Psicopata

17 Capítulo 17


Notas iniciais
Olá, desculpem-me mais uma vez pelo atraso, dessa vez foi por não ter tido inspiração e por não querer escrever um capítulo ruim, decidi deixar para a próxima semana, espero que gostem, o 18 será postado à tarde. ☻

Era difícil tomar banho com as mãos queimadas do jeito que as minhas estavam, por ter recusado a ajuda que a enfermeira me ofereceu enquanto retirava as ataduras, agora eu lutava com meus dedos rígidos que insistiam em não segurar o sabonete neutro, soltei um suspiro impaciente quando mais uma vez o sabonete caiu no chão bem limpo do banheiro que meu quarto possuía, deixei-o onde havia ido parar, perto do ralo, e fechei o chuveiro, as queimaduras estavam bem vermelhas, inflamadas, algumas bolhas tinham estourado durante o meu pseudo banho e ardiam com fúria, estiquei a mão para pegar a toalha mas a deixei cair por não aguentar segurá-la, parecia que ferros em brasa estavam sendo pressionados nas palmas das minhas mãos, havia lágrimas de dor em meus olhos, mas segurei-as com dureza, não chorei nos meses de recuperação por causa do tiro que levei, por mais que a dor tivesse sido agoniante, ela jamais chegaria aos pés da que eu senti quando perdi Loki e meu filho.

Olhando para a toalha com o cenho franzido, fui até a porta do banheiro, pensando em abri-la de algum jeito e chamar a enfermeira. Parei. Natsu estava me esperando no quarto. Sabia disso porquê havia escutado sua voz ao celular poucos instantes atrás, não era exatamente um problema um agente do FBI entrar no quarto de um paciente sem autorização do mesmo, de acordo com o Hospital.

Bati a testa na madeira, gemendo de frustração.

Meu orgulho jamais permitiria que eu pedisse ajuda ao agente e minha vergonha me proibia de sair dali e deixá-lo me ver nua. Com as mãos enrijecidas pelo ardor, voltei para onde estava a toalha e a peguei, finquei as pontas dos dedos no pano macio, mesmo quando senti que minha pele se desprenderia dos ossos caso eu continuasse segurando-a, não a soltei, enrolei a tolha em mim do melhor jeito que pude, deixei os braços bem rente ao corpo, prendendo-a de um modo bem precário.

Voltei para a porta. Tentei girar a maçaneta, mas ela escorregava das minhas mãos em chamas. Quando estava quase pensando em engolir meu orgulho e chamar Natsu, a porta se abriu, fazendo-me soltar para trás para não ser atingida por ela, e o dito cujo abriu um sorriso de pura malícia.

A tolha havia escorregado.

— Ora, que visão mais bela. — disse, lambendo os lábios e dando um passo na minha direção.

Com o rosto queimando, tentei pegar a toalha, mas meus dedos se recusaram a me obedecer, trinquei os dentes e me ergui, não fiz questão de tampar nenhuma parte do meu corpo, já era tarde demais para isso.

— Pode chamar a enfermeira por favor, agente Dragneel? — pedi com a voz controlada.

O sorriso dele se tornou mais largo e ele eliminou a pouca distância que nos separava, suas mãos pegaram minha cintura e puxaram meu corpo para o seu, Natsu me fitou do alto, os olhos intensos repletos de segundas intenções.

— E estragar essa maravilhosa oportunidade? — ronronou, seus dedos pressionaram a base da minha coluna e um fogo diferente do que queimava as minhas mãos desceu por minha espinha. — Não mesmo.

Desviei o rosto quando percebi seus lábios se aproximarem, tive que reunir todo o meu esforço para não ceder àquele beijo que sabia que iria me devorar.

— Não me faça chutá-lo onde doí mais, Natsu. — grunhi.

Ele riu, notando a ameaça vazia em minhas palavras.

