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1 Capítulo Único – The Sound Of Silence
Notas iniciais
Música-título: Disturbed - The Sound Of Silence. Essa obra magnífica pertence à Simon & Garfunkel, mas essa versão (maravilhosa) encaixa-me mais perfeitamente à proposta. Ouçam, garanto que é belíssima.
Boa leitura, queridos. Espero que apreciem!
23h.
A noite de sábado estava em plena tranquilidade para a detetive Zelena Mills. Seu pai, Henry, preparava um jantar delicioso, como sempre. Sua mãe, Cora, também como sempre, mesmo no final de semana, cuidava dos negócios da família em seu escritório. Sua irmã, Regina, aproveitava a noite com os amigos. Diversas vezes Zelena pensou em comparecer, porém, o cansaço de uma semana conturbada no departamento a impediu. Ruby, sua namorada, garçonete eventual na boate em que os amigos iriam, pediu que ela ficasse em casa para recuperar suas forças. Assim a ruiva o fez, derretida pelo cuidado da morena.
Finalizara há uma semana uma investigação que durou cerca de dois meses, da qual saiu em crítico estado emocional. Se não fosse por Ruby e por Regina, não tinha certeza se poderia lidar com tudo que vira. A destruição, em seu ofício, estava em toda parte.
Em seu quarto, observava as fotos no painel que cobria metade de uma parede. Lembranças. O dia em que Ruby foi aprovada no curso de Gastronomia, sua paixão. O dia em que Regina quebrou o braço numa queda e Emma, para animá-la, vestiu-se de coelhinha, como Regina a chamava quando estava de manha, aparecendo no hospital com balões, um buquê de lírios e umas dez caixas de chocolate suíço, carregadas por Killian Jones. Por falar em Killian, havia também a foto de quando fizeram uma festa surpresa para o rapaz, uma festa Irlandesa com todas as danças, roupas e alimentos tradicionais, emocionando-o por lembrá-lo de seu país. E uma do dia em que Lilith Page conseguiu um emprego no parque “Wizard World of Harry Potter”, todos na foto com chapéus e vassouras, rindo. Em outra foto, panorâmica e bela, o dia em que Regina e August Wayne Booth voltaram para casa após formarem-se em música fora do país. Emma chorava tanto quando a foto foi tirada. Manter o relacionamento a distância foi uma luta, mas ambas eram tão apaixonadas, que ninguém jamais duvidou que conseguiriam.
Eram muitas fotos. Muitas boas, fantásticas memórias. Desce as escadas com um sorriso em seu rosto após perder-se em suas recordações. O cheiro da macarronada de seu pai também a fazia sorrir. Era bom estar ali, longe dos perturbados casos que vinha enfrentando em suas investigações.
01h.
O telefone toca. Seu celular, deixado na mesa de centro da sala de estar e jantar. Zelena sorri um pouco mais. Deveria ser Ruby. Ruby sempre ligava em suas pausas no trabalho, alegrando-a e prometendo mil maravilhas para as duas após o último turno. Contudo, não se tratava de sua namorada. Era Regina. Sua irmã.
— Boa noite, minha querida. – A ruiva dispara ao atender. – Já com saudades da sua irmã mais velha?
— Zel! – Gritou, assustando-a de imediato, ofegante. – Zel, algo aconteceu aqui, não sabemos porquê, mas precisa chamar a polícia, precisa mandá-los! – Desesperava-se.
— Ei, ei. – Enrijeceu. – Fique calma e me diga exatamente o que está acontecendo, Regina.
— Tem alguém no clube. – A ligação falhava, aumentando o temor de Zelena. – Tem um homem atirando em todos, Zel. Eu preciso... – Zelena soube que a irmã chorava. – Estou na pista de dança, Emma havia ido ao banheiro com Lily... Estou com Killian, August deve estár no pátio e Elliot na cabine de DJ... Zel, o que é isso? Estamos escondidos entre o palco e a parede, mas eu não a vejo, Zel. Eu não consigo encontrá-la!
— Eu... – A detetive ofega, tentando guardar para si a vontade de gritar. – Regina, fique aí. Fique escondida. Estou indo até aí e mandarei todos os policiais dessa cidade, mas precisa me prometer que vai ficar escondida com Killian. Prometa-me! E continue falando comigo!
— Eu sinto muito, Zel... – Soluça. – Não posso. Eu preciso achá-la.
Sua afirmação seguida de um baque faz Zelena deduzir que ela havia largado o celular. Tiros. A ruiva escuta disparos ensurdecedores. Sente-se gelada, atingida por uma avalanche caótica e violenta. Não. Não poderia estar acontecendo o que imaginava.
— Regina! – A ruiva berrava, totalmente em vão. – Regina, pegue esse maldito telefone!
Não adiantava. A voz de sua irmã desapareceu. Outro baque. Mil vozes. Mil gritos. Mil desesperos. Nenhum daqueles timbres era de sua caçula, mas ela estava lá e isso era tudo que importava. Emma, sua cunhada, também estava lá. Pelo aniversário de Killian, o próprio, August e Lily estavam lá. Ruby estava lá. E somente ao imaginá-la servindo seus maravilhosos drinks atrás do balcão, sendo atingida por um projétil, ou ferida por um maníaco, enlouqueceu-a. Seus pés moveram-se como asas, apesar de senti-los como chumbo, puxando-a para baixo, incitando-a a ficar de joelhos e chorar compulsivamente.
— Zelena, o que significa isso?! – O pai Henry alarmou-se ao vê-la destrancar o armário da sala de estar, arrancar embasbacada os quatro cadeados dourados e atirá-los no chão, tomando sua pistola semi-automática e, alimentando os terrores do pai e da mãe que desceu as escadas depressa ao ouvir a gritaria, jogou sobre o ombro também a escopeta de caça da família, discando um número e saindo afobada pela porta.
— Zelena, aonde pensa que vai?! – Cora a interrompe antes que a ruiva entrasse no carro esportivo da irmã.
— Não deixe o papai ligar a televisão. – Ordenou firmemente, pisando no acelerador como se sua vida dependesse de sua velocidade. De certa forma, dependia.
Zelena Mills cruzava as ruas como um raio que rasga as nuvens numa tempestade. Seus olhos ardiam. Queria chorar, mas era incapaz de permitir-se sentir qualquer coisa. – “Lembre-se de seu treinamento”— Repetia-se. Mas como poderia pensar em formalidades num momento como aquele?
02h.
— Departamento de Polícia, Oficial Cassidy. – Atendeu o rapaz.
— Droga, Neal! – Gritou. – Por que essa demora para atender essa porcaria?!
— Epa, campeã! – O rapaz riu. – Ruby não anda fazendo um bom serviço na cama com você para estar com esse humor num sábado a noite?
