Projeto Hoshi
9 Capítulo 9
Notas iniciais
22 de fevereiro — 12: 41 no HST (Hoshi Standart Time)
Matheus remexeu na comida com o garfo e massageou as têmporas. Estava frustrado. O mapeamento da constelação alpha-delta-phy não estava saindo como planejado. Luna havia ficado presa na sala de comando instruindo os reparos de um dos motores principais e não podia almoçar com ele. O cardápio do dia era o pior de todos na sua opinião, com nenhuma das opções o satisfazendo particularmente.
Tudo que ele queria era ir pra casa e descansar.
Ou melhor, tudo que ele queria era ir pra casa e se debruçar sobre suas cartas espciais, com seu telescópio ao lado, e longe de todo um setor que adorava ficar bafejando em seu pescoço.
Massageou as têmporas e apenas ergueu os olhos quando um Zé Luís, igualmente derrotado, caiu no banco à sua frente, por pouco não derramando o conteúdo da sua bandeja.
— Dia ruim? — ele perguntou, fracamente, pra o amigo, que olhou em torno, perocupado, antes de virar-se para sua refeição e começar a comer.
— Pior do que você poderia imaginar. Passei a manhã inteira olhando por cima do ombro, esperando uma tragédia.
— Por que isso? As coisas no serviço estão tão complicadas assim?
— O problema não é nem com o serviço, cara. Na verdade, não é nem culpa minha. O problema é que ontem...
— Ah, aí está você, Sr. Alferes.
Matheus observou, curioso, enquanto Zé Luís se engasgava com a salada e se retesava todo na cadeira. Surpreendeu-se levemente ao ver a tal moça do RH com quem aparentemente Zé Luís tinha problemas mal resolvidos parada em pé atrás dele.
— O que é... O que é que você vai fazer comigo?
— Não seja tão desconfiado, Sr. Alferes. Assim você me ofende. Então, vamos?
— A... aonde?
— Você vai pagar sua dívida, ué. É isso que eu quero. Que você almoce comigo. Só nós dois — ela frisou, olhando para Matheus, que sentiu um frio percorrer a espinha.
Zé Luís levantou-se, corado como um pimentão. Matheus não sabia se ria ou se sentia pena dele enquanto o amigo azia cara de \"Aaah, meu Deus, depois eu te explico\" e seguia a moça até outro pedaço da mesa.
Tá legal... o que exatamente estava acontecendo ali?
22 de fevereiro — 09:45 no HST (Hoshi Standart Time)
Louis fitou a imagem projetada pelo pequeno conversor holográfico ligado ao seu PDA. Era uma das suas poucas horas de folga e aquela era uma maneira perfeita de ocupá-la. Olhava obssessivamente a tela, seus olhos treinados percorrendo toda a sua extensão, murmurando nomes de estrelas e constelações à medida que as passava em revista. Nenhuma alteração...
Examinava com atenção. Tinha que estar lá. Alguma coisa, alguma oscilação dos campos gravitacionais, alguma perturbação eletromagnética, alguma onda de rádio, alguma coisa, qualquer coisa... Em algum ponto no meio de todos aqueles mapas, em meio a toda aquela imensidão de mundos, em um universo infinito e enorme. Procurando um sinal, o menor que fosse...
Uma vez na vida, queria encontrar. Uma vez na vida, queria achar uma falha, um deslize, algum fio condutor que o pudesse levar ao seu objetivo. Mesmo que demorasse para chegar lá, sabia que bastava uma pequena pista e ele conseguiria guiar-se pelo resto do caminho. Era aquela pequena pista que ele queria achar.
E procurava loucamente, a cada instante.
Bebeu um longo gole de café e consultou o relógio. Tinha mais um minuto de descanso e depois teria que voltar ao Departamento de Segurança. Esfregou o dedo indicador na testa e sentiu os olhos pesarem. Todos achavam que ele estava dormindo naquele momento — era pra isso que essas pequenas folgas no meio do dia serviam: o RH as havia instituido devido ao forte nível de estresse a que todo o departamento era sumetido.
Mas ele não estava dormindo. Louis era obstinado. A teimosia e a grande força de vontade eram duas de suas maiores qualidades — pelo menos na sua própria opinião. Seus colegas, na maioria das vezes, não pareciam compartilhar dela.
