Psycho

6 O endereço? Siga os tijolos amarelos


Andamos pelo que pareceu horas. Quando fui consultar meu relógio de pulso, notei surpresa que os ponteiros andavam para trás, no sentido anti-horário, então era impossível saber. Passamos por corredores e túneis, todos pareciam levar a nada e a lugar nenhum, era como se estivéssemos condenados a vagar infinitamente, sem ousar esperar nada no fim. Chegamos enfim a uma sala circular, onde haviam estatuas deformadas guardando um tipo de gruta, de onde escorria água. Fique aguardando aquelas estátuas ganharem vida e nos atacarem, mas isso, por sorte, não aconteceu.

- Vamos montar acampamento aqui – Sugeriu Blake, lancei-lhe um olhar suplicante, como que dizendo não – Sury, estamos cansados demais e parece que não estamos perto de qualquer coisa que seja.

Ele parecia frustrado e eu não o culpava. Aquela nossa missão parecia uma piada de mau gosto.

- Certo – Falei, jogando a mochila no chão.

O filho de Zeus me deu um sorriso fraco, abrindo sua mochila e tirou dela barrinhas de cereais, jogando uma para mim e uma para Lexy, que a pegou resmungando algo como “detesto isso”. Não havia como saber se era dia ou noite, então estávamos nos deixando guiar apenas pelo cansaço. Ficamos em silêncio por muito tempo, cada um com sua própria dúvida na cabeça. Ao olhar para Lexy e Blake, pude notar que estavam cansados, mais do que eu realmente me sentia.

- Podem dormir – Falei sem pensar muito – Fico com a primeira vigia.

- Pra mim está ótimo – resmungou a filha de Ares, virando-se para a parede e roncando em instantes.

Blake pareceu que ia fazer objeção, mas por fim, arrumou seu saco de dormir e caiu no sono rapidamente. Então tudo que restou foi o barulho da água, mas, é claro, aquele silêncio não durou muito.

“Alô, sorry! Acho que só sobramos nós duas. O que quer fazer? Que tal contar-me as novidades do mundo moderno?” Loucura soou desafiadora em minha mente.

Não respondi por muito tempo, tinha decidido ignorar, mas então ela começar a repetir meu nome tantas, mas tantas vezes que eu quase gritei.

- O que você quer?

“Sua companhia, eu quero que fale comigo, Samy”

- Eu não quero falar com você. Você nem mesmo existe.

“Se eu não existo, você está louca, pois está ouvindo vozes” Gargalhou ela.

- Pois bem, que seja isso, então.

“Oh, não estamos sendo muito receptivas aqui. Sua mãe conversava comigo, Sorry”

Ouvir suas últimas palavras fez algo estranho se agitar em mim. A curiosidade ameaçava me arrebatar a qualquer instante, mas eu não queria falar com Loucura.

“Admita, você quer saber mais sobre isso. Pergunte a mim, Sury, converse comigo”

Senti lágrimas escorrem, enquanto minhas mãos se fechavam em punho. Aquilo era tentação demais, aquilo não era justo. Mas eu queria tanto saber algo sobre mim mãe, eu sentia que ela era uma estranha para mim, eu apenas tinha o julgamento de meus avós sobre ela, nada feito por mim mesma.

- O que você fez a ela?

“Oh-oh, veja só quem quer conversar. Isso é ótimo Sorry, agora seremos amigas para sempre.” Seu riso era estranho, cheio de uma satisfação doentia “Mas bem, eu e sua mãe passamos muito tempo juntas. Alguém me enviou para distraí-la, guardá-la do mundo, você acredita?”

- Quem enviou?

“Ora, vamos, quem mais seria, é claro que foi...”

- Sury, está tudo bem? – Blake perguntou, sentando-se em seu saco de dormir, me olhando preocupado – Ouvi você perguntar algo.

Ele olhou para os lados, como que procurando com quem eu estava falando. Quando voltou a olhar para mim, notei aquele brilho estranho em seus olhos, como se ele ansiasse por alguma coisa, era um brilho estranho de desejo.

