Psicopata
1 Capítulo 1
O apartamento pequeno tinha o fedor úmido de mofo e o fedor pesado da decomposição.
Levantei a fita que isolava a porta e adentrei mais no cômodo sujo, no assoalho feito de madeira escura, perto da entrada, havia manchas de sangue coagulado com uma plaquinha com um número ao lado de cada uma, caminhei com cuidado, para não pisar e assim contaminar as provas, o corredor curto tinha somente duas portas, ambas abertas, a primeira do meu lado esquerdo dava para o banheiro, parei e o analisei, uma pia pequena disputava lugar com um vaso encardido em uma das paredes, não havia chuveiro, somente o cano escuro de lodo e uma cortina rasgada que se sustentava em dois ganchos enferrujados presos ao teto, o chão, outrora branco, estava amarelado e ali também havia sangue bem como alguns dentes podres espalhados, andei mais um pouco e parei na segunda porta, à minha direita, era um quarto, muito pequeno e com o teto inclinado, estava praticamente vazio, ocupado apenas por uma cadeira de balanço ruída por cupins e pelo tempo, a janela, um retângulo no alto de uma parede encardida, não deixava entrar a luz quente do sol forte que fazia, por causa dos vidros tomados por uma grossa camada de poeira, não havia sangue em nenhum canto.
Continuei meu caminho para o último cômodo do apartamento, a sala, esta dividindo seu espaço com uma cozinha, parei logo quando vi o corpo sentado em uma cadeira.
O fedor era tão forte ali que fazia meus olhos lacrimejarem, com os pulsos e tornozelos presos aos braços e pernas da cadeira, o cadáver apresentava inúmeros sinais de uma violenta e cruel tortura, estava nu e a cabeça, com um grossa língua roxa pra fora da boca entreaberta, buracos no lugar onde deviam estar os olhos e enormes talhos no couro cabeludo careca, repousava em seu colo, com o cenho franzido, aproximei-me, percebendo que os dedos de suas mãos haviam sido cortados e jaziam espalhados, juntos com os dedos dos pés e um pano duro de sangue seco, no chão sujo de fluídos podres, fezes e sangue coagulado.
Os tocos dos lugares onde estavam os dedos haviam sido cauterizados.
— Não é algo bonito de se ver, em? — olhei para o lado, vendo um dos meus colegas se aproximar, com o rosto contorcido de nojo. — Esse pobre coitado estava incomodando seus vizinhos com o seu cheirinho desagradável.
— Há quanto tempo ele está aqui? — perguntei, voltando a observar o tórax horrivelmente aberto do cadáver, suas costelas habilmente serradas se equilibravam no topo da cadeira.
— Talvez uma semana, duas, não se sabe ao certo. — disse, colocando-se ao meu lado. — Pelo avanço da decomposição, deve estar a mais de uma.
Balancei a cabeça e aproximei o rosto, olhando para o buraco vazio onde deviam estar os órgãos.
— Onde estão? — perguntei, sem precisar especificar minha pergunta.
— Ali. — apontou para a cozinha.
Fui até ela, contornando o balcão que servia como separador dela para a sala, nela, somente havia um armário de parede mofado, sem portas, e um fogão de duas bocas, uma panela funda estava em cima dele, tampada, caminhei até ela, já sabendo o que encontraria, destampei e mesmo já preparada, tive que fazer um esforço para não vomitar, dentro, todos os órgãos do cadáver, junto com os olhos, azuis, estavam mergulhados em sangue, imitando um ensopado macabro. Havia alguns vermes brancos boiando no líquido vermelho.
Tampei, enjoada com o fedor inacreditável que aquilo exalava, afastei-me rapidamente.
— Canibalismo? — perguntei, um pouco sem fôlego.
Negou com a cabeça.
— Não, está tudo lá. — falou, os lábios se franzindo. — Acho que deve fazer parte de seu modus operandi.
Olhei para o cadáver, dando a volta na cadeira, tomando cuidado para não esmagar os dedos no chão, observei a carne e a pele do pedaço que sobrou do pescoço, estava serrilhada.
— A arma que foi usada para decepar a cabeça tinha dentes. — apontei. — Parece que teve bastante dificuldade para cerrar a vértebra cervical, olhe. — sinalizei o osso maltratado, lascas grossas estavam espalhadas ao redor. — Pode ser que a lâmina estivesse cega.
— Ou pode ser que ele estivesse fazendo isso de propósito. — argumentou, inclinando o corpo para olhar o osso que se sobressaía no meio da carne e dos músculos em putrefação. — Para infligir mais sofrimento.
Mordi o canto dos lábios.
— Sabemos quem é? — perguntei, curvando a cabeça, para olhar melhor as perfurações que se espalhavam logo abaixo do toco que foi deixado.
