Projeto Cyberpunk
4 Capítulo 4 - Planos
– Agora que estão aqui, quero dizer para todos que Jagun é um novo membro e companheiro nosso. Eu mostrei para ele as gravações incriminadoras de Yggdrasil e o mesmo decidiu-se... Ele também teve uma reação estranha após assisti-las.
– Eu desmaiei e tive um sonho, parecia real e eu podia sentir e ouvir com clareza tudo ao meu redor... Havia uma mulher linda, como uma deusa. Ela disse-me que era a mãe de todos os filhos de Shangri-La e que eu era o escolhido, um guerreiro que deveria empunhar a espada e lutar.
– Você viu a Grande Mãe?! Isso é impossível... — Krieg esboçava uma face de descrença e susto.
– Isso não é tudo, quando ele desmaiou, eu e Alex presenciamos algo muito interessante... Todos os objetos eletrônicos no local começaram a reagir, criar vida. Eles "piraram" literalmente, foi parecido com os soldados na noite que conhecemos Jagun.
– Então ele é mesmo um de nós... Eu sempre achei que você um dos filhos da nossa mãe, Jagun.
– Obrigado, Dariya.
– Ainda tenho mais para vos informar, Jagun não é um filho qualquer da Grande Mãe, ele possui algum tipo de poder. Isso é fato, vendo as duas situações em que ele de forma inconsciente "ativou" esse poder quando seu cérebro estava sendo pressionado psicologicamente.
– Essa grande mãe, como vocês chamam... Ela disse algo parecido com o que Marco acabou de dizer, era mais ou menos isso: "você precisa aprender a controlar o seu poder, pois ele será seu melhor e único aliado nessa guerra."
– Então não há dúvidas, Jagun é especial. O poder que ele despertou é um presente divino da grande mãe, um sinal de que ela nos espera, de que devemos enfrentar essa luta com todas as nossas forças.
– Sendo assim, devemos promover Jagun o nosso líder. Nosso caminho para a vitória. Todos concordam? — Sugeriu Dariya.
Todos os quatro consentiram que sim com suas cabeças.
– Já que estamos em uma reunião, eu preciso dizer sobre as pesquisas com relação ao fragmento da pedra Sahqo.
– Já obteve algum progresso?
– Sim, descobri que essa pedra era antigamente conhecida como "Pedra Filosofal", um tesouro buscado por todos os Alquimistas. Dizia-se que aquele que tivesse a pedra, podia transformar qualquer metal ordinário em ouro e adquirir o Elixir da Longa Vida que permitiria prolongar a vida "indefinidamente".
– Então agora somos invencíveis? — Indagou Krieg esperançoso.
– Infelizmente não, esse fragmento é uma copia humana que tenta ao máximo se aproximar da verdadeira Pedra Filosofal — retrucou Apolo — Mesmo assim, esse artefato tecnológico em nossa posse é demasiadamente poderoso... Ele possui um código criptografado, se eu conseguir decifrá-lo, poderemos aprender como criar armas poderosas de forma simples.
– Então, você diz que essa pedra é como uma sistema de sigilo que carrega e protege o código? O que seria esse código?
– Exato, Marco. Esse código é a essência da criação, acredito eu... Decifrando ele poderemos declarar Xeque contra Yggdrasil.
– Isso é muito bom de se ouvir, e tudo graças à Jagun que nos trouxe inconscientemente esta pedra. Acredito que a grande mãe está movendo os acontecimentos ao nosso favor, vamos lutar até o fim!
– Peço desculpas, mas não me sinto muito bem então vou para meus aposentos.
Muitas coisas se passavam pela minha cabeça, eu devia ficar feliz com o meu novo achado...? Ou aflito com minha situação atual? Afinal, agora sou uma ameaça para Yggdrasil. De qualquer forma o melhor a fazer agora era descansar.
Sentei encostando-me na parede, comecei a refletir sobre tudo que havia passado na minha vida, mesmo antes disso.
– Mãe... Fred... — Suspirei por um momento.
