Provar, Comer e Casar
12 Agridoce
Notas iniciais
Sakura espalmou as mãos sobre a bancada do camarim e respirou fundo. A dolmã estava no cabide e seu avental, jogado no cesto para lavanderia. Passou os dedos pelos cabelos soltos e olhou-se mais uma vez no espelho.
Tudo passava por sua cabeça naquele momento. A tensão da primeira prova, a panela pegando fogo, a sopa rançosa e intragável… Mas depois veio a calmaria com os Canudos Paris, a paciência e amabilidade que Sasuke teve com ela.
Aquela foi uma noite agridoce, em todos os sentidos.
Uma batida na porta e Sakura lembrou que ainda não havia acabado.
— Entre.
— Sakura, prometo que vai ser uma conversa rápida. Por favor, sente-se. — Kakashi foi o primeiro a entrar e foi dando a ordem enquanto andava em círculos pelo lugar. Naruto veio logo atrás, em jeans e jaqueta preta e laranja.
— Ficou muito bom aqueles canudos, parabéns. — O Uzumaki gentilmente elogiou, a acompanhando no sofazinho que havia ali.
Sakura agradeceu com um sorriso pequeno, as mãos fecharam-se por cima do colo sem conseguir esconder o quão nervosa estava.
Kakashi ainda andava pelo camarim, checando algo no celular, quando a porta se abriu e Sakura levantou a cabeça já sabendo de quem se tratava. Seu nervosismo deu lugar a surpresa quando o viu, parecia-se muito com o Sasuke que viu pela primeira vez quando chegou ao estúdio: calça jeans escura com dois rasgos na altura do joelho, camiseta preta com uma estampa que sua mãe diria ser satânica, coturnos grandes, pulseira de couro chamando atenção para a tatuagem de galhos que começava no antebraço, cabelos despenteados — como se tivesse descontado a fúria neles.
Jamais pensaria nele como um chef daquela maneira.
O perfume dele veio acompanhado de cheiro de vinho quando passou por Sakura e se sentou na poltrona a frente do espelho. Sasuke afastou as pernas e inclinou o trono para frente, sua franja lisa escorreu pelo rosto e escondeu um de seus olhos. Ele apoiou os cotovelos nos joelhos e entrelaçou as mãos, olhou para Kakashi e manteve-se assim.
Sakura acompanhou tudo, tentando ligar aquele homem com o chef que a fez cozinhar de verdade. Não havia nada de amável naquele olhar, naquela postura. Homens daquele tipo, daquele estilo, sempre eram repelidos por ela.
Sasuke estava mais intimidante do que nunca.
— Os três aqui, ótimo. — Kakashi guardou o celular no bolso e encostou-se na bancada que ficava em frente ao espelho, cruzou os braços em frente ao corpo enquanto analisava a expressão de cada um.
Sakura mantinha-se rígida, tentando aliviar a tensão em seu rosto e mandá-las para as mãos, mas os lábios comprimiam-se sem que ela pudesse fazer algo contra. Ao lado, Naruto parecia mais calmo, e Sakura o sentia como o equilíbrio ali, sabia que ele sairia em defesa dela se isso fosse necessário. Já Sasuke, parecia ameaçar Kakashi com o olhar, mas o diretor ignorava e mantinha os olhos cansados passando pelos três.
Com um suspiro, Kakashi se moveu, abriu o casaco que usava e retirou uma revista enrolada de um dos bolsos internos. Assim que bateu na mesinha de centro, Sakura choramingou e Sasuke bufou. Era outra revista, mas com a mesma foto que já estava circulando com a falsa notícia de um romance entre Sasuke e Sakura. Naruto pegou esta nova e tossiu para camuflar a risada.
Sakura deu uma olhadinha na capa enquanto permanecia o silêncio.
Amor na cozinha
A nova temporada de Batalha dos Chefs tem como protagonista o romance entre o chef Sasuke Uchiha e sua aprendiz Dra. Sakura Haruno
— Meu Deus… — Sakura passou a mão no rosto enquanto Naruto folheava a revista atrás da matéria.
