Notas iniciais
- Citarei três personagens nesse capítulo, sendo que apenas um aparecerá.
- Blaine não aparecerá no capítulo

“Vamos Kurt.” Chamou, na tentativa de me atrair; queria que o acompanhasse até a sala ao lado, para cumprimentar a visita. Agarrou meu pulso, assim, o puxou; cambaleei para perto.

“Não me TOQUE!” Reagi, estapeando a mão em que me segurava. Encarei-o; olhava-me enojado. Nenhuma novidade.

Bufou, caminhando até o centro da passagem de pessoas. Abanou suas mãos para mim, chamando-me para acompanha-lo. O segui; fazer o que, certo? Afinal, não quero perder mais nenhuma oportunidade de sair desse local que deveria ser denominado mesmo de inferno, não de hospício.

Acompanhando cada um de seus passos dados, caminhamos lado a lado entre batidas de ombros de outros pacientes naquele extenso corredor. Mais parecem pessoas mortas do que pacientes para mim; são cachorrinhos, obedecem tudo o que dizem. Eu não me incluo.

O mais legal é que alguns visitantes desses pacientes pensam que eu não vou notar seus olhares amedrontados em minha direção. “LOUCO! CORRAM!” Devem pensar. Eu não sou um monstro. Sou normal, do meu jeito, é claro.

Se eu mesmo tivesse de me descrever em uma palavra seria: Inocência. Ou gay.

Pronto! É só eu me perder num de meus pensamentos por segundos e se passam minutos e horas sem ao menos perceber. O tempo gasto para refletir sobre minha “Inocência” equivaleu à chegada à frente da porta.

Abaixo de mim, consigo sentir a sola de meus pés esfregando-se em algo coberto de pelos. “Bem Vindo” Olhei para baixo e me deparei com isso, um tapete de boas vindas. Steve um pouco à frente de mim, checando a maçaneta para posicionar a chave em que procurava, remexia em seu bolso.

“Do jeito que você é estúpido deve ter se esquecido de pedir a chave para Ander.” Interrompi o silêncio, atiçando Steve.

“Ander?” Perguntou, olhando-me sobre seus ombros.

“Anderson. Blaine Anderson, dã”.

“Que intimidade, em?” Sorriu, encarando-me maliciosamente.

“Cale-se” Disfarcei o sorriso, cobrindo-o com a gola de minha jaqueta.

“HMMMMMM” Debochou, rindo de meu desconforto com o que havia dito.

“Idiota” Sorri novamente, cobrindo minhas bochechas por completo. Estou avermelhando.

“Ander”

Calei-me, ignorando-o. Já com a chave posta em sua suposta entrada, Steve, apunhalando a maçaneta, a virou, assim, empurrou-a dando passagem para o aposento liberado. O local era pintado inteiramente de Branco; seus móveis, decoração, tudo. Alguns pares de rosas corroia o local com seu odor, o perfumando. A sala era friorenta, havia uma afeição calma.

Dei o primeiro passo, atravessando Steve, assim liderando a caminhada até o núcleo do local. Olhei em minha volta, analisando até os últimos detalhas em que a sala apresentava. Arrastava meus pés descalços sobre os friorentos ladrilhos esbranquiçados. À minha esquerda, a cafeteira e os sofás. À direita, os assentos rodeando uma mesa e mais algo. Mais alguém, na verdade.

“Pai?” Perguntou a pessoa por trás da escuridão do fundo do aposento. Levantou-se de seu assento a me ver, sorrindo. Parece estar animado, assim como eu, quando tive a capacidade de enxergar seu rosto afastado. Minha única salvação.

Rory seria seu nome. Um menino de 14 anos, estrutura mediana; possui olhos esverdeados e pele branca como a neve. Havia acabado de atingir sua idade atual, a uma semana atrás. A única data em que não ouso me esquecer, junto à de sua irmã: Helizabeth. Rory é o irmão mais velho, que anda cuidando da garota enquanto permaneço nesse local. Normalmente é o filho em que me visita, Helizabeth está com cinco anos agora, se não me falha a memória. Ousaram retirar minha filha com apenas dois anos de idade de meus braços e meu filho de onze, para me internar nesse hospital de loucos. Eu não sou capaz de atacar ninguém como eles. Entendam.

