Psicopata
15 Capítulo 15

Estava com febre. A roupa ensopada parecia estar secando aos poucos por causa do calor que emanava do meu corpo, porém, apesar da alta temperatura, o frio que sentia me fazia tremer com força, batendo as dentes, encolhi-me ainda mais no casaco de Gray, afundando o rosto no estofado macio da viatura que cortava as ruas alagadas com velocidade, o temporal não parecia nem estar perto de parar, relâmpagos queimavam o céu negro com seu brilho branco a cada minuto, acompanhado por trovões barulhentos que dava a impressão de estremecer a terra, pela janela, podia ver galhos recém arrancados pelo violento vento entulhando o meio-fio junto com lixo e água escura. Os postes não estavam oferecendo suas luzes, a energia devia ter caído com a gravidade da tempestade, então, os únicos pontos de luz eram os faróis da viatura, que pouco iluminavam o caminho.
— V-vai devagar. — falei com dificuldade por causa do tremor. — Quer n-nos amassar em um c-carro ou em um m-muro?
Gray riu baixo, aparentemente nem um pouco preocupado com essa possibilidade.
— Não se preocupe. — disse, sua frase parecendo mais séria do que deveria. — Não vamos bater em nada, por acaso esqueceu-se que vai morrer só quando estiver velha e enrugada?
Ri pelo nariz.
— Será q-que vou mesmo?
O silêncio que se seguiu ante a minha frase foi pesado, tenso, fechei os olhos, sentindo-me a beira de um precipício, o equilíbrio que me mantinha longe de sua queda por anos parecia fraco, cansado, por isso, ás vezes podia sentir que estava me inclinando para o seu interior, para uma queda que seria fatal, apenas uma corda fina em volta da minha cintura me impedia de cair logo.
— Não ouse mudar suas palavras, Lucy. — Gray pôs um fim no silêncio, na escuridão dentro do carro, eu podia ver somente o contorno de seu rosto. — Você jamais fez isso, não comece agora.
Cerrei os dentes, forçando-os a pararem de bater.
— Não vou mudá-las. — comecei, estremecendo quando uma gota de água gelada escorreu do meu cabelo para a minha nuca. — Só não acho que tenho mais força para mantê-las.
A viatura freou bruscamente, por estar com o cinto de segurança, fui salva de uma possível contusão no pescoço proveniente de uma batida no painel do carro. A luz amarela do teto foi acesa e eu pude ver a expressão que Gray fazia, entretanto, preferia não ter podido, seu rosto era como uma máscara, vazio, mas os olhos escuros estavam feridos e furiosos.
— Você... — suas palavras foram abafadas por um trovão, o moreno travou o maxilar e desferiu um murro no volante, sua mão esbarrou na buzina, que quase não foi ouvida perante o barulho da chuva. — Eu odeio essa Lucy.
Encarei-o com os lábios apertados, ele sustentou meu olhar por segundos antes de virar o rosto para frente, o cabelo preto, molhado, estava arrepiado atrás e colado em um sua testa na frente, estava com sua costumeira aparência de quando acordava, tirando somente que estava ensopado e parecia prestes a dizer algo que feriria ambos.
— Eu... — o quê? Mordi os lábios com força. — Sinto muito.
Gray soltou uma risada amarga.
— Não diga isso à mim. — murmurou, encostando a testa no volante. — Para onde foi a Lucy que teria me dado um soco se eu tivesse dito o que disse agora para ela?
Esfreguei os dedos, tentando oferecer-lhes um calor que já tinham por causa da febre que me queimava mas que não me aquecia.
— Ela morreu com Loki e seu filho, Gray. — falei com apatia.
O moreno se sobressaltou com as minhas palavras, virou o rosto para mim, não o encarei.
— Não...
O interrompi.
— Ela se foi no mesmo dia que eles, não existe mais. Puf! — levantei as mãos, com a sombra de um sorriso nos lábios. — Você não a verá mais, terá que se contentar com essa aqui que ficou, desculpe.
As mãos de Gray me agarraram e eu fui engolfada por um abraço trêmulo, pisquei lentamente, percebendo que os ombros do moreno estremeciam esporadicamente, pisquei mais uma vez, sentindo o choque abrir minha boca. Uma lágrima quente caiu na pele do meu pescoço e à ela se juntou mais outras.
— Não... Diga isso mais... Por favor.
Comprimi os lábios em uma linha fina, estava com dificuldade de respirar por causa da dor em meu coração que eu sentia dobrar de intensidade. Fechei os olhos e encostei o rosto no ombro de Gray.
— Eu me tornei uma mulher horrível, não? — murmurei para ele, envolvendo seu tronco o melhor que pude com seus braços e o cinto me prendendo. — Sinto muito... Sinto muito... — minha garganta fechou e eu não consegui dizer mais nada.
Gray me apertou com mais força.