— Então, é verdade isso? — Kakashi perguntou voltando a cruzar os braços em frente ao peito.
— Claro que não!
— Não.
Sakura olhou para Sasuke, ele não a olhava. Parecia estar ainda mais cansado que ela sobre tudo aquilo, e um tanto mais impaciente também. Ele segurava o olhar no de Kakashi que o encarava diretamente.
— Não há nada entre nós, apenas… — Sakura olhou para Sasuke mais uma vez, ele continuava encarando Kakashi. Ela respirou fundo e continuou — somos apenas amigos. — terminou dizendo a última palavra com insegurança.
— Entendo — Kakashi suspirou e virou-se para Sakura, calmo — Vocês têm algum relacionamento fora daqui? Sakura, você namora?
Sakura abriu a boca, mas as palavras ficaram presas quando pensou em dizê-las. A hesitação fez os três olharem para ela. Sakura fez de tudo para ignorar aquilo, já estava envergonhada de não ter um resposta imediata.
— Sim? Não? Não sei o que essa cara significa. — Kakashi inquiriu gesticulando uma mão.
— Sim, ela namora.
E a resposta azeda de Sasuke a fez ficar ainda mais tensa. Não o olhou desta vez, engoliu em seco pensando em Sasori, no molho derramado, na fúria dele, a última vez que o viu…
— Eu sei o que você está pensando, Kakashi. — Naruto fechou a revista e disse enquanto a enrolava e encaixava entre seu corpo e o braço do sofá. — Não vamos nos beneficiar com estas matérias, não vamos tirar proveito para a audiência.
Kakashi fez um som de resignação e levantou os ombros.
— Se ainda fossem solteiros… — Sakura abriu a boca surpresa e Sasuke encostou-se com brusquidão, batendo as mãos nos joelhos e soltando um palavrão baixo. Kakashi o ignorou e continuou — Em todo caso, precisamos falar sobre esta repercussão. Já devem estar cientes que os patroci…
— Já conversamos sobre isso. — Naruto interrompeu.
— Já? — Kakashi pareceu surpreso — Andam se encontrando fora dos estúdios?
Sakura quase respondeu, mas manteve-se quieta não sabendo quanto ele podia saber, deixou com Naruto as informações.
— Eu precisava falar com eles sem que alguém da produção ouvisse e aumentasse as fofocas. Ninguém nos viu, pode ficar tranquilo. Depois que conversamos, eles tentaram limpar a imagem antiga e acabaram… construindo esta nova.
— Exatamente. — Sakura pontuou aliviada.
Kakashi ponderava enquanto escutava. Olhando de um para outro, de Sakura para Sasuke.
— Isso encurta o que queria falar para vocês — Kakashi desencostou da bancada e colocou as mãos na cintura, olhando para os três como se fossem crianças. — Vou ser direto e claro. Não quero o rosto de vocês nestas revistas, não se estiver vinculado ao programa. Não quero brigas, não quero entrevistas, não quero nada que dê margem para qualquer manchete sensacionalista.
— Vai por mim, nós também não queremos isso. — Sakura disse — Acho injusto falar conosco como se provocassemos de propósito.
Kakashi não se abalou com o tom mais acalorado que ela deu em sua defesa, continuou com os olhos caídos em sua direção, se arrastando para os demais de forma mais lenta.
— E o mais importante, não quero que se encontrem fora daqui ou dos restaurantes. Enquanto estiverem no programa, terão um comportamento profissional. — virou-se para Sakura e fechou os olhos num sorriso — Pense que isso vai ser bom para o seu namoro.
— Mas o que foi isso? Que droga. — Sakura passou a mão pelos cabelos ainda sentada no sofá. Naruto havia se levantado assim que Kakashi saiu e Sasuke via algo em seu celular, não havia dito mais nada desde aquele momento.
