Proscritos
1 Capítulo 1
Acordo assustada depois de mais um pesadelo, é o terceiro está semana, não sei o que meu subconsciente quer, o sonho é simples, um jantar com toda a corte de Elefthéria, eu bebo um vinho e sufoco até a morte. Até a morte. Essas palavras ecoam na minha cabeça.
—Hora de acordar lady Gibraltar, — uma voz doce invade o quarto, é uma das criadas mais antigas da família – seu pai está a sua espera. — Ela sai deixando as cortinas abertas, o sol invade meu rosto tão bruscamente que acordo de vez.
Gostaria de ser uma pessoa normal as vezes, poder dormir até mais tarde, vestir minhas próprias roupas, porém até isso já está encima da mesinha de canto, um vestido todo de seda costurado a mão, quando menos percebo uma criada novata invade meu quarto.
—Me perdoe minha princesa – ela cora e logo põem a mão nos olhos ao perceber que eu estou nua tentando colocar aquele absurdo que meu pai chama de vestido – eu errei em entrar sem bater – percebo que ela está mais constrangida do que eu. Sei que ela está espiando entre os dedos as cicatrizes em minhas costas.
—Não se desculpe, já que está aí – tento conter minha voz, mas percebo que ela falha um pouco, tenho que ser mais durona — ajude-me a vestir isto. — A criada me olha com espanto ao ver que não me importo com o ocorrido, e não me importo mesmo.
O Palácio de Alamanda é lindo essa época do ano, as flores crescendo, tudo é tão verde que não consigo sequer imaginar outro lugar para o anúncio da coroação de Styrax, o pesadelo não sai da minha cabeça, parece que estamos comemorando alguma coisa no Salão Oval e então eu sufoco até a morte. Poderia avisar isso a meu pai, falar que estou com um pressentimento muito ruim sobre essa noite, a grande noite onde eu serei lançada a meu futuro certo a morte.
Entro em um corredor que somente criados podem usar, normalmente ninguém nota, porém hoje com este vestido estou chamando mais atenção do que meu irmão vestindo a farda do exército com as garotas da corte, um sorriso malicioso surge em meio aos meus dentes, algo muito raro na verdade, fico pensando como ele deve estar se sentindo já que é o preferido do papai e o primogênito, com a coroação chegando e os ataques constantes que Elefthéria sofre da parte dos rebeldes, os quais meu pai quer fazer um acordo de paz, mas Styrax acha uma bobagem negociar com “rebeldes sem causa”.
—Catleia Louise Gibraltar – conheço essa voz, mas ele só irá chegar amanhã, — o que pensa que está fazendo aqui?
Meu corpo se vira tão rápido, antes mesmo que eu perceba estou nos braços fortes e musculosos de James, meu melhor amigo, seu cabelo ondulado agora está maior do que me lembro, uma mecha cor de mel cai por cima de seus olhos verdes, sua pele branca contrasta seu uniforme preto, estou a tanto tempo sem vê-lo que meu rosto cora ao perceber que ele me encara com um sorriso entre os dentes brancos, me recupero rápido ao perceber todos os olhares curiosos sobre nós. Em um passado não tão distante assim, houve boatos de que eu e James estávamos namorando as escondidas, meu pai o rei Conus V ficou tão furioso com os boatos que mandou James para as trincheiras com um exército recém-recrutado e sem nem um treinamento militar, digamos que meu pai desde então idolatra James por te vencido o povo de Anásia e conquistado algumas terras a mais para nosso reino.
— O que você está olhando? E porque me espoem assim desse jeito Coronel Burgh, — James me encara com desdém, minha voz falha entre uma palavra e outra. — Você acha que pode falar assim comigo só por que tivemos uma história no passado – dou empurrões em seu peito, ele segura o riso, porém está fazendo uma carreta horrível. Todos os olhares estão voltados para nós, sei que meu pai não vai ficar nada feliz com isso, mais um escândalo sobre a filha de Conus V a princesinha mimada que só o fás ter desgosto.
—Voltem aos serviços criados, — sua voz é doce, porém exala poder e autoridade. James me agarra pelo braço e me arrasta para o canto – você está louca Louise quer que eu seja expulso do reino pelo seu pai de vez, você sabe muito bem que não importa o que eu faça para ele, nunca vai me perdoar pelo nosso – estamos a sós, ele me empurra contra a parede, encosta sua cabeça na minha e sussurra – queria que tivesse outro jeito.
—Eu não, pode por favor se afastar e me soltar?
