Promessas
7 Somos todos arte
Notas iniciais
(Foxy)
“Todos aqui?” Marionette perguntou “Somente Mangle e Chica estão lá em baixo por não terem escolha?”.
“Sim, e aí?” Freddy resmungou “O gato assustado já foi embora e Douglas e a Asiática maluca estão dormindo.
“Bom, então como vocês irão passar a noite? Irão se desligar?” Golden Freddy perguntou.
“Eu não quero me desligar! Não nos deram opção nenhuma para passar a noite!. Só disseram que temos que ficar aqui!” Toy Bonnie reclamou “Não quero ficar aqui olhando a parede!”
“Não nos obrigaram a ficar aqui. Só disseram que era melhor” Bonnie se levantou e começou a descer a escada “É só não fazer barulho. Se nos deram liberdade, o mínimo que devemos dar em troca é respeito”.
Todos se entreolharam, esperando alguém tomar uma atitude contra ou a favor. Como ninguém se opôs a nada, pouco a pouco fomos nos espalhando. Bonnie foi conversar com a Chica, que nesse momento não passava de uma bola de futebol com bico. Eu poderia aproveitar para conversar com Mangle, mas havia algo chamando minha atenção naquela grande janela.
Como já estava me sentindo bem melhor, corri para ver o mundo lá fora. Não havia iluminação alguma, então parecia um grande borrão preto. Dava para identificar o bosque ao fundo e ver um pouco do mato lá em baixo. Havia umas esculturas estranhas espalhadas, umas barras que normalmente saltam com cavalos. Haveria cavalos ali?
Curioso, tornei a forçar minha visão para tentar identificar mais alguma coisa. Vi um guaxinim correndo, mas sumiu tão rápido que nem sei se era realmente aquele roedor ladrão.
Mas um sorriso brotou em meu rosto quando eu comecei a identificar diversos vagalumes.
“Foxy!” Toy Chica me chamou “O que tanto te fascina aí?”
“Olha aquilo cara! Olhe todo esse espaço! OLHA!”
Toy Chica deu uma risadinha, pondo a mão sobre o bico, tentando segurar uma gargalhada.
“O que houve?” Perguntei.
“Olha seu rabo”.
Olhei para trás e notei que meu sistema não acompanhava minha felicidade, então minha cauda parecia estar tendo um avc. Envergonhado, segurei meu rabo tentando deixá-lo quieto antes que alguém viesse arruinar minha noite.
A galinha não conteve os risos por muito tempo, talvez minha feição envergonhada tenha dificultado as coisas. Fiquei com medo de acabar acordando Douglas ou Juliet. Silêncio era fundamental.
“Você vai ver a Mangle?”
“Sim, só quis matar minha curiosidade antes. Acha que vão dar um jeito nela?”
“Bom, depois de ver essa fantasia toda em forma de maquinas, creio que sim. Posso ir com você?”
“Ora, vá! Ela ficará feliz!”.
Descemos as escadas evitando fazer ruído e entramos na sala dos robôs, onde Bonnie conversava com as duas. Mangle agora não passava de um esqueleto de torax e cabeça, seus braços e pernas estavam dentro de uma caixa, provavelmente para serem jogados fora.
“Mandy!” Eu sorri ao dizer.
“Oi!” Ela ergueu a cabeça e abanou as orelhas animada “Veio me ver toda desmontada?”
“Não, vim ver se estava tudo bem! Eu quase tive um troço ao te ver sendo desmontada de novo!” Esfreguei a ponta do meu focinho no dela “Não era só a Chica que ia ficar sem poder se locomover?”
“Bom, era. Mas o meu caso vai ser mais rápido. Eles possuem os braços flexíveis, mas as pernas ainda vão ter que encomendar” Ela olha para o próprio corpo “Daqui a 2 meses eu vou estar correndo!”.
“Dois meses é exagero menina!” Chica disse indignada “Um mês! Passa rapidinho!”
“É, amiga! Mas eles farão algo além de melhorar sua locomoção?”
“Claro, vão trocar minha caixa de voz para eu poder falar alto de novo. Vão me pintar novamente, me dar um corpo mais moderno e flexível para que eu me sinta mais a vontade! E isso vale para a Chica também!”
