Propósito
1 Capítulo 1
Era algo gigante o corpo do protótipo. Ocupava grande parte do galpão onde estava. Devia medir uns 3 metros de altura por 7 de comprimento. E ao seu redor, fixadas nas paredes, infinitos utensílios como ferramentas, peças, desenhos, escadas e construtos que tornaram possível sua construção. Frank já havia finalizado o corpo havia vários meses. Essa parte foi fácil para ele. Projetar e construir máquinas novas se tornou algo banal. Sempre fora celebrado pelo seu intelecto superior e agora fizera mais um milagre mecânico. Mas quando olhava para o corpo não sentia a mesma excitação que sentiu nos seus primeiros projetos. Por isso dessa vez ele adicionou uma segunda parte. Algo que mudaria para sempre o entendimento do homem sobre a natureza e a ciência. E mais importante que isso ele sabia que se conseguisse finalizar a máquina voltaria a sentir os sentimentos que a muito esquecera.
Ele deu o nome da segunda parte de alma. Na verdade, não poderia haver outro nome mais apropriado. Essa máquina era diferente de todas já feitas antes dela. Mesmo o corpo sendo algo magnífico, sozinho não atingiria nem metade do que ambas as partes alcançariam juntas. Estava cansado de bajulações vazias vindas de pessoas limitadas. Por isso a finalização da alma era tão essencial. Não só para o protótipo, mas para ele também. Ele sabia que só tendo ela se sentira completo.
Frank era um homem alto, porém andava sempre curvado, e possuía cabelos lisos castanhos e grandes olhos pretos. Devido a sua vida acadêmica ele sempre estava vestido de uma forma formal com seu corte de cabelo baixo e a barba feita. Porém, agora sua fisionomia mudara bastante desde que começara a construir a alma. Ela estava consumindo todo o seu tempo e esforço, portanto se algum colega de trabalho o visse como estava agora era muito provável que não o reconheceria. Agora estava com a mesma roupa havia vários dias, não saia do galpão havia várias semanas e seus cabelos estavam chegando aos seus ombros e sua barba que crescera disforme em seu queixo e pescoço. Raramente lembrava de se alimenta e por isso perdera quase um terço do seu peso e ficara ainda mais corcunda. Seus braços eram marcados de arranhões e feridas não cicatrizadas. E enroladas em suas mãos faixas brancas com manchas vermelhas cobriam seus machucados do trabalho excessivo, deixando escapar apenas seus dedos esqueléticos. Mas o aspecto mais macabro de sua nova forma seria seus olhos. A soma de várias noites mal dormidas e o esforço abusivo a que estava colocando seu corpo lhe deram olheiras profundas e escuras, que junto com suas grandes pupilas negras passavam a ilusão de que no lugar onde deveria estar seus olhos agora existiam duas fossas sem fim.
Agora ele estava na frente do galpão e voltava a sua atenção a tela de seu computador onde ele estava configurando a sua próxima tentativa. Todas as luzes do galpão estavam apagadas exceto uma pequena luminária posicionada na mesa do computador. Devido a vários experimentos ele estava extremamente próximo de sua descoberta. Só faltavam alguns ajustes neste último modelo. Portanto, levado medo ou entusiasmo Frank fazia seus dedos correrem pelas teclas, dando a impressão de que duas aranhas brigavam sobre seu teclado. Estava sentado em uma cadeira que trouxera de sua casa e suas pernas balançavam freneticamente enquanto ele lia as últimas mudanças na fórmula que escrevera. Quando terminou de escrever se afastou um pouco da tela e revisou as novas alterações. Estava pronto. Com o indicador pressionou Enter.