Zelena respirou fundo, engasgada. Olhou para o lado, onde ainda jazia o anel que comprara naquela manhã com Regina para pedir Ruby em casamento. Pedi-la em casamento e pertencer somente a ela, pois já havia pedido transferência para abandonar o posto de detetive e ingressar na área jurídica ou administrativa. Não pretendia mais arriscar-se, investigar assassinos, estupradores, nem mesmo pequenos delitos. Manteria-se segura e viveria para ela. E agora, temia que tudo se esvaísse a qualquer instante.
— Zel? – O tom de Neal tornou-se sério. – Você está aí? O que foi?
— Neal... – Sussurrou. – Alerte a todos. Todas as centrais e as forças especiais. Há um massacre acontecendo nesse exato momento e eu quero todos, todos que conhecemos armados e a postos lá! Custe o que custar, acorde todos os oficiais que estiverem de folga, as patrulhas, todos, Neal! Estou sendo clara?! 1912 S Orange Ave, imediatamente! Estou a caminho!
— Zelena... Essa é...? – A voz do rapaz pareceu morrer do outro lado.
— Sim... – Fraqueja. – Todos eles estão lá, Neal.
O telefone da delegacia emudece. Zelena acelera ainda mais, cravando seus olhos na rua, ultrapassando todos os semáforos, possuída pelo desespero descomunal que agravava-se em seu coração. A detetive sequer nota que o Shelby azul-náutico de Regina está sem capô. O vento faz seu rosto queimar, tamanha a força com a qual se choca contra ele. Não se importa, não quer saber. A voz da irmã ecoa em seus ouvidos juntos aos tiros do fuzil, seus dedos tremem enquanto apertam o volante. Uma profusão de agonias manifestando-se dentro de si. E as palavras de Ruby ainda claras e aconchegantes como a luz e o calor do Sol quando, no dia anterior, a ruiva recuperava-se do homicídio de dois garotos de oito e dez anos, de sua investigação concluída: “Todos os turnos dessa noite são meus, meu amor. Passe os dois dias e casa e descanse. Logo você estará longe de toda a violência, de toda a crueldade.E em nossa vida eu prometo haver sempre muito amor.”.
Quando finalmente estaciona próximo à boate, quase atropelando o aglomerado de pessoas que formava-se ali, aumentando gradativamente, os disparos que ouvira pelo celular mostram-se reais. Reais e devastadores, misturando-se ao escândalo das sirenes que se aproximavam ao longe. Estava acontecendo e nada poderia mudar isso. Pensa em Ruby como se estivessem roubando seu coração e esmagando-o. Mas quando pensa em Regina, sabe: É como se estivessem roubando toda a sua existência, deixando-a oca e despedaçada. Precisava salvá-la do que quer que estivesse acontecendo.
~
02h30.
August Wayne Booth estava em um dilema. Enfiado entre uma brecha do muro do pátio e a parede, escondido, gritava dentro de si: Pule o muro. Fuja pelo estacionamento. E ao mesmo tempo: Volte para dentro. Não abandone seus amigos. Tentando manter a ordem mental, riscava o esqueiro, observando a faísca como se aquela luz repentina e veloz pudesse lhe dar alguma saída, enquanto a outra mão esmigalhava a caixa de cigarros mentolados. Esfarelava o tabaco, sentia seu corpo ameaçar dar espasmos violentos. Não podia fugir. Emma, Killian, Regina, Ruby, Lilith, todos ainda deveriam estar lá dentro. Talvez na mira do atirador. Conseguiu finalmente se mover quando esse estalo ecoou em sua cabeça. Ele estava lá, entrando novamente na boate.
~
03h.
Emma Swan pressionava o rombo em seu braço direito, contendo-se, comprimindo os lábios. As lágrimas não lhe escorrem pela dor, pelo sangue. Escorrem porque Regina está do outro lado da boate, muito mais próxima a quem quer que estivesse atirando do que ela estava. O tiro veio de um lugar que ela sequer identificou, sequer pôde correr ou ver quem atirava. Tenta raciocinar, buscar uma saída, mas ali, deitada contra a parede, escondida entre as poltronas e mesas, os tiros ainda vêm de todos os lados. Contudo, mesmo que o mais racional seja ficar, Emma não pode. Precisa sair. Precisa dela, precisa protegê-la com sua vida, porque era exatamente isso que Regina era: Sua vida.
Arrasta-se o mais discretamente possível, segurando-se para não gritar ao ver os cadáveres ao redor, além dos tantos feridos que gritavam e definhavam diante de si. O odor fazia seu estômago revirar. Emma não era religiosa. Emma não acreditava em deuses. Mas ali, rogou à todas as divindades existentes que protegessem sua amada e seus amigos. Enquanto suas mãos a impulsionavam lentamente para frente, pelo chão frio e escorregadio de sangue e bebidas dos copos pingando das mesas e balcões, avistou longe, na pista de dança, do lado direito, várias pessoas sendo alvejadas contra a parede. Abafou o próprio grito. Não podia fraquejar.
Refez o mapa em sua cabeça com extrema dificuldade ao concentrar-se e finalmente sentir latejar a dor em seu braço. Respirava sem fôlego, sem força. August era um dos DJ’s e estava em sua pausa, fumando no pátio. Em seu lugar, Elliot, seu mais recente e gracioso amigo, apelidado por ela de “Merlin”, ainda poderia estar na cabine de som. Esperava que sim. Na pista de dança, Regina divertia-se com Killian e com ela antes de deixá-los para ir ao banheiro com Lilith. Esperava que Lilith ainda estivesse escondida lá. E que Killian e Regina estivessem bem também. Era aniversário do moreno e o mesmo partiria em breve para estudar na Irlanda, sua terra natal. Quando pensa em Ruby, seu coração acelera. Emma e a garçonete cresceram juntas em lares adotivos, como irmãs. A morena de mechas ruivas estava, naquela noite, responsável pelos turnos no bar. Deu graças por David e Mary, o casal entre seus amigos que era mais careta e reservado, não estar presente naquela noite, optando por um restaurante italiano romântico.
As luzes coloridas no ambiente escuro ainda piscavam. Emma olhou-as como se dançassem acima dela. Observa a aliança em seu dedo e chora ainda mais. Sentiu-se tola e egoísta pelo primeiro pensamento que lhe ocorreu: De que não desejava sair daquele lugar com vida se perdesse Regina. Um pensamento, para ela, incorreto. Mas um pensamento sincero. Continuou se arrastando, sabendo-se cada vez mais próxima de onde o atirador estava, o que aumentava seu risco de morte. Mas quem estava ligando? Regina era tudo que importava. Quando para para esticar o braço ferido, tentando encontrar força física para continuar, se vê na direção do bar, atrás do grande e reluzente balcão. Por um momento, uma chama de esperança se acende em seu coração. Ruby estava lá, olhando para frente, em prantos. Os corpos de duas garçonetes, ensanguentados, haviam caído em cima dela. Emma lhe fez um sinal com o indicador para que permanecesse escondida e a morena assentiu, pois sequer podia se mover. Ali ficou. E Emma foi em frente. Não pararia. Perderia todo o sangue que escorria de seu ferimento antes de desistir de encontrar Regina Mills.
