já passava das seis e meia da manhã, meu despertador tocava ao som de Better Than Words do One Direction. Coloquei a mão no criado mudo, procurando pelo aparelho, meu primeiro impulso ao encontra-lo foi o arremessar na parede, mas tive que me conter, já que eu não ganharia outro tão cedo e que ele apenas despertava por que eu mesmo o coloquei, para conseguir acordar cedo e ir para o novo colégio.
Desliguei o alarme e me levantei ainda sonolenta me arrastando para o banheiro, o espelho da pia só mostrava o quanto meu rosto estava inchado de sono e o quanto meu cabelo estava bagunçado, já que fiz o favor de esquecer e dormir com ele amarrado. Tirei minha roupa e fui para o chuveiro o ligando enquanto tomava um bom banho, os cortes arderam um pouco, mas nada com que não estivesse acostumada.
Peguei minhas roupas e me vesti, colocando o uniforme que minha mãe havia comprado e estava junto na sacola com os cadernos. Abri a porta do guarda roupa novamente, mas dessa vez não a procura da minha calça e sim de alguma blusa de manga que pudesse tampar meus cortes, e junto me proteger do frio que provavelmente está fazendo lá fora.
Agradeço mentalmente por achar alguma, e agradeço mais ainda quando vejo que meu tênis não está sujo, o coloco e vou para frente do espelho pentear o meu cabelo.
Depois de terminar, e arrumar a minha mochila, desço em direção a cozinha com ela nas costas e vejo os três sentados conversando algo enquanto tomavam seus cafés. Sento na cadeira, e toda a atenção é vinda para mim, apenas ignoro enquanto começo a fazer meu achocolatado e em seguida tomar.
― Vamos? ― o novo marido de minha mãe perguntou levantando-se da mesa. Suas vestes mostravam que ele era alguém importante, um belo terno azul escuro e um sapato social preto. Se não me engano minha mãe falou algo sobre ele ser um advogado, mas não tenho certeza, e pouco me importo se é ou não.
Apenas levanto e começo a acompanhar ambos para a porta principal da casa.
― Tchau filha, tenha uma boa aula ― minha mãe disse enquanto virava sua xicara com café na boca.
― Tchau.
Saí de dentro de casa e entrei no carro ao lado de Megan, pude sentir o olhar da garota ao meu lado sobre mim, mas apenas ignorei enquanto olhava pela janela as ruas de Londres. Passei a mão sobre a minha coxa enquanto olhava para a pulseira que meu pai me deu, era a última lembrança dele, e não era como se eu a usasse por que achava que um dia poderia esquecê-lo e precisasse de uma pulseira cheia de pequenos pingentes para lembrar. Era como se eu pudesse tê-lo aqui, mesmo que ele não estivesse. Também não é como se ele não estivesse no meu coração e na minha mente, pois ele estava, mas era como se eu precisasse de algo a mais para poder acreditar que um dia verdadeiramente ele me amou.
O carro foi parado e abri a porta saindo sem dirigir a minha palavra a ninguém, meu olhar se concentrou no enorme prédio a minha frente. Comecei a acompanhar Megan depois que ela saiu do carro, subimos a escada e a única coisa que ela me disse é que eu estava matriculada em sua sala e que era a dali da frente.
Duas garotas passaram por mim rapidamente e abraçaram a filha do meu padrasto enquanto pronunciavam palavras de um vocabulário do qual eu realmente preferia não ter ouvido. Abro a porta da sala, e a fecho cuidadosamente. Me viro e começo andar para a frente enquanto passava pelo meio dos alunos a procura de uma carteira vazia lá para trás.
Os olhares curiosos me seguiram até a hora em que me sentei, mas logo as pessoas voltaram a fazer o que faziam.
Peguei meu celular e meus fones na mochila e os coloquei, enquanto ligava uma música e ficava me concentrando nela até uma professora chegar e eu ter que tirar, já que ela parecia muito afim de me apresentar para a turma toda. Depois de me dirigir até a frente da sala e ter meu nome dito a todos, voltei para a minha carteira e me afundei em meio a minha música e aos meus próprios pensamentos, enquanto ignorava os olhares de certas pessoas a mim, principalmente do de Megan e de suas amigas.
O sinal do intervalo finalmente tocou e a primeira coisa que fiz foi me levantar e sair praticamente correndo daquela sala em direção ao refeitório que não foi nada difícil achar, já que parece que metade do colégio estava indo para o mesmo lugar.
