Psicopata
24 Capítulo 24

Não havia sol naquela manhã. O céu cor de cimento era denso, suas nuvens estavam pesadas de chuva congelada e o ar muito frio entrava pela greta aberta da janela, a cama gemeu baixinho quando me sentei e a respiração profunda de Natsu não se alterou, observei-o por alguns momentos, o rosto adormecido do agente não possuía os traços de cinismo que parecia estar sempre em suas feições, ele era mais bonito assim, quando não estava sorrindo de maneira fria ou perversa, ergui a mão e afastei uma mecha de seu cabelo que lhe caia nas pálpebras, deixei os dedos por mais tempo que deveria em sua pele quente.
Afastei a mão. Desviei os olhos para o chão, decorado com papeis e fotos de corpos destroçados, mais deles se encontravam amassados pela cama, alguns rasgados, o mapa havia escorregado e tinha ficado intacto, peguei-o e dobrei, deixando-o em cima do criado-mudo.
Levantei e estremeci, minhas pernas estavam bambas e não pareciam muitos seguras quando andei pelo quarto, catando uma calça jeans que fora abandonada perto do guarda-roupa, peguei roupas íntimas e uma camisa qualquer, reparei marcas de dedos em minhas coxas, quadril e pulsos, esfreguei os locais que começavam a ficar roxos, doíam, estalei a língua, refreando o impulso de puxar as pernas de Natsu e deixar que sua cabeça tivesse um encontro doloroso com o chão, encontrei uma mordida em meu pescoço que ardeu quando a toquei e eu tinha uma leve impressão que não andaria direito por alguns dias.
Resmunguei alguns palavrões, enquanto abria a porta e ia até o banheiro.
O azulejo frio me fez arrepiar, por isso não me demorei à entrar debaixo do chuveiro que abri no mais quente que ele era capaz de suportar. Minhas mãos ainda em processo de cura reclamaram por conta da temperatura mas ignorei, a água dissolveu os nós de cansaço e tensão da minha nuca e ombros, relaxou os músculos duros e me fez sentir um pouquinho mais viva, com ajuda dos dedos, desembaracei os cabelos que caíram lisos até um pouco abaixo dos ombros, puxei as pontas, estavam quebradiças, resultado do meu mau cuidado, suspirei, talvez o cortasse bem curto para não ter que me preocupar muito com sua aparência. Ensaboei-me e enxaguei, fiquei mais alguns minutos curtindo o calor que havia amolecido meus membros e dado-lhes um pouco do conforto que só um bom banho é capaz e sai, sequei-me e vesti rápido, não querendo ficar muito tempo exposta ao frio.
Enrolei a toalha nos cabelos, no corredor, o cheiro bom de café passando me atraiu até a cozinha, encontrei Natsu encostado na bancada, de calça jeans e meias, o cabelo amassado de um lado e uma expressão satisfeita no rosto.
Ele me viu e um sorrisinho de lobo surgiu em seus lábios.
— Você escapou por pouco de ser atacada. — disse, lambendo os lábios de um jeito safado.
Fiz um esforço absurdo para não corar. Não sei se fui bem sucedida.
— O que quer dizer? — perguntei, sentando-me no banco alto e puxando a tolha para esfregar os cabelos.
O agente observou meus movimentos por alguns segundos antes de olhar em meu olhos.
— No banheiro. Você deixou a porta aberta.
Eu havia? Encarei o mármore da bancada.
— Bem, então devo estar agradecida por não ter sido certo?
Natsu soltou uma risada baixa que arrepiou os pelos da minha nuca, ergui os olhos quando ele se virou para a cafeteira que apitou, avisando que o café estava pronto. Havia marcas de unhas em suas costas e o contorno leve de uma mordida em seu ombro direito, pisquei, decidindo que olhar para qualquer outro lugar que não fosse na direção do agente seria muito bom.
— Ainda não. — disse, dando a volta na bancada e se sentando ao meu lado, empurrou uma caneca cheia de café para mim. — Estou me esforçando agora mesmo para não lhe devorar.