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3h47.
Regina estava em prantos no canto esquerdo da pista de dança. Tudo tornou-se caos quando abandonou a ligação com Zelena e vários tiros vieram em sua direção e na de Killian. Sua cabeça latejava e suas pernas tentavam ceder. Emma. Emma. Emma. Pensava somente nela e no fato de que acabara de vê-la ser atingida e cair na frente dos banheiros. Sentiu-se fora do seu corpo, como se estivesse morta.
— G-gina... – Killian engasgava e chorava enquanto a morena tentava concentrar-se em estancar o sangue de sua mão esquerda, praticamente dilacerada pelo tiro certeiro, com sua echarpe negra. O rapaz tremia, fazendo-a rezar para que seu amigo não entrasse em estado de choque e não convulsionasse. Sua voz sempre tão galante, com seu sotaque tão presente, era baixa e fraca, anulando-se quase completamente. – Eu não quero morrer... Eu não quero morrer, Gina!
— Shhh, shhh... – Segurou seu rosto, pedindo-lhe silêncio. – Vai ficar tudo bem, meu querido. Fique quietinho e feche seus olhos. Por favor, por favor...
Killian assente, incapaz de proferir mais do que aquilo, fechando os olhos e tombando a cabeça no piso. Regina arrastou trêmula um cadáver e jogou em cima do rapaz. Ela precisava encontrar Emma. Precisava encontrá-la a qualquer custo. Sentia a necessidade de encontrar a todos que amava e que ali estavam, mas Emma estava em primeiro lugar, sempre estaria. Agachada, esgueira-se tentando ficar na altura dos corpos, evitando ser vista. Estava escuro demais na pista de dança e o atirador sequer mirava em vítimas específicas. Apenas disparava. Um pente esvaziava e o homem puxava outro, absorto.
De repente, a morena tropeça num corpo, caindo. Permanece imóvel, temendo ter sido notada. Ofega. Comprime os olhos. Nada. Quando seus olhos se erguem, ela o vê fuzilando outra fila de pessoas que estavam de costas, com as mãos na cabeça. Quando se vira, recarregando, a luz que irradiava do globo central, movimentando-se mais lentamente, mostra seu rosto. Regina arregala os olhos. O reconhecera. E não compreendia. Aquele homem era Robert Locksley, um frequentador, poderia dizer, assíduo. Já o vira diversas vezes na boate. Seu coração dispara e impulsiona-se a continuar. Passa a rastejar entre os mortos e feridos com as pessoas ainda correndo e gritando à sua volta. Vê, num raio de luz, August também correndo. Começa a chorar. Queria gritar para que o rapaz se abaixasse, mas era tarde demais. Quando o próprio e um grupo de pessoas desesperadas corria para o salão secundário, o atirador os vê e dispara incontrolavelmente. Ela levanta seu olhar para o local. Ninguém que naquela direção fora estava de pé.
~
4h.
Lilith Page tremia da cabeça aos pés na cabine silenciosa. No banheiro, o barulho dos tiros era abafado pelas paredes grossas e pelo duto de ventilação, porém, continuavam ensurdecedores. Encolhida entre a porta do box e o vaso sanitário, seu único desejo era gritar a plenos pulmões, como se isso pudesse salvá-la. Mas não podia. Os gritos morriam. Olhou para baixo, inclinando-se e enxergando nos outros três boxes, três corpos sentados, pés agitados, respirações ofegantes. Prestes a enlouquecer, sente que precisa comunicar-se.
— Olá... Eu sou Lilith Page. – Começa. – Quem são vocês? Falem comigo... – Sussurra.
— Jefferson... – Um rapaz responde com o medo incrustado em sua voz. – Jefferson Stan. Olá, Lilith...
— Oi, Jefferson. – Exibe um fraco sorriso, mesmo que ele não pudesse ver.
— Merida Dunbroch. – Outra voz é ouvida, igualmente sussurrada. – Olá, Lilith e Jefferson.
— Olá, Merida. – Lilith ri baixo. – Seu nome é muito bonito e seu sotaque também. Vou chutar... Escócia? – Tenta estabelecer um diálogo para não fraquejar de vez.
— Sim. Visitando parentes americanos. – Lilith sabe que a garota está sorrindo ao responder-lhe.
— E você? – Jefferson olha por baixo de sua cabine, encarando os saltos e as pernas trêmulas, agarradas por mãos trêmulas, de uma figura muda que ainda não havia se pronunciado, perdida em seus temores. – Fale conosco... – Pede. – Diga o seu nome...
— Ariel Swicher... – A moça sussurra. – Olá. Desculpem... Eu estou com medo...
— Eu também estou, Ariel. Mas ficará tudo bem. Você está segura. – O rapaz tenta confortá-la.
— Estou vendo seus longos cabelos daqui, Ariel. – Merida quase se deita para vê-la de sua cabine. – Sempre amei meus cachos alaranjados, mas o vermelho dos seus é o mais bonito que já vi. São realmente lindos.
— Obrigada... – Ariel ri, ainda sussurrante. – Obrigada, Merida.
O celular de Lilith vibra no bolso de seu casaco, interrompendo-lhe toda a concentração da conversa. A morena o pega extremamente afobada, tentando ignorar os gritos do lado de fora. Observa a tela, paralisada. Sua mãe. Exatamente dezesseis chamadas perdidas de sua mãe, provavelmente não ouvidas devido ao seu estado emocional, alterado somente ao conversar com aquelas desconhecidas pessoas escondidas no banheiro. Desliza seus dedos formigando, atendendo-a finalmente. A cumprimenta com as primeiras palavras que lhe surgem.
— Eu te amo, mãe. Eu te amo muito.
~
Kristin Page, uma renomada advogada criminalista, aproveitava o conforto de sua casa naquela fria madrugada de domingo, ainda divertindo-se com as mensagens que trocava com o paisagista que cuidaria de planejar o majestoso jardim que tencionava fazer nos fundos. Daniel Colter, apesar de ser um rapaz muito mais novo que ela, a encantava. Mãe solteira e extremamente obstinada, construiu sozinha a vida que desejava. Apesar de tudo, o materialismo não lhe era tão valioso assim. A única coisa que lhe importava era sua filha de vinte e três anos, Lilith. Naquela noite, a jovem havia saído para comemorar o aniversário de um amigo e Kristin impressionava-se com a falta que ela fazia, mesmo que somente por algumas horas. Para distrair-se de suas preocupações, deixou que ecoasse em todos os cantos a obra “Summertime”, de Gershwin, bebericando seu vinho branco favorito e lendo um dos romances pelos quais a filha era apaixonada.