Um minuto. Mais um precioso minuto de vigília. Estava pronto para desligar o conversor e guardar o PDA, rumando como sempre para o seu escritório, quando algo aconteceu.
Por um segundo, ele piscou com força para clarear a mente. Afinal, aquilo tudo podia ser uma alucinação provocada pelo seu cérebro privado de sono e extremamente fatigado. Mas quando abriu novamente os olhos, ainda estava lá.
Um sinal. Uma onda. Ele havia captado um sinal.
Mais do que depressa pôs-se a digitar. Iria rastrear aquele sinal, nem que perdesse a tarde toda de serviço.
Havia coisas no mundo mais importantes que o trabalho. Aquela era uma dessas coisas.
Loius exultou ao ver que estava tendo sucesso na sua empreitada. O sinal era facilmente rastreável. Aquilo era mais do que um simples descuido — era um erro colossal, mortal. Que para ele significaria o sucesso, aquilo que ele buscava a tantos anos.
— Agora eu te peguei, mocinha.
Ele digitou febrilmente, enquanto um sorriso levemente maldoso abria-se em seu rosto.
Não iria falhar.
Agarrara-se à sua corda e agora não a soltaria.
22 de fevereiro — 12: 46 no HST (Hoshi Standart Time)
Koz tamborilava, entediado, no balcão do refeitório. Aquele primeiro turno do almoço era sempre o mais chato para ele. Mentalmente fazia força para que o tempo passasse mais depressa, mas aparentemente o relógio não queria colaborar com ele.
O segundo horário de almoço só começaria às 13:30...
Era esse o horário em que Xabéu deveria vir almoçar.
Suspirou. Era até ridículo o modo como gostava dela, como ela parecia fazer tudo ao seu redor ganhar mais cor. Como ele se sentia esquentar por dentro a cada vez que ela sorria...
— KOZ! — Bee gritou — Pára de sonhar acordado e me ajuda a pegar essa pilha de pratos!
— Beleza, Bee!
Dirigiu-se para o armário, meio desanimado por ter sido arrancado dos seus pensamentos. Mas que podia fazer? Estava trabalhando, no final das contas, tinha que ajudar. Além do mais, não queria deixar a Bee na mão. Ela era como uma irmã para ele; sempre estiveram juntos, desde que haviam chegado à nave. Fazendo bicos aqui e acolá, como era o estilo do Setor de Serviços, sempre pegando no batente no refeitório, limpando, arrumando, consertando, servindo e cozinhando...
Eram ambos daquele tipo de pessoa que parece ter sido feita para servir. Os dois eram da gente que sente prazer em ajudar simplesmente por estar fazendo o outro feliz.
O problema é que, de alguma forma, Xabéu parecia estar tirando dele aquele prazer de ajudar imparcialmente.
Ele queria a atenção dela, o sorriso dela, a aprovação dela. Qualquer ajuda, qualquer serviço que ele prestasse a ela seria sempre arbitrário.
E ele não se sentia mal por isso.
De fato, sentia-se até melhor. Era incrível como os dias ficavam diferentes quando a sua vida passava a ter um propóstito. Ele agora se levantava todos os dias com a luzinha da esperança brilhando em seu peito — \"Será que a verei hoje? Será que não verei?\". Era muito mais interessante do que simplesmente olhar para o teto e tentar se consolar pensando em quantas pessoas ele ajudaria e faria feliz. As coisas pareciam ter mais sabor quando ele sentia que lucrava alguma coisa com seus esforços.
Os lucros eram poucos, mas Koz não era um cara ambicioso. E, do fundo do coração, queria ir conquistando o seu objetivo aos poucos.
— Oi, Koz! Como está você hoje?
Mas... mas...
Ela estava adiantada!
Talvez suas preces tivessem sido ouvidas, afinal.
— Oi, Xabéu! — ele correu imediatamente para o balcão — Eu vou muito bem! Mas e você? O que faz aqui tão cedo?
— Ah — ela riu, aquele seu riso encantador e maravilhoso — Fui liberada para o primeiro horário do almoço porque a ajudande do Alferes vai ficar no Comando, cuidando de alguns reparos, então vai ter que ser liberada no segundo horário. Aí me enrolei com a papelada e só pude chegar agora... Sobrou alguma coisa aí pra mim?
