Psicopata

13 Capítulo 13


O espelho do banheiro estava branco, embaçado pelo vapor do chuveiro já desligado, o encarei por alguns segundos, quase erguendo minha mão para limpá-lo e assim, ver meu rosto, mas não fiz isso, não, era melhor continuar a ignorar o rosto que pertencia a uma pessoa que teve sua vida poupada na custa de outra, crispei os lábios e passei os dedos em minha bochecha esquerda, sentindo a pele levemente enrugada onde uma cicatriz fina e longa marcava aquele rosto, ela não doía mais e não me incomodava o fato de que ela não sumiria, jogando uma toalha grossa em meus cabelos molhados, comecei a secá-los vigorosamente, os azulejos brancos do banheiro eram gelados, o que provocava arrepios desconfortáveis, não me importei com o fato de ter acabado de sair de um banho quente e agora estar descalça no frio, era resistente, não iria pegar uma resfriado por coisa tão boba.

Espirrei. Estalei a língua ignorando isso e olhei para a cueca box, preta e impecavelmente dobrada, em cima dos meus jeans, vergonha inflamou minhas bochechas, aquele maldito agente sem vergonha a havia me dado com um sorriso provocador nos lábios: Tome, é nova, ficará mais confortável com ela... Rangi os dentes, pensar em Natsu me fez notar que meus lábios estavam dormentes e havia um leve ardor no inferior, passei a língua nele, sentindo-o cortado, parei de esfregar a tolha em minha cabeça quando percebi que estava arrancado alguns fios de cabelos, com mãos trêmulas, agarrei a cueca e a joguei fora pela janela estreita que o banheiro possuía.

— Que se foda. — grunhi, vestindo o jeans puro, coloquei o sutiã e a regata, enrolei a calcinha nela mesma e a guardei dentro do bolso da minha jaqueta, afundando-a bem nele. — Não tenho tempo para isso.

Gageel fora quem havia ligado, a voz surpresa e depois fria quando eu atendi contou-me que o dono do corpo havia sido identificado, Oliver Moron, 31, trabalhava em uma loja de eletrônicos e era divorciado, mas não foi somente a identidade da vítima que foi descoberta, algumas coisas haviam sido encontradas dentro do cadáver, grampeadas na pele como um psicótico mural, o agente não me contou o que eram essas coisas, apenas me mandou ir até o legista e descobrir por conta própria, depois disso, desligou na minha cara.

Estalei a língua, amarrando a jaqueta em minha cintura e tentando ignorar o incômodo que o jeans me provocava, destranquei a porta do banheiro e sai para o corredor.

A sala de estar não era espaçosa, tinha o tamanho ideal para somente um residente, com sofás de dois lugares pretos, uma mesinha de centro de vidro e um rack preso na parede, mesmo sendo um bairro de classe média, a cozinha dividia espaço com a sala, um balcão alto de granito cinza fazia a divisa, encostei-me na quina da parede, observando Natsu esperar a cafeteira apitar, apoiado no armário embutido, estava com o cabelo seco e penteado para trás como um garoto certinho e comportado, duas coisas que ele não era mesmo, havia vestido uma camisa polo cinza e uma jaqueta preta e parecia tão comum quanto qualquer outro homem, estreitei os olhos, Natsu Dragneel jamais poderia ser chamado de comum, não só porque era um agente do FBI mas porque havia algo de não natural em sua maneira de agir, sem falar que eu não sabia mais nada em relação à ele, seus relatórios que não tive tempo de ler muito bem pareciam não revelar nada que não era relacionado aos casos.

Natsu era uma incógnita. Uma que atiçava a investigadora em mim.

— Se continuar a me encarar desse jeito, não me culpe se eu te atacar.

Pisquei e olhei para o agente que sorria de um modo acintoso para mim. Fiz uma careta.

— Chegue perto demais de mim novamente e eu te faço se arrepender por isso. — ameacei.

Ele arreganhou mais o sorriso. A cafeteira apitou, Natsu a pegou e despejou o café quente em dois copos de plástico com tampa. Ofereceu-me um.

— Pegue. — ele balançou o copo.

Seu braço nem ao menos estava esticado. Crispei os lábios e fui até ele com passos cautelosos, como se estivesse me aproximando de um cão aparentemente dócil mas que atacaria quando menos se esperasse, segurei o topo do copo, não querendo que meus dedos tocasse em sua mão, puxei, mas Natsu não afrouxou seu aperto, o olhei com uma sobrancelha arqueada.

