Psicose
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Aproveitem.
ABRAÇO DE URSO.
Tudo parecia mais bonito ou era só por que eu tinha entrado de férias? Sim, uma curta e merecida férias depois de tanto sufoco no departamento de polícia de Nova York. E agora a única coisa que eu quero é dormir.
― Ashara já está em casa? ― Minha irmã perguntou assim que eu passei pela porta do apartamento assistindo em frente a televisão.
― Férias. ― Falei simplesmente de olhos ainda fechados inspirando o ar da minha casa me jogando no sofá e colocando a cabeça no seu colo.
Eu sempre prezei pela minha independencia, e desde cedo tratei de estudar para conseguir esse objetivo, comprando um apartamento confortável e pequeno somente para mim quando pude. Bem, sempre fui agradecida pelo que meus pais fizeram e os visitava todos os dias mas sempre quis algo pra chamar de meu. No princípio era assim. Até a minha irmã chegar aos 16 anos e insistir em passar parte da semana comigo.
E eu não neguei.
Na verdade eu a entendia. Minha mãe não soube me criar, e confundia com frequência berrar com dialogar, e com 17 anos eu era mais mãe da minha irmã do que ela. Certa vez um senhor me perguntou no supermecado se eu era a mãe dela, por nossa diferença de 12 anos.
E meu pai era um homem maravilhoso que levava a sério o nosso bem estar embora quase nunca estivesse presente nos momentos realmente importantes. No final eles se completavam de uma maneira estranha. E eu fui feliz, mesmo solitária por não ter com quem confessar meus segredos e com os surtos da minha mãe.
― Que milagre, quem sabe agora você possa ir ao cinema comigo. ― Não precisei olha-la para saber que estava sorrindo.
― É só falar o horário da sessão.
― Amanhã pode ser?
― Depois. ― Eu ia precisar de uns três dias dormindo. ― Que tal terça?
― Tudo bem. ― Resmungou me fazendo cafuné. ― Terça então.
― Emery. ― Chamei abrindo meus olhos e encontrando a minha irmã. Era como olhar uma foto minha há anos atrás. ― Pode chamar seus amigos.
― Quero uma tarde de irmãs. ― Falou decidida. ― Agora levante das minhas pernas, você está fedendo a suor.
Sorri para ela e fiz o que me pediu. Rumei até a geladeira, com a garganta seca e senti meu sangue ferver com a visão do interior dela.
― Emery. ― Rugi fechando a geladeira e respirando uma, duas, três vezes tentando me acalmar. ― As jarras de suco que eu estoquei estão todas vazias. Custa ao menos lavar as jarras?
― Custa. ― Gritou de volta. ― Estou assistindo um episódio novo dessa série aqui.
― Isso não é motivo. ― Murmurei para mim mesma e deixei os livros secos em cima da pia.
Que ela se vire então.
Eu nunca fui uma amante de sucos mesmo.
Voltei para a sala e parei em frente a TV ignorando seu olhar exasperado. Era hora do interrogatório.
― Fez a tarefa?
― Fiz. ― Respondeu entredentes quando eu tapava as cenas que supus ser importante. Quem sabe se eu fosse só a irmã mais velha ela me jogasse uma almofada na cara. ― Ashara!
― Quero ver.
A minha irmã ruborizou e consegui minha resposta.
― Faça a tarefa agora. Assista depois.
Emery suspirou e não ousou me contariar se levantando do sofá.
― O que você faz em uma investigação de homicídio? ― Indaguei como um lembrete de que aquilo era para o seu bem.
― Investiga. ― Respondeu do automático. ― E prende depois.
― Muito bem. ― Ela se enfiou no corredor e entrou no seu quarto.
Decidi que iria fazer uma pipoca para ela quando terminasse seus deveres. Peguei a pipoca para colocar no microondas e senti falta de uma coisa que estava ali logo de manhã. O leite condensado.
Outro dia.
Prometi.
Outro dia eu reclamo.
Deixei a pipoca pronta dentro do microondas e fui para o meu quarto para tomar um banho. Minha irmã tinha razão, eu estava o puro suor, não era pra menos, hoje tinha sido o dia de treino de despedida, uma idéia idiota do capitão. E me recuso a me exercitar nessas férias. Me recuso.
Vesti meu conjunto de moletom e prendi meu cabelo em um coque frouxo. Era hora de ligar para os meu pais e avisar que estava tudo bem comigo e com Emery.
Busquei meu celular e me surpreendi ao ver quatro chamadas não atendidas de um número desconhecido.
Retornei a ligação.
Esse foi o primeiro passo para um dos maiores erros da minha vida.
― Ashara. ― Uma voz que a muito tempo não escutava esclamou do outro lado da linha.
Abri a boca estupefata. Fazia tantos anos...mas eu reconheci aquela voz.
― Rose. ― O gosto metálico ficou na minha boca quando pronunciei seu nome e deixei a mágoa fluir pela minha voz. Eu tinha ressentimento dela por ter ido embora para Seattle e me deixado sozinha com a fúria da minha mãe. Infantil eu sabia.
― Que saudades.
― Posso saber o que quer? ― Indaguei sem rodeios. ― Ou melhor...como conseguiu meu número para início de conversa.
― Preciso de você. ― Sua voz soou urgente, desesperada na verdade e eu quase acreditei nela.
― Eu precisei de você também, mas não me ajudou Rose. Então me dê um bom motivo para fazer qualquer coisa por você.
Fazia tantos anos que ela não manteve contato comigo, ela escolheu não ter contato comigo depois da mudança. A única que chamei de amiga. E eu tinha o direito de fazer aquele melodrama, nunca tinha sido boa em conquistar pessoas.
― Vidas.
― Pode ser mais específica? ― Indaguei irônica.
― Vidas estão sendo perdidas de maneira estranha no hospital que eu trabalho.
Era só o que me faltava.
― Você é a médica certo? ― Ela murmurou um sim em resposta. ― Então deveria saber o que acontece com os seus pacientes.
― Acho que tem alguém por trás disso. Ashara, por favor me ajude, os ajude. Eu sei que magoei você, mas não faça por mim, faça por pessoas que estão perdendo as vidas de forma estranha. ― Suplicou. ― E você é a única que pode me ajudar sem que eu me precipite, se não for nada prometo fazer algo por você depois.
Suspirei esfregando a testa.
Porque Deus?
― Eu sou apenas uma policial.
― Mas seu sonho é ser uma detetive de homicídios. ― Lembrou, a maldita lembrava disso. ― Quem sabe não ganha uma promoção se descobrirem que me ajudou em algo supostamente importante?
O capitão era muito bom comigo, desde que me prendeu anos atrás por ter pichado um muro, ele viu que eu era apenas inconsequente e depois...era como um segundo pai pra mim, mas esse tinha estado presente em todas as coisas importantes que fiz depois dos 18 anos.
Até hoje eu me pergunto que idéia de merda foi essa que eu tive, quem sabe o egoísmo tenha me cegado e respondi Rose.
― Tudo bem, eu aceito sua ofert
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