Psicopata
26 Capítulo 26
Notas iniciais

Eu descobri que os humanos eram frágeis demais quando acompanhei a morte lenta e dolorosa de minha mãe, tinha dez anos e assisti, imponente, o definhar de uma mulher incrível e bela, o tumor cerebral foi descoberto tarde e para nós, eu e meu pai, só restou esperar a morte da pessoa que mais amávamos em todo o mundo, Layla não quis o tratamento, para quê? Isso só vai prolongar o nosso sofrimento; havia dito isso com um sorriso fraco, acariciando minha cabeça que não ultrapassava a altura da cama do hospital. Meu pai tentou fazê-la mudar de ideia, ainda há esperança.
Mas não havia. Eu sabia mesmo sendo muito nova, Jude sabia e Layla também. Era uma esperança inútil que somente serviria para intensificar a nossa dor.
Quando suas pernas magras já não suportavam mais seu peso e os desmaios tornaram-se mais frequentes, Layla foi internada, passou-se um mês e a última vez que a vi com vida, a mãe cheia de energia, possuidora de um sorriso largo que deixava suas covinhas muito evidentes e de mãos carinhosas que sempre bagunçavam meus cabelos, havia se transformado em uma mulher esquelética, tão pálida que sua pele se fundia com os lençóis brancos e com olhos opacos que não mais me reconheciam. Layla morreu algumas horas depois, meu pai e eu a vimos partir, e essa é a lembrança mais nítida que tenho dela, a do exato momento que o parco brilho de vida de seus olhos castanhos se apagou.
Aquela foi a primeira vez que vi Jude chorar. Meu pai sempre fora um homem sério, severo, de poucos sorrisos e quase nenhuma demonstração de amor, mas eu o conhecia, Layla também, sabíamos exatamente como era seu modo de nos dar seu afeto. E ele não era por meio de abraços e beijos. Se Jude tocava as pontas do meu cabelo quando passava ao seu lado ou puxava de leve meu pé quando estava no sofá, sabia que estava demonstrando o amor que sentia por mim como Layla também sabia que se ele a olhava profundamente por mais de um minuto ou a chamava sem motivo algum, ele a estava dizendo o quanto a amava.
Então foi um abalo para a criança que eu era vê-lo se desmanchando em lágrimas.
Lembro-me de como seus soluços ecoaram mais alto que o apito contínuo das máquinas que monitoravam o coração da minha mãe, ele havia se debruçado sobre o corpo sem vida de Layla e chorado como uma criança, como eu deveria ter chorado.
Porém minhas lágrimas não vieram, não naquele momento, estava chocada e desapontada demais, pois eu considerava minha mãe uma heroína, que jamais seria derrotada por nada e ninguém.
Alguns meses mais tardes, descobri que os humanos também eram fracos.
Jude havia se tornado um corpo sem alma logo após a morte Layla, era doloroso olhar para ele e não ver mais o homem que eu chamava de pai. Tudo o que fazia era automático, sem vontade e sem interesse, tornou-se um zumbi, somente comendo quando o corpo já não mais aguentava de fome, respondendo de modo monossilábico todas as minhas perguntas, a expressão vazia de seu rosto não se alterava nem mesmo quando eu berrava e lhe dava tapas fracos no peito, chamando pelo pai que não mais existia naquela casca.
Ele morreu de saudade, foi o que as pessoas disseram em seu enterro que ocorreu no mesmo local que o de Layla, seis meses atrás. Mas a verdade era que Jude não foi forte o bastante, nem por ele mesmo nem por sua filha, e preferiu o esquecimento da morte do que a dor da vida.
Então fiquei sozinha. Porém não por muito tempo, Makarov veio e tornou-se meu segundo pai, cuidou da garotinha triste que eu era e ajudou-me a não ser frágil e fraca como minha mãe e pai. Depois veio Gray e ele se tornou meu melhor amigo. Meu confidente e ombro para o qual eu podia correr sempre que me sentia prestes a desabar. Veio Loki e eu me apaixonei perdidamente, ele me fez a mulher mais feliz e amada do mundo. Então veio Zeref e tirou ele e meu filho de mim.
