Protocolo - Bebê Desaparecido

12 Capítulo 12 - A salvo


Notas iniciais
Capítulo pequeno, mas pelo menos não tem 8 mil palavras :) ~~ Boa leitura

Peter ainda estava tendo dificuldade para assimilar tudo o que estava acontecendo. Para ele as coisas estavam indo muito rápido e isso o confundiu. Ele estava na Torre dos Vingadores, no andar mais alto, com uma vista maravilhosa da cidade, um quarto só pra ele. Era como um sonho — não, uma alucinação; nem mesmo um sonho podia ser tão bom assim.

A cama parecia ser bem macia, cheia de travesseiros e forrada com edredons grossos e convidativos. Era grande demais e provavelmente caberia outros quatro Peters ali. Ele se sentiu tentado a se deitar e adormecer mais uma vez, combatendo esse desejo quando se lembrou que Tony Stark ainda estava esperando por ele.

Demorou um pouco para o jovem aranha se mover depois que o sr. Stark saiu, hesitando até mesmo em olhar ao redor do quarto. Durante um minuto inteiro Peter ficou parado, estático, sem saber o que fazer agora que ele estava ali, em um quarto grande e luxuoso.

O quarto era claramente de hospedes, quase que vazio no quesito decoração, mas tudo ao redor era muito chique e brilhante para Peter — literalmente, sua cabeça estava doendo por causa da luz. Havia um enorme armário que ocupava toda uma parede, mas quando Peter abriu encontrou com as prateleiras vazias.

Fora a cama, tinha uma poltrona que parecia ser muito confortável, uma cômoda ao lado da cama com um abajur em cima e algumas gavetas. As paredes eram brancas, mas onde a cama estava encostada tinha uma textura diferente.

Peter andou ao redor, evitando pisar no tapete felpudo, sabendo perfeitamente que suas sandálias iriam suja-los, e finalmente entrou no banheiro.

Seus olhos se arregalaram quando ele viu aonde estava. O lugar parecia ser maior do que seu antigo quarto na casa de Mary e Richard. Tinha uma banheira — que mais parecia uma hidromassagem — e um chuveiro. As cores do azulejo variavam entre marrom e branco, assim como as prateleiras que estavam cheias de produtos de higiene.

Peter deu dois passos à frente, logo encontrando com um espelho e uma bancada de mármore.

Ele franziu o cenho quando encontrou com o seu próprio reflexo, sujo e desgrenhado, entrando em forte contrates com o ambiente ao seu redor. Peter balançou a cabeça com vergonha por estar tão sujo em um lugar tão chique como esse. Era bom ele ser rápido.

Antes de decidir se queria o chuveiro ou a banheira, Peter olhou ao redor atrás de toalhas, encontrando um monte delas dentro da bancada. Satisfeito, ele se virou e encarou suas opções.

Depois de tanto tempo nas ruas, Peter considerou um banho na banheira como mais relaxante — particularmente, ele queria estar enterrado pelas bolhas assim como fazia quando criança —, por isso não demorou em tomar uma decisão.

Peter ligou a torneira, ligando a água quente e se voltou para as prateleiras, buscando por sabão liquido ou mesmo um sabonete comum. Peter se despiu, evitando se olhar no espelho, sabendo que tanto as marcas de uma vida quanto a sujeita estariam ali para lhe cumprimentar. Antes de deixar as roupas dentro de um cesto, Peter vasculhou no bolso do moletom pela foto de família, que ele nunca deixava para trás. Ele deixou ela em cima da bancada de mármore, se certificando que ela não molharia.

Ele encarou a água por um tempo, fechando a torneira antes da banheira estar cheia. Estendendo a mão, o jovem aranha testou a temperatura da água, soltando um suspiro quando o calor a envolveu.

Ele não perdeu tempo e entrou, afundando na água quente e na banheira. Surpreendentemente, a água alcançou seus ombros, apesar da banheira não estar completamente cheia. Por um longo minuto, Peter não se mexeu, apenas aproveitando a sensação da água quente ao redor do seu corpo.

Ele lavou o cabelo, talvez um pouco mais forte do que deveria, sentindo toda a sujeira finalmente sair do seu corpo, deixando-o mais leve.

Peter se lembra da última vez que ele tomou banho. Foi quase a três semanas atrás, antes do frio extremo invadir Nova York. Não existe banheiros nas ruas, por isso os banhos se tornaram cada vez mais incomuns para Peter.