A verdade era que eu não o pararia caso ele avançasse com mais que um beijo, podia sentir o quão trêmulas minhas pernas estavam e como a minha respiração saia em arquejos curtos, meu coração estava acelerado e eu estava toda arrepiada, eu era crescida o bastante para saber que estava atraída por Natsu, que o desejava, no entanto, jamais me permitiria envolver com qualquer homem, quatro anos haviam se passado desde que tive um relacionamento que não fosse de amizade, que fui tocada, desejada, que toquei e desejei, neguei a chance de um novo amor à mim, não só por causa da minha incapacidade de amar novamente mas também por saber que nenhum homem deveria dividir a carga horrível que carregava em minhas costas, eles não mereciam uma mulher estragada como eu, uma que não os amaria de volta, rangi os dentes, me afastando de Natsu, ou tentando, já que seus dedos afundaram na minha carne e não me deixaram dar uma passo sequer para trás.

— Não pense que vou te deixar escapar depois disso. — murmurou em meu ouvido, roçando os dentes de leve no lóbulo da minha orelha, estremeci quando seus dedos escorregaram por minha pele nua e pararam sobre a cicatriz, ele os manteve ali. — Tão bela.

Enrijeci quando sua outra mão deslizou pela lateral direita do meu corpo e esbarrou de leve em meu seio, quebrando a atração que Natsu tecia a minha volta, puxei o braço para trás e desferi uma cotovelada em seu peito com força o bastante para ele se afastar de mim com um grunhido, não o olhando, agarrei a toalha, ignorando a fúria das chamas em minhas mãos, me enrolei nela, ergui os olhos para o agente que esfregava o lugar onde atingi com uma careta de dor e raiva.

— Não toque em mim como bem quer, agente Dragneel. — grunhi, com os dentes trincados. — Vai receber mais do que uma cotovelada da próxima vez que ousar me tocar desse jeito.

Os olhos escuros de Natsu me fuzilaram.

— Não vai se manter longe das minhas mãos por muito tempo, parceira. — disse, sorrindo com ferocidade. — Acha que não percebi o desejo que sente por mim?

Travei o maxilar.

— Não vou negar que estou atraída por você, Natsu Dragneel. — não deixei que um sorriso convencido lhe tomasse os lábios, continuei. — Mas isso não significa que vou me entregar a você, posso ter deixado você me beijar, posso até ter respondido aos seus beijos, porém não espere algo mais do que isso da minha parte.

Ele sorriu, mas seus olhos se tornaram tão frios quanto gelo.

— Não fale desse jeito tão precipitado, Lucy. — caminhou de costas para fora do banheiro, ainda com o sorriso falso estampado nos lábios. — Poderá ter que engolir essas palavras não muito tarde.

Segui-o, observando-o dar me as costas e caminhar até a cama, onde uma mochila abarrotada estava sobre ela, ele a pegou e a lançou para mim, dei um passo para o lado, deixando que a mesma caísse no chão. O som que provocou ao bater nele foi pesado.

— Não sei se reparou, mas não estou na minha melhor forma para receber lançamentos. — chiei, encarando-o com irritação.

— Oh, desculpe. — aproximou-se com uma fingida expressão de arrependimento, se curvou e pegou a mochila pela alça, quando se endireitou, sorriu de modo mordaz. — Trouxe algumas roupas para você, parceira, achei que precisaria delas.

— Pensei que o apartamento estava interditado. — falei, depois revirei os olhos, lembrando-me com quem estava falando. Um agente do FBI. — Ah, claro.

— Trouxe isso também, você talvez necessite dela. — abriu o fecho e logo em cima de algumas calças dobradas, estava a minha Beretta.

Senti o ar ficar preso em minha garganta.

— Como você a achou? — demorei alguns segundos para formular a pergunta, encarando a pistola como se ela carregasse uma doença mortal que mataria na hora quem a tocasse.

Vislumbrei um brilho sórdido nos olhos escuros de Natsu antes dele piscar e ele desaparecer.