— Dá pra largar?

O agente me estudou com seus olhos indecifráveis, notei quando eles se fixaram em meus lábios e depois correram pelo meu corpo.

— Não gostou da cueca?

Minha boca abriu de choque, fechei-a com um estalo no queixo.

— Agente Dragneel, solte a merda desse copo agora.

Natsu riu e se curvou na minha direção, afastei-me dele um passo, preparada para lhe dar um chute onde doeria mais caso ele ousasse me tocar.

— Você não pode escapar de mim, Lucy. — murmurou, seus olhos no mesmo nível que os meus pareciam sorrir de malícia. — Quando quero algo, eu o tenho.

Sustentei seu olhar por alguns segundos antes de investir minha testa na direção de seu rosto mas ele foi mais rápido, desviando e escapando de um possível nariz quebrado que meu golpe lhe presentearia, o copo de café, finalmente, estava em minha total posse, levei-o até a boca, sorvendo o líquido forte.

— Vai descobrir que eu não sou fácil de se ter. — falei, lentamente, encarando-o com hostilidade.

Natsu pegou seu copo e a chave do carro em cima do balcão, não sorria porém a expressão quase satisfeita de seu rosto me fez perceber que ele apreciava desafios.

— Nada que vem fácil é prazeroso, parceira. — olhou-me por cima do ombro, enquanto ia até a porta da frente. — Quando for minha, descobrirá o quão irresistível eu posso ser.

Segurei o copo com bastante força, impedindo-me de lançá-lo na nuca daquele agente.

***

Quando empurrei as portas de metal do necrotério, o ar carregado pelo fedor pútrido da decomposição quase me fez dar meia volta, o fedor era tão forte que deixou um gosto ruim e azedo na língua quando comecei a respirar pela boca, não dei dois passos direito para dentro da sala branca e cinza quando mãos me agarram e me apertaram em um abraço de ferro, meus pés chegaram a deixar o chão por alguns momentos.

— Meu Deus, Lucy, se você quer me matar de preocupação, avisa antes. — a voz abafada de Gray fez cócegas em meu pescoço.

Soltei uma risada fraca, os braços do moreno me apertavam tanto que pensei que fossem trincar minhas costelas, dei palmadinhas em sua cintura, já que não conseguia abraçá-lo de volta.

— Desculpe. — consegui dizer. — A bateria do meu celular...

Gray apertou-me com mais força antes de me soltar, respirei profundamente e me arrependi amargamente logo depois, tossi com os olhos lacrimejando.

— Porquê não me ligou de algum olheirão? — perguntou, descontentamento aguçando seus olhos escuros. — Você sabe como fiquei aflito quando seu celular não respondia e eu não consegui te encontrar em casa?

Cocei a nuca, sentindo-me culpada.

— Desculpe. — murmurei. — Não encontrei nenhum no caminho.

Gray comprimiu os lábios em uma linha severa.

— E onde passou à noite? — perguntou, a voz neutra. — Porquê fiquei em seu apartamento noite inteira, te esperando, e você não apareceu.

Engoli em seco, desviando meus olhos dos seus, pousei-os na mesa de metal há pouca distância de nós, onde o corpo de Oliver, irreconhecível, estava estendido e aberto, Jellal estava curvado sobre ele, tão absorto em seu trabalho que não deve ter notado minha chegada e agora meu interrogatório, havia outra mesa onde a cabeça com seu sorriso macabro e os órgãos separados em bacias de metal estavam postos.

Gray segurou meu queixo e virou minha cabeça, forçando-me a olhá-lo novamente.

— Por favor, me diga que você não passou a noite na casa dele.

Abri a boca para lhe responder, mas a voz de Natsu ecoou atrás de mim.

— Ela passou comigo, policial, isso te incomoda?

O moreno olhou por cima do meu ombro, com uma carranca feia.

— Incomoda demais. — rosnou.

Natsu parou ao nosso lado, um sorriso cínico estampado em seu rosto.

— Que pena. — riu, olhou pra mim e o sorriso tornou-se provocadoramente íntimo. — Mas Lucy é agora minha parceira, então, tenho que cuidar dela quando algo a ameaça, não?