— Sim. — se afastou. — Tony Braxton, 38 anos, casado e com uma filha pequena, seu desaparecimento foi comunicado por sua esposa há quatro semanas quando ele não voltou pra casa depois do trabalho. — fez uma pausa. — Estamos levantando sua ficha, mas parece que ele não se relacionava com nada ilícito, Eliana, a esposa do nosso Tony aqui, disse, quando fomos dar a notícia do assassinato de seu marido, que ele era um ótimo homem e pai, sempre prestativo, carinhoso, e nada violento.
Franzi o cenho.
— Quando levarão o corpo para ser examinado? — indaguei, desviando os olhos do cadáver grosseiramente mutilado e me afastando da cadeira.
— Logo, quando você acabar. — respondeu, pousou a mão em meu ombro, apertando-o. — Tubo bem? Seu rosto está pálido.
— Não, eu não estou bem. — respondi com sinceridade, havia uma queimação enjoativa em meu estômago. — Foi deixado algum bilhete? Uma mensagem do assassino, se gabando de sua atrocidade?
Os olhos pretos de Gray se desviaram para a cabeça e sua mandíbula travou.
— Há algo parecido com uma carta. — disse. — Estava dentro da boca de Tony quando foi encontrado, ela está ali. — apontou para uma mesinha pequena e de pernas finas que eu não havia reparado. — Não é uma leitura muito decente, Lucy.
Tirei sua mão do meu ombro, gentilmente, e tentei dar um sorriso forte pra ele, falhei.
— Fui mandada aqui para investigar, então sou obrigada a examinar tudo que pode me ajudar a descobrir quem é o assassino.
Fui até a mesinha, colocando as luvas de latex, peguei o papel pardo que estava dentro de um saco de provas, abri-o, tirei o papel com suavidade de dentro dele e analisei a letra pequena, até mesmo caprichosa, que tomava conta do papel.
Comecei a ler.
Olá, investigadora. Espero que seja você, a pessoa que eu quero que leia isso.
Não vou me apresentar, senão estragaria toda a brincadeira que está somente começando, então, vamos aos detalhes sórdidos do que eu fiz, sei que você está aguardando por isso.
Só para começar, não tenho nada contra esse homem.
O que eu fiz, nada tem haver com uma retaliação ou acerto de contas, francamente falando, eu o vi pela primeira vez quando sai pra caçar.
Ele só teve azar de me encontrar.
Como você já viu, nosso amigo está amarrado à uma cadeira, sabe, não seria muito educado da parte dele sair da festa quando ela ainda está no início.
A primeira coisa que fiz, foi cerrar os dedos. Um por um, com lentidão o bastante pra fazê-lo sentir com mais intensidade a dor.
Tive que amordaçá-lo. Não é bom incomodar os vizinhos.
Cauterizei os dedos, para que ele não morresse de hemorragia. Não é legal perder uma presa, elas não são fáceis de se conseguir, deixei-o descansar por dois dias, fui até bonzinho com ele, dando-lhe água, para que não ficasse desidratado.
Depois decidi dar-lhe um novo corte de cabelo, raspei, me diverti bastante enquanto usava sua cabeça para aperfeiçoar meu talento para desenhar.
Quase o matei, mas ele ainda estava vivo quando fiz alguns furinhos em seu pescoço, morreu de vez, engasgando com o sangue enquanto se chacoalhava na cadeira, quando comecei a cerrar seu pescoço, demorei bastante no osso, a lâmina não estava cega, mas o som de raspagem era melodioso e eu gostava dele.
Quando terminei, estava empapado de sangue.
Você sabe, investigadora? O quão forte é o jato de sangue quando você corta uma cabeça?
Escorreguei e caí, acho que acordei o bebê de algum vizinho, porque pude ouvir seu choro pelas paredes finas.
Depositei a cabeça no chão e comecei a abrir o tórax, apenas para matar mais um pouco o tempo, agora que minha presa estava morta, fiquei surpreso quando cerrei as costelas e encontrei o coração ainda batendo, o observei até que ele parou, lentamente.
Retirei todos os órgãos e os coloquei em uma panela, junto com os olhos e um pouco de sangue que ainda esguichava das veias cortadas do que restava do pescoço. Não sei porque fiz isso, mas achei divertido imaginar a reação dos policiais quando encontrassem a panela, talvez eu adote isso como uma assinatura.
Assim, termina o meu relato. Até a próxima, investigadora.
PS: Os dentes no banheiro não são do nosso amigo. Já estavam lá quando entrei no apartamento, acho que vou ter que reclamar com o síndico.
Coloquei a folha novamente dentro do saco de provas, pousei-o na mesinha e caminhei a passos rápidos para a porta, arrebentei a faixa amarela de Fique Longe e desci as escadas estreitas que rangiam rapidamente, saltando de dois e dois degraus, sai do prédio velho para o dia escaldante, não reparei nos repórteres que tentavam atravessar a barreira de policiais quando me viram, ansiosos para saberem mais sobre o assassinato brutal, havia um arbusto seco e quase sem folhas na lateral no que não se podia chamar de um jardim, já que havia somente aquela esquelética planta, quase não cheguei à tempo, vomitei.
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