“Corpo moderno? Falaram nada disso não... Só vão colocar minha cabeça no lugar e tirar a ferrugem do meu corpo”.
“Acho que fica um pouco fora do orçamento trocar o corpo das duas por completo” Toy Chica disse preocupada “Mas se conseguirem fazer as duas voltarem a andar direito, já vai ser uma grande conquista!”.
“A ansiedade está me matando!” Chica ri “Ah, será que vão deixar eu sair daqui enquanto não tem nada pronto?”
“Como assim menina?” Bonnie pergunta confuso.
“Você poderia carregar minha cabeça por aí! Não seremos liberados para ir lá fora amanhã?”
“Isso vai ser muito estranho, mas pode ser uma boa” Eu respondi “Veremos o que irão decidir”.
...
(Douglas)
Acordei como o esperado. Meu corpo não fora esquartejado e não estava dentro de um boneco qualquer. Juliet ainda dormia como um anjo ao meu lado(acordada continua um capeta) e preferi não incomodar. Iria deixar a mesa do café pronta, e aproveitar para ver o que aqueles animatronics aprontaram durante meu sono.
Me encostei no parapeito e vi Toy Bonnie deitado no chão olhando para o teto, logo tornando a atenção para mim.
“Bom dia!” Eu disse “Porque não ficou deitado lá no cafofo?”
“Perdi a vontade. Ficar entre 3 Freddies de vez enquanto é insuportável”.
“EU OUVI ISSO!” Freddy berrou.
“É PARA VOCÊ OUVIR MESMO, BARRIGA DE NÓS TODOS!”
“SHHH! Juliet ainda está dormindo! Vou tomar café e vou abrir a porta para vocês saírem!”
“SAIR?” Aquela raposa com distúrbio mental saiu de debaixo do sofá cama, me dando um belo susto.
“FILHO DA ÉGUA! NÃO FAZ ISSO!” Eu gritei, o que fez Juliet levantar a cabeça para ver o que estava acontecendo.
“Hehe, foi mal marujo! Não queria interromper seu ninho de amor não! Só estava me escondendo do Bonnie!”
“Ninho de que? Não,não! Só é meio perturbador você surgir de repente que nem o Mestre dos magos!”.
“Hehe!” Ele ri novamente. No mínimo querendo me irritar.
“O que está acontecendo aqui...” Juliet estava com seu cabelo todo para cima e a cara inchada de sono.
“Nada não, pode voltar a dormir. Vou fazer café”.
Ela taca a cara no travisseiro e volta a dormir.
“Então Foxy, deixa eu só tomar café e trocar de roupa que eu abro a porta para vocês desbravarem o lado de fora, tudo bem?”
Ele faz um choro de cachorro.
“Não adianta fazer isso comigo. Vai lá avisar para o pessoal”.
Fui até a micro cozinha fazer algo. É alguns passos ao lado do sofá cama e o que divide é uma bancada. Tem uma pia, uma geladeira, um fogão, 3 armários e uma mesa pequena encostada na parede onde podemos comer. Tudo o que uma cozinha necessita. Há uma janela redonda logo em cima, onde dá para ver a rua e a paisagem enquanto comemos. Sempre achei isso coisa de fofoqueiro, mas como não há ninguém em volta, não preciso me preocupar.
...
Depois de tudo arrumado, fui sacudir Juliet. Ela é daquelas que mesmo se o mundo explodir, ela continua dormindo.
“Vamos Julie! ACORDA!” Gritei e sacudi os ombros dela, recebendo um tapa e um chute quase em minhas particularidades.
“DELICADEZA É MUITO BOM!”
“E VOCÊ QUE É MAIS DELICADA QUE COICE DE MULA? Vem, vamos tomar café. Os convidados vão explodir de ansiedade!”
Nos sentamos a mesa, logo conversamos como pessoas normais.
“Porque não os soltou?”
“Queria que você visse junto, afinal, é uma bela recompensa”.
“Falando nisso...” Ela toma um gole do café “O que eles estão fazendo?”
“Freddy ainda está largado no sofá. Mangle e Chica provavelmente ainda estão na sala, Toy Bonnie foi deitar na rede e provavelmente Toy Freddy deve estar com ele, Foxy está se escondendo de Bonnie...”
