Promessa

1 Capitulo Único.


O ginásio estava lotado, e as pessoas eufóricas esperando à sua chegada. Eu apenas rezava silenciosamente para que ele demorasse um pouco mais. Entretanto, poucos minutos depois ele chegou. Parecia um pouco tímido, o que não era comum pra ele. Notei que ele estava com a barba por fazer, isso o deixava com a aparência um pouco mais velha.

Anos atrás aquela barba estaria roçando na minha pele. No meu pescoço. Na minha boca.

Lentamente ele passou a atravessar o ginásio cumprimentando as pessoas, ele sempre foi muito comunicativo, até chegar no melhor amigo de infância e eles começarem a discutir. Desviei meu olhar antes que ele o percebesse.

Aquele olhar que o despia. Que o encabulava. O olhar que me entregava.

Lembrei de quando nos conhecemos. Eu era uma menina que tinha o gênio forte de uma mulher. Ele era um homem no corpo de um moleque. Nós discutíamos o tempo inteiro. Tudo isso parecia tão distante hoje.

Agora eram apenas lembranças que me destruíam.

Mesmo em trajes formais, estava claro que ele não era mais um menino. O corpo estava muito mais másculo do que eu me lembrava. A voz mais grave, ele estava muito mais adulto. Já faziam dois anos que não nos víamos. Nós tínhamos mudado, os dois tínhamos crescido.

Mas eu ainda lembrava de cada mínimo detalhe daquele corpo. Daquele homem. De cada toque e cada sensação.

Olhei para as pessoas que estavam a minha volta mais uma vez, a maioria delas, eram amigos nossos em comum que eu não via a muito tempo, o que tornava a situação ainda mais nostálgica. Por que eu tinha aceitado ir aquele lugar mesmo? Ah, claro. Ele tinha enfim conseguido realizar seu desejo, e eu tinha prometido a ele estar lá, quando isso acontecesse.

E eu cumpri minha promessa, mesmo que uma única vez.

Tomei um gole de vinho tentando em vão aliviar minha tensão e continuei observando os outros. Todos se divertindo, como se não houvesse amanhã. Todos tão felizes, inclusive ele. A vida parecia tão fácil para eles. Eu o invejava.

Céus, estou parecendo uma velha amargurada e arrependida. E eu o era, em parte.

Sentia saudades daquela época. Naquele tempo eu só queria ser feliz e me divertir, e no começo ele também, então, as coisas foram acontecendo. Parecia que teria um final feliz, mas não teve. Não para mim.

"Me apaixonei por ele do mesmo jeito que alguém cai no sono: gradativamente e de repente, de uma hora para outra."

Agora nós parecíamos dois estranhos. O som da risada dele chamou minha atenção, e o vi conversando com uma de minhas melhores amigas, May. Perto deles uma legião de fãs que sonhavam com ele, em tê-lo, talvez fossem elas o motivo dos risos deles.

Ele era um sonho, o meu sonho. Lindo, divertido, verdadeiro. Ele me completava, e me aconselhava, era acima de tudo meu amigo, "ele sorria, e me fazia ganhar o dia", o sorriso dele era lindo e contagiante. O sorriso dele era meu sol e também o meu luar.

Nós namoramos por mais de três anos, e fomos amigos por mais de cinco. Eu nunca me senti forçada a nada com ele, tudo entre nós era tão natural. Eu sorria sem perceber, só por tê-lo por perto.

Ela falou alguma coisa em seu ouvido e ele olhou na minha direção. A expressão dele era de surpresa, mas ele sorriu. Do modo que ele só sorria para mim.

Eu tenho certeza que meus olhos ainda brilham quando eu o vejo, assim como os dele brilham quando me vêem. Mas nós fingimos não perceber isso.

Levantei minha taça de vinho, e ele acenou em resposta. Vi May da um pequeno tapa em suas costas, encorajando-o a vir falar comigo, mas ele apenas coçou a nuca e meneou a cabeça negativamente e menear , saindo em seguida.

Nenhum de nós dois teria coragem de tentar concertar os erros do passado. O passado não tem concerto.

Aconteceram tantas coisas e nós resistimos a tudo, juntos. A paixão cega você até o último momento. E nós tínhamos paixão. Muita paixão. Nossas brigas, sempre terminavam em beijos. E nossos beijos sempre terminavam no quarto.

Éramos amantes insaciáveis. Éramos jovens inconseqüentes. Éramos felizes.

Vi May se aproximar de mim, com uma expressão emburrada e de braços cruzados.

- Posso saber, se você já foi falar com o dono da festa?

- Você viu. — respondi dando de ombros.

- Você chama aquilo de falar?, vocês mal se olharam! — ela gesticulava como uma louca, chamando atenção das outras pessoas.

- Por favor, não força a barra. — disse tomando mais um gole do vinho em seguida.

- Eu não entendo porque vocês terminaram. — ela tinha uma expressão triste agora.

— Nós tínhamos ideais diferentes, nada do que tentamos adiantou. — eu tentava convencer a mim mesma. Olhei para o lado e vi que ele nos observava, como eu o fizera antes.

Mas não tinha sido tão simples. Ele tinha um objetivo, e eu também, mas eles eram opostos. As conversas ficaram curtas e frias, pareciam avisar que o fim estava próximo, e cada carinho, parecia um pedido de desculpa.

No fim, nós simplesmente acabamos nos afastando, nos negligenciando, nos perdendo. Destruindo tudo o que construímos.

Mas, eu nunca vou esquecer daqueles dias ou de todos os beijos, de todos os abraços, das risadas, das promessas e sonhos, do que construímos e compartilhamos um com o outro. Eu nunca vou esquecer dele.

Ele foi um sonho, o mais bonito e verdadeiro, mas eu tive que acordar.

Olhei mais uma vez na direção dele, que conversava com Brock e então ele sorriu.

Mas não aquele sorriso. Aquele sorriso ele só dava para mim.

Entreguei minha taça já vazia ao garçom que passava e May entendeu que eu iria embora naquele momento então me abraçou. Quando o abraço acabou eu fui em direção a saída. E não precisava olhar para trás para saber que ele me observava, assim como da última vez, ele apenas observava enquanto eu ia embora.

- Espera. — a voz dele me interrompeu. Virei — me devagar para observá-lo. Ele estava perto, muito perto. — Eu só preciso de uma resposta.

Eu sorri de canto nervosa. Ele costumava fazer perguntas difíceis.

- Porque... Porque você veio até aqui? — ele continuou. Eu dei de ombros. Por que eu tinha vindo aqui mesmo ?

- Eu fiz uma promessa. — respondi simplesmente.

- Várias.ele disse sério, mas seus olhos procuravam em mim a mesma resposta que os seus próprios me davam. — Foi apenas por isso?

- Você sabe que não. Eu... eu apenas, precisava vê-lo. — disse baixando os olhos.

Ele deu dois passos a frente, e levantou meu queixo fazendo-me olhar para ele. E então ele sorriu, aquele sorriso.

- Eu também. — e me abraçou.

E o abraço virou beijo e o beijo virou recomeço.

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