Pseudocrônicas

1 Quem é você, Ensino Médio?


Notas iniciais
Espero que gostem. Escrevi com todo o carinho do mundo e desejo muito receber retorno, não importa quanto tempo leve. Só um comentário falando alguma coisa simpática já me deixará muito feliz. Obrigada :)

Bom dia, boa tarde, boa noite, boa madrugada, terráqueo. Estou aqui hoje pra dar início a uma série de crônicas escritas por mim, mas com o querido pseudônimo de Mari.

Eu tenho quase quinze anos e vivo em São Paulo. O meu único conto de fadas se baseia em eu me tornar uma escritora reconhecida, e meus príncipes encantados são os integrantes das minhas bandas favoritas. Eu sou uma adolescente como qualquer uma: tenho meus momentos de contradição, quero ter um namorado pra me sentir menos sozinha e me importo muito com a opinião das pessoas (esse é um ponto na qual eu estou trabalhando aos poucos). Mas ao mesmo tempo eu me considero meio diferente dos outros, porque minha imaginação abriga mais do que passeios ao shopping e baladinhas. Ela abriga mundos distantes, amores impossíveis e uma sensação de que o mundo precisa saber das minhas ideias, por mais que elas sejam tortas. Por isso estou escrevendo isso daqui; eu quero te contar um pouco sobre o que vivo.

Eu escrevo já faz um tempinho, e ano passado eu escrevia, em um site muito famoso, uma série de contos. Eles não faziam muito sucesso e eu tive que parar por conta das aulas, mas eu senti muita saudade de escrever coisas nesse estilo. Eu realmente sou um fracasso pra escrever romances longos, coisa e tal, então pra mim é bem mais fácil focar em textos pequenos. Também tive duas inspirações pra voltar a escrever textos pequenos e objetivos que falam sobre a vida: John Grogan e “Os Delírios de Consumo de Becky Bloom”. Pode parecer engraçado, mas é verdade.

A pauta de hoje é o meu medo constante de… Tudo. Eu tenho medo de qualquer coisa no mundo. Eu tenho medo de ficar mais velha, tenho medo de filmes de terror, tenho medo de guerras nucleares. Também tenho medo de ser atropelada, de ficar solteira e de perder meus pais muito cedo.

Mas meu maior medo atualmente é o Ensino Médio.

Recentemente eu me formei no Fundamental, em uma escola particular aqui da região. Não continuarei lá ano que vem pois prestei uma prova pra entrar na ETEC (Escola Técnica Estadual), e é bem provável que eu tenha passado. E é esse o meu maior medo. Eu estudei quatro anos naquela escola, sou apegada a muitas pessoas de lá, mas demorei muito pra fazer amigos (pelo menos amigos novos, pois eu já tinha estudado com duas meninas lá). E era o Fundamental II, eu tinha apenas onze anos. Imagina agora, com quatorze? Eu devo ser dez mil vezes mais antipática do que era antigamente. Vai ser um ano difícil…

Erga bem alto sua mão se você nunca, nunca mesmo, passou por um momento de insegurança. Erga sua mão se você nunca teve medo da opinião das pessoas em relação a você. Erga sua mão se você não tem medo de ser excluído da sociedade. Eu quero poder te observar e me inspirar, pensar “Por que eu não sou que nem essa pessoa?”. Mas se sua mão continuar abaixada, bem-vindo ao time, colega.

Eu, particularmente, espero que sua mão esteja bem abaixada. É sempre bom se identificar com um desconhecido aleatório.

Tudo bem, vamos aos tópicos.

Quando você entra em uma escola do Ensino Médio, você tem que aprender uma coisa: você tá ferrado. No Infantil você é paparicado por todos os professores e todos os funcionários, é o queridinho da diretora e tira notas espetaculares. “Ele foi o primeiro da turma a aprender o alfabeto”, sua professora diz em uma reunião, e sua mãe fica extremamente orgulhosa. No Fundamental I, o professor quer um pouco mais de você. Ele espera que você tire notas bem acima da média, porque é fácil demais. Diria que, numa escala de zero a dez, você precisa tirar pelo menos um oito pra ser considerado uma criança sem nenhum tipo de dificuldades. Dane-se que a média é sete, seis ou cinco, eles querem que você tire um oito. Na reunião, sua professora fala “Ele é um ótimo aluno, consegue resolver todas as contas de Matemática sem ajuda”, e sua mãe fica muito feliz. Não orgulhosa, mas muito feliz.

Aí chega o Fundamental II. É uma área de risco, onde você vive por quatro anos algo que nunca viveu em sua vida. De repente, você passa a ter dez professores em vez de dois ou três, passa a ter horários certos para cada aula e descobre que, se no Fund. I as pessoas querem ser suas amigas pra comer o bolinho extra que você leva na merenda, no Fund. II as pessoas querem ser suas amigas porque você é bonito, descolado ou tem um bom celular. Existem exceções, e espero que sua amizade de quatro anos seja uma delas. As minhas são; percebi isso já faz um tempinho. No Fund. II, o professor fala “Ele é muito bom em Ciências e escreve ótimas redações, mas precisa parar de falar tanto”, e sua mãe vai ficar contente. E só isso.

