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4 O abismo olha para você
Notas iniciais
Jocelyn estava em êxtase.
Obviamente se a definição do sentido da palavra levasse-a para o estado critico e exasperado pendendo para o deplorável, o que em questão não deixava Jocelyn menos extasiada.
Ponderou ligeiramente a estela de Clary, pensando cruelmente em que fim pudesse ter levado sua filha a desaparecer tão rapidamente, aleijando seus princípios antes persuasivos por ter sido tão dura, e ter, friamente, não dado espaço para que Clary argumentasse o porquê do desejo tão árduo de ir à cremação do irmão. Aliás, Jonathan fora irmão de Clary, não?
Jocelyn Fairchild a esta indagação era cética.
Ouvia todos os dias ouvindo como tambores contracorrentes o minucioso verso tão malévolo que jurou que Sebastian estivesse entoando-o em seus tímpanos:
“Cedo de manhã, naquela noite, dois meninos mortos se levantaram para lutar, dando as costas eles se encararam, e puxando as espadas eles atiraram um no outro, um guarda surdo ouviu o barulho, veio e matou os dois meninos mortos.”
Sentia-se cada vez mais insana, presa e encurralada em uma mítica vila que abrigava Seres do Submundo e Caçadores de Sombras anarquistas a Clave. Não que particularmente fosse contra, mas ela sentia-se como se sua convivência com eles fosse completamente a parte, como um refugo acolhido para que não permanecesse em Nova York servindo as leis. Clary, após descrer das palavras flamejantes de Max, e de toda a historia estranha de como ele após ser vitima de um martelo nos miolos simplesmente acordou lá, assim como Clary acordou no hospital abandonado, e ela pensou tão seriamente que estaria morta que a poucos segundos de enfiar uma ponta de lança em seu estomago ouviu Keith dizendo o quão tonta ela era em pensar em se matar e que na opinião dele- a qual Clary não se interessava- ela estava tendo um surto de fricote. Keith era resumidamente, como dizia a garota upir, Madô, detestável. E Clary aprovou o adjetivo.
– Este garoto é mestiço, eu tenho certeza. – dissera Sebastian referindo-se a Keith- eu posso sentir o cheiro dele, ele mantem sangue real nas veias. Mas não posso afirmar que o sangue real é de uma pessoa aceitável para você, irmãzinha.
Ela descartou o comentário dele com um aceno desleixado, enquanto Madô explicava cada detalhe sinuoso da descendência upir, e Keith como o icônico Keith parecia estar bem mais entretido com as cotículas da unha.
– Quer dizer que vocês são como dragões? – perguntou Clary sem nenhum esforço para conter o entusiasmo.
– Não. – disse ríspida Madô, e após sentir-se mau por ter colocado mais raiva na frase do que pretendia, reformulou a resposta- Não, nós somos dragões. A linhagem upir é quase tão extinta quanto a quimeras, mas certamente existem algumas escondidas da Clave para que a mesma não as force a procriar-se para prevenir a dizimação da espécie...
A cabeça de Clary parecia prestes a ter um colapso, além de dragões, agora existiam quimeras, o que mais poderia ser possível a vivencia? Zumbis? Basiliscos? Krakens? Alvo Dumbledore?
– E tudo bobagem para encher linguiça.
Com o repentino pronunciamento, Clary teve que procurar o dono da voz, movendo diligentemente a cabeça para que, se Sebastian tivesse falado ela não fosse taxada como louca, mesmo que Keith já pensasse assim, e recapitulando: ela não dava à mínima.
E para sua sorte- ou azar- quem soltou a língua foi Keith, escorado em uma obra dadaísta confeccionada por Madô.
Ambas o fuzilaram com os olhos, que juntos como uma matiz de cores que minguava entre o verde esporádico de Clary e o vermelho sangue e desolação de Madô.
– Upirs não são uma raça própria, elas originaram dos vampiros. Assim como as quimeras dos demônios. Caçadores de Sombras dos anjos e assim sucessivamente...