Fiquei cerca de vinte minutos ali parado, comecei a observar aquele quarto ao meu redor e percebi que no chão tinha algo como um livro pequeno, estava cansado, então rastejei-me até ele e o peguei. Não era um livro, mas sim um álbum de fotos. Para minha surpresa ao folheá-lo vi que eram todas fotos deles, dos quatro. Pareciam tão felizes... Apesar de viverem sobre toda esse horror... Mas porque eu? Dentre todos... Eu fiz de tudo para ser uma pessoa ignorada e amava minha vidinha serena. Indo trabalhar, dando algumas risadas com Fred e os outros, voltando para casa, jantando com minha mãe... Mãe... Será que você está bem?
– Estou incomodando...?
– De forma alguma.
Era Dariya, ela entrou e veio até mim.
– Esse é o nosso álbum. Nós guardamos todas essas fotos para que nossa existência fique registrada.
– Vocês parecem felizes nessas fotos...
– É verdade... Você sabia que foi Marco quem nos salvou? Digo, à Krieg, Apolo e eu?
– Não, poderia me contar?
– Claro. Apesar de não parecer, Marco é o mais velho de todos nós, ele não tem cara de líder, nem de responsável. Mas ele luta de pé pela revolução do povo oprimido em Xibalba. Eu não sei se você sabe, mas quando uma criança nasce, ela sofre uma série de testes psicológicos. Esses testes são para determinar se você é USELESS ou KAMPFER. As crianças categorizadas como US são enviadas para o Distrito 1.0 e provavelmente morrerão devido à precariedade ou são traficados por escórias que escondem-se aqui em Xibalba. As crianças que tem potencial de KA, essas vão direto para Midgard, lá serão adotados por alguma família rica. Viverão uma ótima vida, estudarão em instituições de ensino que moldarão sua cabeça da forma que quiserem, impondo uma falsa realidade em você. Esses de potencial KA crescem e entram para o exército de Yggdrasil, serão soldados da NASEC ou cientistas, depois pais de uma nova criança, dessa forma o ciclo segue.
– Qual é a diferença de um US para um KA?
– Crianças que nascem US, são independentes, fortes e saudáveis. Essas, não serão facilmente alienadas, moldadas e escravas do sistema da Yggdrasil. Os KA, são aqueles que fracos, facilmente influenciados e que gostam de viver na ignorância, ou seja, perfeitos para serem controlados pelo sistema.
– Então... Eu, você, todos nós e os que vivem aqui em Xibalba ou no Distrito1.0 são USELLES?
– Exato. Eu, Krieg e Apolo fomos jogados no Distrito 1.0 assim que fomos detectados como US pelo sistema, provavelmente iríamos ser pegos por algum depravado, ou traficante de órgãos quem sabe... Ou então morreríamos de fome e frio. Marco nos encontrou e não hesitou em cuidar de todos nós.
– Dariya, eu gostaria de saber mais sobre a "Grande Mãe"...
Ela sentou-se ao meu lado e sugeriu que eu me encostasse no corpo dela para que pudesse me acariciar. Minha cabeça pressionou seus seios e senti que era muito confortável, ficar ali um dia inteiro não seria problema. Dariya começou a tocar meus cabelos com as mãos e acariciá-lo, uma sensação muito prazerosa e relaxante.
– Pobre Jagun... Tão novo e já sofre tudo isso... Eu sei como você se sente. Sabe, eu sinto algo quando estou perto de você, não sei explicar. Sinto como se fosse destinado que nossas vidas se colidissem.
Dariya cessou as carícias e me abraçou, senti as mãos calorosas apertando-me.
– Você quer saber sobre a Grande Mãe, certo? Nós... Não sabemos muito sobre ela. Como não temos pais biológicos, a existência dela é como um personagem que deu vida à todos os filhos da nova geração de Shangri-La, depois do "Dilúvio". Nós US, possuímos algo único... Nós podemos nos comunicar com ela, se nos concentrarmos e mergulharmos profundamente em nossa mente, seremos capazes de ouvir a voz doce e gentil da Grande Mãe. Você foi o único até o momento que viu nossa Mãe nos sonhos, por isso você é diferente e único.