E foi quando percebi que eu era tão frágil e fraca quanto meus pais foram. Eu fora quebrada na infância e Makarov me ajudou a catar os meus cacos e a colá-los de volta em seus lugares, mas, eles não se encaixaram bem e remendada do melhor jeito que pude ser, continuei a viver somente para ser quebrada pela segunda vez em minha vida adulta, e fora Gray quem havia recolhido os cacos e os colados de novo.
No entanto, agora, encarando o mesmo Gray que tanto me ajudou a recuperar da perda que sofri, com o cano da Beretta pressionado em minha garganta e um sorriso perverso nos lábios, me perguntei quem iria me ajudar a catar os cacos e colá-los mais uma vez?
— Não faça essa cara. — disse-me, o sorriso sumindo de seus lábios e uma expressão de desprezo deformando seu rosto. – Não é como se eu tivesse te traído.
Eu me sentia oca.
— Então como é? – indaguei, a voz saiu clara, sem nenhum tremor.
Gray curvou-se, o cano da pistola escorregou para o meu peito e fez o cachecol de Gageel se desenrolar e cair no chão. O moreno ficou com o rosto bem próximo ao meu, seus olhos escuros me encaravam da mesma forma que sempre encararam, porém, dessa vez, eu via algo que não enxergava antes, não era frieza, maldade ou divertimento sombrio. Era apenas um vazio.
— Vamos dizer que é uma revelação? – seu tom era cruel mas seus olhos continuavam no mesmo estado, sem brilho, sem nada.
Estiquei os dedos e os deixei deslizar em sua testa pegajosa de sangue. Havia um corte nela mas o sangue já não mais vertia, estava coagulado ao redor do ferimento e seco no restante da pele branca do moreno, parecia ter sido provocado a um ou dois dias. Ele era limpo, profissional, fora autoinfligido. Gray não repudiou o contato mas tampouco o sentiu. Minha boca estava seca e minha cabeça latejando com muita violência, a visão estava embaçada, então pisquei várias vezes e foquei nos olhos escuros que já não eram mais conhecidos por mim.
— Tudo foi mentira? – indaguei, pronunciei cada palavra de maneira lenta, cansada. – Cada sorriso, abraço e palavra? Tudo uma fachada para esconder o seu verdadeiro eu?
— Sim.
Ele não hesitou em sua resposta e a dor que atingiu meu peito também não, ela era intensa e me deixou tonta, respirei, mas havia algo preso na garganta. Acho que era meu coração.
— Ah. — foi tudo o que saiu de minha boca, olhei-o, buscando um ínfimo lampejo de emoção em seus olhos, mas foi uma busca em vão, por que nunca havia notado que eles eram tão vagos? – Por que agora?
Um lento sorriso se desenhou em seus lábios. Mas ele era feio. Não era do Gray que eu conhecia e amava.
— Tinha passado da hora, sabe? – disse, levando sua outra mão que não estava empunhando minha Beretta e agarrou meus dedos que ainda permaneciam em seu rosto. – E muito, quantos anos nós nos conhecemos mesmo?
Ele sabia a resposta, mas continuou a me encarar esperando que eu lhe respondesse, havia um gosto amargo na minha língua.
— Nove anos. — respondi.
— Uau. Como o tempo voa.
— Me diga... — comecei e olhei para sua mão que agarrava meus dedos, ele os soltou de maneira bruta e ela bateu no chão. – Você é o Assassino das Cartas?
Nesse exato momento, a risada maníaca de Zeref ecoou pelo cômodo poeirento. Senti meu corpo enrijecer, o ódio lutou violentamente contra o meu torpor de negação e saiu vitorioso, me virei como uma cobra pronta para dar o bote, mas uma mão em meu cabelo e um puxão forte para trás me fez desequilibrar, minha nuca bateu com força na beirada da cadeira e a dor se alastrou por ela e desceu para a espinha, ofeguei e tentei me soltar, parei quando minhas mãos foram esmagadas contra o chão pelos pés de Gray e o cano frio da Beretta pressionou a lateral do meu pescoço. Abri os olhos e encarei o rosto de cabeça para baixo do homem que confiei o meu coração ferido e a minha vida.