Em um balcão ao lado de seu computador estava sua sintetizadora que com um grande barulho começou a trabalhar dando tudo de si para ler os novos códigos e iniciar o processo de síntese da nova fórmula. Seus movimentos precisos misturavam com excelência as substâncias certas nas quantidades exatas, mudando de cor a mistura cada vez que se adicionava um elemento novo. Frank se levantou de sua cadeira e foi ficar em pé em frente a máquina massageando suas mãos machucadas. Acompanhou todo o processo se certificando de que tudo estava indo bem como ele queria. Quando o processo terminou ele se adiantou e foi ver como havia saído o resultado. A máquina havia depositado a nova fórmula em um pequeno frasco cilíndrico. Com cuidado pegou o frasco e o segurou com seu polegar e indicador. Mesmo sendo algo pequeno ao pegar no frasco viu que ele estava quente e devido a escuridão do ambiente ele achou que não apresentava cor ao princípio. Porém, assim que seus olhos se acostumaram com o objeto ele viu que o frasco emitia um certo brilho dourado que ia crescendo à medida que ele olhava, lhe trazendo uma breve sensação de conforto e satisfação. Nenhuma das outras tentativas tinha trazido este resultado. Sua intuição com cientista lhe afirmava que desta vez daria certo. Agora não tinha dúvidas disso.
Ao lado do sintetizador havia um adaptador que permitia que o frasco fosse usado como uma seringa. O objeto era bastante delicado e Frank com muito cuidado conectou o frasco no adaptador. A quantidade administrada deveria ser bastante pequena. Quando eram usadas doses maiores os efeitos colaterais eram bastante perturbadores. Feito isso ele foi andando para a parte de trás do galpão. Era lá que ele mantinha suas cobaias. Se bem que nesta reta final restara apenas uma. Esta parte estava parcialmente escura e Frank teve que andar com cuidado para lá. A única luz que naquela parte de trás do galpão era a luz da lua que invadia o local através de uma janela retangular localizada no teto. Quando ele chegou mais perto pôde ver as jaulas de tamanhos diversos vazias e sua cobaia dormindo na jaula número oito. Ficou agradecido por isso, já que assim não teria problemas de administrar a droga e não ganharia mais unhadas e mordidas em seus braços.
Com cuidado se ajoelhou ao lado da jaula e colocou suas mãos dentro dela e inseriu das costas da cobaia oito a injeção. Depois se levantou e se afastou um pouco para ver qual efeito causaria nela. Ela dormia um sono pesado e sua respiração estava bastante lenta e profunda. De repente ela começou a ofegar bastante enquanto seu corpo se contorcia no chão da jaula. Ao abrir a boca soltou grunhidos macabros que Frank nunca ouvira em um animal antes. Estando consciente do que estava lhe acontecendo, ela abriu seus olhos e olhou para seu espectador e o encarou. Quando seus olhares se encontraram todo o resto foi ignorado. Os olhos da vítima se abriam cada vez mais enquanto olhavam para os do seu carrasco. Frank não conseguiu ignorar aquele olhar e pode saber o que sua cobaia estava sentindo. Medo. Pura e simplesmente medo. Só Frank sabia os efeitos fisiológicos que a droga deveria causar, mas naquele momento, com aquela trocar de olhares, ele percebeu que ambos sabiam o que iria acontecer. E então, como se aceitando seu destino, a criatura se acalmou e ergueu sua cabeça para cima e olhou para o céu noturno. Frank acompanhou seu olhar e pode ver a lua brilhante imponente no céu. Até que uma nuvem bloqueou o brilho deixando uma penumbra onde eles estavam. Começara a chover. A cobaia ao ver aquilo fechou seus olhos e de súbito soltou um berro extremamente alto. Era algo completamente amedrontador e selvagem. Como se nesse grito ela tivesse colocado toda sua angustia, medo e raiva. Cobaias passadas passaram por efeitos colaterais similares, mas nada daquela forma. Nenhum tinha sido tão intenso. Frank foi pego de surpresa e imediatamente seu coração foi tomado por medo daquele ser aprisionado. Tentou dizer a si mesmo que seu medo era algo irracional, mas não conseguiu ignorar a força daquele grito.