Agora, por favor, imagine o Ensino Médio. Focalize bem.

Eu não sei como é o Ensino Médio pois ainda tenho mais um mês e alguma coisa de férias, mas eu imagino algo assim: professores que te odeiam e fazem de tudo pra te esnobar no meio da sala de aula, patricinhas nojentas que te acham uma esquisita e também fazem de tudo pra te esnobar, meninos lindos que acham que você tem cara de pirralha e muita, mas muita nota vermelha. Esqueça os boletins repletos de “dez”, a partir de agora, você precisará se contentar com um “sete” (eu nem com números vou ter que contentar; a ETEC trabalha com termos. Devo ficar feliz com um “Razoável”?). Sua professora diz “Ele se dá bem em Química, mas é um tagarela”, e sua mãe fica meio “Dane-se, eu nem vejo mais esse moleque em casa”.

Ok, eu sei que eu exagerei um pouquinho na minha visão, mas é o que eu encaro. Antigamente, ao pensar em Ensino Médio, eu pensava em um futuro formidável. Uma coisa meio “High School Musical”, eu confesso, só que sem o musical. Garotas descoladas sendo suas amigas, garotos bonitos querendo sair com você, professores que acham que você tem potencial pra ser algo na vida. Mas ontem, enquanto eu almoçava com meus pais e minha tia, eu percebi que as coisas são bem diferentes. É que minha tia comentou algo como “Você acha que no Ensino Médio vai ser tudo maravilhoso? Não vai ser não. Lá, você vai ser só mais uma. Só vão saber seu nome se você for muito popular”. E foi assim que minha ficha caiu e eu percebi que, pelos próximos três anos, eu estarei em uma prisão condicional. Maravilhoso.

Eu tenho muito medo do futuro. Pra resumir todo esse trauma, eu sou a pessoa mais esquisita do mundo. Eu não gosto de conversar com pessoas que eu não conheço porque eu sempre acho que estou agindo pateticamente. Na verdade, eu sempre estou agindo pateticamente, seja com um desconhecido ou com um amigo de longa data, só que a diferença é que o amigo de longa data já está acostumado com minha loucura toda. É muito mais fácil pra eu cultivar uma amizade antiga do que construir uma nova, porque eu passo meses fingindo ser normal só pra pessoa não se afastar. E eu não quero fingir ser normal dessa vez. Eu quero sair cantarolando feito uma doida músicas que eu gosto e quero que alguém chegue em mim e diga “Ei, você é esquisita, mas eu gostei de você”.

Quer saber? Eu não tenho medo do futuro, não de verdade. Eu não tenho medo. Eu tenho receio. Eu tenho insegurança. Eu guardo dentro de mim uma sensação de “Ai meu Deus, será que eu encontrarei pessoas legais nessa minha caminhada pro amanhã?”. Eu sei, eu sei, esse papo parece todo de menininha, mas eu juro que sou meio como uma Lisa Simpson sem a parte do saxofone. Se você já viu muitos episódios de The Simpsons, você vai entender o que eu quero dizer. Uma dica: unicórnios.

Foi mal, eu acho que fumei umas.

Retomando… Eu me lembro de quando eu era pequena e tinha medo de adolescentes. Pois é, eu realmente tinha medo daqueles alienígenas que só pensam neles mesmos e nas coisas idiotas que eles gostam. Eu tinha medo do espírito de rebeldia deles e desse ar de “Você não me entende, eu odeio todo mundo”. Se existiam duas palavras que eu não suportava ouvir eram “adolescente” e “rebelde” (imagine meu trauma com RBD). E hoje eu sou uma dessas adolescentes que discute com a mãe por coisas bobocas e sente vontade de matar um quando lê uma crítica sobre o filme que gosta. Que nojo, Mari. Você já foi bem mais decente.

O destino é um grandessíssimo filho da mãe, que vai pregar peças em todos nós, seres vivos, toda vez que tiver oportunidade. Ele estraga nossos planos, destrói amizades e romances, separa familiares e tudo isso só porque é… O destino. É o que foi reservado a nós.

Eu tenho uma reserva no futuro, uma reserva para a ETEC, onde eu realmente não sei se vou ser a garota esquisita, nerd e maluca de sempre ou se serei uma nova pessoa. Mas vamos lá, ETEC, eu não quero mais ter medo de você. Não estou encarando um bicho de sete cabeças ou até mesmo o Fofo, aquele cachorro gigante com várias cabeças de Harry Potter e a Pedra Filosofal. É só o Ensino Médio.

Qual é, destino, mostre-me que eu sou forte. Mande vinte patricinhas nojentas, vinte garotos metidos e vinte professores mal-amados. Eu aguentarei de boa. E sabe por quê? Porque eu sei que eu só vou ter na minha vida o que eu merecer e o que eu suportar. E se Deus disser “Faça com que a vida dela seja uma droga”, eu vou aguentar isso. Porque eu sei que existe algo que nunca será uma droga pra mim, e esse algo se chama escrever.

Deus abençoe as palavras. E mande pro inferno o Ensino Médio enquanto há tempo pra mim.

Brincadeirinha.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.