Psicopata

5 Capítulo 5


Os pneus da viatura chiaram escandalosos no asfalto quando Gray freou abruptamente, estacionando com brutalidade em uma das várias vagas desocupadas do estacionamento do Hospital Geral e assustando duas pessoas que saíam da porta de trás do mesmo, desligando o motor, o moreno riu, dizendo alguma coisa que eu não consegui entender por causa das barulhentas batidas do meu coração que ecoavam em meus ouvidos, com mãos trêmulas, soltei o cinto que foi meu salvador em diversos momentos do caminho do Parque até aqui, reparando nas juntas dos meus dedos, brancas tamanha força que fiz ao segurar no estofado do banco.

Jamais pediria a Gray que fizesse alguém comer poeira de novo. Jamais.

— Você é muito louco. — falei, enquanto abria a porta da viatura e saia, levantei o rosto, respirando o ar frio da noite, agradecida por estar viva. — Aquele caminhão quase nos matou.

Gray saiu também, com um sorriso maroto iluminado o rosto, bateu a porta.

— Ele nem chegou perto.

Soltei um bufo.

— Ele bateu no para-choque traseiro. — apontei para a traseira do carro, sabendo que se olhasse haveria uma amassado perto dos faróis. — Você chegou a perder o controle, ainda não sei como conseguiu recuperá-lo antes de viramos patê de carne entre as ferragens do carro logo depois que ele capotasse.

O moreno gargalhou.

— Você e sua falta de fé na minha habilidade no volante. — olhou para a entrada do estacionamento, o sorriso maior do que nunca. — Nós o deixamos para trás. — e riu.

Balancei a cabeça, descrente da total falta de preocupação dele, bati a porta da viatura e caminhei até as portas duplas, não esperando por Gray que rapidamente me alcançou, entramos e no mesmo segundo o cheiro do hospital me atingiu, uma mistura de remédios, doenças e limpeza, franzi o nariz, detestava hospitais, o clima que eles possuíam eram iguais aos que você sentia em velórios, uma angústia e tristeza tão profundas que se tornavam sufocantes em poucos minutos, médicos e enfermeiros passavam ao nosso lado, com passos apressados e semblantes sérios, alguns, reconhecendo-nos, balançavam as cabeças em um comprimento seco.

Quase todas as portas dos quartos naquele corredor estavam fechadas, seus ocupantes adormecidos visíveis nas largas janelas de vidro que as paredes acomodavam, algumas que permaneciam abertas, tinham seus pacientes sentados nas camas, conversando com algum médico, lendo um livro ou apenas olhando para o teto, sem enxergar ele realmente, havia ainda alguns pacientes encostados nos batentes das portas de seus quartos, com suportes de soros aos seus lados e um olhar vazio no rosto, um ou dois caminhando lentamente pelo corredor, parando algumas vezes para recuperar o fôlego ou fazer uma expressão de dor, um dos andantes, um homem idoso, muito magro e com os cabelos rareando deixou cair uma foto amarelada quando passou ao meu lado, abaixei-me e a peguei, na foto, havia uma mulher de cabelos prateados e uma garotinha de sorriso com janelinha, abraçadas.

— Senhor. — chamei-o. — Você deixou isso cair.

Ele parou e me olhou com olhos azuis desbotados pela catarata.

— Oh, sim, obrigado. — estendeu a mão, trêmula e enrugada, coloquei sua foto nela. — Obrigado, não me perdoaria se a perdesse.

Gray havia parado há poucos passos a minha frente, me esperando, olhei para o velho que contemplava a foto.

— São sua esposa e filha? — perguntei.

Ele piscou algumas vezes.

— Ah, é minha neta. — respondeu depois de um tempo, soltou a mão esquerda que segurava o suporte de soro e deslizou o polegar dela pelo rosto das duas mulheres. — A minha filha sofreu um acidente junto com o marido, eles morreram, ela só tinha um ano de idade quando isso aconteceu.

Engoli em seco.

— Sinto muito.

O velho sorriu um sorriso quase banguela.

— Eu também. — voltou a colocar a mão no suporte. — Estou sozinho agora. — continuou, parecendo estar falando pra si mesmo. — Minha esposa e neta se foram há quase dez anos, elas morreram pelas mãos de um criminoso que fugia da polícia, o carro dele bateu no dela, ambos capotaram, elas não sobreviveram, ele sim.

Uma lágrima escorregou por sua bochecha e caiu na foto, senti minha garganta se apertar, abri a boca para dizer alguma coisa, mas nenhuma palavra veio à mim, a fechei.

— O cara foi preso. — disse com o tom de voz vazio, deu as costas para mim. — Mas foi solto logo depois, parece que ter matado as duas últimas pessoas mais importantes para mim não significou nada para a justiça. — e se afastou com passos lentos.