A fila era grande e apenas esperei chegar a minha vez. Diferente da sala as pessoas não me olhavam, e agradeci por isso. Por cima do ombro de algumas pessoas vi Megan se sentando junto com um grupinho a esquerda, ao lado de um garoto que deixou um beijo em seu pescoço.
Talvez fosse o namorado dela.
Comprei meu lanche e me sentei em uma mesa junto com um dos garotos da minha sala que sentava sozinho. Não falamos nada um ao outro, ainda mais quando assim como eu ele parecia perdido em seus pensamentos.
Por um momento pareceu que Megan iria vir até mim, ela chegou a levantar enquanto me olhava, mas apenas sentou novamente e voltou a conversar com o garoto ao seu lado.
Terminei de comer e voltei para a sala, ela chegou em seguida e a professora também.
Pelo que ela disse, era professora de Ética, e diferente das outras era muito legal. Logo passou uma tarefa, era para fazer um texto sobre desigualdades.
Comecei a fazer, eu adoro textos, adoro dar a minha opinião, adoro escrever.
Todas as pessoas estavam me olhando, me concentrei tanto que nem percebi que eu era a única a não ter entregado. Coloquei meu nome e entreguei, tentei não olhar o jeito que a professora olhava para mim enquanto lia. Confesso que fiquei com medo, e com mais medo ainda quando ela me chamou. Ela queria que eu lesse ali na frente, a vergonha era enorme. Fui até lá na frente, peguei minha folha e comecei:
― O que falar sobre desigualdade, quando a maioria das pessoas que lerem acharão isso banal. Alguns tem muitos e outros tem pouco? "E daí? Cada um tem a vida que merece”. Realmente você acha que uma criança de cinco anos merece não ter um colégio para estudar? Uma comida para almoçar? Realmente você acha certo alguém com tão pouco e outras com tanto? Realmente você acha certo você poder brincar enquanto outras crianças estão trabalhando? Se você realmente acha isso, você está no mundo certo. Ninguém aqui liga para ninguém. Por que você ligaria, não é mesmo? Você está tão ocupada com seu cabelo, não tem tempo para pensar em outras pessoas que tem problemas muitos maiores. Você está ai fazendo uma dieta boba enquanto outras pessoas queriam comer. Você deve adorar essa desigualdade, se sentir superior deve ser legal não é mesmo? Desigualdade não é legal, e você vai descobrir isso. Torça para ser da melhor forma.
A professora começou aplaudir e alguns alunos também, outros como eu imaginava apenas ficaram olhando para mim com cara de paisagem, claro que a Megan era uma dessas, já era de se esperar.
― Hum... Professora. Posso pedir uma coisa? ― perguntei depois de muito tomar coragem e conseguir que pelo menos minha voz saísse.
― Claro, Swain ― respondeu educadamente e ficou me olhando a espera que eu dissesse o que queria pedir. Por algum motivo ela parecia interessada.
― Queria que a Megan lê-se o dela aqui na frente.
― Não. Qual o seu problema, garota? ― pergunta Megan se levantando da carteira.
―Nenhum... Só estou curiosa para saber sua opinião. Até por que você ficou me olhando e parece não ter gostado do que escrevi, talvez tenha escrito algo melhor, não é mesmo?
― Sem brigas ― disse a professora enquanto provavelmente procurava a folha de Megan.
― Realmente você passou... ― Megan ia dizer algo mais foi interrompida.
― Megan aqui, pode começar a ler ― a professora disse e entregou a folha a ela.
A garota olhou para o papel, como se tivesse se arrependido de ter escrito aquilo, e colocou sobre a mesa da professora com uma certa brutalidade.
― Oh não, me recuso!
― Depois eu que tenho problema ― digo e me sento na minha carteira, os alunos estavam quietos, adoravam uma confusão. Também... quem não?
― Por que não? ― a professora perguntou. ― Amanda leu o dela aqui e como ela disse, parece que você e suas amigas não gostaram muito. Tem uma opinião diferente da dela?
― Não sou obrigada a isso ― argumenta.
― Tudo bem... ― disse a professora parecendo ter se rendido a Megan, mas antes que a garota pudesse comemorar, a professora voltou a falar: ― Vamos fazer assim, se você não ler, você perde um ponto. Está melhor para você?
Megan olhou com uma cara de incrédula e depois apenas revirou os olhos enquanto me encarava.
― Obrigada, Amanda! ― ironizou.