No começo, ele invadia sua antiga escola a cada três dias, apenas para tomar um banho no vestiário quando ninguém estava por perto, geralmente de madrugada. Isso se tornou uma rotina, mas com o tempo, Peter passou a deixar um espaço maior de tempo antes de recorrer a invasão. Isso aconteceu, em parte, porque certo dia ele viu Skip na rua, já que o apartamento dele ficava bem perto da escola.

O medo de ser pego fez Peter se afastar e, consequentemente, tomar menos banhos. Isso era normal quando se vive nas ruas; Peter estava apenas tentando manter um privilégio que ele perdeu assim que pulou a janela e encarou a noite fria.

Mas agora ele estava se sentindo no céu, mergulhado até os ombros com a água quente, se sentindo limpo e relaxado.

Peter tentou prolongar isso pelo máximo de tempo possível, tanto que suas mãos chegaram a enrugar, mas logo ele se viu obrigado a sair, já que a água agora estava gelada.

Com um suspiro meio tristonho, Peter saiu da banheira, se enrolando rapidamente em uma toalha. O frio bateu em sua pele, em contraste com a temperatura quente, fazendo-o estremecer.

Ele se secou rapidamente, querendo fugir do frio, mas acabou congelado em pé, de frente para o espelho, quando seus olhos pegaram seu reflexo.

Um ano vivendo nas ruas não tinha ajudado a saúde de Peter. Ele estava magro demais, podendo ver o contorno claro de suas costelas. Os músculos ainda estavam ali, não tão nítidos quanto antes — um pequeno resultado do desespero por comida que levava Peter a roubar constantemente. Ele também parecia menor do que se lembrava, pálido e meio murcho, com olheiras em baixo dos olhos; qualquer um que olhasse para ele, diria que ele estava doente. Seu cabelo estava grande demais, praticamente implorando por um corte.

Ele virou, desejando poder ver um pouco de suas costas no reflexo, prendendo a respiração com medo do que veria.

Da última vez que Peter olhou suas costas por um espelho, as marcas eram nada além de um risco branco e vermelho nas bordas; cicatrizes que poderia ficar ali para sempre, mas graças aos seus poderes, desapareceram quase que totalmente.

Não havia marca visível, não havia cicatrizes, somente pele branca e pálida. Peter poderia se sentir aliviado com isso, mas não, porque as cicatrizes poderiam não estar na sua pele, mas estavam na sua mente, gravados em sua memória pelo resto da vida.

Talvez essa fosse o pior tipo de cicatriz.

Peter estremeceu, franzindo os lábios para o seu próprio reflexo. Ele parecia horrível, bem mais jovem do que realmente é e exausto.

Ele sacudiu a cabeça, deixando os pensamentos sobre sua aparência deplorável de lado. Peter respirou fundo, enrolando a toalha na cintura e foi quando seu estômago rosnou, alto e claro.

Ele saiu do banheiro, se perguntando o que iria vestir antes de congelar com o frio que estava rodeando seu corpo mesmo com o aquecedor ligado. Seus olhos repousaram sobre a cama onde um muda de roupa limpa estava. Peter sentiu um sorriso se formar em seu rosto, um misto de gratidão e admiração.

Isso tudo ainda era surreal. Ele estava, de fato, de baixo de um teto, com roupas limpas apenas esperando por ele. Havia uma cama de verdade, não um chão sujo e empoeirado, com cobertas e travesseiros, certamente bem mais macio que sua mochila.

Ele acabou de tomar um banho, um banho de verdade, e havia alguém esperando por ele do lado de fora do quarto; alguém que esteve lhe procurando por tanto tempo.

Peter não pode evitar, ele se sentia estranho quanto a isso. O pensamento de que alguém passou os últimos 11 anos procurando por ele era surreal, algo inacreditável. Ele já tinha se convencido há dois anos de que ninguém iria quere-lo, que ele era descartável e por isso tudo na sua vida tinha ido ladeira a baixo.

Ele balançou a cabeça, tentando deixar esses pensamentos de lado.

Peter pegou o suéter em suas mãos, sentindo a textura do material e um cheiro leve de loção pós barba que invadiu seu nariz — cheirava exatamente igual a Tony.

O pensamento veio novamente, tão surreal como nunca. Peter era filho de Tony Stark, o Homem de Ferro. O pensamento disso era tão estranho que chegou a ser engraçado, mas era a pura e única verdade. Peter ainda tinha uma família, um pai, que ele sempre admirou de longe; que se tornou seu ídolo e modelo.