“Balloon Boy?”
Eu estico o pescoço e vejo ele mexendo em algumas caixas minhas.
“Metendo o focinho onde não deve. Vai acabar derrubando algo e bagunçando tudo. B.B. SAI DAÍ!”
Ele me olha sorrindo e sai correndo rindo.
“Ótimo, agora cadê Toy Chica?”
“Acho que conversando com as meninas. Não a vejo daqui de cima” Tomei um gole de leite ao terminar de falar.
“Olha, o mais importante... Cadê o Marionette e o Golden?”
“Boa pergunta...” Me levantei e fui até o parapeito “AÍ! ONDE ESTÁ O MARIONETTE E O GOLDEN?”
Freddy se sentou e olhou para os lados. Logo puxou um dos cobertores e viu Golden em baixo.
“Um tá morto. O outro está dando uma de Homem-aranha ali no telhado”. O urso se largou no sofá novamente.
Juliet levantou a sombrancelha e terminou de tomar o café. “Vamos abrir logo essa porta antes que alguém quebre alguma coisa...”.
...
Assim que terminei de descer as escadas, todos os animatronics começaram a nos cercar. Senti um calafrio correr a minha espinha, pois pensei na possíbilidade do meu quintal não satisfazer toda aquele sonho que tinham.
Destranquei os dois cadeados da porta dupla e as empurrei para fora, deixando uma brisa fresca entrar, junto com a forte luz do sol.
“Todo de vocês. Divirtam-se!” Eu disse rindo.
Foxy foi o primeiro a sair. Ao pisar na grama, suas orelhas abanaram e seu rabo começou a abanar como um filhote feliz.
“Hah...Haha...HAHA!” Ele saiu correndo como uma criança para o meio do campo e acaba tropeçando, indo de peito na grama. Mas nada lhe danificou, continuou rolando sobre a terra e o mato como um cão travesso.
Todos ficaram quietos. Esperando que outro tomasse coragem de ir.
“Não sei vocês... Mas eu vou...” Freddy foi o segundo a sair.
Toy Chica atropelou o urso e se atirou no chão como Foxy, logo os dois começaram a brincar jogando poeira e apostando corrida. O urso se recuou de novo.
“Ah vamos, amigo?” Toy Freddy puxou Toy Bonnie.
“Bora! Estamos aqui para isso, não?”
“ENTÃO VAMOS!” Toy Freddy pega o amigo no colo e o trás por cima da cabeça. O coelho parecia um super herói voando(só faltava ser arremessado).
“ESPEREM POR MIM!” Balloon boy foi correndo com aquelas pequenas e magras pernas, logo tropeçando e rolando pela grama, fazendo o urso tropeçar e cair junto com o coelho.
“Uh, Douglas” Bonnie cutucou meu ombro.
“Diga, você não vai?”
“Gostaria de perguntar se eu posso levar a cabeça da Chica para dar uma volta...Não vão mexer na cabeça dela agora”.
Eu olhei para Juliet, mas ela deu de ombros. Tanto faz.
“Pode sim, será bom para ela. Foxy também pode levar Mangle, no caso dele eu vou ter que dar um jeito”.
Chamei a raposa para dentro e fomos os três para a sala dos robôs. Minha ideia era amarrar o corpo da Mangle ao Foxy para ela dar uma volta enquanto Juliet não volta com as peças. No caso da Chica, era só o Bonnie não deixá-la cair.
Peguei quatro cintas catraca: Duas para amarrar por baixo e sustentar pelos ombros do pirata e as outras para prender ao torax. Como ela estava sem pernas e sem braços, não tive que me preocupar com o risco do estabanado tropeçar neles.
“Bom, acho que está bem firme! Mostrem o lado de fora para elas!”
Mais uma vez o pirata saiu correndo feito um trem descarrilhado.
...
(Mangle)
Sentir o sol bater sobre a superfície gélida do metal era uma sensação maravilhosa. Aquele ar puro e os odores diversos me faziam esquecer pouco a pouco a vida dentro de um cômodo frio por causa do ar condicionado. Foxy quase virava de ponta a cabeça na grama, eu tinha que berrar para que ele não me esmagasse. Mas sempre acabava rindo. Ele estava doido para arriscar correr em quatro patas, mas o gancho não deixava. Tinha que continuar um mínimo humano.