— Calma, Lucy. — disse, usando o mesmo tom carinhoso que costumava usar quando eu me fechava dentro de mim mesma e ele tentava me fazer sair. E eu o odiei naquele momento, muito, demais, tanto que senti meu peito explodir em dor, pois eu fora traída, enganada, e machucada pela última pessoa do mundo que eu imaginava que pudesse fazer tudo isso. – Não faça nada que me obrigue a lhe dar um tiro.
E apertou o cano da pistola na pele lisa do meu pescoço.
O chão estalou e gemeu com os passos de Zeref, ele se aproximou e agachou-se ao meu lado, seu rosto estava tão próximo que eu podia localizar cada linha de crueldade que ele possuía, cada fio branco que se misturava ao negro não mais brilhante que era seu cabelo, ver cada manchinha na tez muito pálida e a magreza bem pronunciada de suas bochechas, trinquei os dentes com bastante força, minhas mãos tremiam, todo meu corpo tremia e o monstro de ódio dentro de mim rugiu em loucura.
— Oh, sim, era esse olhar que eu ansiava ver em seu rosto. — cochichou de modo conspiratório para mim, ele me encarava em deleite. – Um animal ferido severamente mas que está louco para rasgar a garganta de seu agressor.
— Chegue mais perto e você terá um pedaço de sua cara presa nos meus dentes. — arreganhei os dentes.
Zeref riu, não, gargalhou, alto e longamente. E quando voltou a olhar pra mim, havia lágrimas de riso em seus olhos, aquilo me fez rosnar, como um animal.
— Você mudou muito, como eu esperava. — se sentou, pegou a ponta de minha trança e começou a desmanchá-la. – Mas também, como não podia ter mudado, não? Já que eu matei seu querido noivo. — soltou uma risadinha. – Ah! E seu filho também! Descobri apenas mais tarde, depois que saí da UTI no qual você me confinou por longos e torturantes meses. — dito isso, puxou meu cabelo com força, arrancando dezenas de fios loiros.
Virei a cabeça para o seu lado e tentei lhe dar uma cabeçada, quebrar-lhe o nariz, fazê-lo sangrar. Porém a mão de ferro de Gray no topo dela me impediu, ele apertou suas botas em minhas mãos e seu olhar era de advertência. Eu cuspiria em sua cara se eu pudesse.
— Você nem imagina a extrema dor por qual passei. — seus olhos estavam febris e ele começou a puxar mais e mais minha trança, arrancando punhados de fios. – Por sua culpa, por culpa daqueles médicos desgraçados, a cirurgia pelo qual passei foi feita sem anestesia. Eu senti o bisturi daquele merdinha cortar minha pele, senti a pinça de mental enfiar em minha carne, entre minhas costelas e arrancar as balas. — rangeu os dentes tão alto que pareceu que ia quebrá-los a qualquer momento. – Oh! Mas eles ainda vão ser punidos, sim, sim, vão ser! Mas só depois de você, porquê você, Lucy, você acabou com minha bela vida! Atirou para me matar e depois me trancafiou por quatro malditos anos naquele inferno subterrâneo!
Havia lágrimas rasas em meus olhos. Não permiti que elas escorressem e segundos depois elas secaram, encarei o homem alucinado ao meu lado e sorri.
— Mas você mereceu, querido. — a voz que saiu da minha boca era distorcida, repleta da mais pura cólera. – Sabia que um dos cirurgiões responsáveis era pai de uma das suas vítimas? Jennifer Cohan, lembra-se dela? A garota de 25 anos, de cabelos curtos, repicados e sorriso de covinhas?