Ele sorriu. Ela era tão espirituosa, tão simpática, tão encantadora...
— Claro, né! A gente sempre tem alguma coisa aqui enquanto não fecha o horário do serviço. Bee! — ele gritou para a amiga, que estava fazendo qualquer coisa na pia, de costas para ele — Quais são os cardápios que ainda tem?
Ela fez uma pequena pausa antes de gritar de volta.
— Não sei bem não, Koz! Mas acho que só tem o 25!
Ele gelou. O 25 era o pior cardápio de todos. Bacalhau, fígado, alcaparras e couve-de-bruxelas. Ele nem mesmo sabia quem era o sem graça que tinha instituido aquele cardápio, mas aparentemente tinha alguns loucos doidos por vitaminas que comiam.
Nenhum no seu refeitório, pelo menos. O cardápio 25 era sempre o que sobrava.
— Ahn, espera que eu vou dar uma olhada, Xabéu...
Ele suou frio. E se só tivesse mesmo o 25?
Abaixou-se para procurar no freezer. Recitou um mantra mental ao abrir a porta. Xingou mentalmente todas as forças do destino ao ver só os pratinhos marcados como 25, brilhando para ele, em toda a sua glória de alumínio.
Empurrou-os. Seria possível...?
Ué. Vários pratinhos de vários outros cardápios estavam atrás da camada de pratinhos 25. Seria possível que Bee não soubesse disso? E, se soubesse, pra que mentir? Aquilo era tudo muito estranho.
Franziu a testa e pegou um raviolli aos quatro queijos para esquentar. Sabia que Xabéu gostava muito de comida italiana. Voltou a sorrir e dirigiu-se para ela, ainda ajoelhado em frente ao freezer.
— E então, Koz?
— Achei uma coisa que você vai adorar...!
— Sério? Nossa, muito obr--
— Com licença? Será que você poderia me dar mais um refrigerante nº 2, por favor?
Koz ergueu os olhos. Ué! Era a criadora de caso que tinha humilhado aquele cara há mais ou menos uma semana. Lembrava-se porque todo o Setor de Serviços tinha dado risadinhas a cada vez que o cara passava, por pelo menos cinco dias. Ele abriu a boca para responder quando Xabéu exclamou:
— Zé Luís!? O que é que você tá fazendo aqui?
Ele lembrava daquele cara. Era o que estava com Xabéu na festa. Sentiu o seu pulso acelerar. Estava com raiva. As coisas estavam indo tão bem até ele chegar!
Se acalme, Koz — repetiu para si mesmo — Afinal, ela ficou com você e não com ele a festa inteira.
Ou quase inteira. Mas mesmo assim. Até ele pegar o turno, pelo menos.
De qualquer modo, o fulano não parecia saber onde enfiar a cara.
— Ah, é... bom... é que eu...
— É que nós vamos almoçar juntos — anunciou a moça criadora de caso, alegremente — E eu queria pegar mais um refrigerante, porque o Alferes, que está meio agitado por alguma razão, derrubou o dele. Será que dá pra sair, por favor?
Ela sorriu, mas seus olhos eram severos. Sem pronunciar uma palavra, Koz rapidamente encheu o copo e entre gou para a moça.
— Muito obrigada! Bom, agora nós já vamos — ela sorriu e acenou, com o rapaz ainda desconsertado ao seu lado. Koz e Xabéu olharam enquanto os dois se distanciavam, sem conseguir falar.
— O que diabos foi isso...? — murmurou ele, quando finalmente conseguiu articular alguma coisa para quebrar o silêncio.
— Sabe que eu não sei...? — murmurou Xabéu — Só sei que... É muito estranho.
E ela, como sempre, estava certa.
14 de abril — 10: 13 no HST (Hoshi Standart Time)
TTK abriu os olhos, abruptamente e soltou um pesado suspiro de alívio. Rolou de lado e olhou para o relógio.
Havia dormido por exatos cinco minutos.
E acordado depois.
Estava vivo.
Quase chorou de alívio. O seu tratamento estava sendo longo e doloroso, com conversas aparentemente intermináveis com Tina e outros funcionários do RH, além de testes e experiências mil. Mas estava conseguindo. Estava vencendo. Aqueles cochilos podiam parecer pouco, mas para seu organismo altamente desgastado eram um descanso merecido que ele não via já há muito, muito tempo.