Deixei a toalha escorregar das mãos. Abaixei-me para pegá-la mas a mão de Natsu em meu pulso não me deixou, contrariando o que eu havia decidido há quatro segundos, olhei para ele, seus olhos negros me fitavam com intensidade, eles deslizaram por meu corpo, como se o estivesse vendo mais uma vez nu.
— Não seria uma hora muito boa para fazer isso, agente Dragneel. — falei, controlando o tremor que senti, só que dessa vez não era de frio. — Temos que estar na Delegacia daqui... — parei, sem saber que horas eram.
— Duas horas. São oito e meia agora. — respondeu à minha pergunta não feita, ele soltou meu pulso, deslizando seu indicador pela palma marcada por queimaduras. Ele franziu o cenho, olhando-as. — Você devia mantê-las enfaixadas, se recuperarão mais rápido. — e antes que eu lhe retorquisse de maneira azeda, ele abriu um sorrisinho. — E não é uma má hora para se fazer o que estou querendo.
Ele se curvou. Meu corpo respondeu automaticamente sem que eu notasse, nossos lábios se tocaram, senti a ponta de sua língua pressioná-los mas me afastei, antes que Natsu aprofundasse o beijo e eu não fosse mais capaz de pará-lo.
— Comporte-se. — resmunguei, pegando a alça da caneca e tomando um gole cauteloso do café pelando. Estava forte, da maneira que eu mais gostava.
Natsu resmungou e se levantou, postando-se atrás de mim, senti seus dedos mergulharem na juba loira que era o meu cabelo.
— Está bem. — murmurou, puxando mechas grossas e as desembaraçando com delicadeza, sua cintura se encostou na base da minha coluna. — Mas o que farei com isso?
Quase me engasguei com o café. Tive um comichão lá embaixo mas mordi os lábios com bastante força. Foco, Lucy. Foco.
— Cuide disso você mesmo.
O agente suspirou pesado. Não se afastou e continuou a pentear meu cabelo com os dedos, tomei meu café, esforçando-me para ignorar o volume que me pressionava por atrás, pensei no porquê de Gray estar desaparecido, ele tinha visto nos noticiários o que estava acontecendo, que estava sendo acusado de ser o Assassino das Cartas, estava em todos eles, as programações normais deviam estar sendo interrompidas a cada meia hora para repetir a notícia com outras palavras e imagens congeladas de gravações, era impossível não ver, então, porquê diabos ele não aparecia? Porquê não se apresentava e mostrava a todos que não era o doentio psicopata que matava pelo prazer de me ver atormentada? Ou será que ele não podia? Estaria preso em algum lugar, vivo ou morto, seu corpo destroçado apenas esperando ser encontrado pelos policiais? Por mim?
Descuidei-me e o café desceu muito rápido pela garganta, queimando-a junto com a língua.
Pousei a xícara, botando a língua pra fora e com lágrimas rasas em meus olhos, pisquei várias vezes, estava sentindo uma leve sonolência, que entorpecia de maneira sedutora meu corpo, causada pelos dedos de Natsu, o mesmo parecia trançar meu cabelo, em silêncio.
Olhei para os veios mais claros no mármore da bancada. Pensar em Gray fez um desconfortável sentimento de culpa pesar em meu peito, com toda aquela merda acontecendo, ele sendo acusado por crimes hediondos que não cometeu e ainda por cima desaparecido, e eu ali, tomando café depois de ter feito sexo com o Agente Especial Natsu Dragneel, em uma cama onde estavam as fotos das vítimas do psicopata.
Dessa vez as lágrimas que se equilibravam na parte inferior das pálpebras não era por ter queimado a garganta e a língua, que ainda ardiam muito, levei um susto quando o braço de Natsu bateu ao meu lado, seu peito colou-se nas minhas costas quando abaixou a cabeça até que seus olhos estivessem na altura dos meus. Ele me encarou.
— O que foi? — sua voz tremeu por alguma razão desconhecida por mim.
Quase cheguei a pensar que ele estava segurando o riso.
— Não foi nada. — falei, soltando uma risadinha falsa. — Só queimei com o café.
— Não minta, parceira. — os cantos dos lábios quase se curvando em um sorriso que pareceu um esgar para mim. — Estava pensando em Gray, hã?