- Eu não... Não era nada Blake.

- Você está cansada, mas que belo cavalheiro eu sou, huh? Durma Sury, eu fico de vigia – Ele sorriu cansado.

- Não Blake, tudo bem. Não estou cansada, é só, é só esse lugar, você sabe, ele me deixa meio fora de mim, sei lá.

Na verdade, eu queria continuar a conversa com Loucura, que agora apenas ocupava-se em comentar o quanto Blake lhe parecia bonito, mesmo sujo, por se arrastar em túneis e corredores estreitos, e cansado como estava.

- Não, dessa vez eu insisto. Você não parece bem, descanse um pouco, eu assumo daqui.

Eu queria dizer algo, mas acabei por dar de ombros e estender meu saco de dormir ao lado do seu. Lexy roncava baixo no seu canto enquanto eu me acomodava, percebendo enfim o quão cansada eu estava. Meus olhos já iam se fechando, quando ouvi a voz de Blake me chamar. Não mais que um sussurro, mas eu ouvi.

- O que foi Blake? – Perguntei, sussurrando também, tendo a certeza de que de alguma forma ele ouvia.

- Não é nada, eu não sei como dizer isso, vai soar muito estranho, mas teve essa deusa que veio até o meu chalé na noite antes de sairmos para a missão, ela me...

Não ouvi mais nada, mergulhando na inconsciência. Queria acordar e pedir desculpas, mas não conseguia. Em um piscar de olhos fui arrebatada por um sonho, não, não um sonho, era uma lembrança. Eu me lembrava exatamente daquele dia.

“O que há de errado com os espelhos, vovó?” Perguntei certa noite, vendo-a cobrir o espelho de meu quarto com uma toalha “Não há nada de errado com os espelhos, meu bem”, garantiu-me ela, nervosa, como sempre ficava quando eu tocava no assunto. “Mas então por que cobri-los toda a noite?” Sorriu-me, aquele seu sorriso caloroso que eu podia dizer que outrora foi cheio de vida, hoje não mais por algum motivo. “Por causa dos fantasmas que querem lhe ver dormir”, era mesma resposta de sempre. Mas então naquela noite houve um algo mais. “Foi o último pedido de sua mãe antes de ir, não deixá-la saber de nada, antes que chegue a derradeira hora, meu bem”.

Aquilo me deixou surpresa, quase assustada. Minha avó me fez prometer que mesmo quando ela não estivesse por perto, iria cobri-los à noite. “por quê?” Perguntei. “Porque espelhos não mentem, querida”. E saiu do quarto, apagando as luzes.

Desde aquele dia nunca mais me dei bem com espelhos, nunca me admirava tempo demais frente a um. Não conseguia olhar nos olhos esverdeados e tristes que eles refletiam, era quase repulsivo. Quando as luzes voltaram a se acender, encontrava-me em um lugar diferente. Era uma sala ampla, e um enorme espelho dourado estava à frente. Eu não me via refletida nele, aliás, nada na sala estava refletida nele.

“Alice, o que você fez?” Reconheci a voz de Dionísio, vinda de dentro do espelho, porém havia algo diferente nela, algo como dor. Alice talvez fosse, muito provavelmente, minha mãe. Esse era seu nome.

“Nada. Ela os levou.” Disse uma voz feminina sem emoção alguma.

“Vou procurá-los” Sentenciou Dionísio, mais severo agora.