Juliet chutou uma bola de futebol para nós brincarmos, criando uma verdadeira farra. Como ninguém sabia jogar e os corpos não permitiam muita coisa, caíamos muito na grama. Cada hora eu tomava um susto achando que Foxy iria cair em cima de mim.
Bonnie corria de um lado a outro com a cabeça da Chica, jogando por ela. A galinha estava tão confiante, nem notou que estava jogando futebol sem ao menos ter gol. Era só jogar a bola longe e todo mundo sair correndo atrás.
Quando o coelho chutou a bola, ela foi parar no meio do bosque.
“PO! BONNIE!” Toy Bonnie disse irritado.
“Deixa que eu vou lá! Vou mais rápido!” Foxy saiu correndo.
Entramos no bosque a toda velocidade. O pirata jogava folhas secas para cima o correr, deixava os galhos mais finos acertarem meu rosto para que eu me sujasse toda, e sempre que tinha um montinho de folhas, ele se jogava em cima.
“PARA-a-A COM I-ISSO!” Berrei.
“Chata!”
“Chata não! Estou com folha até dentro dos olhos! Terra nem se diz!”
“Meh, frouxa!”.
“FROUXA?” Eu mordi sua orelha com força.
“AH! PARE!” Ele se joga em outro montinho de folhas.
“FOXY! VAMOS ACHAR LOGO ESSA BOLA!”.
“Acho que já passamos dela...” Foxy se levanta e olha para os lados “Ah! Olha ela ali!”
“NÃO PEGA COM A MÃO SE NÃO VOCÊ ESTOURA!”
“CALMA! NEM ENCOSTEI NELA!”
“Dá um chutão!”
O pirata chuta a bola para fora do bosque, logo ouço Bonnie gritando. “VOLTOU!”
Mas havia um som familiar ao fundo, Parecia água!
“Será que há alguma cachoeira aqui?” Perguntei curiosa.
“Quer ir atrás?”
“Estamos livres, não estamos?” Respondi rindo.
O pirata começou a seguir o som da água corrente, indo cada vez mais fundo no bosque. Descobrimos um riacho de água cristalina, coberto por pedras e folhas caídas das árvores. Era tão lindo, mas jamais poderíamos entrar. Só se quisessemos morrer.
Seguimos caminhando pela beira até o som de queda d’água tornar-se mais alto, queria tanto sentir aquela terra úmida sobre meus pés, Foxy parecia tão feliz e radiante vendo um mundo tão aberto a nossa volta. Aquele sítio realmente era grande. No fim, nos deparamos com a beira de um morro, quase alto o suficiente para ser um penhasco. Havia uma árvore grande com a copa bem larga, afastada de todas as outras, sendo a mais próxima da beira do morro. Daria para nos sentarmos ali e ficar observando o céu e a paisagem.
“Que lindo...” Eu disse sorrindo “O que há lá em baixo?”.
Ele se aproximou devagar e se inclinou para olhar.
“Tem uma grande lagoa, mas se pular daqui, vai acabar batendo nas pedras” A raposa se afastou e se sentou próximo da árvore, logo me soltando de suas costas, me deixando encostada ao seu lado. “Dá para acreditar nisso?”.
“Nisso o que?”.
“Que estamos aqui. Olha esse lugar! Olha... Olhe para nós! Não me lembro da última vez que eu vi tanta luz ao mesmo tempo”.
“É... Imagine como é a noite aqui?”
“Deve ser a coisa mais mágica do mundo... Eu preciso voltar aqui de noite!”.
“Me leva junto?”.
“Como não? Claro que eu te levo!” Foxy respondeu rindo “Será que estão sentindo nossa falta?”
“Com certeza... Me ponha em suas costas de novo. Vamos voltar antes que venham nos procurar!”.
Voltamos seguindo o riacho, depois Foxy se guiou pelos montes de folhas em que ele se jogou. Ao chegarmos no campo, Erick estava entrando no Atelier correndo, gritando o nome de Douglas e Juliet.