Gray trincou os dentes com força. Segurei o pulso da mão que apertava meu queixo.

— Não aconteceu nada, Gray, fique tranquilo. — menti do melhor jeito que pude mas o olhar descrente que o moreno me lançou foi o suficiente para me fazer perceber que nenhuma mentira minha passaria despercebida por Gray.

Suspirei. Gray Fullbuster tornou-se meu parceiro e melhor amigo quase logo na primeira semana que comecei a trabalhar na Delegacia, designada para um caso de assassinato duplo, onde os corpos foram encontrados, carbonizados, dentro de uma carro abandonado ás margens da Rodovia I-31 que ligava Magnólia à outras cidades, fui apresentada a Gray, que se tornaria meu parceiro, por Makarov, no começo, repudiei a ideia de ter um parceiro, não queria ninguém me seguindo por todo o lado enquanto eu fazia meu trabalho, atrasando-me, mas o moreno não se mostrou um estorvo como havia pensado, muito pelo contrário, com sua ajuda consegui esclarecer várias pistas de muitos casos que trabalhei, e sua teimosia em me acompanhar em minhas empreitadas me fez notar o quão difícil seria me livrar dele caso eu o deixasse ficar mais e mais ao meu lado, entretanto, não tentei afastá-lo.

Os anos se passaram e agora eu não conseguia me imaginar sem a companhia de Gray.

— Isso mesmo, policial, não aconteceu nada. — Natsu disse, puxando-me de volta para a realidade. — Bem, nada que possa te interessar.

Gray pareceu prestes a voar na direção da garganta do agente, apertei seu pulso e virei-me para Natsu.

— Você poderia fazer a gentileza de nós deixar a sós, agente Dragneel?

Os olhos não totalmente pretos de Natsu me encararam por um segundo, não fui capaz de explicar o arrepio que senti descer gelado por minha espinha.

— Como queira. — respondeu, a voz como seda deslizando por uma lâmina muito afiada.

E foi na direção de Jellal, ainda alheio à nossa presença.

— Eu não confio nesse cara, Lucy. — Gray falou, soltando meu queixo e se posicionando na minha frente de modo que eu não visse mais as costas de Natsu.

Apertei os dedos em seu pulso e depois o soltei, confirmando com a cabeça.

— Eu também. — murmurei. — Mas ele faz parte da investigação junto com o agente Redfox, então somos obrigados a trabalhar juntos.

Ele soltou um suspiro pesado.

— O que rolou entre vocês? — perguntou. — E nem tente mentir. Eu vou saber se o fizer.

Olhei para a sua farda, não conseguido encará-lo nos olhos.

— Um beijo.

— O quê?

— Um beijo. — repeti, mesmo sabendo que ele tinha escutado muito bem da primeira vez. — Mas não pense que foi por minha vontade.

Eu estava perto o bastante do moreno para ver a tensão enrijecer seus ombros.

— Espero que tenha lhe dado um soco. — grunhiu.

Ri pelo nariz.

— Um Directo com o punho esquerdo, mas como não tenho muita força nele, ele foi fraco. — estalei os dedos, lembrando o quão fácil Natsu aparou meu golpe. — Eu arrombei o escritório dele.

Ergui os olhos apenas para ver o sorriso de orgulho de Gray.

— Essa é a minha garota. — murmurou, bagunçando meus cabelos já desarrumados. — Conseguiu descobrir algo?

Neguei.

— Não, havia duas gavetas trancadas em sua escrivaninha, mas ele me flagrou antes que eu tivesse tempo de abri-las. — fiz uma pausa e lhe contei sobre os recortes emoldurados na parede de seu escritório. — Queria saber o porquê dele colecionar aquilo.

As sobrancelhas se Gray estavam franzidas, o que sempre acontecia quando ele se concentrava em algo.

— Estranho. — murmurou, piscou e concentrou sua atenção em mim. — Deixando isso de lado por enquanto, como você está? — esfregou os polegares em minhas bochechas, bem levemente na esquerda. — Soube por Makarov que o assassino lhe enviou a foto do corpo de Oliver e o endereço. Ele sabe onde você mora Lucy.

— Estou bem. — respondi, abrindo um sorrisinho. — Não precisa se preocupar.

Gray suspirou e apertou minhas bochechas carinhosamente.