Ouvi o som como um choro de bebê, triste e impossível de ser contido, “A menina, a encontraram no covil da feiticeira, está viva”, disse uma voz desconhecida dentro do espelho. “E o outro?” Disse outra voz, mais fria e rouca. “Zéfiro vai levar, ao menos, quem sabe um dia ele possa mostrar o caminho para encontrá-lo”

Então sala se encheu com tantas vozes gritantes, que tive vontade de tapar os ouvidos e fugir. No espelho, uma imagem brilhou. Parecia um túnel escuro, exceto que o chão brilhava, como que com pequenos tijolos de ouro. Houve um estrondo, e uma voz fria, que eu julguei conhecer, falou:

“Os últimos anos passaram como um borrão na vida dele” Riu a mulher. Eu conhecia, tinha certeza, apenas não lembrava quem era. “Não seja tolo, mortal, ele não percebe o tempo passar, não onde está, é impossível. Ele apenas sente... Coisas. Dedica-se a uma detestável rotina de não fazer nada, sente-se confortável com isso e não merecedor de algo melhor”. Outra voz murmurou algo, algo como uma pergunta. “A menina? Não me lembre dessa pequena falha, mas eu sei que todas as noites os pesadelos chegam a ela com força, querendo arrastá-la para o passado, querendo mostrar o que aquele maldito deus a fez esquecer”.

Eu queria ouvir mais, entender do que falavam, mas então senti um cutucão no ombro, e ao virar me deparei com uma sorridente menininha.

“Olá, sorry. Tendo bons sonhos?” Ela sorriu. “Venha, quero lhe mostrar uma coisa”

Fui empurrada para a escuridão, surgindo depois em um lugar que eu não conhecia, uma cidade pequena ou qualquer coisa assim.

Uma jovem mulher, com seus dezoito ou dezenove anos talvez, caminhava pela rua quase deserta, era tarde, os poucos na rua pareciam nem notá-la, mas algo nela me chamou a atenção. O capuz preto de seu casaco escondia parcialmente seu rosto, dando a ela um ar sombrio. Enquanto eu corria para chegar mais perto dela, seu olhar foi atraído para uma vitrine, onde um homem tomava chá, seu rosto oculto pelo chapéu. A mulher fitou o manequim com real interesse, como que notando nele certa semelhança com alguém que conheceu, como se quisesse tocá-lo.

Ela então se aproximou da vitrine, tocando o vidro com as mãos. Assim que o fez, suas mãos brilharam e uma imagem surgiu no vidro. Era uma garotinha – eu poderia dizer que era ela mesma, quando criança – chorando, assustada e sozinha, fugindo de uma casa em chamas. Logo depois a imagem mudou, passando para uma cena mais agradável, onde um casal de meia idade sorria para ela, mas quando ela parecia pronta para retribuir o sorriso, duas facas cortaram as gargantas dos dois.

Na mesma hora, começou a ventar forte, jogando sobre a mulher cartazes dos postes e pequenos panfletos de propagandas. Enquanto ela tentava se livrar dos papéis, o manequim que tomava chá levantou-se da cadeira e grudou o rosto no vidro.

“Siga o coelho branco” Gritou o manequim.

A mulher se assustou, jogou-se para trás e caiu na calçada. Quando olhou novamente para a vitrine, o manequim já havia voltado a posição em que estava antes, bebendo seu chá. Ela então se pôs em pé, retirando um último papel que estava grudado em sua roupa. No panfleto, com letras grandes e pretas que até eu mesma pude ler, dizia “The White Rabbit bar”. Ao notar o endereço, ela apenas virou-se para trás, fitando o letreiro vermelho luminoso que piscava, fazendo com que fosse impossível de ler para mim, mas eu não precisava. Sabia que o bar do coelho branco ficava do outro lado da rua.

A mulher correu para o bar. “Não tenho nada a perder”, ouvi-a murmurar. Assim que abriu a porta, uma luz arroxeada tomou conta do lugar, ouvi-se um riso estridente que eu já conhecia muito bem, então senti que perdíamos o chão e em segundos estávamos caindo, caindo para sempre, até finalmente batermos em algo concreto. Vi a mulher abrir os olhos lentamente, como se temesse o que encontraria.

Estávamos em uma sala circular, cheia de portas, com apenas uma mesinha no centro.

“Mas o que está acontecendo?” Reclamou ela.