— Não me surpreendeu. — Naruto disse simplesmente olhando para o corredor e fechando a porta em seguida. — Sakura, está tendo problemas com o seu namorado por causa disso? Tenho uns conhecidos que…
— Não, não. — Sakura olhou para Sasuke, ele parecia concentrado no que digitava no celular. Seus olhos desceram pelo pescoço e para os bíceps marcados na manga enquanto ele segurava o aparelho. Engoliu em seco sentindo o peito esquentar — Não se preocupe com isso. Eu…
— Onde vai? Ainda não terminamos aqui. — Naruto disse quando Sasuke se levantou.
— Eu já. Não tenho tempo pra isso.
Sem se despedir, colocou o telefone no ouvido e abriu a porta.
— Oh! Sasuke? — uma voz feminina assustou-se assim que a porta se abriu.
Hinata estava na porta olhando surpresa para o chef, ele apenas acenou com a cabeça quando ela passou por ele e saiu sem dizer mais nada.
— Hinata? Desculpe, eu tinha esquecido que estava na casa do seu pai. — Naruto a abraçou deixando um beijo em sua testa.
Sakura respirou fundo duas vezes e serviu-se de um copo com água. Naruto e Hinata faziam uma cena bonita depois de tanto turbilhão, era calmante olhá-los e a fazia acreditar que um dia poderia viver algo parecido.
— Olá, Sakura. Estavam em reunião?
Sakura levantou-se para cumprimentar Hinata com um beijo.
— Mais ou menos, o de sempre. — Sakura respondeu com um pouco de bom humor e cansaço.
— Eu sinto muito por tudo o que sua vida está virando. Mas eu te garanto que tudo isso fica no passado um dia, se concentre no que veio fazer.
— Obrigada — Sakura respondeu automaticamente. Pensou que era muito mais fácil ver de fora. Do jeito que estava, era muito difícil conseguir pensar cem por cento no seu objetivo dentro do programa. E isso ficava ainda pior se pensasse que sua relação com o chef pudesse ficar estranha mais uma vez. Não conseguiria, simplesmente não cozinharia se acabassem se tratando como dois estranhos. — Bom, já vou indo. Queria poder ficar mais para conversar, mas estou realmente exausta.
— Não se preocupe. Espero que nos vejamos em breve. — Hinata acenou quando Sakura pegou sua bolsa perto da porta.
Sakura assentiu sorrindo e foi em direção a saída, mas a voz de Naruto a impediu:.
— Quando quiser, apareça lá no Uzumaki’s. Vai provar a melhor massa do país.
— Mas o Kakashi disse que…
— Não éramos para nos encontrarmos fora do estúdio ou dos restaurantes — Naruto tentou imitar a voz de Kakashi com toda aquela sonolência, conseguindo tirar um sorriso completo de Sakura. — Lá é um restaurante, o meu. Me ligue antes que levo Hinata para te fazer companhia.
Sakura sorriu para os dois e acenou com a cabeça. Parecia que um peso saía de suas costas.
Na tela do celular viu a hora: 11:55 pm. O programa havia acabado há vinte e cinco minutos, mas parecia que uma eternidade havia passado até que ela pudesse enfim sair do estúdio. Poucas pessoas ainda estavam por ali, mas todas elas a cumprimentavam com mais naturalidade e intimidade do que ela se lembrava.
Abriu a bolsa para pegar a chave do carro enquanto andava pelo hall da emissora até as portas automáticas. Uma movimentação do lado de fora a fez desviar os olhos de sua bolsa para o canto esquerdo. Ergueu as sobrancelhas ao ver Konohamaru conversando todo tímido com uma garota, com a mão coçando a nuca enquanto a menina o olhava destemida.
Sakura sorriu, sentindo no ar o aroma de paquera juvenil.
— Boa noite, Konohamaru.
— Oh! Boa noite, Sakura. Achei que já tivesse ido. — respondeu constrangido.