Em determinado momento, devido ao cansaço nas vistas, deteve-se. Estava sonolenta e com uma leve tontura diante da quantidade de vinho. No dia seguinte o mesmo amigo de Lilith, Killian, faria uma comemoração um pouco mais familiar, o que para ela significava acordar cedo e preparar um delicioso prato para levar à festa. Considerou que talvez fosse melhor ir para a cama, o que não faria sem verificar como estava sendo a noite do ser que mais amava no mundo inteiro.
Discou distraidamente o número. “Lily”. Nada. Uma segunda vez. Nada. A terceira, a quarta, a quinta, a sexta, a sétima. Sua expressão se fecha, retorcida. Estaria a música tão alta para Lilith não ouvir, e a dança agitada demais para não sentir o aparelho vibrar em um dos bolsos? A oitava, a nona, a décima. Nos registros constava, subindo: Onze, doze, treze, quatorze chamadas e nenhuma delas atendida. A bela composição de Gershwin chegara ao fim e o silêncio instalou-se na casa como num funeral. Respirou fundo. Tamborilou os dedos na coxa direita, cruzada sobre a esquerda. E o medo de que houvesse algum motivo preocupante a invadiu. A décima quinta tentativa. A décima sexta. Nada.
Praguejou, erguendo-se e andando de um lado para o outro. Lilith sempre atendia suas ligações, independentemente de onde estivesse. Ao mesmo tempo dizia para si mesma que não deveria se alarmar. Ela estava numa boate com os amigos, poderia perfeitamente estar tão conectada à sua diversão que não estava ouvindo o celular.
Não resistiu. Iniciou a décima sétima tentativa. E Lilith finalmente atendeu.
04h.
— Eu te amo, mãe. Eu te amo muito.— Dizia ela do outro lado, fracamente.
— Lilith? – Franziu as sobrancelhas, arrepiando-se com seu tom de voz. – Lilith, onde está? Que barulheira é essa? É a música que vocês jovem escutam, realmente?
— Mãe...— Sussurrava. – Tem alguém na boate. Um homem, está matando as pessoas.— As lágrimas já escorriam em seu rosto.
Kristin estremeceu, abrindo e fechando a boca repetidamente. O desespero, certas vezes, é uma fagulha minúscula dentro de nós. Está lá, sempre aceso, esperando. E na menor alteração negativa de nossas emoções, tudo que somos se torna pólvora que, ao entrar em contato com essa fagulha, explode. Explode e nos destrói. Era como a advogada se sentia: Um oceano de pólvora no qual cai uma pequena fagulha. Ou mesmo um sopro de faísca. E explodia, danoso, ferino. Move-se descontroladamente, pegando apenas as chaves do carro e deixando a porta aberta. Summertime, de Gershwin, recomeçava no rádio.
— Onde você está? – Consegue perguntar, arrancando com o carro enlouquecidamente.
— No banheiro. Eu estou com medo, mamãe.— Lilith nunca a chamava de mamãe, exceto quando sentia-se assustada, magoada ou saudosa. – Emma, Killian, Regina, August, Merlin, todos eles estão lá fora. Eu não sei como estão. Não sei se estão vivos. – Tentava engolir de volta os soluços rasgados que vinham de sua garganta.
— Fique escondida. – Orienta, tentando não perder as estribeiras. – A polícia deve estar a caminho, assim como eu estou. Sei que ama seus amigos e quer vê-los, mas não há nada que possa fazer. Esconda-se e espere, minha querida. E ficará tudo bem.
Um baque do outro lado. Kristin se move no banco do motorista, pigarreando, contendo-se. Precisava se conter, porque ficaria tudo bem. Tinha que ficar. O velocímetro do carro subia sem que percebesse devido ao medo. Poderia jurar que, naquele momento, até cheirava a medo. As buzinas não passavam de sussurros. Os motores, o comércio, o mesmo. Não estava em condições de ouvir nada que não fosse a voz embargada de sua filha.
— Eu te amo, mamãe.— A garota repete após o baque. – Ele está aqui. Ele está no banheiro.
— Lilith... – Kristin Page chora. Aquela mulher tão eficaz, tão poderosa em seu ofício, não tinha palavras para lhe dar. Nem mesmo um único consolo. – Eu te amo.
Tiros. Krstin ouviu os primeiros tiros e gritos ensurdecedores. Depois, somente gritos. Uma pausa. Mais tiros, mais gritos. E palavras desconexas. Tiros. Disparos irrefreáveis.
— Eu vou morrer, mamãe. – Lilith fala em alto e bom som, agora.
Tiros. Tiros. E mais tiros. Silêncio. O telefone fica mudo. Kristin grita. Grita em seu carro, acelera, ultrapassa arriscadamente a todos, quase atropela um grupo de pessoas que atravessava a rua. Grita tanto que sua voz deteriora-se gradativamente. As lágrimas não ardem em seu rosto, ardem em seu peito, em sua alma. Não. Algo acontecera e o telefone emudeceu. O atirador sem identidade não chegou até ela. Não podia ter chegado, não em sua menina. Não em seu tesouro mais imensuravelmente caro. Não em Lilith Page.
~
04h23.
As equipes estavam reunidas. Um pelotão entraria pelos fundos e outro entraria pela frente. Tudo conforme as orientações e ordens de Zelena, que lutava contra seu próprio terror. Ordenou que Neal Cassidy entregasse os coletes, armas e o equipamento de visão noturna, porém, o rapaz negou. Estava à frente do pelotão que entraria pela entrada principal. Neal estava com medo e não diria o contrário, mas a necessidade de salvar a todos, especialmente seus amigos, agora o controlava. Não deveria ceder às emoções, mas toda a lógica se fora quando Zelena lhe disse o endereço de onde ocorria o que a própria ruiva chamou de massacre.
Seu pai, o famoso tenente Gold, agora aposentado, o incentivou a entrar para a polícia muito jovem. E Neal apaixonou-se pelo ofício de servir e proteger. Viu todos os tipos de criminosos. Todas as vítimas. Todas as atrocidades. Mas jamais havia se visto numa situação como aquela, onde não apenas sua humanidade o destruía por pensar naqueles tantos cidadãos em perigo, mas também seu coração estilhaçava por seis de seus amigos mais próximos estarem presos no local. Os disparos detinham-se e logo voltavam. Os gritos eram muitos. Tantas vozes. E esse coro de vozes diminuía a cada tiro. Poucas conseguiam correr dali, jogando-se debaixo dos carros no estacionamento, feridos arrastando-se pelo asfalto, sendo socorridos aos berros. Antes de se posicionar com sua equipe, olhou uma última vez para Zelena Mills. E num único olhar compartilharam toda a dor, toda a angústia. Dores entrelaçadas que tentavam, em vão, se consolar. Assim, somente vai, tirando sua arma do coldre e aproximando-se a passos lentos da entrada principal.