Durou apenas alguns segundos o grito. Quando acabou nosso cientista ainda estava paralisado de medo olhando para a jaula. Após o grito a cobaia caiu ao chão, como se tivesse perdido suas forças. Frank ainda tremia da cena que testemunhara, mas precisava ser rápido pois só poderia extrair a essência nos poucos segundos após a transformação. Se ajoelhou novamente ao lado da jaula e colocou suas mãos lentamente dentro dela, ainda com medo. Mas a cobaia simplesmente ficou lá parada, com seus olhos abertos olhando para o nada. Com bastante cuidado ele inseriu a seringa novamente no corpo da cobaia e desta vez a usou para extrair uma amostra de sangue dela. Feito isso se levantou, retirou o frasco e se virou para voltar a parte da frente do galpão. Mas antes não pode evitar de olhar para trás e ver sua única companheira atirada sem força e motivação no chão. Não pôde evitar de sentir pena dela. As vezes para se construir algo grande é preciso que se quebre algo antes, ele pensou. Em sua cabeça ele sabia que todas novas descobertas exigiam sacrifícios. Faria este procedimento quantas vezes fossem necessárias para alcançar seu objetivo. Esqueceu dela e voltou a seu trabalho.
O sangue tratado era a parte mais importante da alma. Só com ele Frank conseguiria fazer sua máquina funcionar. A força invisível por que rege a vida de todos os seres vivos estava agora nas mãos de Frank. Ele sintetizara a própria razão da existência. Tudo naquele pequeno frasco. Novamente na parte posterior do galpão ele se dirigiu para uma mesa localizada no lado oposto de onde seu computador e sintetizador estavam. No centro desta mesa estava uma caixa simples de madeira um pouco maior do que suas mãos. Depois de pega-la e abri-la Frank retirou de seu interior uma peça de vidro redonda repleta de furos e cheia de rachaduras. Era bastante pesada e delicada então ele teve muito cuidado Ele pousou a peça no balcão e em seguida começou a retirar as faixas que estavam cobrindo suas mãos, expondo vários machucados longos e profundos em suas palmas. Com suas duas mãos machucadas ele segurou o frasco bem acima da peça e com toda a força, ignorando a dor, quebrou o frasco deixando o vidro penetrar novamente em sua pele e fazendo com que o sangue purificado e o seu penetrassem se tornassem um só.
Ao tocar na superfície, todo o sangue derramado foi sugado para dentro da peça com se ela estivesse se alimentando dele. Após isso as várias rachaduras da peça começaram a se mover dando um aspecto de que ela havia ganhado vida. Estava feito. A alma havia sido construída com sucesso. Agora só faltava unir os dois, corpo e alma. Com suas mãos magras e sangrando ele pegou a alma e a admirou por um instante. Naquele momento ele viu que valera a pena todos os sacrifícios feitos. Ao olhar para aquela pequena peça viu que estava feliz. Finalmente alcançara seu objetivo. Depois de longos anos procurando algo que desse sentido a sua vida ele finalmente encontrara. Daquela noite em diante sua vida tomaria um outro rumo. Como uma mãe que consola seu filho anoite ou como um pai que o protege do perigo ele colocou aquela peça contra seu peito enquanto se virava para ir até o corpo.
A distância de Frank até o corpo deveria ser algo próximo de cinco metros. Ele a cobriria em alguns segundos. Ele estava a alguns segundos de realizar seu sonho. Mas um estrondo forte o tirou de sua excitação. Uma das portas de seu galpão fora arrombada e dela saíra seis homens vestidos com uniformes da polícia liderados por um homem com um casco que lhe cobria o corpo. Todos carregavam armas e agora as apontavam para Frank. O homem com o casaco molhado da chuva se adiantou e começou a gritar:
– DR. FRANK HIGH VOCE ESTÁ PRESO PELAS ACUSSÕES DE – ele não teve a chance de terminar sua frase porque assim que ele disse essas palavras Frank saiu em disparada correndo deles.
Ele estava errado. Frank corria em direção ao corpo. Sabia a razão deles estarem lá. Sabia o que tinha feito e sempre soube que teria que arcar com as consequências. Estava pronto para morrer. Sabia que ia morrer. Só não esperava que o achassem tão cedo. Mas não permitiria que tudo fosse me vão. Colocou a alma ainda mais contra seu peito e usou todas as suas forças remanescentes e correu em direção ao corpo.