Zeref pareceu se encolher, seus olhos vermelhos desviaram para o batente da porta, parecendo ter visto algo que não estava realmente lá.
— Ah, sim, a linda Jennifer. — ele tombou a cabeça para o lado, seus ombros estremeceram e ele olhou ao redor do cômodo, quase como se esperasse que a garota morta há tantos anos fosse aparecer a qualquer momento. – Foi extasiante o modo como os olhos dela se esbugalharam quando eu comecei a sufocá-la.
Estudei sua expressão. Ele parecia assustado.
— Ela te assombra. — falei, surpresa, começando a rir logo depois quando ele me encarou, os olhos arregalados. – Meu Deus, ela te assombra! E tenho certeza que todas as outras também! – e cai em uma gargalhada alta.
— Ela não me assombra! – exclamou, fora de si, agarrando meu cabelo e o puxando com tanta força que minha nuca dolorida foi pressionada ainda mais na beirada da cadeira, não me importei só continuei a rir e rir. – Pare! PARE!
Fui puxada pra cima e jogada com violência no chão. Um chute acertou minhas costelas e arrancou meu fôlego, enquanto tentava recuperá-lo, vi um movimento nas sombras do corredor que dava para a cozinha e porta dos fundos. Gageel. Balancei a cabeça em negativa, lentamente, torcendo para que ele visse e entendesse o que aquilo significava, não queria que ele interrompesse, mesmo eu estando em total desvantagem, traída por um amigo e prestes a ser assassinada de modo lento e doloroso, não permitiria que me fosse arrancada a oportunidade de enfrentar meu demônio. Mesmo que eu saísse perdedora desse embate.
Fui virada pra cima. Zeref empurrou o pé em meu estômago, arfei. Gray estava ao seu lado, encarando tudo com um olhar vago e desinteressado.
E foi o olhando que matei o último filete de esperança que possuía de que tudo o que ele havia dito e feito fosse uma mera encenação.
— V-Vai, me conta! – falei com dificuldade, ainda tendo o estômago pressionado. – Como é a aparência delas? Você as vê lindas e vivas ou mortas e apodrecendo? Alyce Noonan e sua filhinha de 7 anos, Sophia, aparecem também né? E Loren? Sua aluna favorita, foi o que disse pra ela antes de estuprá-la e sufocá-la, não é? – tossi e saliva escorreu pela lateral da boca, Zeref aplicava tanta força em meu estômago que uma enorme ânsia de vômito surgiu, cuspi, não lhe dando o prazer de me fazer vomitar. – Tão dedicada! Júlia também e com certeza sua filha Elisa. Diane e Vanessa. As irmãs gêmeas que você seduziu separadamente, estuprou e matou em um intervalo de poucas horas! – continuei citando cada uma de suas vítimas e apreciando seu rosto tornar-se mais e mais pálido.
Zeref se afastou de mim e girou o olhar pela sala, alucinado, encolhendo-se de alguma coisa que somente ele podia ver e berrando coisas impossíveis de entender, a risada que borbulhava em minha garganta foi interrompida por um estampido barulhento de um tiro.
O som ecoou alto demais nas paredes finas, meu ouvido doeu e uma ardência em minha orelha esquerda me fez perceber que Gray havia atirado bem ao meu lado, a bala se cravou na madeira podre e eu ainda conseguia senti-la reverberar pelo impacto a mais de 400km por hora que uma bala era capaz de atingir, levei a mão até onde a dor se espalhava quente e latente, meu indicador sentiu o espaço vazio onde um pedaço da minha orelha foi arrancado pelo tiro.
— Calada. — ordenou, enquanto se agachava, observando o sangue escorrer e manchar todo o lado esquerdo do meu corpo. Olhou para o homem que alucinava ao nosso lado. – Elas estão mortas, Zeref, não podem fazer mal a você.
Ele usava o mesmo tom de voz que usara centenas de vezes comigo. Cuidadoso, protetor. E falso demais. A dor da minha orelha era fichinha perante a que estilhaçava meu coração.