Zelena desejou, pela primeira vez, fechar os olhos e rogar para que tudo não passasse de um pesadelo. De um pesadelo derivado de um trauma, um sonho ruim que não mais voltaria, do qual ela acordaria nos braços de Ruby ou acordaria apavorada e a porta de seu quarto se abriria, revelando Regina com seu travesseiro e um abraço que tudo aplacava. Era uma profissional e não podia falhar, porém, também era uma namorada. Uma irmã. Uma amiga. E ali havia tantos, tantos para contar. Mães aos prantos, clamando por notícias. E pais, filhos, irmãos, amigos, avós, até mesmo chefes e empregados, alunos e professores, vizinhos. Todos com os olhos vidrados naquela boate onde sempre havia tanta alegria, tantas comemorações.
05h.
Um carro vermelho invade o aglomerado. Seus pais saem dele e seus olhares dizem tudo, tudo que Zelena sentia-se incapaz de explicar, de garantir. Não havia garantias para nada, nem ninguém. Nem mesmo para sua sanidade. Uma moto esportiva e veloz freia ao lado do carro e dela praticamente pulam David Nolan e Mary Margaret Blanchard, também amigos de longa data. A cada segundo que não podia contar, cada vez que piscava lentamente os olhos, mais pessoas surgiam. Mais rostos aterrorizados e rostos conhecidos. Zelena golpeia a mesa improvisada onde estenderam o mapa, a planta especificada da boate para localizarem todas as entradas e saídas possíveis. Quando um trio de Drag Queens que se apresentaria naquela noite aparece a passos largos após terem pulado o muro do pátio com as roupas ensanguentadas, Mary Margaret abraça David com uma força descomunal, chorando em seu peito ao ver os ferimentos das artistas, temerosa.
Zelena se move. Cora a detém:
— Você não vai entrar! – A mulher expõe suas lágrimas. – Não! Eu a proíbo!
— Senhora, por favor, afaste-se. – Fa Mulan ergueu suas mãos para ela, tentando contê-la. Mulan era uma imigrante chinesa que teve muito apoio de Emma Swan ao chegar nos Estados Unidos, que a loira abrigou em seu apartamento e a indicou para Zelena após ver seu currículo. A ruiva a guiou para um treinamento especial e a faria sua substituta quando deixasse o cargo.
— Não nos afastaremos coisa nenhuma, Mulan! – Indignou-se. – Minha caçula está lá dentro e eu não permitirei que Zelena entre também!
— Afastem-se. – Zelena ordena. – Mulan, contenha-os se necessário for.
Volta a caminhar na direção da entrada para falar com Neal e sua equipe. Não poderia mostrar aos pais sua dor, seu medo. Não poderia abraçá-los e se sentir protegida. Precisava fazer seu trabalho. Precisava salvar quantos pudesse. Acima de tudo, repreendendo-se como o oficial Cassidy se repreendeu, dizia-se que precisava salvar as pessoas que amava. Havia colocado a caixinha de veludo com o anel para Ruby em seu bolso. Uma prece para si mesma. Assim que a tivesse de volta em seus braços, a pediria em casamento e nunca mais saíria de perto dela. Nunca mais deixaria de ouvir sua voz sensual, seus trejeitos zombeteiros. Nunca mais deixaria de elogiar seu companherismo e fidelidade incomparáveis. Nunca mais, nunca mais a deixaria sozinha, nem que tivesse que parar sua vida e carregá-la para todos os lados.
~
05h15.
August sentiu a dor lhe atravessar ao cair em meio às outras pessoas. Sua perna direita ardia. Havia sido baleado. Baleado sem encontrar e salvar nenhum de seus amigos. Três tiros. A vertigem é inevitável. O enjoo também. Permaneceu deitado ali. Ao menos assim pareceria, para o atirador, um dos mortos. Forçou-se a não gritar quando outros correram em sua direção, o pisoteando. Uma dor nunca experimentada. Um moça, correndo, pisa em seu braço e o salto alto quase o perfura. Seus berros são mudos, afogados. Mas em sua própria mente, gritava com todas as suas forças: Por quê? Estavam bebendo, dançando. Comemorando. Beijou uma garota belíssima na pista e conversava com outra antes de ir para o pátio fumar, pouco antes de ouvir os disparos. A moça com a qual conversava estaria viva? Ela era espetacular. Uma portuguesa, de Lisboa, cujo os pais, apaixonados pela literatura épica, a batizaram de Guinevere. Guinevere estava em um conflito amoroso entre seu namorado e o melhor amigo do mesmo, chorando num canto, quando August se aproximou e logo estavam conversando como bons amigos. Ela disse que ele conseguira lhe animar e ele a incentivou a dançar e esquecer-se do mundo. Foi quando saiu para fumar. Foi quando ouviu os primeiros tiros, acreditando que Elliot, seu amigo Merlin, em seu lugar, havia derrubado bebida nos equipamentos e bagunçado a música. Mas o barulho continuou. Eram tiros. Foi quando se escondeu. Por quê? Por que estavam fazendo aquilo? Por quê?
Mais pessoas o pisoteiam. Pode ouvir seus ossos quebrando e não sabe mais o que é dor, como se estivesse anestesiado. Queria ver seu pai, Marco. Queria ver seus amigos. Queria sair dali com vida. Para sua desgraça, o atirador se aproximava. Parou diante de todos e começou a atirar em todos que estavam deitados, vivos ou mortos. August sentiu que morreria. Sentiu o fim diante de seus olhos. Viu o rosto de uma moça ao seu lado ser estourado pelo tiro e o sangue espirrar sobre ele. O homem caminhou para frente e apontou para sua cabeça. August não se moveu. Ali estava. Era a hora.
Como se uma força divina intercedesse por ele, o tiro que deveria acertar sua cabeça, acertou sua mão. Espremeu os olhos, mais um grito mudo. Minutos e minutos se passaram enquanto o homem continuava a atirar em todos à sua volta. Foi nesse momento, onde August novamente pensou que morreria, que uma luz surgiu de fora e um grupo de pessoas entrou. Não conseguia a ver claramente, estava perdendo a consciência. Tiros dos dois lados. Tinha que ser a polícia, desejou que fosse com toda a sua fé. O atirador corria de volta para a pista, atirando contra o grupo. Alguns caíram. O homem continuava de pé.
05h29.