— É fácil achar algo quando se sabe o que está procurando. — pegou a pistola e jogou a mochila de volta para a cama, a arma pareceu ainda mais ameaçadora em suas mãos, seus dedos experientes passearam pela câmara, pelo gatilho e tambor, destravou-a, o clique ecoou alto pelo quarto, retirou o carregador e o colocou de volta, verificou-a com olhos analisadores antes de estendê-la para mim. — Ela ainda está em ótimo estado de conservação se for levar em conta do tempo que passou em uma gaveta fechada, mas, seria bom limpá-la antes de tentar usá-la.

Afastei-me da arma como se ela estivesse carregada e apontada direto para mim. Meus dedos agarravam a barra da toalha com força.

— Não quero. Jogue essa merda fora. — rosnei.

Devia ter feito isso ao contrário de tê-la guardado. Natsu não abaixou a mão, ao invés disso, se aproximou e agarrou meu pulso esquerdo.

— Você é canhota. — não perguntou mas afirmou. — Sua mão esquerda não aguentará segurar a pistola, por estar machucada, mas você conseguirá mantê-la erguida e com o dedo no gatilho caso segure-a com ambas as mãos e faça um pequeno esforço para aguentar o desconforto. — parou, olhando as queimaduras visíveis por entre meus dedos fechados, elas paravam pouco antes de atingir o pulso. — O recuo da arma vai ser bem doloroso.

Tentei puxar meu pulso de seu aperto, mas ele não me permitiu, encarei-o com fúria e ele me devolveu o olhar com um sorriso insensível.

— Eu já lhe disse que não a quero, agente Dragneel. — falei, com a voz mais calma que pude, relanceei o olhar para a Beretta e voltei a encarar Natsu. — Não preciso dela.

— Como pode achar que não vai precisar dela? — ronronou, inclinando a cabeça para o lado. — Zeref Bennett está a solta, escondido em algum lugar, só esperando um deslize seu para te pegar, ainda há o Assassino das Cartas, que também deve estar monitorando cada passo seu, analisando cada gesto e procurando uma maneira de lhe encurralar em um beco sem saída. — puxou meu pulso e encostou o cabo da Beretta em meus dedos firmemente fechados. — O que fará se qualquer um desses dois lhe apanhar de guarda baixa? Deixará que eles façam o que quiser com você?

De dentes trincados, abri os dedos, minha mão pulsava de tanta dor e quando Natsu depositou a pistola nela, ela se intensificou, meus dentes rangeram quando os trinquei com ainda mais força.

Ergui a mão, segurando com vigor o cabo da Beretta e apontei para a parede do nosso lado, minha mira estava vacilante por causa do tremor intenso em minha mão.

Não sabia se a causa era a dor ou outra coisa.

— Não acertarei ninguém desse modo nem se a pessoa estivesse a menos de um metro de distância. — resmunguei com a voz quebrada, engoli em seco.

A mão do agente envolveu a minha e manteve a mira firme.

— Se estiver ao meu lado, não precisará acertar ninguém. — não o olhei por sentir seus olhos cravados em mim. — Pode ter certeza que não errarei. — e com a voz baixa, disse. — Matarei quem quer que se aproxime de você.

Não tive tempo de processar o que ele disse por causa da entrada da enfermeira, ela parou de chofre quando viu a pistola em nossas mãos, arqueou uma sobrancelha.

— Acho que não deveria estar segurando isso, investigadora Lucy. — disse e sua voz soou severa, enquanto Natsu escorregava os dedos da minha mão e pegava a pistola, a enfermeira, Dorothy era seu nome, bordado em verde claro em seu jaleco branco, se aproximou e pegou minha mão com cuidado, estalou a língua em sinal de desaprovação. — Olhe para o que você fez, as bolhas estouraram e as queimaduras estão com uma aparência muito pior do que deveriam estar, não devia ter te deixado tomar banho sozinha.