Porém os policiais estavam tensos com a situação e o movimento inesperado de Frank chocou um deles fazendo com que ele atirasse no fugitivo instintivamente. O tiro acertou no ombro direito do alvo e o impacto o fez girar e perder seu equilíbrio. Como seu corpo e sua mente estavam no limite, o cientista perdeu a consciência antes mesmo de cair no chão.
Quando acordou abriu os olhos vagarosamente. Eles estavam bastante vermelhos e doíam muito. A primeira coisa que Frank percebeu era o quanto estava fraco. Sentia pontadas de dor vindo de diversos lugares de seu corpo devido ao estrese que em colocara seu corpo a prova. Mesmo assim ele tentou se mover, mas quando fez isso uma tremenda dor em seu ombro o impediu. Foi aí que tudo voltou para ele. As memórias dos últimos dias voltaram instantaneamente. Seu cérebro foi banhado que todas aquelas informações, o que lhe deu forças para se levantar de onde estava. Tinha que saber o que tinha acontecido. Mas ao tentar fazer isso um puxão o trouxe de volta a realidade e quando ele olhou ao seu braço direito viu que ele estava algemado na cama que o colocaram. Só aí viu que não estava em seu galpão mais e sim em um quarto escuro e pequeno. Olhou para seu corpo e soube que estava em um quarto de hospital. Suas roupas velhas e gastas foram substituídas por roupas hospitalares e haviam lhe dado um banho também. Na lateral do quarto havia uma janela de vidro fechada, sem nada tampando sua visão do local de fora. Assim ele pode ver que ainda era noite e continuava chovendo. Era um bom sinal, só perdera algumas horas então.
Agora que sabia onde estava, que sabia que deixara sua obra precisava falar com alguém para saber o que tinha ocorrido nessas horas que ele estivera desmaiado. Tinha que saber se a máquina estava bem. Abriu sua boca para tentar chamar alguém, mas sua garganta estava fraca e só conseguiu emitir um ruído fraco. Estava procurando algum botão para chamar alguma enfermeira ou médico quando a porta do quarto abriu deixando entrar a luz do corredor, e ele pode ver uma enfermeira entrando com alguns panos brancos em seus braços. Ela estava cantarolando alguma música e não percebeu que seu paciente estava acordado. Frank emitiu um fraco olá e ela se virou rapidamente para ele. Quando o viu lá olhando para ela, a enfermeira mostrou um olhar de susto e saiu do quarto às pressas. Ele presumiu que ela fora chamar algum médico para falar com ele, portanto esperou. Passados alguns minutos a impaciência tomou conta dele e começou a chamar alguém para falar com ele. Sua garganta melhorara e já conseguia falar quase que normalmente.
Poucos instantes depois a porta do quarto se abriu novamente, desta vez era um homem que entrava no quarto. Ele se dirigiu ao interruptor e ligou a luz do quarto. Os olhos de Frank acostumados com a escurão do quarto doeram ainda mais e ele usou sua mão esquerda para cobri-los enquanto eles se acostumavam. O homem, sem se importar com o incomodo de Frank, pegou uma cadeira e foi sentar ao lado dele. Só quando ele se acomodou Frank viu que trazia uma pasta de couro consigo, a qual abria calmamente. Frank em toda sua ansiedade foi logo dizendo:
— Onde está meu protótipo? O que vocês fizeram com ele? – Quando não recebeu uma resposta insistiu – você me ouviu? Sei quem você é, estava no grupo de policiais que invadiram meu galpão. Então você sabe o que aconteceu com ele, não é?
O homem, se ouviu as perguntas de Frank não deu importância para elas. Ainda estava sentado no seu assento com a mesma calma que entrara, arruando alguns papéis em seu colo. Ao ver que estava sendo totalmente ignorado Frank explodiu em raiva. Em sua frente estava um dos responsáveis pelo atraso de seu projeto. Por estar baleado, em uma cama de hospital. Longe de seu projeto. Com toda sua fúria gritou:
— RESPONDA!
Porém o único efeito que seu grito causou foi uma crise de tosses em si próprio. Sua garganta que já estava debilitada agora doía como se estivesse sendo queimada. Quando conseguiu se controlar viu que o homem agora o encarava.