Fiquei parada no meio do corredor, observando o homem ir embora, mordi os lábios e me virei, passei de cabeça baixa por Gray, não querendo que ele visse em meu rosto minha expressão melancólica.

Era por isso que odiava hospitais. Eles guardavam muitas histórias dolorosas em suas paredes cinzentas.

Caminhamos em silêncio para a área onde ficava o necrotério, aquela parte era muito fria e um arrepio desconfortável me fez estremecer dentro da minha jaqueta, paramos em frente a porta dupla de metal onde uma placa cinza escrita NECROTÉRIO estava pregada na parede logo acima delas, Gray empurrou a porta e entramos, a visão de uma mesa alta de metal com o corpo decepado e aberto da vítima nos recepcionou, um homem de cabelos azuis escuros se inclinava sobre o cadáver, tão concentrado em examinar o conteúdo inexistente que não nos percebeu até que eu o chamei:

— Jellal.

Ele ergueu a cabeça, os olhos castanhos bem escuros confusos por poucos segundos.

— Ah, Lucy, Gray, não os escutei entrando. — disse, a voz abafada por causa da máscara que usava por cima da boca e nariz.

— Porque será, né? — Gray disse, se aproximando da mesa comigo em sua cola. — Como está indo com o trabalho, Doutor Mórbido?

Jellal tirou as luvas de látex manchadas de sangue e abaixou a máscara.

— Não me chame disso, Gray. — falou, talvez pela centésima vez, havia perdido a conta. — Já mandei as digitais para seu pessoal analisar, não deve demorar muito para...

Foi interrompido pelo toque do celular do moreno.

— Um momento. — disse e se afastou.

Jellal olhou pra mim, franziu a testa.

— Quando foi a última vez que você comeu ou dormiu direito?

Revirei os olhos.

— Estou assim tão ruim? — quando ele abriu a boca, emendei rapidamente. — Não precisa responder, por favor.

Ele deu de ombros.

— Olhe isso. — apontou para o interior vermelho e vazio do cadáver. — Está vendo essas marcas na carne?

Não estava, então, aproximei mais meu rosto, olhei atentamente, até encontrar as marcas.

— Sim. O que são?

— Não tenho muita certeza, mas parece marcas de uma pequena pá.

Levantei o rosto e o olhei, com uma sobrancelha arqueada.

— Uma pá? — repeti. — Você tá querendo dizer que ele tirou os órgãos com ajuda de uma pá?

Jellal confirmou com a cabeça, as luzes fortes da sala iluminavam seu rosto, deixando a longa cicatriz que tinha logo abaixo do olho esquerdo bem evidente.

— Mas na carta ele disse que os tirou com as mãos. — falei, erguendo-me.

Ele olhou, cansado, para o corpo.

— Ele não diz exatamente isso. — falou. — Não há nada que indique que usou as mãos para retirar os órgãos.

Franzi o cenho. Aquela informação não era exatamente útil, ela não nos dava nenhum caminho para seguir, mas mesmo assim, arquivei-a mentalmente.

— Você verificou a mochila de camping e a carta?

Jellal assentiu e apontou para uma outra mesa, perto da parede tomada por armários de metais que guardavam dezenas de cadáveres, a mochila estava aberta e vazia, seu conteúdo macabro havia sido posto em diversas bacias pequenas de metal, a carta, dentro de um plástico, estava na ponta da mesa.

E a cabeça da vítima estava equilibrada em uma bandeja, ao lado da carta, suas órbitas vazias e seu sorriso medonho me observando.

— Desculpe, mas não encontrei nada que pudesse ser de alguma ajuda. — Jellal disse, tirando minha atenção daquele sorriso. — Não há nenhuma impressão digital nem na mochila nem na carta, o corpo da vítima também está limpo, não há um único fio de cabelo ou sangue que poderia vir a ser do assassino.

Balancei a cabeça.

— A vítima foi estuprada?

Ele negou.

— Não, não encontrei nenhuma marca de uma possível agressão sexual.

— Sodomizada?

— Não.

— Hum... — então, ele não era impulsionado por um apetite sexual perverso.

Olhei para o chão de azulejos sujos, o quê o levava a cometer aqueles assassinatos brutais e a deixar uma confissão deles? Queria se tornar famoso por seus crimes? Provar alguma coisa pra si mesmo e/ou para o mundo?

Ou ele simplesmente gostava de matar?

— Descobriu o horário da morte? — perguntei, levantando o rosto.

Jellal confirmou e pegou um bloco de notas que estava na pequena mesinha que tinha bisturis de tamanhos diferentes, alguns com sangue seco em suas lâminas afiadas.

— Levando em conta do avanço do rigor mortis, que ocorre cerca de sete horas depois da morte, creio que ele foi morto por volta de três horas da madrugada. — olhou para as anotações feitas a lápis no papel, franziu o cenho, enrugando sua cicatriz. — Os garotos o encontraram as onze horas da manhã de hoje, creio que levou de uma as duas horas para você ser contatada, certo?