Abri um sorriso envergonhado, sentindo-me como uma criança mal comportada, Dorothy olhou para Natsu, que colocava a Beretta em um coldre e o deixava ao lado da mochila, o agente se virou e percebendo o olhar severo da enfermeira, sorriu levemente.

— Desculpe, estou me retirando. — foi na direção da porta, antes de sair, olhou por cima do ombro para mim. — Estou te esperando no carro, parceira.

***

Havia sido fácil demais receber alta, ainda mais para uma paciente que estava com anemia severa e queimaduras de 2° grau, porém isso não era nenhuma surpresa para mim, eu tinha uma leve desconfiança que Natsu conseguia as coisas que queria, de um modo ou de outro, movi o pirulito velho para o outro lado da boca enquanto caminhava até o carro esportivo estacionado há poucos metros à minha frente, meus tênis trituraram uma leve camada de gelo quando pisei na grama que invadia a calçada, estava frio o bastante para que o orvalho se congelasse e minha respiração saísse em grandes nuvens brancas, que desapareciam em segundos, afundei minhas mãos enfaixadas ainda mais dentro dos bolsos largos do meu casaco, onde eu havia encontrado o pirulito que Gray havia me dado há um tempo, com a mochila batendo de leve na lateral do meu corpo, imaginei qual seria a reação do moreno quando descobrisse que havia obtido alta e saído sem tê-lo avisado, soltei um suspiro pesado.

Ele ficaria furioso. Olhei para Natsu sentado no capô de seu carro, ele balançou os dedos em um aceno. Ficaria ainda mais quando descobrisse com que havia saído.

— Vamos lá, parceira, mais ânimo. — o agente disse com o tom de voz alegre, ele saltou para o chão e abriu a porta do motorista, entrei no carro, indo para o assento do passageiro e jogando minha mochila nos bancos traseiros. — Mesmo estando fora do caso você ainda terá acesso ao andamento da investigação, poderá pegar seus assassinos.

O olhei enquanto se sentava ao meu lado e passava o cinto de segurança, seu cabelo estava penteado para trás, só alguns fios rebeldes que caiam em seus olhos ou que estavam arrepiados estragava o quase esmero penteado.

— Não vejo como posso saber da investigação, Makarov me barrará assim que eu colocar os pés na delegacia.

O carro ligou, ronronando baixinho.

— Não vai.

— Como pode ter tanta certeza?

Natsu olhou para trás enquanto dava ré para sair do estacionamento.

— Porquê você será a minha consultora.

Soltei uma risadinha.

— Nunca ouvi falar de um agente do FBI com um consultor. — comecei, tirando o sorriso afetado que estava em meus lábios. — Além do mais, consultores tem que ser imparciais, não podem estar envolvidos pessoalmente em uma investigação, o que faz de mim uma péssima consultora.

Era normal detetives particulares e até alguns investigadores contratarem um consultor especializado em alguma determinada área criminal, ás vezes, ouvir uma opinião, um ponto de vista, de quem não estava totalmente envolvido no caso poderia ser uma valia ajuda.

Natsu deu de ombros, passando a primeira marcha e acelerando.

— Não importa, é somente uma desculpa para que você fique ao meu lado e continue a investigar. — olhou-me de rabo-de-olho.

Balancei a cabeça, mordendo a pequena bolinha que o pirulito havia se transformado, mastiguei o cabo por alguns segundos.

— Makarov jamais vai cair em algo assim. — pensei no velho de olhos espertos e abri um sorriso carinhoso. — Ele me conhece bem demais, não foi à toa que deixou um de seus policiais de vigia na porta do meu quarto, se realmente posso chamar aquilo de vigia, mas o velho sabia que mesmo eu estando afastada do caso, não tinha desistido de todo de continuar a investigar. — olhei para a paisagem cinzenta que passava rapidamente pela janela. — Então talvez ele tenha pensado que colocar-me em proteção me manteria fora da linha de fogo. — tirei o cabo mastigado da boca, abri uma greta na janela e o joguei. — Makarov se preocupa demais, talvez ache que posso estar me colocando ainda mais em perigo se me manter a frente da investigação.