— Elas estão aqui! – soluçou de modo demente, desequilibrando-se para a direita, como se esquivasse de algo. – Estão todas podres! Podres! A pele escorrendo dos ossos, caindo no chão, grudentas e soltando líquidos escuros e nojentos. O fedor. Oh, Deus, o fedor. É horrível. Saiam, não se aproximem! Saiam! SAIAM DE PERTO DE MIM!
Gray voltou a me olhar, com um sorriso acanhado.
— A mente dele é bem relapsa. Há momentos que ele está tão lúcido como era no passado mas há outros que ele se perde em sua loucura e começa ver suas vítimas. — me sento, tonta, e ele acompanha meu movimento com os olhos vazios. – Ele diz que elas vieram para arrastá-lo para o inferno.
O encarei. Havia um assobio em meu ouvido esquerdo, baixo e contínuo, que diminuía aos poucos.
— Por que não atirou aqui? – indaguei, batendo o indicador sujo de sangue na testa.
— Por quê acabaria com a diversão dele. — apontou para Zeref.
— O que vai ganhar fazendo isso?
— Nada. — deu de ombros. – Não é como se eu fosse um psicopata, Lucy. Não, não sou um assassino. Eu estou mais para um sociopata, sabe?
Pisquei lentamente.
— Então você não é o Assassino das Cartas?
— Não.
Pensei que sentiria alívio ou algo parecido apenas por saber que Gray não era o assassino que brincava comigo já fazia mais de mês, mas não senti nada, a verdade era que desconfiava que não voltaria sentir mais nada pelo resto da vida.
Olhei para Zeref que havia se calado e agora respirava de modo rascante, as mãos apertando as laterais da cabeça. E o ódio rugiu em meu peito.
Talvez só aquele sentimento.
— É ele? – indaguei, abrindo e apertando minhas mãos em punhos, sentia uma imensa vontade de voar na direção daquele monstro e rasgar sua garganta com as unhas.
E faria isso caso não levasse um tiro pelas costas. Gray não respondeu e depois de alguns segundos, eu o olhei, ele me fitava com um semblante frio.
— Não vai tentar recuperar sua arma? – balançou a Beretta em frente aos meus olhos, segurando-a com dois dedos em volta do gatilho. – Se consegui-la de volta, poderá matar o assassino de Loki e seu filho, e a mim também, você deve me odiar bastante agora, não?
Nós estávamos fora da realidade. Eu, Gray e Zeref. Porque eu estava conversando com meu amigo sociopata que havia me traído e me dado um tiro enquanto o homem que tirou tudo de mim estava tendo um surto psicótico ao nosso lado. O absurdo de tudo aquilo me fez rir. A risada era fina, sem humor e acabou segundos depois de começar, olhei para minha mão melada de sangue, o ferimento em minha orelha ardia muito e o sangue escorria em abundância pela lateral do meu pescoço.
— Estou impressionada. — comentei. – Você fingiu tão bem nesses anos que passou ao meu lado, ao lado de todos, que foi impossível descobrir que o Gray que conhecíamos era totalmente falso. — abri e fechei a mão, sentindo a pele grudar. – Como aguentou? Que eu saiba, pessoas como você, são antissociais demais, sabem fingir bem os sentimentos mas não aturam tanto por muito tempo.
Gray continuou a me fitar, deixei meus olhos deslizarem por seu rosto, procurando o Gray que jamais existiu de verdade, pensei em erguer a mão e encostar os dedos em sua bochecha, apenas para ver se haveria alguma reação, mas desisti, pois sabia que se fizesse aquilo, somente intensificaria a dor que se tornava parte de mim.