Quando o galpão fora arrombado a luminosidade estava fraca e Frank só dirigira sua atenção para os policiais por cerca de três segundos antes de fugir. Portanto, era a primeira vez que olhava diretamente para o homem que liderava seus captores horas atrás.
Seu rosto era magro e sério. Frank presumiu que possuía apenas alguns anos a mais que ele, talvez tivesse por volta de cinquenta. Tinha rugas ao redor dos olhos e de sua boca. Seu cabelo era preto com alguns fios grisalhos e não tinha barba. Olhar para o policial abafou toda a raiva repentina que Frank estava sentindo. Ele percebeu que gritar daquela forma não o ajudaria. A expressão do homem era vazia. Não expressava raiva, ansiedade, frustação ou qualquer outro sentimento que o cientista estava sentindo. Na verdade, não expressava nada. Não entregava nada. Isso se devia principalmente a seu olhar. Seus olhos, negros assim como os de Frank, passavam a impressão de anos de experiência. Que seu brilho fora perdido por que já presenciaram todo tipo de tragédia. Eles haviam testemunhado tudo que a humanidade tem de pior. Aqueles olhos não podiam mais ser surpreendidos. Frank sabia de seus crimes e esperaria qualquer tipo de reação das pessoas quando fosse descoberto. Mas aquela indiferença do policial o desarmou completamente. Ele soube que ele não tinha poder de discussão contra aquele homem.
Após ver seu prisioneiro se acalmar o policial disse:
— Boa noite Dr. High, eu sou o detetive Rocha e gostaria de lhe fazer algumas perguntas. Estive acompanhando o seu caso desde o começo e sim, estive no seu galpão no momento de sua prisão. Você acha que está disposto fisicamente para responder minhas perguntas? Se não eu posso voltar em outra hora.
Com certeza Frank não estava disposto, mas queria suas respostas. Precisava delas. Com calma e quase rouco respondeu:
— Estou sim apto a responder suas perguntas detetive. Só peço que você também responda as minhas.
— Claro Dr., como quiser. Pois bem, nos últimos 9 meses sete jovens, entre as idades de 18 e 22 anos, foram sequestrados, torturados e assassinados – ele estendeu a Frank fotos dos jovens em questão – Seus corpos foram encontrados da mesma forma. Nus, desnutridos e com graves feridas em suas costas. Todos eles eram estudantes que frequentavam a universidade em que o senhor lecionava. A última desaparecida, a estudante Juliana Montes de 21 anos, que desapareceu a quatro semanas foi encontrada em choque no seu galpão com as mesmas características dos outros sete jovens. Você também foi responsável pelos acontecimentos com estes outros jovens?
— Sim detetive, todos eles – Frank disse isso devolvendo as fotos ao detetive – Nunca foi parte de meus planos tentar esconder isso. Sempre soube que minhas ações seriam questionáveis e pretendia me entregar as autoridades para ser julgado.
— Se você sempre teve a intenção de se entregar, porque esconder seus rastos?
— Eu pretendia me entregar sim, mas apenas quando meu projeto estivesse terminado. Até esse ponto não poderia ser atrapalhado. Apenas devolvi os corpos para que os familiares pudessem tratar deles da forma que preferissem.
— Qual foi o seu propósito em sequestrar e assassinar estes sete jovens? E você pretendia assassinar a jovem Juliana também?
— Qualquer pesquisa cientifica não é relevante se não poder ser aplicada no mundo real. Se não poder ser provada. A pesquisa que eu estava realizando era algo nunca antes visto na história da ciência. Posso ser um doutor, mas por se tratar de algo completamente novo tive que cometer vários erros até conseguir resultados reais. Nunca esteve em meus planos causar a morte destes jovens, mas eles foram os erros que tive que cometer para chegar no caminho que queria. A oitava jovem foi o último passo que tive que percorrer para conseguir o que queria. Entende?
O detetive ouvira a confissão de Frank com bastante atenção. Ele viu que o homem em sua frente não estava mentindo. Que ele acreditava fielmente em suas palavras e em seus atos. Não pode deixar de sentir pena dos oito jovens que ficaram à mercê do maníaco a sua frente. Deu uma última olhada nas fotos dos jovens as colocou novamente em sua pasta. Ele sempre levaria em sua consciência estas mortes.