E talvez o velho tivesse com razão, mas eu não me preocupava muito em ser o alvo de um assassino. Portanto que eu o pegasse e desse um fim em sua matança desenfreada.

— É desagradável ouvi-la falar com tanto carinho de uma pessoa. — Natsu comentou, fazendo-me o olhar, ele manteve a atenção na rua. — Quando me rejeita com tanto desprezo.

Não lhe falei nada e o silêncio perdurou por minutos quase sufocantes, conservei uma expressão neutra, consciente do coldre preso à minha cintura e da Beretta preso à ele, e dos olhos sombrios do agente.

— Há uma pasta no banco dos passageiros, é pra você. — falou de repente.

Virei-me entre o vão que tinha entre o banco de Natsu e o meu, havia uma pasta parda em cima de um dos bancos, estiquei-me e a peguei, sentada direito novamente a abri, cópias dos laudos de Tony, Roberto e Oliver quase escorregaram para o meu colo, além deles, fotos de seus corpos tiradas de vários ângulos estavam precariamente presas por dois clips, a cópia do depoimento de Kevin e dos garotos estavam logo atrás delas, havia também cópias das minhas fotos que foram encontradas dentro do corpo de Oliver, acompanhadas por outras das paredes do meu apartamento, não pisquei e olhei para Natsu.

— Para quê isso? — minha voz quase saiu neutra.

O agente deu de ombros.

— Acho que devíamos rever desde o início esse caso. — parou no sinal vermelho e aproveitou esse momento para virar o rosto e me encarar diretamente. — Analisar as informações novamente, tendo em mente que Zeref Bennett está à solta e que o Assassino das Cartas têm você como alvo.

Fitei por mais alguns segundos.

E voltei a olhar para os papeis que tinha nas mãos, retirei o laudo de Oliver e comecei a lê-lo com atenção, a causa da morte foi choque neurogênico provocado por hemorragias intensas tanto externas quanto internas, a hora da morte não é exata, o corpo ficou exposto a umidade do porão e isso dificultou e muito já que seu estado de composição foi acelerado, mas era certo que o cadáver estava ali há bem mais de uma semana, o enxame toxicológico também não foi preciso mas nada indicava que a vítima tivesse sido drogada.

— Você não acha estranho? — perguntei enquanto pegava os outros dois laudos e os lia com o cenho franzido, continuei sem esperar a resposta do agente. — Que esses três homens, adultos e saudáveis, foram pegos tão facilmente? Sem nenhuma marca de luta, sem drogas nos organismos? Nada que sugere que ouve alguma reação para se defenderem?

— Eles podem ter sido pegos de surpresa, não?

— Podem, mas se o assassino tivesse usado os braços para enforcá-los e assim fazê-los perderem a consciência, marcas seriam encontradas nos pescoços das vítimas.

Os dedos de Natsu batucaram no volante.

— O mesmo teria acontecido caso ele tivesse usado algum golpe para incapacitá-las. — disse, dando voz as palavras em minha mente. — Ele pode ter usado Éter, essa substância não deixa nenhum vestígio nos organismos das pessoas.

Pensei por alguns momentos sobre isso mas por algum motivo não achei que o assassino fosse usar algo tão clássico.

— Não. — falei, a certeza bem evidente em minha voz, olhei para Natsu, percebendo que estávamos estacionados ao lado da delegacia, não havia percebido que tínhamos chegado, o agente me olhou, uma sobrancelha arqueada de modo indagadora. — Não, não creio que aquele psicopata usaria Éter.

Natsu me fitou com ainda mais intensidade.

— Porquê acha isso?

Dei de ombros, passando os olhos nos laudos em minhas mãos.