— Quem me dera. Aliás, adorei aquele penne com frios, outra hora preciso que dê umas dicas, e parabéns pela vitória de hoje, foi muito merecido.
— Valeu. O seu doce parecia estar muito bom, não sobrou para eu provar…
— Bobagem, eu te passo a receita e você pode fazer em casa. Você cozinha bem, garoto. — Deu uma piscada vendo a expressão da menina que o acompanhava mudar de completamente desinteressada para levemente interessada. — Nossa, que olhos lindos. — apontou para a menina que piscou os olhos claros com surpresa ao perceber que se referia a ela. — Até semana que vem.
— Até.
Ela quase ria enquanto andava até o carro no estacionamento. De certa forma, a sua noite estava terminando de uma maneira calma, uma tigela de inocência que fazia ela voar longe da vida atual e pensar num futuro mais caloroso.
Dirigiu dando aquela noite por encerrada. Precisava relaxar num banho quente, ler um pouco sobre apendicectomia, tomar um chá de melissa e dormir. Estacionou em sua vaga e percebeu que o carro de Ino não estava lá, agradeceu por isso, algo dentro de si esperava por Ino na porta de seu apartamento para discutir o programa daquele dia.
Distraída com um e-mail que acabara de chegar, abriu a porta do carro e acabou se assustando ao tocar algo que não era sua bolsa no banco do passageiro. Em sua mãos um boné preto que havia usado num outro dia e que não a pertencia.
— Sasuke… — sussurrou o nome dele virando o boné em sua mão e lembrando-se dele usando-o, e depois colocando-o em sua cabeça. Fico muito tempo olhando para o acessório, sorrindo sozinha com a lembrança de ter ido até a casa dele, irem até o mercado, ele vir socorrê-la sem camisa...
— Eu achei que chegasse mais cedo.
A voz masculina do lado de fora a fez sobressaltar com o boné na mão. Sasori estava com as mãos nos bolsos da calça de linho, o suéter sobre a camisa social branca perto da porta do motorista. Ele parecia calmo, alinhado como sempre, como se o último encontro deles jamais tivesse acontecido.
Afobada, guardou o boné rapidamente na bolsa e fechou a porta do carro com o quadril. Esperou que ele dissesse mais alguma coisa, esperava que ele desse essa chance para ela se recompor e pensar em algo para dizer que não soasse grosseiro. Ela não queria ele ali.
— Eu, bem, estou surpresa. Não esperava vê-lo.
— Não depois do nosso encontro, não é? — ele riu sozinho, se aproximando dela lentamente. Sakura sentiu o corpo bater no carro quando se afastou, ele percebeu o movimento e parou a olhando preocupado. — Eu te procurei no hospital, eu quero conversar. A culpa não foi sua, eu tenho visto o quanto você está se esforçando por nós…
— Olha, Sasori…
Sasori segura uma das mãos de Sakura e umedece os lábios, os olhos castanhos encaram os dela ternos.
— Me desculpe a hora, minha flor. Eu sei que está tarde, mas não posso esperar mais nenhum minuto. Vamos até seu apartamento, vamos conversar.
Sakura respirou fundo, ouvir aquele apelido que ele lhe dera na época da faculdade relaxava seu coração. Não o queria ali naquela hora, não queria conversar e nem pensar sobre esse relacionamento estranho que eles tinham. Mas Sasori não parecia entender que a hora não era boa, insistindo em falar o quer que fosse.
— Eu estou cansada, Sasori. Outro dia nós…
— Você está mesmo saindo com o chef, então.
Sakura arregalou os olhos com a afirmação de Sasori, ele a olhava intensamente, mesmo assim, esperando uma resposta. Sakura riu nervosa e passou a mão pelos cabelos, sentia-se sufocada.
— Eu não estou saindo com o chef, são só fofocas. — disse mostrando seu cansaço.
— Ainda bem, eu não quero te perder. Por favor, vamos conversar.
— Sasori, não…
— Eu amo você, Sakura. Vamos dar uma chance a nós.