Ainda não sei o porquê eu disse aquelas palavras, percebo que o machuquei mais do que da última vez, eu e James temos um histórico conturbado, eu o amava, porém ele preferiu fazer um juramento ao rei Conus, “juro solenemente proteger e zelar pela vida de Styrax e fazer todas as suas vontades meu rei”, a questão é que meu pai fez isso para que ele nunca pudesse ficar comigo e hoje vejo que foi a melhor escolha, meu pai é muito sábio e faz de tudo para me proteger,
—Pensei que ficaria feliz em me ver. —ele sussurra descrente no que acabei de despejar em cima dele.
— Seria melhor se não tivesse vindo. — Minhas palavras contradizem o que meu corpo fez a alguns minutos atrás, meus olhos encontram os seus, ele desvia o olhar rapidamente. — Estou feliz por você estar vivo e poder te ver de novo isso não significa que — faço uma pausa tentando encontrar as palavras certas. Não existem palavras certas. — Não significa nada.
Mesmo que eu me importe com os sentimentos dele, não posso mais baixar minha guarda, não depois de tudo que aconteceu comigo, logo depois que James foi para frente de batalha com seu pessoal eu fiquei totalmente sozinha, o rei Conus não teve nem piedade de sua filha, fui punida pelos meus atos, mesmo que ninguém saiba, fui chicoteada vinte vezes pelo meu próprio pai na Sala Silenciosa, mesmo com minhas súplicas de perdão e piedade a meu pai, o rei dentro dele falou mais auto.
Corro pelos corredores de serviço o mais rápido possível, uma lágrima brota em meus olhos azuis, a lembrança que James provocou em mim é perturbadora, as noites trancafiadas no calabouço com seres depravados me custaram muito mais do que qualquer pessoa possa imaginar, todos acham que aquilo me destruiu, porém, meu pai me ajudou a ser mais forte do que nunca. Já estou quase chegando a Sala Silenciosa, depois do ocorrido essa é primeira vez que estou voltando aqui. Ainda estou correndo não paro a tempo, bato bem bruscamente a porta com meus punhos na tentativa de parar, mas a porta não está trancada, a porta se abre e caio de cara no chão, em frente ao meu pai e toda a Corte Real.
— Princesa Catleia minha filha, — um suspiro de desgosto imagino paira o ar. — recomponha-se.
Dois guardas vêm em minha direção e me levantam do chão, meus cabelos rebeldes e ruivos reluzem com a luz do sol que entra pela janela, a cara de deboche de Styrax me faz rir. Meu vestido ainda está impecável, por uns instantes fico aliviada de não ser a única atrasada, olho para todos os lados, procurando por Prow, ela é a futura rainha e esposa de Styrax.
— Peço-lhe desculpas por minha filha. — papai sempre tentando ser o melhor rei possível, um sorriso acanhado brota em seu rosto. — Ela é jovem, ainda está aprendendo como se portar. — Todos assentem com a cabeça, tomo o assento ao lado esquerdo de meu pai, ao lado direito está Styrax a procurar a noiva com os olhos.
A corte inteira está aqui para um pronunciamento de meu pai, no qual ele falará sua decisão – que é óbvia – de quem herdará seu trono, meu irmão sempre com a postura excelente, seus olhos azuis como os meus mas o cabelo loiro como o de papai, veste sua roupa de gala que depois de um ano sem velo parece que ganhou muitos músculos, nunca o vi tão preocupado e ansioso ao mesmo tempo, Prow aparece com toda sua graciosidade na porta, seu vestido é igual ao meu, espero que ela não note, seus cabelos loiros até a cintura está entrelaçados em uma meia transa que a faz parecer mais bela ainda.
Seu corpo deu um brilho diferente ao vestido, diferente do meu que ficou grande e reto, as vezes acho que meu pai me veste assim para que eu não arrume ninguém e fique para sempre ao seu lado, na verdade não tenho escolha terei que ficar sozinha se ele não conceder a minha mão a ninguém.
—Todos de pé, meu pai o rei Conus ira falar.
Meu irmão nasceu para ser rei, ele é igualzinho a nosso pai, pena que as vezes é tolo demais e acredita em quase tudo que papai fala. Tenho certeza de que ele e Prow faram de Elefthéria um lugar maravilhoso. Todos do reino, incluindo a corte real sabem que Styrax será um rei muito sábio, e com Prow ao seu lado, o reino só tem a crescer.
— Peço-lhes desculpas, tive um imprevisto com meu itinerário e tive que vir o mais rápido possível, - o que ele está fazendo aqui, ele deveria ficar do lado de fora da porta, é só um soldado. — Sei que poucos me conhecem, eu sou o Coronel Müller da província de Bureen.