— Não faz o estilo dele. — comecei e parei, pisquei algumas vezes antes de entender o que estava tentando supor, procurei nos bolsos do meu casaco mas lembrei que não estava com o meu celular, para a falar a verdade, nem sabia onde o mesmo se encontrava, estalei a língua e olhei para o agente. — Me empreste o celular, por favor.

Natsu pegou o celular de sua jaqueta grossa e o entregou, uma indagação no olhar, levantei o dedo, pedindo um minuto e teclei o número do celular de Jellal.

Ele atendeu depois de vários toques.

Estou ocupado, fale logo ou desligue. — respondeu impaciente.

Abri um sorriso pequeno.

— É a Lucy.

Ah, Lucy, desculpe a grosseria, mas estou mesmo ocupado. — falou sem graça. — Como você está? Soube do ocorrido, espero que esteja se recuperando bem.

Decidi não contar que estava fora do hospital, mesmo não sendo tão próxima assim dele, ás vezes Jellal se preocupava comigo, ainda me lembro de como me ajudou a me recuperar depois que passei mal em minha primeira visita ao Necrotério, com um sorriso prazeroso nos lábios e palavras confortáveis.

— Estou muito bem, obrigada. — esperei alguns segundos antes de abordar o assunto que queria. — Jellal? Poderia me dizer se você encontrou algum tipo de queimadura nos cadáveres de Tony, Roberto e Oliver?

Queimaduras? — indagou, depois respirou fundo, parecendo se dar conta de alguma coisa. — Será que aquilo poderiam ser?

Apertei o celular, ansiosa, arrependendo-me logo em seguida disso, o ardor furioso de minhas mãos havia se apaziguado com ajuda da pomada que Dorothy passou nelas antes de enfaixar, porém agora, graças ao meu ato burro, ele voltou com força renovada. Troquei o celular de mão com uma careta.

— Me diga, pode ser muito importante. — falei.

Bem, há uma marca irregular em locais diferentes nos corpos das vítimas, no de Tony, encontrei-a na parte de trás pescoço, logo abaixo do ponto onde a cabeça foi decepada, no de Roberto eu a encontrei nas costas e no de Oliver na barriga. — parou por alguns segundos, pensativo. — Pensei na primeira vez que poderia ser alguma marca de cigarro, porquê são bem pequenas e um possível fruto de algum desentendimento que Tony teve, porém fiquei confuso quando achei duas outras iguais nos corpos de Roberto e Oliver. Por acaso sabe o que são elas?

Abri um sorriso duro e olhei para Natsu, que continuava a me fitar, porém dessa vez não com olhos indagativos, não consegui entender o que vi em seus olhos, parecia mais como se ele soubesse do que estava falando com Jellal. Deixei o sorriso se esvair.

— Parece que encontramos o modo como o Assassino das Cartas incapacita suas vítimas, ele usa uma arma de eletrochoque.

Não é possível Lucy, armas de eletrochoques não deixam marcas. — falou e sua voz emudeceu, pude perceber que ele havia pego minha linha de raciocínio. — Elas não deixariam marcas caso sua descarga fosse baixa, entretanto, se ela for alta...

— Provocaria uma queimadura de 1° grau. — completei.

Jellal soltou um riso sem humor.

Sim. É uma explicação tão lógica que me sinto idiota por não ter pensando nisso.

Sorri e agradecendo Jellal, me despedi, olhei para a tela do celular por alguns segundos e o devolvi para o agente ao meu lado. Soltei o cinto de segurança, colocando os laudos de volta dentro da pasta e a fechando.

— Estou admirado. — Natsu disse e seu tom de voz expressava mesmo o que disse, juntamente com algo mais.

O olhei, abrindo a porta do carro, um vento forte e gelado desfez o coque frouxo que havia prendido meus cabelos.

— Não fique, somente sabemos o que o assassino usou e isso não é de grande ajuda para identificá-lo.

Natsu sorriu grande.

— Talvez, mas é mais um passo dado rumo a resolução deste caso.

Saímos para o tempo fechado.