E aquelas palavras chegaram fundo, num lugar dentro de si que se alimentava de esperanças. Ela fechou os olhos e se permitiu respirar fundo, o perfume caro que ele usava desde que se conheceram impregnou suas narinas e o coração aqueceu.
Contrariando sua mente, apertando firme a bolsa em seu ombro, Sakura abriu os olhos e deixou a respiração sair com uma única lufada pela boca.
— Uma hora, Sasori. Somente uma hora.
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A voz de Tom Yorke era plano de fundo, Sasuke não escutava a letra, mas sabia que era Creep que tocava baixo no estúdio. Ele estava sentado, olhando os tons de vermelho e amarelo nos quadros abstratos, vasos étnicos, narguiles e bugigangas daquele lugar familiar enquanto uma mão feminina e forte segurava-o e o motorzinho fazia aquele barulho tranquilizador ao seu lado.
A garrafa de cerveja era segurada pela mão esquerda, enquanto a direita estava estendida, na parte de trás de seu bíceps uma desenho tomava forma.
— Vai voltar dirigindo? Melhor dar uma maneirada nessas cervejas, querido.
Sasuke virou a garrafa bebendo o restante num único gole, pousou-a sobre o frigobar ao lado de mais duas que já estavam vazias. Sua cabeça estava pesada, muita coisa acumulada somado com um par de olhos verdes. Toda aquela história de haver algo, que não existia de verdade, com a sua aprendiz estava o deixando mais desnorteado do que o aceitável.
Virou a cabeça para a tatuadora de cabelos castanhos que usava uma máscara cobrindo os lábios vermelhos e um piercing no canto esquerdo. Ela também tinha olhos verdes, a constatação o fez pegar a quarta cerveja e tirar a tampa com mais força do que necessário.
— Um homem preparado para a guerra, hein? — a voz dela o chamou a atenção mais uma vez.
Ela se levantou e os braços fechados de tatuagens coloridas ficaram um de cada lado do corpo dele enquanto os olhos verdes o olhavam com interesse. A boca estava descoberta e um sorriso desenhava no carmim de seu batom. Sasuke não respondeu, virou a garrafa enquanto a encarava na mesma intensidade. O decote era coberto por uma rede quase transparente, o corpo mais maduro estava preso num corpete azul marinho, os cabelos castanhos presos num rabo de cavalo com dreads e tranças.
O sorriso aumentou e a distância diminuiu, Sasuke mantinha a boca molhada de cerveja.
— Na mitologia hindu, o falcão antecede o guerreiro em batalha. Os guerreiros o desenhavam no corpo antes de ir a luta. Diziam que trazia bons presságios.
Sasuke puxou o canto do lábio e tomou mais um gole quando ela se afastou e passou os dedos por seu peitoral.
— Não tem significado, Mei.
— Gosto de como fala meu nome, garoto. — a mulher fico novamente em pé e posicionou a máscara no rosto, voltando para o braço estendido com mais da metade de um falcão desenhado. — Como foi que escolheu o falcão? Já o queria antes de chegar aqui? Toda tatuagem tem um significado.
Sasuke fechou os olhos e encostou a cabeça na cadeira, franziu as sobrancelhas quando a agulha passou por uma parte sensível em seu braço. Quando o programa acabou e Kakashi o chamou no canto, havia decidido que sairia de lá para beber algo. Aquele reality estava sendo um estresse muito maior do que ele imaginava.
Não adiantava tentar esquecer onde estava, qualquer passo em falso e lá estava ele na vala das fofocas. Como ele estava odiando tudo aquilo. Enquanto tirava sua dólmã, ele repetia em sua mente um mantra para não mandar Kakashi ou qualquer outro para o inferno assim como havia feito com Suigetsu quando ligou mais cedo. Precisava fugir um pouco daquela realidade que ele não queria. Passou a mão instintivamente pelo peito, por cima do samurai tatuado.