Sua visão parece encontrar um foco. E August sente que havia uma espécie de anjo ali. Neal Cassidy, seu amigo. Seus olhos se encontram como imãs. E os do oficial arregalam-se. Deixa sua arma pendurada na correia e corre até ele, começando a arrastá-lo. Verificando que o amigo estava vivo, usou de toda sua força para continuar arrastando-o para longe. August finalmente grita. Os cacos de vidro pelo chão lhe rasgam a pele, perfuram-lhe inteiro. Olhando para cima, quase desmaiado, finalmente viu a lua. Um belo luar, regado de estrelas. Estava fora da boate. Um grito de Neal “Um médico aqui, rápido!” é somente isso que escuta antes do policial correr de volta para dentro.
Num lapso, August consegue se sentar, olhando para a entrada destruída, sentindo vários braços ao seu redor. Uniformes brancos, vermelhos e azuis. Médicos, paramédicos e bombeiros tentavam fazê-lo deitar-se para socorrê-lo, mas a dor havia desaparecido e o rapaz só conseguia gritar:
— Neal! Não, não! Neal, volta, não entra aí! Ele está aí, ele vai matar você! NEAL! NEAL! NEAL!
Uma injeção é aplicada em sua perna ferida. Seu corpo pesa. Esgotado, finalmente, tomba sobre a equipe médica.
~
06h.
Emma não desistiu, como disse a si mesma que não faria. Continuou se arrastando, entregando todas as suas forças ao objetivo de encontrá-la. O rastro de seu sangue era longo, havia percorrido um extenso e sôfrego caminho pelo piso, com seus olhos atentos. Ao redor do buraco da bala, um enorme círculo roxo. Quando pensou que perderia o movimento do braço atingido, seus olhos a encontram. É ela, bem em sua direção. E os olhos de Regina também a encontram. Estavam procurando uma pela outra e sabiam disso. Sempre se buscavam. Sempre se achavam.
Encontrou sua força. Seu motivo. Centímetro por centímetro, arrastam-se. A dor de Regina exterioriza-se em lágrimas quando vê o ferimento da namorada. Para Emma, ver o rosto mais lindo que já vira em toda sua vida tão devastado é a mais insuperável dor. Arrastando-se, seus dedos se tocam. Emma sorri. Ela estava viva e, aparentemente, sem ferimentos. O atirador não estava por perto e agora os tiros vinham de ambos os lados.
— Emma... Não... E-eu... – Regina soluça quando se aproximam. Não consegue mais pensar no atirador. A arrasta um pouco mais, até um canto entupido de corpos quase empilhados. Ignora o sangue, o odor e as peles gélidas nas quais apoia as costas. A puxa para seus braços e sente-se viva novamente. Sabia que seria assim. Emma Swan, para ela, era tudo. Absolutamente tudo.
— Regina... – A loira sussurra, tremendo contra ela. – Eu te achei. Eu tinha que te achar, me perdoa. Eu te amo tanto. Eu tinha que te achar...
— Não, não fale... – Pranteia. Cada lágrima sua que escorre no rosto de Emma limpa o sangue que nele havia. – Eu tive tanto medo, meu amor, tanto medo. Vou tirá-la daqui, vou cuidar de você, eu prometo.
— Eu os perdi, minha vida. – Emma também chora. – Eu perdi todos eles. Vi Ruby. Mais ninguém... – Agarra-se a ela com o braço bom, afundando o rosto em seu peito.
— Está tudo bem. Vai ficar tudo bem. Não chore, meu amor. Vai ficar tudo bem. – A conforta, beijando seus lábios repetidamente. Não lhe importava que estivessem manchados, tingidos de vermelho, do sangue, do chão. A beija incessantemente, repetindo tanto para ela quanto para si mesma. – Não faça esforço, não fale. Eu preciso tanto de você. Não vou deixar mais nada te acontecer. Seja forte para mim...
Era o que prometia, mas não o que poderia cumprir. Porque o atirador, correndo dos policiais, as vê. E seu olhar é fera. Seu olhar é frio. Seus movimentos são lentos. Suas intenções são claras. Emma Swan e Regina Mills, as amantes que atravessaram um inferno para se encontrarem naquele caos eram suas próximas vítimas.
~
06h13.
— Zelena, não faça isso! – A irmã de David, Kathryn Nolan, segundo oficial do departamento de polícia comandado por Neal Cassidy, tenta impedir a detetive de entrar. – O pelotão de Neal está responsável por isso, precisa ficar e orientar todas as equipes!
— O sinal de rádio do Oficial Cassidy emudeceu há quase vinte minutos! – Retruca, carregando suas armas. – Vou entrar e ajudá-los! Graham! – Grita.
O policial surge ao lado de Peter Kay, um jovem recruta, ambos armando-se para entrar com a equipe que invadiria a boate pelos fundos.
— Sim Senhora! – A cumprimenta.
— Seu pessoal vai entrar agora. Leve todos para lá, sem erros. Vá com cinco oficiais pela direita e Peter vá com cinco pela esquerda. Cerquem esse maldito. Não quero saber o que farão, se conseguirão capturá-lo ou se descarregarão todas as balas em cima dele, mas eu o quero detido agora mesmo!
— Sim Senhora! – Repete, batendo continência e seguindo Peter para os fundos. Zelena respira sofregamente ao vê-los. Graham foi um de seus melhores. Como um caçador experiente, ele quase nunca errava. Quase. E Peter era apenas um menino. Vinte anos, um recruta com pouco treinamento. Mas lá estava ele, prontificado a servir.
— Seja racional, Zelena, os outros policiais, os médicos, essas pessoas precisam de liderança! Da sua! – Kathryn insistiu.
— Cale essa boca! – Vociferou, perdendo todo o senso. – Não me diga o que devo ou não fazer, recolha-se à sua maldita insignificância, Ofical Nolan! – Aproximou-se para encará-la, vendo-a assustada e confusa. Jamais havia tomado uma atitude como aquela. – E não tente me impedir ou me dar ordens! – Apontou-lhe sua pistola. – Porque se tentar, eu juro por tudo que é mais sagrado neste mundo que planto-lhe uma bala no meio da testa! Estamos entendidas?!
— Sim Senhora... – Sussurrou, abaixando a cabeça.
Zelena caminha depressa. “Dane-se!”, grita para si mesma. Danem-se as regras de segurança, as políticas de conduta. Dane-se todo o seu aprendizado, seu treinamento. Não podia mais esperar, estava morrendo por dentro a cada disparo e grito ouvido. Estava estilhaçando-se a cada ferido que da boate saía, a cada segundo em que os rádios de seus oficiais silenciavam-se. Precisava agir e agiria. A escopeta de seu pai ainda pendurada em seu ombro. As pistolas carregadas nas mãos. Os protestos de Henry e Cora, que só não a alcançaram porque Fa Mulan e Kathryn Nolan os detiveram. Os olhos de outros subordinados, médicos e bombeiros que a seguiam. Numa maca isolada, o olhar perdido, mas fixo nela, de August Wayne Booth, já amparado e fora de perigo.