Suspirando derrotada, foi até a mesa, onde havia um tipo de goma de mascar e a uma lata, cujo rótulo podia-se ler “beba-me se tiver coragem”. Ao lado da lata e da goma, uma faca. Quando a mulher ergueu a faca, senti um choque percorrer meu corpo. Olhei para a adaga embainhada em meu cinto e notei que eram exatamente iguais. Ela então guardou a goma no bolso e bebeu um pouco do conteúdo da lata. Em seguida tudo estava girando, e estávamos caindo outra vez.

Quando abri os olhos, estávamos em um lugar estranho, escuro e repleto de tudo que se pode imaginar. A mulher estava bem próxima a mim, sentada em uma poltrona de aparência desconfortável. As batidas ritmadas de um relógio antigo martelavam em minha cabeça, enquanto o tilintar próximo de uma xícara trazia certa sensação de conforto. Pela metade de um minuto continuei apenas a captar cada som da sala. A mulher lentamente foi abrindo os olhos, como da última vez, não focando em nenhum lugar em especial, apenas forçando-os a se acostumar com a luz forte. Assim que conseguiu focar em algo, assustou-se ao perceber que um homem estranho a encarava, sorrindo maliciosamente. Ele tinha uma franja cobrindo parcialmente um dos olhos e uma cartola preta estava colocada sobre seus cabelos cuidadosamente desarrumados. Os olhos azuis alucinados dele brilhavam enquanto ele se aproximava.

“Alice, você voltou!” Gargalhou o homem.

“Chap... Chapeleiro?” Perguntou tremula, o belo homem assentiu.

O chapeleiro entregou-lhe uma toalha, só então Alice percebeu com surpresa o sangue escorrendo em sua boca.

“Vamos lá Alice, porque a surpresa? Você não está no país das maravilhas”

O olhar vago de Alice indicava confusão. Levantou-se da poltrona no mesmo instante, tirando a toalha de perto da boca.

“Deve estar se perguntando como conseguiu isso” Disse o chapeleiro, apontando para sua boca. “A propósito, já descobriu porque um corvo se parece com uma escrivaninha?”

A menina revirou os olhos, tirando o capuz de cima de seus cabelos ondulados cor de mel. Em seu pescoço pendia um colar com um ômega dourado. Senti um nó na garganta.

“Mãe?” Sussurrei. Ela não olhou para mim, o tal chapeleiro também não.

“O que você quer, Loucura?” Perguntou ela, enquanto o chapeleiro se transformava em uma menina que gargalhava sem parar.

“Quero te dizer que você não está no país das maravilhas” Ela gritou, batendo os pés no chão como em um ataque “Você não é a Alice certa, é? Sei que essa é sua história favorita, você se sente tão... Alice.” Ele apontou um dedo ossudo em direção a minha mãe, gargalhando como jamais vi. “Vamos ver como se sai com isso, Alice”

Ela acenou e milhares de cartas de baralho voaram na direção de minha mãe, cobrindo-a por completo.

“Isso não é real, é apenas um sonho! Não é real!” Gritou mamãe, eu gritava com ela, mas ela não parecia me ouvir.

Então tudo ficou escuro e quando abri os olhos novamente, vi minha mãe sentada na calçada escura, em frente à vitrine onde o manequim tomava chá, murmurando “é apenas um sonho” como se fosse um mantra. Eu queria abraçá-la, confortá-la, mas então um estranho surgiu. Era bonito, mesmo à pouca luz do local. Tinha cabelos escuros, porte atlético e brilhantes olhos verdes, como as mais belas uvas. Os meus olhos verdes.

“Pai” Eu sussurrei. Ele não me notou, obviamente.

“Você está bem?” Ele perguntou à minha mãe, que ergueu os olhos, assustada.

“Estou, é só...” Ela parecia ter perdido as palavras enquanto o olhava. “Bem, eu não sei o que está acontecendo”.

“Acho que eu posso ajudar” Garantiu Dionísio compreensível, sorrindo como jamais o vi fazer.

Então eu acordei, com Blake me sacudindo pelos ombros. Algo grande e feroz sibilou bem próximo de onde estávamos. O que quer que fosse vinha correndo em nossa direção por um dos túneis.