― De nada! ― digo e começo a rir disfarçadamente, não era bem uma provocação, só estava curiosa. Megan, pegou sua folha e ficou enrolando, realmente ela não queria ler, só não sabia o porquê.
― Desigualdade, uma palavra criada por pessoas sem o que fazer ― disse e deu uma pausa enquanto engolia em seco. ― Existe porque tem gente preguiçosa que não tem coragem de trabalhar e ter uma vida melhor. Se uma pessoa é melhor que a outra é porque ela fez por onde. Cada um escolhe a vida que quer. Desigualdade uma palavra criada por pessoas que não tem o que fazer, e só sabem reclamar da vida e não fazem nada pra muda-la. Cada um tem a vida que merece e se uns tem muito é porque são melhores. ― Megan leu seu texto eu fiquei espantada, até porque eu não pensava que ela era tão idiota a ponto de pensar assim.
― Está satisfeita Amanda? ― pergunta provocando e com um sorriso no rosto, como se isso fosse a deixar mais certa do que pensa.
― Claro. E você? Está satisfeita com seu lindo texto? ― Ela abaixou a cabeça e sentou-se na carteira.
Por mais que soubesse que eu estava certa, não admitiria nunca.
― Estou sim. Obrigada! ― disse novamente com superioridade.
― Não esperava isso de você, Megan! ― disse a professora balançando a cabeça e se levantando da sua cadeira.
― Ninguém espera nada de mim, lembra?
― Vamos continuar a aula.
A professora começou copiar o meu texto no quadro. Como eu já tinha, fiquei ouvindo música. A aula acaba e vou para fora, vejo Megan com o garoto do intervalo e fico a olhando, as mãos dele puxam ela para perto de si, e antes que ele pudesse fazer algo a mais ela empurra-o para trás e olha para todo canto, e quando seu olhar se encontra com o meu, rapidamente ela volta a olhar para o garoto.
Ela parecia estar com medo de algo, e acho até do que era. Até parece que vou perder meu tempo falando com o pai dela sobre ela, tenho meus problemas. Ela se soltou dele e veio com a maior falsidade para cima de mim.
― Oi ― disse e deu um sorriso enquanto seu rosto demonstrava preocupação.
― Não precisa ser falsa, eu não vou falar nada para o seu pai! ― digo, e começo a andar.
― Eu sei que não ― disse alto o suficiente para eu ouvir. Apenas continuei andando antes dela gritar pelo meu nome, paro de andar e me viro enquanto olho para ela.
― O que foi? ― pergunto. ― Não já conseguiu o que queria? Não vou falar nada para seu pai, sinta-se satisfeita e dá próxima vez tenta não ficar com essa cara de preocupação quando quiser ser falsa com alguém.
Por um momento ela apenas ficou parada enquanto me olhava e eu estava prestes a voltar andar quando ela resolveu dizer algo:
― A casa é para lá! ― Aponta para o lado ao contrário do que eu estava indo. Apenas me viro indo para o outro lado, enquanto ela me acompanha.
― Por que você fez aquilo? ― perguntou, se referindo a faze-la ler seu texto. Continuei andando, como se não estivesse ouvindo. ― Que merda! Estou falando com você ― gritou, e eu continuei andando a ignorando totalmente. Não estava a fim de me explicar para ninguém, nem eu mesma sabia por que eu havia feito aquilo. Talvez tivesse sido melhor não ter feito nada.
Sinto meu corpo bater contra um muro, e meu braço dói com o contato, provavelmente fiz uma cara de dor, já que parecia que eu havia acabado de cortar meus pulsos já cortados.
― Desculpe ― pediu tentando se aproximar de mim para ver se havia me machucado. As pontas de seus dedos tocam levemente meu braço e apenas o puxo e começo a andar novamente, só que dessa vez mais depressa.
Respirei fundo e continuei andando até conseguir fazer com que aquela raiva que eu sentia dela passasse.
― Está tudo bem.
― Está doendo? ― ela pergunta apontando para o meu braço, eu o segurava com a mão.
― Um pouco.
― La em casa tem uma faixa e um gel, é bom pra dor ― disse e eu concordo com a cabeça. Mas nem em sonhos passaria gel, uma vez passei e só eu sei o quanto ardeu.