— Foi uma tarefa fácil. — falou, brincando com a Beretta, apontando-a hora para o meu rosto, hora para meu peito, braços, pernas. – Tudo que se precisa fazer é agir e falar o que a pessoa mais quer ver e escutar, ser carinhoso nas horas precisas, duro e irritado em outras, preocupado, tenso, pensativo. É só imaginar que você está fazendo uma peça de teatro, uma longa, onde você é o único ator e as pessoas ao seu redor é o público. Suas falas e gestos são regidos por eles, você faz tudo de maneira perfeita e os entretêm até o final. — sorriu e fez um bang!; imitando um tiro que acertaria o lado esquerdo do meu peito.
Aquilo era para machucar. E muito. Gray queria que eu sofresse e ele sentiria prazer nisso, ou talvez não, um sociopata usa os sentimentos para manipular todos ao seu redor, para se divertir ou por algum interesse, não se importa com ninguém, não sente afeto, amor, raiva ou tristeza. Para eles, a vida não passava de um acontecimento passageiro, as pessoas ferramentas e os sentimentos lixos.
— Que momento adorável e patético vocês estão tendo. — os olhos de Zeref ainda corriam por todo o cômodo, nervosos, mas ele parecia ter voltado a seu estado mais estável, ele se aproximou, sorrindo grande e se sentou ao meu lado. Gray encostou o cano da Beretta em minha barriga, ele estava morno. – Deixem-me participar também! Você quer saber como nos conhecemos, querida investigadora? Como seu amado amigo armou toda essa encenação de ele ser o Assassino das Cartas?
E soltou uma risadinha. Sorri de modo lento e o sorriso fez meus lábios doerem de tão grande e falso.
— Deixe-me adivinhar, sim? – falei com a voz animada. – Gray cansou-se, sabe? De fingir ser uma pessoa normal. Então, qual seria a hora mais fantástica para se revelar se não no meio desse caso que estava me desgastando tanto? Então foi bem simples deixar a digital na cena do crime e desaparecer, assim, ele seria o principal suspeito de ser o assassino, saberia que eu jamais aceitaria isso e quando enfim o encontrasse, revelaria que tudo não passava de uma longa e divertida encenação para ele, que eu nunca fui importante, que era somente mais uma ferramenta ao qual usar e depois descartar, e o que faria esse momento ainda mais chocante e doloroso para mim? Ele estar acompanhado do assassino que matou meu esposo e meu filho. — e cuspi em sua cara.
A bofetada que me deu com as costas da mão fez tudo a minha volta girar, bati o cotovelo no chão quando o coloquei no caminho para que não caísse com tudo, a madeira estalou e meu osso também, mordi os lábios, prendendo o grunhido de dor.
— Você deve ter se esquecido da situação que se encontra. – Zeref rosnou. – Acho que devo lembrá-la dela.
Senti quando se ergueu e quando Gray se afastou, sofrendo a dor imensa de um osso fraturado, tentei me levantar, preparar-me para qualquer coisa que viesse, no entanto, não tive tempo pra isso, meu tornozelo foi puxado, o que me fez perder o parco equilíbrio que possuía e bater o queixo com violência no chão, sangue encheu minha boca quando mordi a língua. Cuspi, sem lágrimas a me embaçar a visão.
— O quão alto você pode gritar, investigadora? – perguntou enquanto pressionava seu joelho na base da minha coluna, me imobilizando.
E passou a lâmina afiada de uma faca na pele nua da minha nuca. Meu corpo se retesou, tentando escapar da tortura que só estava começando, os membros ficaram rijos, prontos para lutar por sobrevivência, porém permaneci quieta, com os dentes trincados. Não gritaria. Não choraria nem imploraria para ele parar, não lhe daria a satisfação de negar misericórdia enquanto me cortava de modo lento e impiedoso.
Pude sentir sua fúria por meu silêncio quando talhou outro corte, este rasgou o casaco e deslizou pela pele do meu ombro esquerdo. O sangue empapou a camisa que vestia por baixo, senti-o muito quente em meu corpo frio. Logo depois veio outro, e mais outro e outro, Zeref puxou para cima minha roupa, deixando minha cintura exposta, os cortes foram longos, fundos, o ouvi soltar risadinhas enquanto cruzava os cortes, um em cima do outro, minha pele queimava, fogo em minhas veias.