“Será que aconteceu alguma coisa?” Perguntei assustada.
“Vamos descobrir. Aquela cara não era de animação”.
Entramos no atelier, o gato assustado estava com um jornal na mão e iria ler uma notícia perturbadora para todos nós:
“Na madrugada da última quinta-feira, a pizzaria Fazbear foi assaltada de forma misteriosa. Somente os animatrônicos foram roubados e nenhum dinheiro fora roubado do caixa ou do cofre. Houve apenas um ferido, o segurança Jeremy Fitzgerald, que de acordo com a perícia, ele fora agredido com um tablet.
A polícia revelou situações estranhas em relação ao assalto, como por exemplo a pegada de todos os bonecos, indicando que eles provavelmente se locomoveram sozinhos, como mostra a imagem.7.
Não houveram gravações, pois alguém danificou todas as câmeras. Agora o que preocupa os cidadãos é a possíbilidade desses bonecos terem se soltado sozinhos e estarem vagando pela cidade como assombrações.
Seria esse o início de uma lenda urbana? Ou apenas o começo do maior assalto inexplicável deste ano?”.
“Meleca...” Douglas disse.
“Estamos fudidos. FUDIDOS! SEU PAI ESTÁ METIDO NESSA, NÃO ESTÁ DOUGLAS?” Erick disse desesperado.
“Eu já vou tirar o meu pé da reta. Vou ligar para ele e perguntar se descobriram alguma coisa. Enquanto eu parecer que estou preocupado, ele não virá atrás de mim” Douglas pegou o celular no bolso e subiu as escadas “Vão lá para fora, é melhor não ter nenhum ruído estranho no fundo”.
Quando pensei que o paraíso estava batendo a nossa porta, um grande abismo se abriu por trás. Erick olhou para cada um de nós e disse com um baixo tom de voz:
“Todos vocês vão ficar bem. Ninguém irá voltar para aquele inferno. Vou ligar para Juliet e pedir para que ela fique o mais natural possível na hora de comprar as peças”.
“Mal pisamos no chão e já torcemos o tornozelo” Toy Bonnie suspira.
“Talvez não, se respeitarmos as regras do Douglas, poderemos ficar mais tempo aqui” Bonnie tentou acalmá-lo.
“ERICK!” Douglas gritou “Você não vai conseguir tirar o Protheus sozinho! Me espera!”
“O que é um Protheus?” Chica perguntou.
“Meu cavalo, ou melhor, meu robô. Quando Douglas terminar de convencer o pai, mostro ele a vocês”.
...
(Juliet)
Ir ao shopping de informática é que nem ir ao mercado de peixe. Um cheiro podre queima as narinas e o tumulto lhe arranca o braço. Tem vezes que o ar condicionado não dá vazão. Ainda bem que os estandes que eu gosto de ir ficam numa área menos tumultuada do shopping por causa dos altos preços(Isso não quer dizer que lá não haja uma boa pechincha).
Ao chegar no estande, mostrei a lista ao vendedor. Sua cara de surpreso me rendeu boas risadas. Ele até sentiu curiosidade em saber qual era meu projeto com tantas peças para androides. Tentei ser o mais discreta possível, inventando um motivo que pudesse convencê-lo.
“Estamos tentando montar um lutador antropomórfico e consertar outras quinquilharias que podem ser aproveitadas lá no atelier”.
“Antropomórfico? Isso me lembrou daqueles bonecos que fugiram ontem, você soube?”
Senti como se um arpão tivesse atravessado minha cabeça. K.O. motherfucker.
“Oh! Soube não! Eles saíram andando, Diogo?” Tentei parar de sorrir de nervoso, mas parecia que eu tinha inalado grandes quantidades de óxido nitroso(gás do riso).
“Pelo o que parece sim, Juliet! Você que gosta desse tipo de coisa, deveria dar uma olhada no jornal de hoje! Os políciais estão até reabrindo o caso das crianças desaparecidas em 1987! Acredita nisso?”
“É...Não acredito não. Quero dizer! Nossa! Isso é foda! Imagine esses robôs andando por aí! Será que irão atacar alguém?”