— Não. Você é apenas mais um assassino que buscou razões distorcidas em sua mente para justificar as atrocidades que você estava fazendo. Ouvi o que precisava de você – após dito isso ele se levantou e foi em direção a porta
— Você ainda não respondeu minhas perguntas detetive – Frank disse quando ele ia alcançar a maçaneta da porta – Eu preciso saber o que aconteceu mais cedo quando fui preso.
O detetive se virou e com o mesmo olhar de antes disse:
— Você não foi preso esta noite e sim a três dias. Os médicos disseram que havia no mínimo dois dias que você não dormia e que fazia semanas que não se alimentava direito. E além da ferida da bala seus braços estavam cobertos de feridas profundas e suas mãos estavam totalmente rasgadas.
Três dias? Frank recebeu essa notícia como mais uma ferida em seu corpo. A alma era muito sensível e volátil. Ela só ficaria estável dentro do corpo. Ele precisava barganhar uma forma de voltar para seu galpão o mais rápido possível.
— Tudo bem – ele disse – Eu só preciso voltar para meu galpão e finalizar a construção – essa parte ele disse mais para ele do que para o detetive. Mas em seguida olhou para ele e continuou – Eu faço o que vocês quiserem. Falo o que me mandarem no tribunal. Eu só peço que me deixem voltar ao meu galpão. Quando eu terminar vocês verão por que fui tão longe. Por que fiz o que fiz.
— Doutor, eu sinto muito, mas isso não ser – o detetive começou.
— POR FAVOR! – ele berrou, suplicando ao homem em sua frente com lágrimas no rosto. Mesmo com suas mãos machucadas agarrou seu lençol e abaixou sua cabeça em forma de suplica. As lágrimas caiam em sua cama – eu só peço isso. Sei que não tenho o direito. Sei que vou morrer pelo que fiz. Sei que você não sente nada além de ódio e aversão por mim, mas por favor. Eu lhe imploro. Eu só preciso –
— Seu galpão pegou fogo – neste instante Frank se calou imediatamente e ficou estático – na noite em que você foi preso algo deu errado com suas máquinas e um incêndio aconteceu. Mal tivemos tempo de tirar você e a juliana de dentro. Tudo foi destruído no incêndio. Os peritos acham que algum líquido inflamável saiu de um recipiente de vidro e entrou em contato com seus equipamentos e causou o fogo. Provavelmente era o que estava dentro daquilo que você carregava em seu peito quando chegamos – o detetive virou e abriu a porta para sair, mas antes ele disse por último – O que quer que seja que você estava sonhando em construir, nunca vai existir – e saiu.
Este dia no hospital foi o último em que alguém conseguiu se comunicar com Frank. Depois deste dia ele não proferiu mais nenhuma palavra, mesmo estando sozinho. Ele também se mostrou totalmente sem motivação. Quando não estava dormindo ou comendo ele simplesmente ficava deitado em sua cama. A estudante que foi resgatada apresentou sintomas extremamente semelhantes. Mas seu caso era mais grave pois ela precisava de auxílio para se alimentar e também para realizar suas necessidades básicas. Todas as tentativas de comunicação com ela falharam também. Diferentes especialistas foram chamados, mas nenhum conseguiu fazer algo para sua situação. A única conclusão que eles chegaram foi que o que quer que ela tenha sofrido em seu cativeiro fez com que ela perdesse a consciência. Roubada seria uma palavra mais apropriada. Frank roubara a consciência de juliana e teve a sua roubada pelo incêndio.
Um mês após ser libertada, juliana foi encontrada morta em sua cama. Não havia nada de errado com sua saúde física e não foi possível determinar a causa de sua morte. Foi como se todas as suas células parassem de funcionar ao mesmo tempo. Frank foi julgado por seus crimes e levou a sentença de morte pelo que fez com os oito jovens.
Hoje, três anos após aquela noite chuvosa Frank ainda está deitado em silencio na sua cama. Amanhã é o dia se sua execução, onde ele pagará por seus crimes.
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