— Você não é horrível. Pare de dizer isso. Você é minha melhor amiga, uma pessoa que eu amo muito, então, pare, está me machucando vê-la desse jeito. — esfregou o rosto em meu pescoço, seu cabelo fazendo cócegas em minha bochecha. — Eu estou aqui, droga. Se agarre à mim caso sinta que vai cair.
Soltei um riso fraco e sem nenhum humor.
— Você vai cair junto.
Gray tentou rir mas não conseguiu, sua voz, quebrada, cochichou no meu ouvido.
— Não, vou me segurar e te segurar junto, e ambos vamos nos erguer e sair de perto desse seu precipício.
Sorri, sentindo que a corda em volta de minha cintura estava mais forte.
***
Gray estacionou em frente ao meu apartamento, a chuva torrencial parecia ter diminuído de intensidade, mas ainda continuava incessante, a luz dos faróis iluminou um carro preto esportivo parado logo à nossa frente e Natsu Dragneel sentado no capô do mesmo, com um guarda-chuva preto o protegendo do temporal, pisquei, surpresa por vê-lo ali, o moreno ao meu lado resmungou um palavrão e deixou a viatura em ponto morto, mantendo assim, a luz dos faróis ligada.
— Fique aqui. — disse e saiu do carro.
Observei-o se aproximar do agente, que pulou para o chão, rodando o guarda-chuva no alto de sua cabeça, vi a postura de Gray se enrijecer quando Natsu pareceu dizer algo e logo ambos pareciam prestes a saltar um na garganta do outro, suspirei e procurei a maçaneta da porta, demorando em encontrá-la por causa da visão embaçada, quando a achei, abri a porta e quase cai no asfalto por causa das pernas fracas, recuperei-me e caminhei até os dois debaixo da forte chuva que pareceu chegar até aos meus ossos, intensificando ainda mais o frio que sentia, eu tremia tanto que parecia que estava tendo um ataque epilético e por causa disso tropecei nos meus próprios pés, fui amparada por braços fortes antes de ir ao chão, levantei o rosto para agradecer a Gray, mas fui recepcionada por um sorriso provocante de Natsu.
— Ah, olá, parceira, estava me perguntando quando é que finalmente você cairia em meus braços.
Fui poupada de responder-lhe com educação por Gray, que pegou-me pelos cotovelos e me puxou pra perto dele, o olhar agressivo fixo em Natsu que se curvava para pegar o guarda-chuva.
— Eu não te pedi que ficasse dentro do carro? — murmurou, irritado.
Olhei-o com uma sobrancelha arqueada.
— E desde quando escuto o que você me diz?
O moreno me encarou, depois sorriu um sorriso de covinhas, os olhos escuros quase alegres.
— É mesmo, não é?
Fitei-o por alguns segundos até que uma tosse forçada me fez desviar os olhos do moreno e pousá-los em Natsu, que oferecia o guarda-chuva para mim com um sorriso seco nos lábios.
— Não é bom pegar chuva, parceira, vai ficar doente.
Ignorei o que disse.
— O quê está fazendo aqui, agente Dragneel?
Natsu recolheu a mão, o sorriso desaparecendo dos lábios. Ele lançou um olhar duro para Gray, sendo retribuído pelo moreno.
— Não posso saber como está minha parceira depois que a vi sair tão atormentada do necrotério? — voltou o olhar para mim. — Zeref Bennett, então é esse o homem que você quer ver morto?
Enrijeci com a menção do nome daquele cara, trinquei os dentes e pousei a mão no braço de Gray, impedindo-o de falar qualquer coisa.
— Sim. — tive que fazer um esforço para que meu tom saísse indiferente. — É ele mesmo.
Natsu balançou lentamente a cabeça, depois sorriu e se aproximou, curvando o guarda-chuva na minha direção, não demonstrei o alívio que senti quando os pingos gelados pararam de bater com força em minha cabeça e ombros.
— Então, não vai me convidar para entrar?
Gray grunhiu.
— Porquê ela deveria?
Natsu olhou-o com um sorriso de escárnio.
— E porquê ela não deveria? Eu sou o parceiro dela.
— Isso não significa nada. — retorquiu o moreno. — Vocês só tem uma relação de trabalho, nada mais.
O sorriso desapareceu e o olhar em seu rosto tornou-se sombrio.
— Será que só temos isso, policial? Como pode saber se não têm algo a mais entre nós?
Gray curvou-se, furioso, na direção do rosado.
— Vocês não têm.