“Muito provável que sim. Talvez estejam em algum beco por aí. Olha, eu que não ando de madrugada mais!” Ele pôe uma caixa em cima do balcão “Já temos torax aqui! Quer levar agora?”
“Incolor? SÉRIO?”
“Sim senhora! Faça sua arte a vontade! De material de ponta viu?”
“Preço de ponta também?”
“Para a cliente que faz a melhor propaganda daqui, deixo a peça por 500 mangos, que tal?”.
“Uau, ainda é bem cara”.
“Era 2500”.
“To levando!”.
Diogo ri e prepara uma sacola com as outras peças.
“Ainda bem que eu ganhei o último torneio, se não não daria para parar tudo. No fim deu quase 1500, não?”
“Exatamente!”
Entreguei o dinheiro e agradeci, só faltava passar na mecânica e pegar o resto das peças da Chica.
Meu celular começou a vibrar e com esforço o retirei do bolso. Tanta bolsa.
“Fala, Erick”.
“ AJA NATURALMENTE!!”
“PORRA! NÃO GRITA NO MEU OUVIDO! O QUE FOI?”
“VIU O JORNAL?”
“Soube pelo cara do estande, não se preocupe. Está tudo bem. Vou comprar as peças que você me pediu lá na mecânica e to voltando, ok? Já tirou as peças que estavam de molho?”
“To tirando agora”.
“Estão boas?”
“Sim, grande parte teve solução. Volta logo. Douglas já terminou de falar com o pai dele”.
...
(Erick)
“As rodas estão bem presas?” Douglas perguntou.
“Estão, abre a porta que eu vou puxando, os freios estão firmes!” Eu respondi animado, pondo o capacete de equitação na cabeça.
Douglas retira as caixas e quinquilharias da parede, mostrando uma porta dupla que levava ao lado de fora. Ele vira o trinco enferrujado e destranca a porta, permitindo nossa saída.
Protheus foi a minha melhor criação! Sempre gostei de cavalos desde pequeno, e ao conhecer Douglas, ganhei uma rota para minha vida! Um destino fixo, muito claro e diferenciado dos demais. Criar algo que dê felicidade as pessoas, quero levar magia a todas elas, quero mostrar como é possível sonhar!
Mas... Tudo isso possui um preço. O meu foi quase perder a perna quando esse cavalo explodiu. Agora era a hora de testá-lo novamente.
Assim que dei distância do atelier, ficando no meio do campo. Comecei a retirar as rodinhas das patas do robô. Não era bom deixar os freios soltos na hora de puxá-lo, pois haveria o risco dele cair no chão. E esse bicho é bem pesado.
“Aí, a plateia está grande!” Douglas diz rindo.
“Ai, já vi que querem me ver no chão... Mas eu não vou montar agora! Vamos testá-lo sozinho!”
“Vá em frente, Brony maldito”.
Estavamos próximos a um toco de concreto, onde eu amarrava uma corda e prendia no focinho do robô para não deixá-lo correr para longe. Primeiro em círculos, depois livre.
Depois de tudo pronto, soltei o freio do animal e peguei o controle remoto(Um controle de XBOX 360) e o liguei.
Ele relinchou e bufou, começando a esquentar o corpo e liberando o exesso de pressão pelas narinas alguns vãos nas laterais. Apertei mais um botão, fiz Protheus marchar. Movimentos leves, sem rigidez nas patas. O óleo deu certo.
Comecei a fazê-lo andar ao passo, bem lento. Douglas sorria mais do que eu. Adoro vê-lo sorrir.
Ao sentir que tudo estava ocorrendo bem, aumentei a velocidade, fazendo-o soltar mais vapor pelas narinas. Era um sistema muito sensível, qualquer coisa o faz sobreaquecer. Estava ficando extremamente nervoso, mas estava tudo correndo tão bem.
“VAMOS ERICK!” Toy Chica gritou.
“Vamos rapaz, todo mundo está ansioso para vê-lo dando o máximo de si”.
Aumentei a potência, já estava quente o suficiente. Trote.
Sua estrutura metálica sacudia emitindo fracos ruídos, o que indicava que tudo ainda estava preso no local. A poeira começou a levantar, o chão começou a tremer. Estava quase galopando!