Estava voltando à normalidade. Poderia voltar a viver. Sentia um peso enorme sento tirado aos poucos das suas costas. Em breve poderia sonhar com um futuro, sem medo daquela escuridão misteriosa, que ameaçava devorá-lo a cada vez que fechava os olhos.
A porta abriu-se e ele despertou da sua linha de raciocínio. Sorriu ao ver Peter parado à porta, sorrindo de volta para ele. O menino era três anos mais novo, mas haviam se tornado bastante amigos durante aqueles seus meses de internamento. Tinham muito em comum; afinal, até bem pouco tempo atrás, ambos não tinham família. E, aparentemente, ambos a haviam encontrado na forma do Setor de RH da Hoshi.
Nenhum dos dois sabia da opinião geral da nave sobre o setor; por isso simplesmente achavam todos os funcionários muito capazes e acolhedores.
TTK havia se sentido aceito pela primeira vez em tempos. Havia encontrado gente que estava ali com ele e que estava disposto a ajudá-lo. E aquilo era ótimo.
Pivete não era mais Pivete. Era Peter, tinha um pai e uma mãe e até uma irmãzinha. Seu relacionamento com Tina, seu marido Rolo e Fifi não podia ser melhor. Sentia-se abrigado como nunca havia se sentido antes.
Ambos estavam felizes e ambos eram gratos.
— E aí — Peter se aproximou da cama do amigo — Como vai, cara?
— Vou bem, acabei de acordar — ele sorriu, com visível orgulho de si mesmo.
— Que massa! Está cochilando cada vez mais, né?
— É, a D. Tina disse que ainda vai levar um tempo pra eu controlar meu padrão de sono. Vou continuar dormindo em horas estranhas e sempre pouco. Mas ela disse também que já-já eu vou conseguir ter um horário de sono normal... E disse também que em alguns dias eu vou sair daqui.
— Que... que legal.
Houve uma pausa e o silêncio pesou no ar. Ambos sabiam que havia uma dúvida sempre presente, embora fosse difícil pronunciá-la em voz alta.
Peter tomou corageme perguntou mesmo assim.
— E depois que você sair daqui, TTK?
Mais silêncio. TTK fechou os olhos e massageou as têmporas com a mão esquerda.
— Bom, eu...
— Você podia ir pra nossa casa! Ia ser legal ter você morando lá, tenho certeza que a Tina não ia ligar, o Rolo também não! E a Fifi ia adorar você, ela--
— Peter, acho que depois daqui eu vou pra Residência Estudantil.
O amigo parou de falar e encarou os próprios pés. Peter não ia à escola. Era novo demais, na Academia da Hoshi só havia do Segundo Grau pra cima. Como as família que moravam na Hoshi ainda eram jovens, as únicas instituições educacionais eram a Academia Hoshi e algumas creches e escolinhas de Primário; nada de Ginásio, embora houvessem projetos para que um fosse emplementado no ano seguinte. Rolo e Tina haviam conseguido com alguns amigos professores que ele tivesse aula três vezes na semana. Fifi frequentava a escolinha primária do Bairro Residencial.
— Mas... a gente ainda vai se ver, né?
TTK sorriu mais uma vez.
— Claro, cara! Sempre que eu puder, eu prometo.
Os dois bateram as mãos cerradas em punhos, num sinal de ânimo.
O reluzente amanhã aguardava os dois.
Fim do Capítulo 9
CARAAAAAAAAAAACA, quanto tempo!
Galera, que depressão! Juro que não queria demorar tanto pra atualizar, mas não teve jeito...
Pelo menos saiu, né? Vou me esforçar pro 10 não demorar tanto!
Espero no mínimo que tenham gostado, pra compensar a espera...
Prontinho, descobriram o que a Bia queria com o ZL! Tivemos também Koz e Xabéu, além de TTK e Peter... E um sujeito misterioso! Quem será? (A Jacque sabe!)
Ah, gente, infelizmente não estou aceitando mais fichas pra fic... Simplesmente tem personagem demais, não tá pra enfiar mais nenhuma bola nesse malabarismo louco que é essa trama.
Obrigada a todo mundo pela paciência, gente! Vocês moram no meu coraçãozinho de ficwriter preguiçosa, viu? :)
Beijos pra vocês, reviews deixam a chefa feliz! :***
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