Rory é de origem Irlandesa, o que ainda dificulta na pronunciação das palavras e também, nas aulas de Inglês. É um rapaz muito inteligente por sinal, sempre se esforça por uma nota como A. Adotei-o no final de mês de dezembro, quando havia acabado de chegar no aeroporto americano; seus braços estavam inteiramente ralados, com uma das pernas engessadas, havia quebrado-a num acidente de carro que haveria causado a morte de seus pais. Segundo ele, havia demorado mais de 5h os bombeiros chegarem. Não aguentava mais os entulhos acima de sua perna, triturando seu osso; por sua falta de sorte, ainda continua com as aulas de fisioterapia. Já Helizabeth, resolvemos pagar uma barriga de aluguel, onde queríamos ter a certeza em que a criança nasceria saudável. Dito e feito nascera Helizabeth; tem cachos louros e belos olhos amarronzados; sua pele é um pouco mais bronzeada do que a de seu irmão.

Os dois são minhas únicas coisas preciosas que me asseguro que não vou perder. Parece que volto ao eu mesmo antigo quando sinto a presença de ambos em minha volta. Meu instinto de “mãe” dispara quando pressinto que algo acontecera com Helizabeth ou Rory.

“Filho...” Desmanchei-me em seus braços, após aproximar-se. Rory, entrelaçando seus braços em minhas costas, confortou-me em seu abraço, apoiando assim, meu queixo sobre seus ombros.

“Como vai o senhor?” Perguntou, enrolando-se nas palavras, logo após de largar-me de seus braços. Sorria, como sempre.

“A mesma coisa de sempre” Conclui respondendo-o, enquanto acariciava suas bochechas encharcadas por conta da neve. “Mas, não vamos falar de mim, vamos falar deste belo moço a minha frente, certo?” Sugeri, oferecendo o assento ao meu lado, enquanto sentava-me numa das cadeiras.

“Bom, eu...” Iniciou, aconchegando-se no móvel afofado “Ando tirando notas melhores na escola, maioria delas atingem A. Amigo meu anda me ajudando duas vezes por semana, visitando nossa casa. O pai parece estar mais atencioso, fora promovido.” Comemorou, contando-me cada detalhe que havia se passado nas últimas semanas.

“Sebastian é um amor de pessoa” Completei, elogiando o pai do garoto.

“Mesmo às vezes perdendo a cabeça nas bebidas” Comentou, desmanchando o sorriso que havia se formado em seu rosto.

O silêncio havia corroído o local, formando assim, uma tensão na conversa.

Sebastian Smythe é meu ex-esposo, tem mais ou menos minha idade, um pouco mais velho, continua bonito. Adotamos vossas crianças juntos e nomeamo-las; éramos uma família feliz, até o incidente das drogas e o álcool. Sebastian se afastando com seu problema com o álcool, nada discretamente, e eu, com as drogas, que ao contrário de meu esposo, escondia o segredo. Não queria que as crianças soubessem que infelizmente, fizeram por si mesmas esse trabalho e descobriram cápsulas enfiadas em minhas meias. Foi um choque para elas, ter pais como nós de exemplo. Ficava horas chorando por ter realizado o que fiz durante minha vida depois de meu fracasso na audição para o trabalho de meus sonhos, NYADA. Que mais tarde, fora conquistado por Rachel Berry. Estúpida mesquinha.

Continuamos ali, sentados e conversando sem fim. Sem perceber, 2h haviam se passado desde o início da conversa; Rory enlouqueceu, dizendo que havia aula e estava atrasado 5min. Despediu-se de ambos Steve e eu, acenando para o enfermeiro e beijando minhas mãos, agradecendo pela sua calorosa visita. Prometeu que na próxima vez traria Helizabeth para visitar-me.

Correu, correu, correu e correu dentre os corredores, pedindo licença para cada pessoa a sua frente e desculpando-se de quem esbarrava por certa falta de atenção e cuidado.

Correndo.

Deixando-me aqui.

Sozinho.

Correndo até que suma de vista.

Notas finais
Gostaram? Se sim, comentem!
E por favor, se houver algum erro, me avisem!