Psycho

10 Manual de instruções para mortais: lendas nunca morrem


Tenho TDAH senhores, não podem simplesmente esperar que eu me lembre de detalhes. Certo, sou uma encrenqueira qualificada, não uma dessas pessoas que andam por aí decorando detalhes. Apenas lembro que saindo para a rua, já fora do labirinto ainda pude ver os três gigantes que nos seguiam. Conforme eles andavam seus rostos mudavam, tornando-se menos humanos e mais assustadores. Vestiam camisetas do Washington Wizards e nikes gigantescos nos pés que se moviam tortos. A cabeleira suja era parcialmente coberta por bonés do Miami Heat e se minha visão não estava enganada, tinham um olho só.

— Acho que são ciclopes, Blake – sussurrei para o filho de Zeus, arrastando-o, fazendo-o tropeçar, às cegas.

— Droga, e agora? Onde estamos?

— Se não estou errada, em Chinatown.

Certo, se estivéssemos a passeio e não fugindo de ciclopes, Chinatown poderia ser interessantíssima. Como um pedaço da China em plena New York. Apesar de nunca ter estado ali, soube que estávamos em Chinatown porque já haviam me dito que você não confunde Chinatown com nenhum outro lugar de New York. Tinha velhinhos de olhos puxados, patos caramelizados expostos em vitrines, placas de ruas e nomes de lojas escritos em chinês e muita, mas muita gente mesmo. Além de tudo, há magia no ar de Chinatown, assim como haviam me dito, então se você se concentrar em algo além do cheiro das comidas exóticas, os becos do lugar escondem muita mágica, que vai muito além das portas falsas, que se usa para subir seis ou sete andares de um prédio aparentemente abandonado. O enorme mercado das falsificações esconde o templo da própria Hécate, que adora confundir com mágica a cabeça dos mortais.

No mais, era como ter caído em um buraco e saído na China, era quase possível sentir o poder da magia, magia verdadeira, fluindo daquelas minúsculas lojas lotadas de pessoas e itens falsificados. Fazia tudo ficar mais leve e engraçado, como estar preso em um daqueles filmes de lutas marciais e feiticeiros. Estava tão encantada com tudo aquilo, que não estava olhando para onde estava indo, só tarde demais fui me dar conta de quase derrubei um garoto mortal.

— Me desculpe! – Apressei-me em dizer, vendo que o havia feito derrubar seu café na jaqueta – Eu realmente estava distraída.

— O que está havendo Sury? – Blake perguntou desesperado.

— Eu bati em um garoto sem querer, Blake. Eu espero que ele...

Então notei que o garoto não olhava para mim, mas para algo atrás de mim e ele parecia tremendamente assustado.

— Mas será possível...?

A cor sumiu de seu rosto, quando virei para trás, vi os três ciclopes avançando.

— É, bem, amigo, peço desculpas mais uma vez, mas temos que ir antes que nossos amigos grandões nos alcancem. Até mais.

Puxei Blake pela mão, procurando um caminho pela multidão na rua, quando ouvi o garoto falar.

— Aquelas coisas de um olho só estão atrás de vocês?

Congelei no lugar. Ele podia vê-los?

— Você é um semideus? – Perguntei chocada.

— Semi o quê? Não, eu não sou isso não.

— Mas... Bem, esquece, sabe um jeito rápido de sair daqui?

Ele assentiu, pegou a minha mão e me puxou por uns bons metros em meio às pessoas, Blake aos tropeços atrás de nós, agarrado em minha outra mão. Chegamos ao que parecia um estacionamento lotado, o menino parando em frente a um carro preto, desses comuns. Entramos no carro e ele deu a partida, disparando pelas ruas, dirigindo com extrema habilidade.

— Está tudo bem com seu amigo? – O menino perguntou, olhando-o pelo espelho.

— Tivemos esse acidente, e bem, creio que ele tenha ficado, como posso dizer, temporariamente cego? É, acho que é mais ou menos isso. E obrigada, eu acho – Falei depois de alguns minutos em silêncio, sentada no banco do carona ao seu lado.