Crispei os lábios.
— Sim. Estava. — não desviei os olhos. — Não comece.
— Não ia. — rebateu no mesmo instante. — Nada do que eu falar te fará acreditar que seu amigo mais íntimo é o perverso Assassino das Cartas, que mata suas vítimas com crueldade somente para lhe atingir, enfraquecer e no fim, dar o golpe final.
Odiei o tom de falso e leviano que mascarava a frieza impiedosa de suas palavras. Arreganhei os dentes em um sorriso horrível.
— Vamos discutir isso. — falei com o tom doce.
Girei o banco, pegando-o de surpresa, meus joelhos bateram em seu quadril e o empurraram, porém, antes que se afastasse demais, cambaleando, agarrei o cós de seu jeans e o puxei de volta. Pousei uma mão em seu pescoço, forçando-o a se curvar para mim.
— Repasse todas as informações que temos certeza que são verdadeiras sobre o Assassino das Cartas, não deixe que nenhuma lhe escape, lembre-se das quatro mensagens que ele me deixou, palavra por palavra. — pedi, meu tom mordaz fazendo seus olhos se arregalarem. — Fez isso? Certo. A palavra que podemos usar para simplificar nosso assassino é: meticuloso. Extremamente meticuloso. O que conseguimos de provas sobre sua identidade? Nada. Algum fio de cabelo? Ã-ham. Pegadas? Nem. Digitais? Quem me dera. Conseguiu perceber algum traço de personalidade predominante nas mensagens que deixou em cada cena de crime? Mas é claro! Cruel. Talvez um pouco manipulador. E também um escroto devasso, que sente um extremo prazer em dar sofrimento à suas vítimas antes de cortar-lhes a cabeça fora!
Parei. Controlei a respiração. Soltei o ar, fechando os olhos por segundos, abri-os e o encarei com veemência.
— E se ele é tão meticuloso assim, como pode ter deixado uma impressão digital na sua última cena de crime? "Ah! Ele se descuidou!" Ao inferno que se descuidou. Três lugares, três corpos mutilados, nenhuma ligação com as vítimas, nenhuma prova que poderia identificá-lo, por um mês e vinte seis dias ele enganou a polícia, brincou com ela e comigo, aterrorizou a população com a ameaça de que mais uma vítima seria feita caso não fosse pego, e olha! A quarta e a quinta de uma vez! Sendo que uma não era para estar onde estava quando apareceu à porta de seu apartamento. — soltei uma risadinha louca. — Isso acabou com o plano dele, sabe? Se minha suposição estiver correta, o assassino vai abandonar esse plano e partir para outro ou direto para a finalização, mas seguindo o raciocínio da primeira alternativa, o que poderia ser melhor se outra pessoa fosse acusada pelos assassinatos?
Minha boca estava seca. Lambi os lábios, não desviando os olhos dos de Natsu, que me fitava, parecendo assombrado e ao mesmo tempo maravilhado.
— Seu caminho estaria livre para fazer o que quiser caso a policia estivesse concentrada na busca de um bode expiatório. E foi com esse pensamento, essa saída, que ele trucidou Alex Harris depois de explodir a metade inferior do rosto de Kevin Bristow, escreveu sua mensagem no banheiro e deixou a digital que horas mais tarde seria encontrada pela perícia e um dia depois seria identificada como pertencente a Gray Fullbuster, o melhor amigo de seu alvo. — soltei seu pescoço e o cós de seu jeans, o agente continuou na mesma posição. — Claro, não há nada que sustente isso, nenhuma prova, a não ser as minhas palavras e a minha certeza absoluta de que Gray é inocente. Mas, vamos lá, isso não parece a saída perfeita? — e dei leves tapinhas em sua bochecha.
Levantei e peguei a xícara, o café estava frio quando terminei de tomá-lo, passei os dedos no cabelo, encontrando uma trança embutida bem feita e presa com uma mecha do meu próprio cabelo. Fiquei surpresa, quem diria que o agente do FBI sabia trançar tão bem? Daria um ótimo pai.