— É claro que vou me preocupar, um assassino psicopata sabe onde minha melhor amiga mora, deixa cartas em seus locais de crimes onde o alvo é ela e com certeza deve estar a vigiando. — ele me olhou, preocupação e aflição intensificando seu olhar escuro. — E ainda por cima eu não sou mais o parceiro dela. — balançou a cabeça. — Eu não gosto do rumo que essa investigação está indo, Lucy.

Suspirei e segurei seus pulsos.

— Parece que estamos sendo guiados para uma armadilha. — falei.

— Sim. — concordou. — Não nós. Você. Esse cara não está nem aí para a equipe, ele só está interessado em você.

Eu já estava ciente disso mas ouvir aquilo em voz alta, ainda mais vindo de Gray, tornava tudo muito assustador, eu sabia, quando escolhi a carreira de investigadora criminal, que com certeza seria alvo de assassinos, nenhum deles gosta quando eu me meto no meio de suas ânsias de matar então muitos tentam me dar um fim, de preferência, em seus métodos de assassinato.

— Eu não vou cair na armadilha dele, Gray. — falei, com mais confiança do que realmente sentia, apertei seus pulsos, tendo a certeza de que o moreno estaria ao meu lado contra tudo o que poderia tentar me atingir, abri um sorriso. — Muito ao contrário disso, ele é quem cairá em minha armadilha.

Gray sorriu mas logo seu sorriso morreu, uma sombra cruzou seu rosto, tornando-o cauteloso.

— Lucy, tenho algo para lhe dizer. — começou, segurou meu rosto com suas mãos. — Ele fugiu da cadeia.

Pisquei. Abri e fechei a boca. Pisquei mais uma vez.

— O... quê? Como? Quando?!

Culpa brilhou em seus olhos.

— Há dois meses.

O choque me roubou as palavras. Fiquei encarando Gray, estarrecida demais para notar Natsu se aproximando, agarrei suas mãos e as afastei do meu rosto.

— Porquê... — engoli em seco várias vezes, antes de voltar a falar. — Porquê não me contou?

O moreno mordeu os lábios e desviou seus olhos dos meus, agora era ele quem não conseguia me encarar.

— Você estava envolvida demais nesse caso para notar as notícias no jornal e na TV. — falou baixo. — Disse à mim mesmo se você não notasse, lhe contaria. — me olhou com intensidade. — Desculpe, eu não devia ter deixado passar tanto tempo.

Soltei suas mãos. Encarei o chão muito branco do necrotério. Aquele cara...

— Desculpe por interromper sua conversinha particular, mas acho que isso pode te interessar, parceira. — olhei para as mãos de Natsu, onde havia dois recortes do mesmo jornal, suas beiradas eram crostas duras de sangue escuro, e algumas fotos em preto e branco.

Peguei um dos recortes. A notícia muito bem conhecida por mim, datava de quatro anos atrás, assassino que foi baleado seis vezes por Lucy Heartfilia, investigadora que o identificou, é julgado e condenado a quarenta e cinco anos de prisão, amassei-o e deixei-o cair no chão, peguei a outra notícia que Natsu oferecia à mim, esse era mais novo, de dois meses atrás, Zeref Bennett, acusado de cometer uma série de assassinatos onde suas vítimas eram mulheres e crianças, fugiu, na madrugada de quinta-feira, 12, condenado a mais de quarenta anos de prisão e tendo cumprido somente quatro, o assassino solto está... amassei também aquela notícia, sentindo-me desconectada do meu próprio corpo, olhei para as fotos em preto e branco, peguei-as, eram quatro, todas minhas, eu, saindo do meu apartamento, eu, vomitando no arbusto de um velho prédio, eu, entrando pelos portões de grade do Parque Central, e eu, chutando o chão no morro onde havia a casa abandonada.

Resumindo, eu em meu apartamento e nas três cenas de crimes.

— Lucy? — Gray chamou-me, o olhei, apática. — Você...?

Balancei a cabeça antes dele terminar a pergunta.

— Não. — respondi de uma maneira vazia, olhei para Natsu, que me observava com olhos de águia. — Você pode cuidar do quê quer que aconteça aqui? Preciso de ar. Estou ficando enjoada com esse fedor. — dei-lhe as costas quando ele meneou com a cabeça. — Não siga, Gray, quero ficar sozinha.

Sai do necrotério com a sensação de que o mundo desabaria sobre mim.