Fazia tempo que não sentia aquela dor gostosa da agulha desenhando em sua pele, da companhia sempre bem vinda de Mei e da cerveja gelada que ela sempre tinha no frigobar.
Não havia pensado em algo que simbolizasse qualquer coisa importante para ele, sua cabeça era toda caos enquanto escutava as bobagens de Kakashi e depois que foi dirigindo para o único lugar que ele poderia conversar sem ser alvejado. Em sua mente havia apenas a estrada que tinha que pegar para chegar até lá e, um pássaro de rapina que surgiu em sua mente quando atravessou a porta do estúdio.
Não tinha simbolismo para ele, talvez algo inconsciente em querer largar o programa e voltar a sua rotina?
— Qual o nome da garota?
Sasuke abriu os olhos de imediato, a encarou surpreso e viu somente concentração no que fazia.
— Não há…
— Não minta para mim, garoto. — a mulher ergueu uma das sobrancelhas finas o encarando de volta. — Eu já estava rodando esse mundo quando nasceu seu primeiro pentelho.
Sasuke riu tomando mais um gole. Havia uma mulher? Só passava uma em sua mente, mas ele já estava há um tempo se recusando a aceitar que estava tão atraído por ela.
— Deixa eu adivinhar, ela é lésbica.
— De onde tirou isso? — Sasuke riu mais uma vez, deixou a garrafa em cima do frigobar e tampou os olhos com o antebraço tatuado com galhos.
— É aquela do programa? Aquela bonitinha com cabelo rosa?
O rosto de Sakura podia ser desenhado em sua mente perfeitamente, sorrindo sem jeito quando errava algo, insegura com aqueles olhos pedindo por um auxílio, até raivosa gritando quando ele dava uma bronca.
— Talvez.
— Talvez. — ela riu ainda de olho na tatuagem. — Então qual o problema?
— Não me diga que aqui tem blindagem do mundo exterior. Se tiver, me mudo para cá.
— Tá falando das revistas? Eu já vi, meu garoto. Não acreditei, é claro.
— Não? — Sasuke sentia-se tonto, aquela foi a primeira vez que realmente se sentiu calmo.
— Não. Você não é desses que se expõe assim. Então, me responda.
— Quero dormir com ela, mas o contrato não permite.
A risada rouca de Mei ecoou alta pelo estúdio e Sasuke puxou apenas um canto do lábio. Era a primeira vez que admitia aquilo para alguém, até para ele mesmo. Conversar com Mei era como entrar em outro universo, como se seus segredos estivessem a salvo dentro daquelas paredes.
Não era a verdade, mas ele não diria jamais o que o afligia sobre a sua aprendiz. Ela amava outro, queria casar com ele, um babaca que não a merecia, que tinha como objetivo aprender a cozinhar por causa dele. Sasuke se sentia patético, era tão difícil se sentir atraído por alguém daquela maneira, mas quando o fazia era logo afundado e estava prestes a se afogar.
Pensar sobre Sakura e o sabor que a pele, os lábios dela deveriam ter era enlouquecedor. Era algo que preferia manter guardado até de si.
— Você pode enganar qualquer outra pessoa, mas a mim não. Já encontrei rosas na janela da minha casa, declarações de um adolescente com cara de mau. Já entendi… — ela riu mais uma vez e ficou em silêncio.
Sasuke tirou o braço de cima dos olhos e virou a cabeça para encará-la. Esperou que ela continuasse, mas teve um longo e angustiante momento de silêncio enquanto ela finalizava o desenho.
— Lembra quando eu te disse que você tinha o dom de se apaixonar pela pessoa errada?
Sasuke se lembrava daquilo, tinha recém feito seus dezoito anos quando disse que amava a mulher a sua frente. Uma mulher mais velha, independente, que o ensinara muita coisa naquela vida. Ela havia tido paciência com ele, o tratou com maturidade e explicou coisas que ele jamais esqueceu, aprendeu que não era amor. Havia passado maus bocados por aquela mulher. Escutou dela que era sensível e odiou aquilo. Aquelas não eram mais lembranças constrangedoras.