— Não sei como o assassino conseguiu a digital de Gray. — falei depois de alguns momentos perdida em outros pensamentos, passei a xícara de uma mão para a outra, deixando a porcelana morna quase escorregar e cair no chão. — Mas não seria tão difícil, sabe? Se ele estivesse mais perto do que pensamos, trabalhando conosco, conversando e trocando informações, ele poderia coletar a digital de qualquer copo descartável que Gray teria usado nas reuniões, nas portas de sua viatura e também no volante, nas folhas e fotos do caso, mas essas estariam misturadas com dezenas de outras então suponho que não foi coletada dessa maneira. — suspirei e coloquei a xícara na bancada. Olhei para Natsu. — Está acompanhando? Já entendeu o que quero que você entenda? O assassino armou de forma brilhante para cima de Gray, tornou-o culpado pelos crimes que cometeu, fez a polícia e a população inteira começar a caçá-lo e seu caminho foi obstruído. Ele está livre pra fazer o que quiser. E ele virá atrás de mim, pensando que estou convencida de que meu amigo é o assassino que se diverte em me atormentar de modo horroroso, nojento.
O som agudo do interfone ecoou pelo apartamento. Olhei para o aparelho, ao lado da porta, voltei a atenção para o agente, que parecia não ter escutado, dei de ombros e fui até ele, sentindo o peso dos olhos de Natsu em mim o tempo todo. Atendi.
— Entrega para Lucy Heartfilia. — uma voz rouca respondeu.
Franzi o cenho.
— Um momento por favor.
Fui até o quarto e peguei o coldre com minha Beretta presa à ele, prendi-o na cintura, voltei a sala e caminhei até o hall de entrada, calcei as botas, peguei um casaco do agente e o vesti, olhei para trás, sorrindo friamente para homem com marcas de unhas nas costas.
— Quando ele vier, eu estarei esperando por ele, agente Dragneel. E se não conseguir prendê-lo, o matarei.
Abri a porta e a fechei, não deixando de ver no último segundo a expressão esquisita que deformou o rosto de Natsu.
***
Não retirei a mão do cabo da Beretta mesmo quando vi um homem baixinho, calvo e um pouco fora do peso, com seu uniforme de um vermelho berrante absurdo dos correios pela porta de vidro, fui até lá, destrancando a porta e a abrindo, o ar muito frio queimou a ponta do meu nariz e as bochechas.
— Você é a senhorita Heartfilia? — perguntou, limpando a garganta antes, ele usava uma touca azul para proteger suas orelhas do frio.
Analise-o por alguns segundos, procurando não sei o quê em seus olhos castanhos escuros, quando o homem arqueou uma sobrancelha, confuso, relaxei a postura, abrindo um pequeno sorriso de desculpas.
— Ah, sim, sou. — respondi, largando o cabo da pistola e enfiando as mãos dentro dos bolsos largos do casaco.
— Isso é pra você. — disse, retirando um pequeno pacote da enorme bolsa que carregava atravessada nos ombros.
Peguei o pacote embalado com papel marrom, virei-o nas mãos, não havia o nome do remetente, somente o meu em um dos lados. Sacudi bem devagar, cautelosa, algo bateu lá dentro, muito leve.
— Quem enviou?
— Não sei, senhora, estava na caixa do correio de nossa agência, junto com muitas outras para serem enviadas. — respondeu distraído, pegando uma prancheta presa do lado de fora de sua bolsa, ele a estendeu para mim. — Você é a investigadora certo? Dos noticiários.
— É, sou. — olhei ao redor, a neve havia cobrindo tudo, os carros estacionados, o asfalto, os telhados dos apartamentos e as árvores.
— Que reviravolta, em? — o homem continuou, enquanto eu dava alguns passos para frente e olhava os dois lados da rua. — Quem diria que um de seus próprios seria o assassino! Por isso que digo aos meus filhos, não se pode confiar em ninguém hoje em dia.