A entrada é escura. A detetive sente-se encarar um abismo. Em sua profissão, era tudo ou nada. Vida ou morte. Um milésimo contava. Um passo em falso e tudo findava. Um par de olhos atentos e mãos velozes no gatilho e tudo se acertava. Tocou uma última vez um pingente que carregava em seu pescoço. Uma coroa para recordar-se de sua irmã enquanto a mesma estudava música na Alemanha. Podia ouvir uma das composições no piano de Regina. Uma das tantas canções que Regina compunha. Podia ver suas partituras espalhadas pelo quarto e seu bico manhoso quando tinha dificuldade em terminar um trabalho. Tão criativa. Tão visceral e profunda. Tão valiosa para ela, sua irmã caçula. Uma rainha.
Entrou. Esgueirou-se. Tentava olhar em frente. Se olhasse para baixo, temia que fosse o suficiente para quebrar suas pernas ao meio. Buscou com os olhos pessoas vivas, mas era impossível saber diante da escuridão e das luzes. As luzes ainda piscavam. Encontrou à frente parte da equipe de Neal Cassidy escorada contra as paredes, protegendo-se e armando uma estratégia em suas cabeças. O oficial fora baleado de raspão na coxa esquerda e pressionava a artéria de um homem. O homem era um dos primeiros amigos de Zelena no departamento. Era Walsh, um homem divertido e fascinado por truques de mágica. Ele iria morrer. A detetive sabia.
Faz um sinal silencioso para que não manifestem reações ou movimentem-se. Guia-se, abaixada, para frente. Tinha de ir em frente. Tinha que encontrá-lo. E o encontra. Posiciona-se atrás de uma mesa tombada, a metros de distância, buscando a mira ideal para exterminá-lo de uma vez por todas. Sabia que tinha feito a coisa certa: Não hesitar e entrar naquele mar de sangue e desespero para cumprir seu dever.
Num instante, o mundo para. O atirador e seu olhar demoníaco estão andando devagar. Zelena se ergue discretamente para ver. Entre a pista e o salão secundário, era ela. Regina. Regina abraçada a Emma. Emma estava desmaiada em seus braços, ferida. Vê sua irmã encarar o homem. Vê sua irmã o olhar com fúria. Regina não abaixou sua cabeça para esperar pela morte, e sim olhou dentro dos olhos inóspitos do maldito. Olhou para ele como se pudesse desintegrá-lo. Protetora, ergueu-se nos joelhos para proteger Emma com seu corpo. Assim era Regina. Era ela, simplesmente. Por amor, ela era capaz de tudo. Regina na mira do fuzil, na escuridão da boate Pulse, onde ocorria o maior massacre com armas de fogo que os Estados Unidos veriam. Regina na mira do fuzil, prontificada a morrer por Emma Swan, a quem entregara todo o seu coração. Zelena sabia que ela o havia feito. Por tantos anos a viu solitária, resignada e reflexiva, silenciosa. Quando Emma chegou, o mundo de Regina mudou. Seus sorrisos, seus hábitos. Suas composições. Emma havia colorido sua vida.
06h34.
Regina na mira do fuzil e uma fração de segundo para a ruiva.
Zelena se move. Levanta-se e corre em sua direção, expondo-se completamente. Deu-se à sorte. Tudo ou nada. Absolutamente tudo ou absolutamente nada. Assim, Zelena se move. Se move somente. Sem planos. Sem códigos. Sem lições. Sem experiência. Sem recuo. O atirador a vê e se vira para ela. Ele já está em sua mira e Regina não está mais na mira dele. É como um duelo no Velho Oeste.
Tudo ou nada.
Dispara. Zelena dispara com as duas armas, uma em cada mão, chocando-se com suas palmas cada vez que puxa o gatilho. No peito, nos braços, no abdomen, nas pernas, no quadril. Na garganta, no rosto, na cabeça. Zelena atira, atira, atira. Descarrega tudo. Quando seus pentes esvaziam, continua atirando sem balas, cega, hipnotizada.
Silêncio...
Morto. O atirador estava morto.
Zelena se vê com doze anos, passeando com sua família, passando por um orfanato simplório e vendo brincar com espadas de madeira duas garotinhas. Uma loira de olhos esmeraldas e uma morena de mechas de aplique vermelhas.
Zelena se vê com dezessete anos, entrando com uma identidade falsa na boate Pulse e vendo uma moça muito jovem, com no máximo dezenove anos, servindo bebidas de sua criação e sendo elogiada, surpreendendo todos os clientes. Uma misteriosa morena de mechas vermelhas.
Zelena se vê ingressando na academia. Seus pais estavam orgulhosos. Naquele dia também seria a formatura de Regina. Na porta do colégio, sua irmã abraçava e beijava, irradiando alegria, uma loira de olhos esmeraldas. Ao lado delas, rindo, uma morena de mechas vermelhas. Mechas que não eram mais artificiais.
Zelena se vê no apartamento de sua cunhada, Emma Swan, rolando entre os lençóis com aquela morena de mechas vermelhas, capturada por sua beleza, encantada com sua personalidade, rendida aos seus desejos. Emma nunca mais parou de caçoar delas quando, travessa, entrou no quarto gritando que o apartamento estava em chamas, acordando-as e fazendo-as correr nuas aos berros pelo loft.
Zelena se vê também em seus primeiros dias como detetive. Dias perigosos, carregados de tensão. Se vê chorando nos braços de Ruby, a tal morena de mechas vermelhas. Rindo igualmente. Se vê tão feliz, tão, tão plena.
Zelena se vê em frente à casa. A casa confortável de piso de madeira, tapetes orientais, janelas de sobra e um jardim de rosas. Sua morena de mechas vermelhas emocionada, olhando cada cômodo com um sorriso diferente, pulando da escada para ela, abraçando-a. Naquele dia, Ruby lhe disse que ela era o seu lar.
Zelena se vê no presente. Na escuridão da boate Pulse, sob as luzes. Seus olhos azuis miram o próprio peito. Sangue. Sangue escorre. Muito sangue. O cheiro invade suas narinas e a dor a consome. Ao longe, consegue ouvir a voz de Regina, aquela voz que sempre considerou tão linda e protetora. Do outro lado, a voz de Neal, seu amigo, seu parceiro. Dentro de si, sua própria voz dizia: Era tudo ou nada, Zelena. Você esteve o tempo todo ciente disso. Esteve sua vida inteira ciente dessa verdade. E entre tudo que você poderia ter esquecido nesta noite, esqueceu-se do colete à prova de balas.
Se é realidade ou sonho, não sabe distinguir. Diante de seus olhos, um campo de aromas leves e deliciosos. Um campo de lírios brancos. Fresco, regido pelo som do vento. De repente, a escuridão da boate novamente. De novo, o campo. A luz do Sol, seu corpo elevando-se.