Meu pai assenta com a cabeça, meus olhos vão de encontro com os do novo coronel, todos estão à espera do pronunciamento real e toda essa babaquice, Müller porque esse nome me sou familiar, sua postura é perfeita, seus olhos castanhos estão fixos em mim, seu sorriso é encantador, não consigo parar de olhá-lo, sua pele branca contrasta seu cabelo castanho ondulado até o ombro, o sorriso não sai de seus lábios, sua barba parece até desenhada para seu rosto.
A porta se abre novamente, mas ninguém percebe, é apena James com seu uniforme coladinho e seu charme pessoal, fico furiosa ao ver que está de mãos dadas com Mag, a criada novata que invadiu meu quarto pela manhã.
—Eu sinto muito. — Consigo ver o a dor nos olhos de James ao lançar aquelas palavras para mim. É um sussurro quase incompreensivo.
— Espero que sua estadia aqui no Palácio de Alamanda seja a melhor possível Coronel Müller, — não consigo conter minha vontade de provocar James e as palavras vão fluindo com uma facilidade, a cada palavra que sai da minha boca meu sorriso brilha cada vez mais, não por falar com o coronel, mas por provocar James na sua frente. — Se precisar de alguma coisa ficarei feliz em te ajudar, — um sorriso brota em meu rosto que me irradia de um jeito meio estranho.
—Se não for muito incomodo, eu adoraria ter sua companhia. — Suas palavras parecem perfeitas, sua voz é suave e grave ao mesmo tempo, o que me faz pensar o que esse rapaz com pouco mais de dezessete anos faz em um posto tão alto, e o que ele está fazendo aqui.
— Depois do pronunciamento posso te mostrar todo o palácio, e te ensinar como fugir desse lugar. — Coronel Müller está do meu lado, sussurro as palavras de um jeito doce, controle-se Catleia, meu coração está disparado ao perceber que James não está mais nos observando, muito pelo contrário, ele está dando atenção ao seu novo brinquedinho, mas ainda quero conversar com o coronel Müller.
— Eu aceito sua gentileza princesa Catleia Louise Gibraltar.
Rei Conus V se levanta de seu trono todo pomposo, meu pai nunca foi muito vaidoso, mesmo assim aparenta ser bem mais novo do que realmente é, seus anos no fronte da batalha o deixaram com um olhar de desgosto e todas as minhas atitudes contribuíram mais ainda para ele ter esse olhar.
— Acho que todos nessa sala imaginam qual será o pronunciamento de hoje, bom, — ele faz uma breve pausa, estou mais ansiosa do que meu irmão. — Quero oferecer a mão de minha filha a princesa Catleia Louise Gibraltar, ao nosso coronel mais corajoso e o mais novo ao chegar neste posto. Como todos sabem ela é minha filha mais nova, corta meu coração deixá-la ir, mas é algo necessário, e sei que com o príncipe Jasper Müller IV de Andraday ela estará em boas mãos.
A sala é tomada pelo espanto, vejo James me encarar com um olhar de pena, estou processando ainda o que meu pai acabou de falar, meu sorriso se desfez tão rápido, uma lágrima brota em meus olhos, ele não poderia ter feito isso comigo, não depois de tudo o que eu passei, depois de tudo o que ele me fez passar. Ao olhar para o lado percebo que o coronel sorridente agora está prestes a chorar, meu pai não acabou somente com a minha vida, mas com a de James e a do coronel, seus olhos cheios de lágrimas encontram os meus, a decepção é mutua, as palavras de papai ecoam em minha cabeça, estou tentando entender o que ele acabou de dizer, será que ainda estou dormindo? Será que é apenas um sonho? Estás questões são meio óbvias, estou sufocando.
— Oque? — Grito antes mesmo de perceber, mas as palavras já saíram da minha boca.
— Acalme-se Catleia, papai tem um motivo para isso, ele só está pensando no melhor para você, — Styrax não parece estar surpreso com o que papai acabou de falar, — você tem que entender que não tivemos escolha…
— Você sabia, como pode. — Estou desorientada, acabei de ser usada pela minha própria família, tudo gira ao meu redor, saio cambaleando pelos degraus, não quero ver mais ninguém, quero somente sumir desse maldito lugar.
— Acalme-se Louise, — James me pega pelo braço com tanta força que meus ossos estralam, — me perdoe, não queria que fosse assim.
— Você também sabia e não fez nada para impedir, só me deixa em paz, preciso ficar sozinha.
Saio da Sala Silenciosa aos prantos, isso não poderia ter acontecido, corro o mais rápido que posso em direção ao Jardim.
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