Fui até o meio fio, deixando que o entregador continuasse a tagarelar, suas palavras incompreensíveis para mim enquanto me concentrava em inspecionar cada possível esconderijo que podia haver naquela rua. Neve suja entupia os bueiros e impedia que a água das que já derreteram escorresse, sem lugar para ir, ela ficava parada e tornava-se gelo quebradiço, com folhas, gravetos e embalagens presas por baixo dele, ainda era cedo e por causa do frio intenso a rua estava completamente deserta, mesmo assim, fui até o meio dela, olhei os estreitos becos que os prédios tinham, atrás das grandes latas de lixos, das árvores que eram altas e de troncos grossos, parei de procurar só quando tremia de frio por causa da neve que havia caído de um galho em minha cabeça e que agora derretia e escorria fria para as minhas costas, voltei para onde estava o entregador, que me fitava estranhamente.
— Tem certeza que não sabe quem enviou isso? — chiei a pergunta por meio dos dentes trincados.
O homem de vermelho berrante deu um passo para trás, assustado com a brusquidão da minha voz.
— Não, senhora. Centenas de pacotes e cartas são deixadas na agência todos os dias. Não há como saber quem as deixa.
— Vocês têm câmeras que monitoram o local de depósito?
— A-ah, temos sim!
Olhei para o pacote que ainda estava em minha mão. Eu sabia o que tinha ali.
— Ótimo, mandarei alguns policiais para recolher as gravações de dois dias atrás até hoje mais cedo. — olhei para a esquerda, havia uma pick up preta se aproximando.
— Hm... Hm... Investigadora, posso perguntar o porquê disso?
Observei a pick up estacionar um pouco a frente. Gageel Redfox saiu dela e se encaminhou para onde eu estava, olhei para o entregador.
— É possível que quem enviou isto. — balancei de leve o pacote. — Tenha sido o Assassino das Cartas.
Os olhos do entregador se arregalaram de pavor.
— O tal Full alguma coisa?
Fuzilei-o com os olhos.
— Fullbuster, e não, não foi ele.
Assinei a folha na prancheta dele e o despachei sem responder qualquer outra pergunta que me fez, conhecendo bem as pessoas, ele correria direto para a primeira estação de rádio ou emissora de TV para contar que a Investigadora Criminal Lucy Heartfilia havia acabado de receber um pacote do assassino Gray Fullbuster.
Soltei um suspiro pesado que se transformou em uma grande nuvem branca e que se dissipou rapidamente a minha frente.
— Porquê está molhada? — Gageel perguntou assim que se aproximou o bastante para ver o casaco mais escuro onde a neve derretida o molhou. — Vai pegar uma pneumonia desse jeito.
Estendi o pacote para ele, que pegou sem entender, o agente vestia roupas pesadas e escuras, um cachecol grosso envolvia seu pescoço, seus cabelos, parecendo mais selvagens do que nunca, caiam em cascata a suas costas.
Encolhi-me em meu casaco.
— Não abra. Se eu estiver certa, o bebê de Alex Morris estará aí.
Gageel enrijeceu, o pacote se amassou um pouco em suas mãos quando ele o apertou, vi-o se esforçar para relaxar.
— Certo. — disse essa palavra muito baixo e com os dentes trincados de raiva. Ele suspirou e me fitou, com manchas roxas debaixo dos olhos rubros.
— Muito trabalho? — indaguei, me aproximando em busca de calor corporal. Estava frio demais.
O agente tirou o cachecol e o enrolou com força em volta do meu pescoço, fingi engasgar e isso o fez revirar os olhos.
— Estou te ajudando. — resmungou. — E sim. Muitos viraram a noite nas buscas por Gray.
Confirmei com a cabeça, olhando para a calçada fofa de tanta neve.
— O que aconteceu? Você não veio aqui apenas para me ver, certo? — abri um sorriso sarcástico.
Gageel não respondeu imediatamente. Olhei-o.
— Você conhece Sam Fisher?
Minha garganta secou. Não. Por favor.
— Ele está morto?
— Seu corpo foi encontrado, enforcado, dentro do banheiro de sua casa. — contou o moreno, a voz imparcial. — Um vizinho ouviu alguns sons estranhos na noite de ontem e somente hoje de manhã foi lá para perguntar se estava tudo bem, a porta de Fisher estava aberta, naquele bairro ninguém tranca as portas, é muito tranquilo, o apartamento estava normal, nada revirado, o corpo estava pendurado no cano do chuveiro por um cabo grosso de computador.