– Dariya... Eu lutarei por você, por todos! Um dia teremos nossa liberdade de volta, nosso direito de viver.
Ainda nos braços dela, elevei o rosto de forma que podia olhar em seus olhos. Ficamos alguns minutos ali parados, até que senti seus lábios sobre os meus. Então isso era um beijo? Eu nunca havia beijado, e aquilo era incrivelmente bom. A inocência ainda era parte de mim, e isso impediu que minha mente ultrapassasse limites, ao tempo que aquele beijo silencioso prosseguia duradouro, um misto de confusão embaraçava minha cabeça.
Senti algo molhado, pingos sobre meu rosto. Dariya estava chorando.
– Você está chorando...?
Sequei seu rosto com minhas mãos.
– Desculpe...
Abracei-a fortemente e naquele chão ficamos sem mover um músculo por um longo tempo, cada minuto ali era como uma eternidade.
Hoje parecia ser um dia sereno, eu nem havia percebido que Dariya tinha deixado o quarto e quando, apenas dormi como uma pedra. Soltei um bocejo demorado e notei que meu estômago pedia por comida. Ainda não conhecia direito aquele galpão, mas fui guindo-me pelo caminho que lembrava. No fim eu cheguei na sala, onde todos estavam.
Cada um ocupava-se em algo. Marco parecia desenhar sobre uma folha de papel, Krieg organizava ferramentas de trabalho em uma maleta vermelha e Dariya assistia televisão.
– A Bela Adormecida resolveu despertar? — Ironizou Dariya.
– Eu dormi muito?
– Sim. Está com fome? Krieg disse que daqui a pouco faz a comida, quando terminar de limpar as ferramentas dele.
– Tudo bem.
Marco parecia ter terminado o desenho, levantou e espreguiçou-se. Agora que dei por conta da ausência de Apolo ali.
– Onde está Apolo?
– Preciso sair e procurar por uma pessoa. Apolo deve estar no laboratório improvisado dele, decifrando a pedra, suponho.
– Por quê você não faz companhia ao Marco, Jagun? — Sugeriu Dariya.
– Eu?
– Ótima sugestão! Aliás, a pessoa que vou procurar tem relação com você, é sobre as coisas estranhas que acontecem quando você fica abalado, o misterioso poder que você possui.
– Sendo assim, irei.
– Não vão esperar pela comida? Acabei de limpar as ferramentas agora.
– Não será preciso, Krieg. Comeremos na rua mesmo.
– Boa sorte e não demorem.
– Obrigado Dariya, até mais Krieg.
Marco vestiu sua jaqueta e saímos. Ruas silenciosas, apenas o som do vapor saindo de buracos no chão ecoavam. Incrível como não havia uma pessoa sequer por ali e durante todo o caminho eu observava ao redor na procura de outras vidas nas proximidades. Como nós vivíamos na noite eterna em Xibalba, creio que as pessoas tinham mais medo ainda de sair de suas residências, Marco deveria ser o único louco a fazê-lo.
– Para onde vamos dessa vez?
– Eu não sei onde o sujeito está agora, então vamos até um lugar muito freqüentado pelos moradores dessa joça aqui. Conhece o "Uma Noite no Céu"? Claro que não, que pergunta...
– Do que se trata?
– Um clube noturno, mas provavelmente você não sabe o que é isso também. Apenas espere e verá, garanto que vai lhe agradar.
Marco soltou uma risada estranha, não era de seu habito.
Me mantive calado o resto do caminho, diferente da superfície, aqui embaixo era um pouco difícil para respirar, então precisávamos respirar com um pouco mais de força, de forma que dava para ouvir um a respiração do outro enquanto caminhávamos lado à lado. Nossas respirações, nossos passos e os vapores quentes que saíam do chão, esses eram os únicos sons que se ouvia na escura estrada.
Fale com o autor