– E as fadas como foram criadas? Contaram-me que são derivadas dos demônios, mas demônios são definitivamente deploráveis e as fadas tendem a ser bonitas. Outra pessoa confiável me disse que eram criaturas semidivinas- Clary não se aguentou- Não pode acreditar que tudo é derivado. Algumas coisas simplesmente existem. Assim como Deus. Deus não é derivado.
Há dias atrás, bem depois de ter sido levada por Keith para vila, Madô relutantemente contou a Clary que Keith havia sido abandonado ainda recém-nascido e que sua falecida mãe o havia encontrado na sarjeta. E depois do ocorrido Keith começou a crescer misteriosamente, sua inteligência fora expandindo e o talento nato com arco e flecha se aprimorando. O que fez Clary pensar, se em um curto espaço de tempo, Keith encontrado na estrada crescera tanto, era que nada a menos nada a mais ele era descendente...
– Como você sabe...- suas palavras pareciam serem sugadas ao éter, assim como sua postura rígida e imaculada de “Dane-se vadia”
Ela sentiu a sombra de um corpo de sobrepondo a si.
– Agora ferrou irmãzinha- sussurrou Sebastian, com o hálito salobre roçando seu pescoço — seu sobrinho bastardo parece estar muito irritado.
Uma semana. Uma miserável e tormentosa semana havia se passado, e não havia nenhum sinal abundante de Clarissa Morgenstern. Ela tinha se desmaterializado em seu próprio quarto. O qual Jace Herondale estava ocupando.
– Mas como assim, Jocelyn?- bravejou ele com a mãe de Clary- como ela pode ter sumido sem deixar indícios? Por que realmente como ela pode ter saído da casa do Luke sem que ninguem tivesse visto-a?
Os cabelos embaraçados e desgrenhados de Jocelyn indicavam o pranto dela, pelos primórdios perdera um filho, agora perdera sua filha.
– Eu não sei, eu não sei...- repetira com a voz abafada por estar chorando compulsivamente no peito de Luke- ela não podia nem se quer mexer-se, havia uma runa de invalidez em suas pernas.
Jace afagou o cabelo que se encontrava longo suficientemente para que seus fios louros tocassem irritantemente sua mandíbula. E ele, somente ele sabia o quão Clary era indomável.
Ok ela poderia ter mantido a língua dentro da boca, ela poderia ter sido um pouco mais paciente com o filho da Rainha Seelie e... Hm... Ãh...Sebastian...Mas infelizmente ocorreu. O que mais lamentava era ver Keith discutindo com Madô, e o trabalho que dava manter Max tapando os ouvidos para não ouvir vocabulário indecente dos dois.
Desde o dia em que conheceu os dois e reencontrou Max Lightwood, nunca cogitou semelhanças entre seu irmão e Keith, mas se ele o encarasse podia ver ligeiramente uma igualação nas sobrancelhas do garoto e na postura sofisticada. Keith em si não carregava nenhuma marca de fada, nem olhos diversificados portadores de heterocromia, nem cabelo excêntrico. Apenas um garoto que, posto em um Instituto se passaria como um Caçador de Sombras puro-sangue, por mais que Clary odiasse essa classificação de tipo sanguíneo.
– É desnecessário você sabia? – ela disse a Sebastian que parecia tedioso demais observando a discussão alheia – você me fez dizer aquilo.
Ele não a encarou, mas respondeu um pouco inerte.
– Na verdade foi engraçado, mas já esta ficando desgastado. Diga a eles para pararem.
Não iria fazer isto, ela não iria, mas fez. E quando Madô Emerson e Keith Haloway pararam por frações de segundos para examina-na, ele teve uma grande certeza: Assim como Jace ficara manipulado por Sebastian por algum tempo, ela agora era manipulada por ele. E encontrar o garoto bastardo era somente o começo do plano de seu irmão, já que ele estava no inferno e não poderia fazer nada de lá, ele a instrumentalizaria. Agora ela iria ascender o inferno.
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