— Sem problemas, eu acho— Ele sorriu. Notei então pela primeira vez que ele era um menino bonito, nada extraordinário, mas uma beleza que dispensava qualquer complemento. – Aliás, eu me chamo Gregorie Foster. E devo acrescentar que essa é a primeira vez que ajudo dois jovens malucos que estão sendo perseguidos por gigantes de um olho só.

Mas uma vez me perguntei como ele podia vê-los tão perfeitamente bem, quando eu mesma tive dificuldades. Talvez ele fosse um semideus e não soubesse, mas se fosse assim, ele já devia ter no mínino dezesseis, já que estava dirigindo, não teria sobrevivido tanto tempo sem treinamento.

— Ah, sim, imagino que isso não aconteça muito com mortais – Disse por fim, depois de analisá-lo dos pés à cabeça, ele parecia um tipo observador e brincalhão. Por fim, ele me olhou em dúvida – Digo, com pessoas normais. E eu me chamo Sury Windsor, este aí atrás é Blake Madison, meu ahn... Bem, você pode nos deixar aqui se quiser. Ajudou-nos muito.

— Sempre faz isso com as pessoas? – Ele riu, parando o carro em um acostamento – Derruba café nelas, pede para ajudá-la a fugir de monstros grandes, as chama de mortal como se você mesma não fosse e depois some sem mais explicações?

— É, bem, sim – Sorri também – Na maioria das vezes. Vamos Blake, temos tanto a fazer ainda – Olhei para o céu pelo vidro do carro, como se ele fosse desmoronar em nossa cabeça a qualquer momento. O que bem poderia acontecer.

— Não vai me dizer o que eram aquelas coisas? Tenho a sensação de que você sabe muito – Ele me olhou suplicando, seus olhos verdes brilhando ansiosos – Por favor, tenho visto coisas assim desde que era pequeno, gostaria de saber o que é isso.

Blake suspirou, saindo com dificuldade do carro. Fiz o mesmo, e Gregorie nos seguiu.

— Já ouvi rumores – Blake falou, tomando a minha mão – De mortais que podem ver através da névoa.

— Através do quê?

— Névoa. N-e-v... N-e-v... Ah!

Ele bateu os pés em frustração, Blake poderia ser o todo poderoso filho de Zeus, mas ainda era disléxico, poderíamos ficar ali parados a vida toda e ele dificilmente conseguiria soletrar névoa. Aquilo me fez rir como há muito tempo não fazia.

— Névoa, certo – Gregorie o olhou desconfiado – E aí estão vocês de novo com essa história de mortal. Vocês são o que? Imortais por mero acaso?

— Bem, quase – Blake deu de ombros, olhando na direção oposta de onde Gregorie estava, completamente perdido. Se não fosse tão ruim ele estar cego, até seria engraçado.

— Espere! – Quase gritei, lembrando das palavras de Eros – Gregorie, você é um desses mortais com o dom. Como Ariadne, você pode ver através da névoa.

— Eu posso? – Ele me olhou inseguro, seus olhos piscando em dúvida.

— Sim, e precisamos de sua ajuda. Blake, acho que tropeçamos por acaso em alguém que pode nos ajudar, isso não é ótimo?

A expressão de Blake demonstrava entendimento, mas eu podia dizer que ele não estava gostando muito da idéia.

— Bom, se eu ajudar vocês – Gregorie falou ainda inseguro – Vocês prometem me contar o que quero saber?

— Bem, sim – eu falei, — Mas é perigoso o que estamos te pedindo, você deve saber. O lugar que estamos indo... Certo, que tal irmos tomar um café, sim? Precisamos muito conversar. Aliás, que dia é hoje?

— Vinte de agosto – Ele disse, sua voz indicando o obvio – E ahn, acho melhor entramos no carro logo, não gosto daquelas coisas que estão nos olhando ali.

Pessoas observadoras geralmente sabem quando estão sendo observadas, então decidi confiar em Greg, jogando Blake no banco de trás e entrando no carro o mais rápido que pude.

No café, o garoto nos olhava cético.

— Mas isso é apenas uma lenda, certo? – Disse desconfiado, após ouvir nossa história.

— Certo, e muito em breve você vai perceber que lendas nunca morrem.

— Monstros são reais e essas lendas todas são reais também – Não foi uma pergunta, foi uma afirmação.