Por fim, escuridão.
~
O massacre na boate Pulse, que ocorreu na madrugada do dia 12 de junho, resultou em cinquenta mortos e cinquenta e três feridos. Um rasgo em carne viva em milhares de almas. Um sofrimento irreparável em dezenas de vidas. Uma exterminação em massa numa única noite que, se fosse dividida em proporções menores naquela cidade, ou generalizada, contando o número de corpos não somente em Orlando, mas no mundo inteiro, acontece todos os dias na comunidade LGBT. Uma noite de terror que jamais será esquecida. O sangue, os gritos. Os disparos. Um desespero intraduzível. Para alguns, insuperável. Comoção mundial. Fervor jornalístico.
Na manhã nublada do dia quinze de junho, uma quarta-feira, nos cemitérios havia pranto. Havia perguntas irrespondíveis, dores intangíveis, indignação, discursos e também... Silêncio. O pelotão se coloca ao lado do caixão, aponta as espingardas para cima e atira uma, duas, três vezes. A bandeira nacional é dobrada e colocada sob o tampo madeira. Centenas de flores de todas as cores e espécies. Centenas de homenagens e agradecimentos. As vítimas e a crueldade serão sempre lembrados. Mas os herois também serão.
August Wayne Booth, com seus incontáveis curativos, chora. Elliot, o Merlin, sem ferimentos por permanecer escondido na cabine do DJ, chora. Killian Jones, os restos da mão esquerda amputados, chora. David Nolan e Mary Margaret Blanchard, dois dos tantos que desesperaram-se do lado de fora, choram. Graham Humbert, Peter Kay e Kathryn Nolan choram. Neal Cassidy desfaz-se em lágrimas, perdido. Kristin Page chora em profundo silêncio, prestando a homenagem que sua filha não pôde prestar, pois Lilith Page estava em estado grave no hospital. Lilith estava em coma. Cora Mills pela primeira vez em sua vida chora compulsivamente, amparada por Henry Mills, igualmente destruído. Há rostos demais em prantos. Enquanto as flores são colocadas, todos choram.
Regina Mills, agarrada a Emma Swan e seu braço imobilizado, chora de uma forma que ninguém ali seria capaz. Seu choro é engasgado, desesperado. Emma chora um pouco mais contida, tentando dar à ela a força necessária. Sabia que precisava. Acaricia seus cabelos, beija sua testa e mantém-se em silêncio. Sentia que jamais poderia agradecer. Talvez não pudesse. A única coisa que poderia fazer era manter-se ao lado de Regina. Mantê-la segura. Amá-la como a amou quando seus olhos se cruzaram pela primeira vez no auditório do colégio.
Afastada, Ruby Lucas não chora. Fita o caixão e suas lágrimas não saem, não mais. É como se tivessem secado completamente. Não sente seu corpo, sua mente. Vaga num mundo paralelo. Vaga sozinha e diminuta.
Neal Cassidy deixa cuidadosamente as medalhas dela. Muito pouco diante do que ela merecia, pensava ele. Muito pouco. Ela merecia tudo. Zelena Mills merecia viver. Merecia viver e ser feliz. Neal estava ciente de que isso era comum em seu trabalho, mas não sentia-se capaz de conformar-se. Era ela. Talvez, se fosse qualquer outro... Mas não era. Era ela.
Zelena faleceu a caminho do hospital naquela noite. Os que estavam na ambulância, diziam que ela parecia em paz. Secretamente, ela estava. Vira Ruby escondida no bar e salvou a vida de Regina e Emma. Era tudo que desejava, acima de todas as outras coisas e pessoas, mesmo que isso parecesse errado diante de seu cargo de detetive. Ninguém saberia o que Zelena viu ao deixar este mundo, mesmo que muito dela tenha permanecido permanentemente nos corações de centenas de pessoas. Deixou este mundo com uma caixinha de veludo firmemente apertada em seus dedos.
— Se Zelena estivesse aqui, ela diria... “Qual é a de vocês?”.— Ruby começa sem roteiro ou permissão, atraindo todos os olhares. – Ela perguntaria que raios estamos fazendo. Ela diria “Parem com essas caras tristes! Façam uma festa, uma bebedeira!”. Diria “Lembrem-se de mim como me conheciam e não como alguém que não mais serei”.
Ruby arrancou alguns sorrisos. Sorrisos comovidos.
— E ela era... – Finalmente suas lágrimas voltam a escorrer livremente. – Zelena era a mulher mais corajosa que tive o prazer de conhecer. Minha luz. Minha amante, minha amiga e minha protetora. Minha confidente. Zelena deixou tantas marcas em mim. Tantas assinaturas em minha memória, em minha pele, em minha alma. – Sorriu. – Eu não pude ver, mas não preciso que me digam para saber exatamente o que ela fez naquela noite. Ela lutou. Ela salvou. Diante de todas adversidades, Zelena foi muralha. Eu sei que ela não hesitou. E também sei que ela temeu. Eu sei tudo que há para se saber sobre ela. Mas o mais importante, eu sabia que Zelena me amava. Soube desde o início, desde o primeiro olhar, que Zelena me amaria, que eu a amaria e que esse amor mudaria o curso da minha vida inteira. E mudou. E eu sou grata.
Ninguém ousava interrompê-la. Ninguém seria capaz de controlar os soluços, assim como ninguém seria capaz de controlar os sorrisos. Zelena tinha essa habilidade nata de provocar felicidade.
— Para onde quer que você vá, meu amor, tem que ser bom. Tem que ser glorioso para merecer você. Você também me conheceu por inteiro, Zel. E soube que, apesar de todas as trapalhadas, eu nem sempre tive esperança. Eu nem sempre quis viver. E por você me ensinar a fazê-lo, eu juro que não pararei agora. Eu juro que viverei cada dia com garra, com a coragem que você me deu. E onde quer que esteja, caso possa me ouvir, precisa saber que eu sempre a amarei. Porque você me deu tudo, eu lhe dei tudo e nós tínhamos o mundo nas mãos justamente por isso. Você não me salvou somente naquela noite, Zelena. Você me salvou desde que passou pelo orfanato com sua família enquanto eu e Emma brincávamos com as espadas de madeira. Você me salvou de todas as formas que uma pessoa pode salvar outra pessoa. Fique em paz, meu amor. E eu ficarei em paz para você. Adeus. Adeus, meu grande amor.
Notas finais
Aqui estamos. Um beijo para vocês, estou feliz que tenham lido até aqui. E não se esqueçam: Que tentem à vontade. Que armem-se e marchem contra nós. Que façam o alarde que desejarem. Que atirem e bombardeiem até se cansarem. Nós nunca, nunca abandonaremos nossa luta.
Até breve, queridos. :)
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