Próxima estação

1 Capítulo único


Próxima estação

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Cidade São Paulo

Linha amarela

Estação: Pinheiros

Sentido: Luz



Acomodou-se no banco de estofado amarelo, sentindo um alívio no peito pelo vagão quase vazio. Sabia que não tardaria para as pessoas chegarem e ocuparem todos os espaços que haviam disponíveis para sentar, restando para as que chegassem depois ficarem em pé. Aos menos teria alguns momentos de tranquilidade e um ar menos abafado.

Da mochila apoiada sobre as coxas tirou um livro, gostava de aproveitar o percurso para ler, mesmo que precisasse interrompê-lo sempre de forma abrupta, ao se deixar levar pela trama, para pular de uma estação para outra, de um vagão cheio para um lotado. Um pequeno momento de prazer.

Retirou o pedaço colorido de cartolina que servia como marcador, página 148, capítulo 7. Alisou a folha em expectativa, pronta para se aventurar pelas palavras que a transportariam para um mundo de elfos e magos, quando um movimento brusco a interrompeu. Alguém, sem nem um pingo de delicadeza, sentou ao seu lado. Não pode evitar torcer o cenho em uma careta de desgosto. “Tantos lugares vagos, precisava sentar bem aqui?”

Após encarar por um tempo maior do que o necessário o homem mal-educado, que opucara mais do que o espaço estabelecido pelo assento ao seu lado, levou seus olhos ao teto metálico e endireitou sua postura, para retornar a sua leitura. Mas sua atenção tomou outro destino.

Do outro lado do vagão, a sua frente, um rapaz de cabelos pretos, fones nos ouvidos, sorria ladino. Ele olhava diretamente para si. Os olhos castanhos encontraram os de cor mel. Em reflexo sorriu de volta, sem entender se sorria para ela ou ria dela. Constrangida, abaixou a cabeça, voltando-se para o livro ignorado sobre seu colo.

"Capítulo sete.”

Foi tudo que conseguiu ler, a curiosidade em saber se o jovem homem ainda a olhava tornou-se maior do que a de descobrir os perigos que rondavam a floresta na qual os personagens dariam continuidade à aventura. Sentindo o calor em seu rosto aumentar, ergueu o olhar.

O dono dos olhos âmbar inspecionava tediosamente o alto do vagão, os lábios movendo-se minimamente sem emitir som algum, enquanto o pé direito batia no ritmo da música que preenchia seus ouvidos. O que ele estaria ouvindo? Questionou-se de imediato. Uma música conhecida por ela? Algo melódico e profundo, ou uma batida frenética revolta? A julgar pelo ritmo de sua perna destra, ela chutou um meio termo.

Concentrada em seus lábios, em uma tentativa vã de entender o que o outro cantarolava, foi pega de surpresa por seu abaixar de queixo e o reencontro de seus olhos. O contato visual durou uma fração de segundos, tomada pela vergonha de observar um desconhecido, virou o rosto para o lado. “Bela forma de disfarçar!"

Ainda fingindo olhar para algo no fundo do vagão, acomodou uma mecha de cabelo atrás da orelha, aproveitando para espiar o outro pelo canto do olho. Através dos cílios escuros constatou: sua atenção estava nela. Sentindo uma pequena onda de adrenalina tomar seu corpo, voltou-se ao livro para em um movimento impensado erguê-lo, sustentando-o na altura dos olhos, expondo a capa azulada. O compartilhamento inesperado do título de sua leitura fez o rapaz curvar seus lábios em um meio sorriso, como em aprovação a sua escolha literária. Por detrás das páginas ela fez o mesmo.

Com o livro servindo de escuro para seu enrubescimento, continuou a observar o rapaz por cima das folhas de papel, e quando percebia que ele fazia o mesmo, volta-se as palavras que não lhe diziam nada no momento. Observou com atenção seu rosto anguloso, o cabelo volumoso que formava pequenos cachos, a jaqueta preta que lhe cobria o dorso e da qual as mangas foram erguidas até os cotovelos, deixando amostra o começo de uma tatuagem em seu braço esquerdo. Xingou-se internamente por não ter escolhido o outro lado do vagão para sentar.

A voz metálica do alto-falante irrompe estridente, arrancando-a bruscamente dos devaneios sobre as possíveis conversas que poderia ter tido com o rapaz sobre seu livro ou a música que ele estava ouvindo. Apenas entendeu o que estava acontecendo quando o vi levantar-se. Desceriam na mesma estação. Aturdida, guardou apressada o livro não lido em sua mochila e imitou seu gesto, parando ao seu lado em frente a porta de saída. Um sorriso cúmplice foi trocado entre os dois. Talvez ele também tenha desejado sentar-se ao seu lado?

Com a parada completa do metrô as portas foram abertas, e o ritmo frenético dos passos precisava ser mantido. Deixando a plataforma, ela seguiu seu itinerário, perdendo-o em meio os milhares de pessoas que cruzavam seu caminho.

Notas finais
Uma história bem simples, mas espero que tenham gostado.
Até a próxima.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!