— Sim, vivem entre nós, heróis e mortais, e às vezes eles até nos vencem – Acrescentei dando de ombros, o garoto riu – Surpreso?

— Não sei, acho que pensei que isso fosse coisa da minha cabeça, porque gosto disso, quero dizer, gosto de ler e escrever ficção. Não achei que isso fosse possível existir no mundo real.

— Mundo real – Falei em meio a um suspiro – Algo muito estranho. Mais estranho ainda quando suas companhias mais freqüentes são monstros.

— Monstros, isso é... Monstros de carne e osso...

— Bem, talvez nem tanta carne e tanto osso, mas eles existem – Falei rindo – Não dá para acreditar nisso, não é mesmo? Monstros. De verdade. Parece loucura, eu sei. De repente alguém chega e te diz uma coisa dessas, que esses seres, há muito tempo esquecidos em nossas memórias de infância existem, difícil acreditar, mas é verdade. Não vivem em um mundo de fantasia, um mundo paralelo ao nosso como se pensa, mas em nosso mundo, em nosso meio, passando despercebidos todo esse tempo, bem talvez nem tão despercebido assim, mas enfim, sempre estiveram aqui. Mundo Real. É realmente muito estranho dizer isso do meu mundo.

Sorri para ele. Gregorie era de fato alguém impossivelmente fácil de conviver.

— E você, senhor Foster, o que pode nos contar sobre você?

— Bem, — ele sorriu – Eu não sou legal como vocês.

— Certamente não – Blake resmungou. Gregorie apenas o ignorou.

— Moro em Jackson Heights, no Queens, em um desses apartamentos pequenos e iguais aos outros todos. Somos apenas minha mãe e eu e o velho Honda civic com pintura desbotada. Imprevistos e complicações de escola à parte vivemos bem, sem muito dinheiro e sem qualquer luxo, mas bem. Não há um pai nessa nossa história, antes que você me pergunte, nem qualquer menção a ele, nada além de “era um homem maravilhoso”, bom, acho que se fosse tão maravilhoso assim, não teria nos deixado. Como disse, gosto de ler e escrever ficção. Bem, é isso. É ... chato.

Aquilo que eu via em seu rosto era medo?

Não, não Gregorie. Pelo pouco que o conhecia, já poderia afirmar que o menino em minha frente não tinha medo de nada, apenas a aparência um tanto frágil. Provavelmente seria raro vê-lo discutindo com os vizinhos, amaldiçoando motoristas apressados e reclamando sobre como as coisas são nesse país. Parecia, apenas por olhá-lo, que nada podia intimidá-lo, o mortal que vê monstros. Mas agora, os olhos fixos em um ponto qualquer do café pareciam prestes a deixar as lágrimas traidoras caírem, parecia que todos os propósitos que lhe ensinaram a ser forte sumiram, o abandonaram. Mãos tremulas, braços que provavelmente não sustentariam o peso do mais leve dos objetos.

— Algum problema? – Perguntei.

Ele balançou negativamente a cabeça e lançou-se mais fundo na cadeira, encolhido, parecendo frágil demais. Por algum motivo isso me fez lembrar alguém que imagino ter conhecido, mas isso é outra história. Alisou seu moletom surrado, a expressão de medo fora substituída por uma de pura reflexão no rosto bonito.

Ele parecia estar editando cuidadosamente suas palavras. Estudando-as antes de revelá-las a nós.

— Droga, eu realmente sou um grande posso de nada mesmo – Parecia aflito – Caras, olhem pra vocês, filhos de deuses, caçadores de monstros. Os mesmo monstros que eu vi por aí minha vida toda e droga... Droga mesmo! Ninguém nunca acreditou em mim. Ah, porque era apenas minha imaginação pregando peças. Monstros não existem. Tinha até um garoto na escola, do time de futebol que vivia dizendo, olha lá vai o Gregorie, o estranho, faz Carrie White parecer normal.

— Quem é Carrie White? – Perguntei, não entendo todo aquele drama.

— Ah, esquece. O ponto é que, sinto que posso deixar de existir a qualquer momento, e simplesmente ninguém notaria.

— Bom, Sr Foster. Ah uma maneira de ser grande e nos ajudar a salvar o mundo. Depende apenas de você.

Sorri para o garoto, que retribui meu sorriso no mesmo instante.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.