Chegamos em casa e fui direto para o meu quarto, nem falei com minha mãe. Deixei minha mochila no chão, tirei minhas roupas e meu braço estava vermelho por causa da batida, entrei no chuveiro e ele começou a arder. Tomei um banho rápido, me vesti e coloquei uma blusa sem manga para poder limpar as feridas, sentei-me na cama e comecei a passar um algodão molhado e quando olho para o lado Megan estava olhando, senti meu coração bater mais forte, e parecia que a qualquer momento ele seria arremessado para fora de meu corpo.
― Sai Megan. ― Deixo minha voz soar baixo, mas não olho em seu rosto. Eu queria apenas que ela saísse dali e nunca mais olhasse na minha cara. Não por ela ter me empurrado e nem nada. Apenas por que eu não quero que mais pessoas me chamem de idiota e digam que eu faço isso para me aparecer.
― Por que faz isso?
― Não te interessa ― respondo grosseiramente e volto a pedir para que ela saia, mas parece que quanto mais eu a expulsava, mais ela teimava em ficar.
A porta do meu quarto é fechada, mas infelizmente ela ainda se mantinha ali, me encarando como se eu fosse alguém que precisasse de ajuda. Talvez eu realmente precisasse, mas ela com certeza não seria a pessoa certa para me ajudar, já que nem se quer ela seria capaz de me entender.
Meus lábios se abriram novamente para manda-la sair, mas não saiu nenhum som de minha voz.
― Me desculpe ― pediu.
Em passos curtos ela se aproximou da cama onde eu estava e se sentou bem ao meu lado enquanto mantinha os olhos em meus pulsos.
― Eu já pedi para sair ― digo assim que consigo.
― Eu não posso sair.
― Você tanto pode, quanto deve. Eu sei que é sua casa e que eu estou aqui de intr...
Ela apenas coloca a mão sobre minha boca me fazendo para de falar, e assim que consegue, retira sua mão e me encara.
― Aqui é sua casa também, agora. E por que você faz isso? ― Seu dedo deslizou pelo meu pulso suavemente por cima dos cortes, e eu percebia que ela fazia tal ato com o maior cuidado possível.
― Essas feridas? ― Afasto o braço, passando a mão sobre as marcas que estavam vermelhas por causa da batida. Ela apenas assentiu com a cabeça. ― Você realmente acha que isso dói? ― perguntei debochando e algumas lágrimas caem sobre minhas bochechas, mas as limpo rapidamente. ― Essa dor nem chega a ser um terço da dor que sinto aqui. ― Apontei para o meu coração.
― Isso não é motivo para se cortar, não existe motivo ― disse um pouco incomodada, ou talvez muito. Levantei-me e andei até o guarda roupa encostando minha cabeça sobre o mesmo.
Tudo o que eu menos queria era que alguém visse essa merda desses cortes, mas agora ela já sabe deles, ela os viu e provavelmente vai rir da minha cara depois de parar de fazer esse papel de boa moça, de garota preocupada, ou de alguém que pelo menos um dia chegou a entender o que é se cortar.
― Você vem me falar de motivos, garota? ― perguntei rindo e desencostei a cabeça e a encarei. ― Você pelo menos alguma vez sentiu uma dor que quisesse arrancar de seu peito?
Megan continuou com os olhos em mim, mas não disse nada e depois de deixar o gel e a faixa sobre a cama, desviou o olhar do meu e saiu porta a fora me deixando sozinha, como quis estar.
Depois de enrolar a faixa em meu braço e colocar um moletom, desço as escadas, mas por um descuido acabo batendo o braço no portal da porta e o seguro, respiro tentando fazer com que a dor diminuísse.
― O que você tem, Amanda? ― perguntou minha mãe e foi somente ai que reparei que ela e a garota estavam me olhando. Respirei profundamente novamente e comecei andar para a mesa, puxando uma das cadeiras vazia e me sentando. ― O que você tem? ― repetiu.
― Eu não tenho nada.
― Eu vi você pegando em seu braço ― disse, apenas a olhei confusa e me deu uma grande vontade de rir, e só não ri por que de certa forma eu estava preocupada. A garota estava ali, ela viu meus cortes e se resolvesse abrir a boca dela para falar algo eu estava ferrada, já que a dona Clarie resolveu que é hora de ser uma boa mãe, logo agora que acabei de completar 17 anos.
― Eu só peguei no meu braço, não posso? ― perguntei, colocando ênfase na palavra “meu”.
― Amanda ― disse alterando a voz. O olhar de Megan se concentrou no meu, e seus lábios se abriram para falar algo, mas minha mãe foi mais rápida: ― Eu não acredito que você ai...