Era quase como se tudo isso fosse uma grande piada planejada pelo universo.

Peter engoliu em seco, sentindo o peso de toda essa situação em seus ombros. Ele balançou a cabeça de novo. Com um estranho alivio, ele vestiu o suéter que caiu sobre seus ombros, largo demais; mas isso só deixou ele mais confortável ainda.

Peter se vestiu rapidamente, se divertindo com o quão largas eram as suas roupas. A calça arrastava no chão e ele preciso dobrar a barra para evitar tropeçar em seus próprios pés enquanto as mangas do suéter cobriam suas mãos.

Mas ele estava quente, se sentindo limpo e leve, um sentimento que ele quase esqueceu como era.

Peter se virou e olhou para a porta, considerando se devia ou não sair agora. Tony disse que estaria esperando por ele na sala, e, particularmente, Peter não tinha muito o que fazer, ele estava com fome e por mais que toda essa situação parecesse surreal ele não pode evitar seu pai para sempre.

E ele dúvida que o sr. Stark vai deixa-lo em paz tão cedo.

Peter passou a mão pelos cabelos, tentando ajeita-los um pouco e alcançou a maçaneta. Assim que a porta se abriu ele pode ouvir vozes; uma conversa não muito distante que, graças a sua audição aprimorada, ele pode entender com clareza.

— Você sabe que vai ter um monte de coisas para lidar agora, não sabe? — Uma voz feminina perguntou, calma, mas ainda apreensiva.

Peter se sentiu mal em ouvir uma conversa assim, mas seja lá quem estava com o sr. Stark, era meio obvio que eles estavam falando sobre ele. A curiosidade o dominou por um momento, e ele se viu parado com a porta entreaberta.

— Eu sei, mas isso é tudo que eu sempre quis — Esse era o sr. Stark e Peter podia sentir o sorriso em seu rosto. — Você vai gostar dele Pepper

— Eu sei disso, mas não estou preocupada com ele, estou preocupada com você Tony — Peter se encolheu, se sentindo duvidoso se continuava ouvindo ou sedia a queimação do seu estômago que estava implorando por comida. — Pensa que eu não sei que você passou três dias trancado no laboratório? Steve me ligou perguntando se você estava vivo

— O Cap se preocupa com tudo... e em minha defesa eu estava ocupado

— É, mas agora você tem alguém para cuidar, alguém que precisa de você. Cuidar de uma criança não é tão fácil assim

— Eu sei Pep... mas por ele eu faço qualquer coisa

Peter engoliu em seco, sentindo um calor enorme subir para o seu corpo, cobrindo também seu pescoço e suas orelhas. Ele nunca tinha ouvido alguém falar assim, principalmente se referindo a ele. Peter não pode evitar o sentimento quente que dominou seu corpo. Talvez fosse esperança, ou satisfação, o que importa era que ele estava feliz em saber que ainda existia uma pessoa nessa Terra que se preocupava com ele.

Peter respirou fundo por um segundo antes de abrir a porta. Ele saiu do quarto e seguiu pelo corredor, indo em direção a sala enquanto seus ouvidos ainda captavam a conversa.

Seu estômago revirou mais uma vez quando ele sentiu o cheiro agradável de pizza.

— Eu vou cuidar dele Pepper, não duvide disso

Peter corou fortemente quando entrou na sala — mais do que antes —, apenas o efeito colateral de estar escondido ouvindo a conversa de dois adultos. Logo, ele sentiu um peso nos ombros, e por um instante pensou que fosse seu sentido aranha formigando, mas então ele percebeu que era apenas o olhar de ambos os adultos nele.

— Peter! — Tony saiu do seu assento. Novamente ele guiou o menor até mais perto do balcão, e agora Peter estava bem próximo a uma mulher loira muito bonita e arrumada. — Essa é Pepper Potts. Às vezes ela fica aqui quando não está em uma viagem de negócios

— Olá Peter — Ela disse, um sorriso agradável em seus lábios enquanto oferecia uma mão para cumprimentar Peter.

Pepper parecia ser alguém amigável e gentil, que não ativou seu sentido aranha; somente por isso, Peter relaxou os ombros e ofereceu um pequeno sorriso em troca, agarrando a mão da mulher.

— Prazer em conhece-la srta. Potts — Ele disse, voz baixa e tímida, ainda um pouco incerto do que fazer.