— Deixa isso quieto. — comentou olhando para o falcão pousado num galho olhando para trás.
— Oras, logo agora que entendi que você está pronto para entrar numa guerra por essa garota? — Mei cruzou os braços e escorou o quadril num armário de metal.
— Não.
— Você nunca esteve tão distante, Sasuke. Espera esse reality estúpido acabar, leva ela para a sua casa, faz um daqueles pratos chiques e mais alguma coisa que essa cabecinha de romântico entende, depois leve a garota ao céu, transe loucamente com ela. Você merece ser feliz, largar de ser tão raivoso, garoto. Apesar de isso ser um charme. Ai, vou sentir saudades. — ela suspirou e Sasuke balançou a cabeça não querendo olhar ela diretamente.
— Obrigado, Mei. Desculpe te fazer trabalhar de madrugada. — Sasuke passava o cartão na maquininha e a noite ainda reinava do lado de fora. O plástico filme apertava sua nova marca no braço direito, no rádio tocava Hotel California e no relógio mostrava ser quatro e meia da manhã.
— Disponha. Volte para retocar, me liga antes. E boa sorte naquela guerra de chefs.
— Batalha dos chefs. — Sasuke riu esfregando os olhos de sono. Havia cochilado um pouco depois de Mei insistir em esperar passar o efeito das cervejas antes de dirigir. Agora olhando bem para ela, parecia mais velha do que ele se lembrava. Ainda linda, mas não mais tão atraente quanto sempre parecera para ele. Ela foi seu primeiro, mais longo e sofrido amor. Com ela havia aprendido a ser homem, e mesmo depois de tanto tempo ela ainda o ensinava a ser. — Te espero em um dos restaurantes, te juro que faço um prato vegano.
— Ótimo. Agora saia daqui que preciso dormir.
Sasuke arrastava o coturno pelo caminho de pedras e terra até seu carro. Tirou o controle do bolso para destravar o carro já planejando em quem colocaria em cada restaurante no horário do almoço. Iria dormir e trabalhar só a noite, marcaria de ir nos seus pais no fim de semana. Talvez no domingo Sakura fosse até o restaurante, e a voz de Mei repetia em sua mente sobre lutar.
Não queria nem pensar no quanto Naruto iria atormentar se visse a nova tatuagem e soubesse que esteve na Mei.
Riu de si mesmo quando deu partida, foi tão difícil assim admitir que Sakura o atraía? Quem sabe tentasse algo depois que o programa acabasse? Quando as câmeras já não estivessem em suas direções. Saborear ela por uma noite, matar a vontade que estava tendo dela.
Parou num posto de gasolina e pensou que estivesse vendo coisas por ter pensado tanto em Sakura durante aquele tempo, mas não era ilusão de uma mente cansada e detonada por cervejas na madrugada, Sasori estava perto da conveniência conversando com alguém.
Sasuke se aproximou um pouco, um fogo começou a ferver dentro de si ao ver que Sasori de costas com os braços na parede e alguém tentando empurrá-lo. As mãos de Sasuke fecharam-se em punhos tentando ver quem estava sendo encurralada por ele. Era Sakura em sua cabeça, tentando sair da armadilha que o ruivo a colocou. Sasori abaixou a cabeça tentando beijar a mulher, mas qualquer um podia ver que era contra a vontade dela.
Não era um molho na cabeça que aquele cara merecia.
Sua mente já era uma panela de pressão prestes a explodir quando colocou a mão no ombro de Sasori e o virou acertando um soco de direita no nariz do ruivo. Um barulho de osso quebrando sucedeu o impacto e um grito feminino abafado o chamou atenção para a moça de olhos claros que o olhava assustada enquanto o corpo de Sasori caía ao chão inconsciente.
A mulher não tinha voz naquele momento. Ainda que ela tivesse os lábios cobertos, ele pôde ouvir o sussurro:
— Chef?
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betado por Hitsatuke
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