― Clarie ― chamou Megan e minha mãe parou de falar e dirigiu sua atenção a ela. ― Eu empurrei a Mand hoje, depois de uma briga que tivemos e ela acabou batendo o braço no muro e a machucou.
― Isso é verdade, Amanda?
― Ela já não disse? ― pergunto debochando. ― O que foi? Do nada resolveu ser a ótima mãe que se preocupa com sua filha? ― Meu tom de voz já estava um pouco alterado e apenas me levantei da cadeira irritada. ― Acha que fingir que se importa vai mudar alguma coisa? ― gritei.
Lagrimas começaram a cair de meus olhos, e não me importei em limpa-las. Estava doendo estar gritando com ela, era uma das últimas coisas que eu queria em toda a minha vida, mas eu já aguentei tanta coisa calada, já fingi que as coisas estavam bem, quando na verdade não estava. Ela me deixou sozinha quando eu mais precisei e agora que simplesmente não preciso mais dela, resolve voltar e fingir estar preocupada se eu estou me cortando, se estou sofrendo ou se estou com algum problema, sendo que na verdade ela só quer que as pessoas acreditem que ela sempre foi uma boa mãe.
― Você acha que é fácil ser abandonada por um pai? ― gritei novamente. ― Quando eu mais precisei você me virou as costas e me deixou lá. Sozinha em meios a pensamentos perturbadores de culpa. Não perguntava se eu estava bem, não queria saber se a merda do meu braço estava ou não machucado.
Minha mãe já estava chorando enquanto me olhava sem dizer nada. Minha respiração estava ofegante e por um momento eu me senti mais livre por finalmente dizer o que eu queria para ela, mas esse momento acabou e eu vi a merda que eu havia acabado de fazer.
Passei o dorso da mão em minhas bochechas e fui para o quarto lentamente, sem olhar para trás, sem pedir desculpas e com apenas uma vontade, vontade de me matar. Várias vezes eu tentei, mas eu nunca conseguia, mas dessa vez seria diferente. Eu não quero mais ver ela chorar, eu não quero mais ter que gritar com ela, eu não quero mais pensar no meu pai, eu não quero mais acordar e lembrar do dia em que ele saiu e não voltou, eu não quero mais viver nessa merda de mundo.
Entrei no meu quarto e vi o retrato de meu pai em cima do criado, fui até ele e o abaixei enquanto pegava a lâmina atrás dele, me sentei no chão e comecei desenrolar lentamente a faixa de meu pulso. Dessa vez eu havia trancado a porta, nem Megan e nem ninguém entraria para me atrapalhar, talvez entrasse mais tarde, mas a única coisa que iria encontrar é um corpo inútil morto no chão.
Comecei a passar a lâmina sobre meu pulso, e as lágrimas continuavam a cair de meus olhos. Por que eu estava chorando? Por que fui abandonada por meu pai e minha mãe não se importa com o que sinto?
Meu braço começou a sangrar, mas por dentro ainda tudo doía. Coloquei a lâmina em cima da minha veia, e quando ia perfurar, ouço alguém batendo na porta, eu precisava fazer aquilo, mas ela não deixava, continuava batendo e me chamando. Parei de me cortar e fechei a mão com a lâmina dentro enquanto sentia ela cortar a pele de meus dedos.
Abaixei a cabeça enquanto olhava para meus pulsos, e novamente ouço alguém bater na porta.
― Mand, você está bem?
A voz era um tanto suave e não parecia ser de minha mãe, era de Megan então, a única pessoa além de nós duas naquela casa enorme. Continuei em silêncio enquanto ouvia ela repetir a mesma pergunta.
Abri a mão e novamente voltei a colocar a lâmina em cima da veia, mas eu não estava conseguindo facilmente como antes, já que ambas as minhas mãos estavam tremendo.
― Amanda ― gritou Megan do outro lado da porta.
Desisti de tentar perfurar a merda do meu braço já que a garota lá fora parecia bem insistente.
― O que você quer comigo? ― perguntei.
― Eu quero te entender.
Sua voz não parecia a mesma de antes, e soluços eram ouvidos por perto, mas não eram vindos de mim e sim de alguém que estivesse lá fora. Ela estava chorando?
Levantei-me e fui até a porta enquanto levava a lâmina comigo, assim que destranquei a porta e a vi sentada no chão eu tive a certeza que os soluços eram dela.