Ele viu quando Pepper lançou um olhar surpreso e interrogativo para Tony, provavelmente fazendo uma pergunta silenciosa com apenas uma troca de olhares; sr. Stark apenas deu de ombros.

Por um instante Peter se perguntou se tinha feito algo errado, mas isso logo ficou de lado quando Tony se sentou numa banqueta, convidando Peter a se sentar ao seu lado. Ele o fez, próximo o bastante para sentir o cheiro leve de loção pós barba que parecia ser a marca registrada do sr. Stark.

— É melhor você comer garoto — Tony disse e só então Peter notou as duas caixas de pizzas que estavam do outro lado do balcão. Para sua surpresa, ele não precisou fazer muita coisa, já que o homem mais velho decidiu servi-lo.

— Obrigado — Peter agradeceu quando pegou o prato com uma fatia de pizza e no mesmo instante sua boca se encheu de água com a visão.

Seu estômago rosnou mais uma vez e Peter não teve motivos para adiar ainda mais. Ele começou a comer, mastigando lentamente, se certificando de aproveitar o gosto magnifico de uma Pizza quente.

— Então Peter, o que achou do seu quarto — Pepper foi quem perguntou, claramente interessada em conhecer um pouco mais sobre ele.

Peter não pode evitar de se sentir lisonjeado. Pepper era claramente uma mulher legal, uma certa simpática clara em suas feições. O olhar que ela lançou para Peter o lembrou de Mary.

Seu coração se apertou com isso. Fleshs de sua mãe ainda viva piscaram na sua mente e ele se sentiu nostálgico, mas se forçou a esconder isso do casal na sua frente.

Peter também se forçou a responder, pigarreando.

— É incrível, só um pouco grande demais — Ele disse, não se dando conta automaticamente das suas palavras. O pavor de ter soado mal-agradecido inundou Peter e ele foi rápido em se corrigir, quase em pânico. — Não que isso seja ruim, na verdade é bem legal, acontece que eu não estou acostumado a ter tanto espaço assim

Peter encheu a boca com Pizza, terminando assim a sua primeira fatia; foi apenas um jeito que ele encontrou de calar a boca.

— Bem, ele pode parecer bem menor depois que o decoramos. Afinal você vai ficar aqui por um tempo — Pepper disse, comendo sua própria pizza. Tony se animou ao seu lado.

— Falando nisso. O que você gostaria que tivesse no seu quarto? — Tony perguntou, olhando para Peter com um brilho carinhoso nos olhos, algo tão genuíno que fez seu rosto esquentar.

Peter levantou uma sobrancelha, não entendo a pergunta por completo.

— Desculpe? Eu acho que não tenho um pedido especial — Ele se escolheu. Isso pareceu confundir um pouco Tony.

— Nada mesmo. Achei que você fosse gostar de decorar o seu próprio quarto — Tony disse, dando uma mordida em sua própria pizza. Peter aproveitou para pegar mais um pedaço, ainda hesitante em seus movimentos.

— Eu nunca fiz isso antes... — Ele admitiu, um pouco envergonhado.

Pepper e Tony compartilharam um olhar, quase como se tivessem tendo uma conversa silenciosa.

— Acho que você vai gostar então — Pepper disse, sorrindo para ele. — Não se preocupe, eu vou te ajudar

Peter sorriu de volta, realmente grato; tanto pela simpatia dela, quanto pela compreensão.

— E você Tony, já pensou no que vai fazer primeiro?

Peter mordeu sua pizza, não se preocupando em usar garfo e faca — era apenas um hábito dele e Tony parecia também não se importar muito com as etiquetas. Ele aproveitou o momento para apenas observar os adultos com interesse estampado em seu rosto.

— Você me subestima tanto assim? É claro que eu sei o que fazer — Tony disse, fingindo um tom dramático que aos olhos de Peter foi hilário.

Principalmente o jeito que Pepper olhou para ele depois.

Peter não se conteve, ele soltou uma risada baixa, mas genuína e completamente divertida. Para a sua surpresa, isso captou a atenção dos dois adultos, que o encararam com surpresa.

Com medo de ter feito alguma coisa errada, Peter lutou para voltar a ficar Poker Face, a fim de não incomodar mais os dois adultos.

Ele não percebeu o jeito que o sr. Stark estava lhe olhando, perdido como se Peter fosse uma visão, uma alucinação; algo tão preciso quanto uma joia rara.

Ele também perdeu o sorriso carinho que brotou no rosto do mais velho.

Notas finais
~~ See Ya Later