“DOUGLAS...”
“GRITA ERICK!”
“ELE ESTÁ CORRENDO! ELE ESTÁ CORRENDO PORRA!”
Aumentei ainda mais a velocidade, o galope viera com toda a graciosidade que um mangalarga poderia fornecer. Estava correndo, estava funcionando!
“ELE TÁ CORRENDO!” Gritei aos céus e comecei a pular feito uma criança. Até que a corda do cavalo arrebentou. “FUDEU!”
Ele saiu em disparada. Fiquei com medo do controle não acompanhar a distância e fiz uma curva muito fechada, quase que ele tomba. Joguei grama e cascalhos para cima, trazendo aquele rinoceronte para minha direção.
Nunca havia deixado Protheus correr solto naquela velocidade, estava entrando em choque.
“CARA! EU TO VENDO AQUILO?” Freddy esfregou os olhos ao falar.
“SIM, AQUILO É UM CAVALO! E dois rapazes desesperados tentando fazê-lo parar” Chica finalizou.
“AJUDA ELES FOXY!” Mangle berrou.
“QUER QUE EU ME TAQUE NA FRENTE?”
“FREIA ELE, ERICK!” Douglas gritou.
“NÃO! DEIXE-O CORRER! ELE ESTÁ CORRENDO!”
“ENTÃO FAÇA-O PARAR DE NOS SEGUIR PARECENDO UM TREM DESGOVERNADO!”
Nós saltamos cada um para um lado e Protheus passou no meio. Pressionei o botão de trote novamente e fiz ele liberar o máximo de pressão possível de seu corpo, esfriando-o. Do trote veio ao passo, logo parou.
Eu e Douglas continuamos no chão tentando respirar.
O que nos animou foram as palmas dos onze animatronics. Só assim para ver que nossa apresentação não fora uma merda.
“Que merda foi essa?” Juliet disse contornando o Atelier com sua moto, deixando-a estacionada de baixo de uma árvore.
“FOI SHOW DE BOLA!” Balloon Boy gritou “ELE SAIU CORRENDO COM AQUELE PANGARÉ E O POCOTÓ CORREU ATRÁS DELES E...”
“Shhh. Não to entendendo uma vírgula do que você está falando, mas acho que captei a mensagem” Ela veio andando até nós “VOCÊ RESOLVEU TESTAR O WIRELESS DESSE CONTROLE COM O CAVALO A MIL POR HORA?”
“Sim...” Eu disse me levantando do chão.
“E funcionou?” Julie cruzou os braços.
“Não...”
“Imaginei. Típico” Ela vira os olhos “As peças estão no compartimento da moto e consegui o torax e a cintura da Mangle”.
“SÉRIO?” Douglas se levantou animado.
“Sério, se focarmos só nela, dá para terminá-la hoje ou amanhã de manhã. Nunca imaginei que seria tão fácil. Daí podemos focar os três na Chica e voltar aos nossos robôs. Pelo visto, Protheus precisa de muito mais controle”.
“É... Probleminhas técnicos... Hehe” Eu respondi sem graça, retirando a terra dos meus braços.
Ao receber a notícia de que seria terminada ainda hoje deixou Mangle mais animada do que criança na disney. Acho meio difícil ocorrer tamanho milagre, mas poderíamos tentar, não?
...
DÁ VONTADE DE ARREBENTAR A CARA DAQUELA FILHA DA PUTA! QUANDO ELA DISSE QUE TALVEZ PODERIA TERMINAR ATÉ AMANHÃ DE MANHÃ, NÃO SABIA QUE ENVOLVERIA EU DORMIR LÁ! JAPONESA DESGRAÇADA, COMEDORA DE ARROZ, KUNG FU PANDA...
ERA 12:40 QUANDO EU TOMBEI COM PROTHEUS, E ESSA CHING LING ME BOTOU PARA TRABALHAR ATÉ AS 23:00! ARGH!
Aqui é assim, um engana o outro por benefício próprio. Coisa de amigo. Paz e amor até ligar o videogame.
De 23:00 às 2:00 ela fez o acabamento na cor. Diz ela que iria ficar magnífico! Uma obra prima!
Eu não faço ideia de como isso irá acabar.
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