Sentei-me na porta me escorando no portal da mesma, e a garota percebeu que eu finalmente havia aberto a porta. Seu olhar se concentrou em meu rosto e seus olhos azuis estavam encharcados de lágrimas e seu rosto todo vermelho. Seu olhar desviou do meu e foi para meu pulso que sangrava.
― Está satisfeita? ― pergunto.
Ela continuou no mesmo lugar encarando meus pulsos, e seus olhos demonstravam pavor.
― O-o que você estava pensando em fazer?
― Me matar ― respondi rapidamente e mostrei a lâmina a ela. ― Mas nem isso eu posso.
― Por que, Mand?
― Você não vai entender.
Volto a usar a lamina, perfurando meu pulso não me importando se ela estava ali ou não. Seu olhar continuava preso em meus pulsos enquanto a lâmina penetrava minha pele com certa brutalidade, minhas coxas já estavam encharcadas de sangue, assim como o meu short azul.
― Para, Amanda ― gritou.
― Não ― respondi e perfurei novamente. ― Eu não vou parar. Assim como essa dor que me tortura também não.
Fechei os olhos e deixei a minha cabeça cair para trás.
― Você pode confiar em mim ― disse suavemente e naquele instante me lembrei das inúmeras pessoas que me disseram isso, e no mesmo instante as inúmeras vezes em que eram mentiras.
― Não confio em ninguém mais.
― Mand...
― Me deixe, Megan... Por que você se importa tanto? Nem se quer nos conhecemos direito, eu sou só a filha de Clarie Swain, sua madrasta.
― Por que...
― Fala Megan ― gritei.
― Não é nada ― admitiu. ― Só não devia destruir sua vida assim.
― Que vida? Eu fui abandonada pelo meu pai. Ele levou minha vida com ele.
― Você tem sua mãe ― disse. Abri meus olhos e olhei pra ela.
― Minha mãe? ― Dei um riso sarcástico. ― Ela nunca se importou com o que eu sentia. Ela nunca me consolou, ela nunca esteve comigo quando mais precisei. E sabe o que eu fazia? Eu fingia que estava tudo bem para não vê-la chorar.
― Ela sabe que você faz isso?
― Já viu uma vez. Apenas chorou, nem quis tentar me entender. Eu tento ser a boa filha, mas as vezes cansa. Sei que ela não tem culpa, mas ela podia ter ficado do meu lado, podia ter sido minha mãe.
― Sinto muito.
―Todos sentem, mas ninguém realmente se importa, ninguém entende.
― Eu entendo.
― Não Megan, sua vida é perfeita, você está sempre sorrindo. Tem um pai que te ama e que está sempre com você.
― Você está certa. Agora pare de se cortar, isso não te leva a nada ― disse limpando as lágrimas de seu rosto.
― Você não sabe de nada. Na verdade vocês todos que não se cortam não sabem o que sentimos, e nos julgam. Nos julgam por uma dor que nunca sentiu. ― Dei uma pausa enquanto mais lágrimas caiam de meus olhos. ― Dizem que fazemos isso para se aparecer, nos chamam de idiotas. A verdade é que vocês nem tentam se por no nosso lugar.
― Você tem razão. Me desculpe, só queria te entender, mas não consigo. Não tem justificativa para um ato como esse.
― Eu não aguento. ― Levei a minha mão na minha cabeça, e apoiei meu rosto em meus joelhos.
― Você tem que parar!
― Eu não consigo. Já é um vício ― murmurei. ― Tem vezes que eu me corto somente para sentir a lâmina em meus pulsos.
― Você tem que pelo menos tentar. ― Sua voz estava mais suave, e percebo que Megan estava de joelhos em minha frente. Colocou sua mão em meu queixo e levantou minha cabeça. ― Você tem que tentar. ― repetiu.
― Não é tão fácil.
― Eu não disse que é fácil, disse que você tem. Você sabe disso.
― Posso tentar.
Um sorriso surgiu em seus lábios, e fui surpreendida com os braços dela circulando meu pescoço em um abraço.
― Agora me dê essa lâmina ― sussurrou.
Ela quebrou o abraço e entreguei a lâmina para ela, sabendo que eu teria outra guardada para quando eu precisasse.
Levantou-se e saiu indo para o seu quarto, me levantei também e tomei um banho limpando o sangue. Deitei-me na cama e passou milhares de coisas na minha cabeça até que dormi.
Fale com o autor