Não gritei.
Não acho que deva ter passado nem cinco minutos do início da vingança de Zeref quando o chão estalou, alertando que outra pessoa estava presente no cômodo. Estalei a língua ferida.
— Parem agora mesmo! – a voz era de Gageel. Alta, furiosa.
Virei a cabeça para vê-lo apontando a arma hora para Gray hora para Zeref, o dedo indicador pairando, pronto, no gatilho.
O joelho que me prendia ao chão sumiu, no seu lugar, uma mão agarrou meus cabelos, desfeitos de sua trança, fui içada para cima e forçada a ficar de joelhos, meu corpo bambeava para os lados, sem forças para se sustentar sozinho. Os “dentes” da faca Taue estavam pressionados em minha garganta.
— Aconselho-te a não tentar nada, agente Redfox. – Gray falou, sorrindo e apontado minha arma para o meu rosto. – Eu posso atirar sem querer e a mão dele pode escorregar.
— Larguem as armas.
— Porquê faríamos isso? Nós estamos com a vantagem aqui.
— Gray, não faça nada...
O moreno moveu a mão e apontou a Beretta para Gageel.
— Não termine essa frase estúpida. — cuspiu. – Não é como se eu fosse capaz de me arrepender de algo, agente.
Gageel trincou os dentes. Ele não tinha alternativas, se atirasse em Gray, Zeref cortaria minha garganta, se atirasse em Zeref, eu levaria um tiro de Gray. Não havia saída. Pelo menos para mim.
Então a madeira do chão gemeu e Natsu apareceu, empunhando um revólver. Havia neve em seu cabelo e um sorriso de lobo em seus lábios. Seu surgimento foi tão de repente e desconcertante, que por um breve momento, Gageel relaxou, mas esse momento passou, não houve qualquer aviso ou sinal, nem uma mudança em sua expressão plácida ou no movimento que fez ao erguer sua arma, meu grito de aviso veio tarde demais e Gageel não pôde desviar a tempo.
O segundo tiro fez estremecer as paredes da velha casa e o baque surdo do corpo de Gageel ao cair ecoou pelo meu próprio.
Tudo ficou em silêncio por segundos. Aquele tipo de silêncio pesado, que surge sempre quando algo chocante e inacreditável acontece, a batida violenta de um carro, o anúncio de um acontecimento ruim, o exato momento em que um caixão é baixado em sua cova. Ele dura muito pouco tempo e quando vai embora, temos a impressão de que durou décadas, que nos fez envelhecer demais e deixou um gosto azedo na língua que jamais desapareceria.
O sangue rubro espalhou-se pela madeira escura, a fraca luz do cômodo lhe dando mais tons doentios que deveria ter, ele se infiltrou pelas fissuras do chão, do mesmo jeito que o meu fez há quatro anos, grudou nele para secar e se transformar em manchas.
Zeref me largou pois eu não havia percebido que estava lutando contra ele, urrando como uma fera selvagem, arranhando suas mãos e infligindo-me cortes da faca que ainda estava encostada em minha garganta. Quando me vi livre, arrastei-me até onde o corpo de Gageel estava, com dificuldade, pois o cotovelo fraturado não me permitia o apoio que necessitava, o sangue do agente misturou-se ao meu, ele fez minhas mãos instáveis e meus joelhos trêmulos escorregarem, impediu que eu chegasse rápido até o moreno caído e quando meus dedos esbarraram na manga de seu casaco, o terceiro tiro abalou tudo mais uma vez.
Olhei para trás e acompanhei a queda de Gray. O tempo tornou-se lerdo, permitindo-me ver os respingos vermelhos pairar no ar quando a bala o atingiu, os fragmentos dançantes da madeira muito podre que afundou quando seu corpo desabou e a Beretta escorregar de sua mão e parar em algum canto daquele cômodo.
Então ele voltou ao normal e eu me encontrava no mais absoluto desespero.
— Gray!