Balancei a cabeça, afirmando.

— Certo. — murmurou, colocando o bloco de notas de volta na mesinha, olhou para mim, bolsas roxas em formato de meia lua abaixo dos olhos grandes. — O corpo estava parcialmente fresco quando chegou aqui, o sangue restante nele ainda não tinha coagulado, então, pude fazer enxames toxicológicos para caso ele tivesse sido drogado. Não encontrei nenhuma substância estranha.

Suspirei, esfregando os olhos com força.

— Isso quer dizer que estamos na mesma. As marcas de facas...

Fui interrompida por Gray, que se aproximou, com olhos sérios.

— Já temos a identidade da vítima, Roberto Sylvia, 47 anos, morador de rua há cinco, aparentemente sobrevivia catando latas, ainda não temos informações de algum possível parente. — olhou para o corpo de Roberto com pena. — Nosso assassino pelo jeito não tem muitas especificações na hora de escolher suas vítimas, primeiro um homem de família com uma vida estável, agora, um morador de rua. — olhou de mim para Jellal. — Será que existe algum padrão?

Estava abrindo a boca para responder quando as portas duplas do necrotério se abriram e Natsu entrou por elas, suado e com as bochechas queimando em vermelho.

— Sempre existe um padrão. — disse, seus olhos escuros brilhantes de raiva me fuzilaram. — Obrigado por me ensinar o caminho.

Abri um sorriso amarelo.

— Pode sempre contar comigo.

Ele estalou a língua e se aproximou, encarando com interesse primeiro o corpo na mesa diante de nós e depois a cabeça sorridente na mesa mais distante.

— Uau, temos um verdadeiro psicopata à solta. — disse.

— Desculpe, mas quem é você? — Jellal perguntou, olhando para Natsu com uma sobrancelha arqueada.

— Agente Natsu Dragneel. — se apresentou, estendendo a mão. — Estou no caso também, então, você poderia me dizer toda a informação que repassou a minha... — olhou de rabo-de-olho para mim. — Parceira?

Pisquei. O quê?

— Espera aí, como assim parceira? — Gray perguntou, fulminando Natsu com os olhos.

O rosado abaixou a mão que Jellal não pegou e sorriu para Gray.

— Recebi ordens superiores de me juntar à investigadora Lucy. — respondeu. — Então, a partir de agora, eu sou o parceiro oficial dela, bem é até a investigação terminar e o assassino ser identificado e preso.

Encarei-o, boquiaberta.

— Mas isso, no pior dos casos, pode levar meses! — exclamei.

Natsu deu de ombros.

— Então teremos que nos empenhar seriamente para não fazer essa investigação durar meses. — me fitou, provocativo. — Vamos dar o nosso melhor, parceira. — ofereceu a mão.

Trinquei os dentes e, desconsiderando sua mão, dei-lhe as costas, indo na direção das portas a passos furiosos.

— Boa noite, Jellal. — despedi-me, sem olhar para trás.

Empurrei as portas e saí, porém, antes delas se fecharem, pude ouvir a última coisa que Natsu gritou:

— Não se esqueça da reunião amanhã, parceira!

Desgraçado.

Andei a passos rápidos, voltando pelo mesmo caminho que Gray e eu fizemos, com as mãos dentro do bolsos da minha jaqueta, não foquei meus olhos por muito tempo em nada nem ninguém, somente quando um enfermeiro trombou com força em meu ombro, murmurou desculpas apressadas e saiu correndo, que percebi uma movimentação em um dos quartos a minha frente e a direita, parei e olhei pela janela, o senhor da foto de mais cedo estava estirado na cama, a camisola fina do hospital aberta na região do tórax, havia duas enfermeiras arrumando o desfibrilador ao seu lado.

— Ele teve um ataque cardíaco! — exclamou uma delas quando um médico entrou no quarto, trazido pelo enfermeiro que trombou em mim. — O monitor não está captando nenhum sinal cardíaco!

Olhei para a tela verde, era verdade, havia uma linha contínua aparecendo nela, o som agudo e ininterrupto ecoando pelo quarto, observei quando o médico pegou as placas e as esfregou uma na outra, espalhando o gel condutor.

— Coloque em 175 joules! — exclamou, posicionando as placas no tórax do velho. — Vamos lá... 1... 2... 3!

O corpo dele ergueu-se para cima, o monitor apitou por um segundo antes de voltar ao seu som contínuo.

— Aumente para 220 joules! — o médico colocou as placas novamente no tórax. — 1... 2... 3!

Mais uma vez o corpo do homem se ergueu e o monitor apitou, não adiantou, desviei os olhos quando o médico recorreu a massagem cardíaca, passou-se alguns minutos e eu senti quando eles desistiram.

Com a garganta ardendo, saí do hospital.