À parte da discussão que os dois estavam tendo, olhei para o prédio, a energia ainda não restabelecida, tornava as janelas dos apartamentos buracos escuros e sem fundo, porém, havia uma luz vacilante irradiando da janela do meu apartamento, franzindo o cenho e deixando a proteção do guarda-chuva, caminhei até a portaria, o porteiro não estava lá, então subi as escadas, tomando cuidado para tropeçar nos degraus, quando cheguei ao meu andar, estava um pouco sem fôlego, esfreguei os olhos, sentindo um cansaço extremo pesar meu corpo, com passos vacilantes, andei pelo corredor escuro até parar em frente à minha porta, da última vez que estive ali, o Assassino das Cartas havia me deixado uma bela foto de Oliver, mostrando assim que sabia onde eu morava e que podia deixar coisas para mim quando bem quisesse, trinquei os dentes e abri a porta, que tinha ficado destrancada, o hall de entrada estava na penumbra, a porta que dava para a minha pequena biblioteca particular estava aberta, espiei o cômodo nas escuras porém não vi nada que pudesse ser uma pessoa escondida, a luz bruxuleante que havia visto provinha da sala logo a frente, fui até lá, meus passos pesados fazendo o assoalho gemer.
Havia uma vela grossa queimando calmamente em cima da mesinha de centro, com metade de seu tamanho original, indicava que estava acesa há um bom tempo, espalhado ao seu redor e no chão, havia fotos em preto e branco, com cautela, olhei ao redor, tentando enxergar algo que não deveria estar ali, apurei os ouvidos, mas o barulho da chuva não me permitia escutar nada que não fosse ela, fui até a mesinha e peguei uma das fotos, todas eram iguais e meu rosto, riscado por um X vermelho, me encarava de cada uma delas, deixei a foto cair por causa do susto que levei quando um trovão fez estremecer o céu do lado de fora.
Com a respiração presa pelo pânico, olhei ao redor mais uma vez, desconfiada de cada sombra que parecia mais escura que o normal, fui até o corredor, as portas do quarto e do banheiro estavam entreabertas, não me recordava se havia ou não deixado-as assim, aproximei-me da do quarto, empurrei-a e cerrei os olhos, tentando enxergar se havia alguma coisa estranha entre a bagunça na cama e no chão, não parecia ter nada, virei-me para a do banheiro e por algum motivo tive vontade de sair correndo do apartamento, deixar para trás a certeza de que Zeref esteve aqui, que deixou aquelas fotos com a ameaça estampada em meu rosto, uma que serviria de vingança pelos quatro anos que passou na cadeia.
Abracei-me com força, tentando controlar o tremor violento que me assaltava.
Com temor, empurrei a porta do banheiro, ela se abriu silenciosamente e o cômodo escuro se mostrou iguais aos outros, respirei mais aliviada, eram somente as fotos, só as fotos.
Um relâmpago iluminou o corredor e parte do banheiro, os segundos que ele durou foram o suficiente para que eu visse as palavras escritas nas paredes:
SENTIU MINHA FALTA?
EU VOU TE MATAR.
Uma forte tonteira me atingiu, vacilei e tive que me apoiar na parede do corredor, minhas mãos ficaram pegajosas no mesmo instante, arfando, afastei-me dela, batendo as costas na parede oposta, outro relâmpago me permitiu ver mais e mais palavras escritas em vermelho nela, tomando-a por inteira, ácido queimou minha garganta quando a bile subiu, ergui-me com dificuldade, tentando me manter em pé por tempo bastante para sair daquele apartamento que notei apenas agora estar fedendo a ferro.
Cambaleei e me agarrei no balcão da cozinha para não cair, as luzes do apartamento piscaram duas vezes antes de ficarem acesas, a energia voltou e por causa dela pude ver que todas as paredes do apartamento estavam pichadas, as letras grandes meio escorridas do sangue do qual foram pintadas.
VOU FAZER VOCÊ SOFRER.
COMO ESTÁ SEU FILHO?
LUCY, LUCY, LUCY, VOCÊ VAI MORRER.
COMO O SEU AMADO NOIVO.
— Não... Não... — gemi, sentindo o terror e o pânico nublar meus pensamentos. — NÃO! SEU DESGRAÇADO!
Completamente fora de mim, agarrei a velha poltrona e a arremessei contra a parede, não foi com força o bastante para quebrá-la, mas o impacto que ela provocou ao bater ecoou um pouco mais alto que a chuva que já começava a diminuir, peguei a mesinha de centro feita de vidro e a virei, o vidro frágil demais quebrou quando atingiu o chão, fotos deslizaram para todo os lados e a vela caiu, rolando pelo assoalho até a cortina longa que tampava uma janela ao lado da estante, não me importei quando a ponta da mesma começou a fumegar com a chama que não havia se apagado, gritando, joguei tudo que estava ao meu alcance para longe, em minha fúria, não percebi quando Gray e Natsu entraram pela porta aberta, estava do lado da estante, querendo tombá-la, mas sendo muito pesada e eu estando esgotada, não consegui movê-la, gritei de ódio e agarrei a cortina em chamas.
Não senti a dor quando minhas mãos foram queimadas mas senti os braços que me agarraram por trás, eles me imobilizaram e tudo o que pude fazer foi berrar e chutar o ar à minha frente.
Quando enfim toda a fúria esfriou, nada mais restava em mim que me mantivesse consciente, ouvindo vozes me chamarem, deixe-me escorregar para a reconfortante escuridão.
Desenjando nunca mais acordar.
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