Ignorei a dor lancinante que correu por todo o meu corpo quando me ergui, vinda da fratura em meu cotovelo, da orelha e dos cortes em minha cintura, ombro e garganta. Dei poucos passos antes de desabar e acabei com a pouca distância que nos separava me arrastando.
Uma flor de sangue havia brotado no centro de seu peito. Tão grande quanto meu punho fechado. Pressionei a mão no ferimento, tentando parar o fluxo constante de sangue que vazava, Gray tossiu e mais sangue foi expelido, a bala havia perfurado um dos pulmões, seus estilhaços se espalharam por todo o interior e com certeza deve ter danificado outros órgãos, isso provocou um severo sangramento interno que não pararia nem se o moreno fosse socorrido nesse exato segundo.
— Calma, calma, você vai ficar bem. — balburdiei, encontrando o seu olhar. – Se concentre em mim, está bem? Concentre-se. Permaneça comigo, ok? Você pode fazer isso. Eu sei que pode. Vamos lá, Gray. Por favor... Não me deixe. Vai ficar tudo...
Um som borbulhante ecoou em sua garganta. Era uma risada.
— Fique... Quieta... — ofegou, ele me encarou pelo segundo mais longo de toda a minha vida. – Você... É tão estúpida.
E pela segunda vez, vi o brilho da vida se apagar nos olhos de uma pessoa amada. Pisquei.
Ergui-me e sentei-me direito. Estiquei a mão, passei os dedos de leve nas pálpebras de Gray, fechando seus olhos opacos. Não o odiei realmente. Não consegui fazer isso. E agora, mesmo sabendo que tudo o que passamos juntos, tudo o que compartilhamos e vivemos não passava de mentiras bem elaboradas, chorei um choro sem lágrimas por sua perda.
Pisquei. Virei o rosto para o lado. E fitei Natsu que exibia um sorriso calmo nos lábios, Zeref estava dependurado em seu ombro e o encarava em um deslumbramento quase infantil.
— Desculpe-me por isso, Lucy. — o agente ronronou, se livrando do toque do moreno e se aproximando de mim com passos predatórios. — Não devia ter te deixado ir com o agente Redfox, sabia que em alguma hora você descobriria esse lugar e encontraria o meu imprestável irmão. — se agachou a minha frente.
Zeref soltou risadinhas paranoicas.
— Ela está aqui, maninho, tá sim, tá sim, finalmente vou...
Natsu ergueu a Magnum .44, fazendo ele fechar a boca com um estalo.
— Eu lhe avisei para esquecer dela. Que ela é minha.
— Mas... Mas... Ela atirou em mim! — exclamou em voz alta, rilhou os dentes e veio com passos pesados até nós. — Me fez sofrer! Por culpa dela fiquei trancado em uma cela com elas! Sem saída! Sem saída! Com o cheiro podre me fazendo vomitar! O toque pegajoso! Nojento, nojento! — apontou para um local à sua direita, berrando e babando com um louco. — FIQUE LONGE DE MIM! Vocês estão mortas! Mortas! Não podem me fazer mal! Não vão me levar com vocês! Queimem no inferno sozinhas, suas prostitutas desgraçadas!
— Calado. — Natsu disse com a voz muito calma.
E atirou, pela quarta vez, o som do disparo fez estremecer as paredes.
A bala de calibre pesado da Magnum entrou pela lateral de sua cabeça, causando um mínimo buraco de entrada, porém, sua saída provocou uma chuva de miolos, estilhaços brancos do crânio, pedacinhos de pele, nervos e carne. O corpo de Zeref caiu com um barulho molhado no chão.
Natsu virou-se para mim. E sorriu.
— Agora não há mais ninguém para se intrometer. — ele pegou algo que estava preso em sua cintura. Era uma arma de eletrochoque. — Vamos sair daqui.
Meu corpo enrijeceu quando vários volts o percorreram. A escuridão se fechou sobre mim e a última coisa que vi antes de apagar foi o rosto pálido e morto de Gray.
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