Cerrei os olhos, encolhendo-me agora no cachecol quente do agente. Minha garganta ardia. Senti sua mão apertar meu ombro.
— Como... Soube disso? — perguntei com dificuldade.
— Não havia nenhum policial disponível quando a chamada foi feita, às seis e pouca da manhã, então eu me ofereci para ir.
— E por quê está me contando isso?
— Porquê você talvez tenha sido a última pessoa a ver Sam vivo; você o visitou, não é?
Engoli o que parecia ser uma bola de algodão presa na garganta.
— Sim. Eu fui.
Ficamos em silêncio por alguns minutos.
— Os discos rígidos dos computadores dele foram apagados. — informou, ele pareceu mexer no bolso. — Havia câmeras no apartamento dele, as gravações foram apagadas também, mas parece que Fisher tinha uma programa de segurança que copiava qualquer informação e as enviava para outro computador, como backup.
Ele me virou para mostrar seu celular, vi a porta do apartamento de Sam e um homem se aproximar dela, a gravação era de uma alta definição e eu pude reconhecer perfeitamente quem era, um gelado arrepio escorregou por minha espinha.
— Zeref. — sussurrei, acompanhado a sequência de gravações, Bennett entrando e abordando Fisher, houve uma luta e um flash azul, o corpo de Sam desabou ao chão, sofrendo convulsões. — Arma de eletrochoque. — com a visão embaçada, vi quando Zeref arrastou o corpo de Sam até o banheiro, desenroscou o chuveiro do cano, enrolou o cabo de computador no pescoço do homem desacordado e com aparente esforço, o amarrou com a outra ponta no cano, segurou-o ali, até que Sam parece de se debater e tentar se libertar, e quando enfim parou, Bennett soltou e deixou o corpo sem vida balançar levemente de um lado para o outro. — Oh, meu Deus.
Afastei-me de Gageel, precisando de ar, precisando vomitar tudo o que poderia estar dentro do estômago, com pernas trêmulas, deixei-me cair na neve fofa. Quis chorar por Sam Fisher tanto quanto quis chorar por Alex Harris e seu bebê, mas novamente não deixei que as lágrimas viessem, isso fez minha garganta doer, muito, a respiração se prendeu nela e eu comecei a sentir falta de ar.
— Calma. — a mão de Gageel tampou meus olhos, como se ele precisasse esconder do melhor jeito que podia minha expressão agoniada do mundo ao redor. — Calma, Lucy.
Eu não queria me acalmar. Queria morrer por falta de oxigênio ali mesmo. No entanto...
Se eu me forçar mais um pouco a controlar meus sentimentos, impedi-los de se manifestarem, talvez, algum dia que pode não estar muito distante, eu me quebre e fique oca para sempre.
Respirei.
— O que está acontecendo? — ouvi a voz de Natsu cortar o frio ar. — O que está fazendo com minha parceira, Gageel?
Eu estava confusa demais. O que havia acabado de ver não se encaixava em nada do que eu sabia atualmente, porquê Zeref tinha matado Sam? Tinha que pensar. Mas não ali.
— Me tire daqui. — pedi baixinho.
A outra mão do agente Redfox segurou minha cintura e ajudou-me a reerguer, ele não retirou a outra dos meus olhos, o agradeci por isso.
— Estamos dando uma saidinha, agente Dragneel. — disse, conduzindo-me até sua pick up. — Não precisa se preocupar, estaremos de volta no horário que devemos estar, lá na Delegacia.
Gageel não precisou da outra mão para me colocar no alto banco da sua enorme pick up, a batida da porta abafou o que Natsu gritou, usei o cachecol para tampar meu rosto e me encolhi no confortável banco.
Eu queria voltar no tempo em que eu era apenas uma garotinha de cinco anos, levada demais para escutar os avisos da mãe de não correr descalça na rua, porquê meus pés poderiam se cortar em cacos de vidros escondidos. Queria os cuidados dela quando quando eu voltava para casa com os pés sangrando. Queria ouvir sua bronca e depois sua leve risada.
Mas eu não podia. E teria que cuidar das minhas próprias feridas e problemas sozinha.
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