Professora de história
4 Imortal
P.O.V. Derek.
Nós fomos para a clínica do Deaton.
—Parem de olhar pra mim com esses olhinhos julgadores. Eu o criei, era o meu dever destruí-lo. Porque estamos numa clínica veterinária?
—Tem alguém que eu acho que você deve conhecer.
—Doutor, nós temos uma paciente.
—Animal?
—Não.
—Tragam.
Ela olhou para o doutor com cara de tédio.
—Eu já vivi muitas vidas, já vi impérios se erguerem e caírem, mas nunca tinha visto trazerem uma pessoa para uma clínica veterinária.
—Você não é bem uma pessoa.
—E nem você.
—Esse sangue é seu?
—Não.
—Você está doente? Está ferida?
—Não para as duas perguntas.
—De onde veio esse sangue?
—Um híbrido. Eu arranquei o coração dele.
—Pelo o que eu entendi, o seu sangue de algum jeito transforma lobisomens em híbridos.
—É o que você quer? Quer ser um híbrido escravo?
—Escravo?
—Nem tudo são flores. Todos os híbridos estão ligados a mim, seguem cada movimento meu, fazem tudo o que eu mando quer eles queiram, quer não.
—Você fez mais de um híbrido?
—Sim. Josh era o meu primogênito por assim dizer. Ele descobriu como quebrar o elo, mas ele foi transformado por acidente. Foi com ele que eu descobri o que o meu sangue era capaz de fazer.
—Híbridos de que?
—Eu sou o que a raça humana chama de herege. Sou a primeira da minha raça, sou meio bruxa, meio vampira. Por séculos, fui caçada, tive que me esconder. Mas, eu nem sempre fui... assim. Eu sempre soube em meu âmago que não era como as outras garotas. Eu tinha essa fome que não conseguia saciar. Conforme eu crescia, a fome ia ficando mais forte e quando eu atingi a maturidade... comecei a ser mais diferente. Eu escutava coisas, escutava conversas mesmo estando á metros de distância, eu escutava tão claramente quanto se a conversa estivesse sendo dita no meu ouvido, eu sentia o cheiro de tudo, eu sentia a vida que emanava das coisas no sentido mais literal quanto possível da frase e sentia a morte também. Tinha ataques de fúria, quando eu me sentia triste, era uma tristeza... não era desespero. Eu não sentia o mundo como as outras pessoas. Subia nas árvores mais altas facilmente, corria mais depressa que as outras meninas, mais depressa do que todos os outros. Então, minha mãe me contou a verdade sobre o que eu era. Naquele dia a fome foi mais forte que tudo e eu sabia o que eu precisava. Era a coisa que eu queria acima de todas as outras coisas, pela qual eu matei. Sangue. Eu devastei a cidade inteira sem remorso, eu não conseguia parar, eu não percebi o tamanho da devastação, eu não sabia o que fazia até... ter feito.
—Você... quantos anos você tem?
—Dois mil. Eu nunca encontrei outro como eu, nunca tive alguém pra me ensinar, alguém que sentisse o que eu sentia e como eu sentia. Tudo o que aprendi, eu aprendi sozinha. Eu sei feitiços que ninguém mais conhece, coleciono grimórios, coleciono conhecimento.
—Como você sobreviveu tanto tempo?
—Me alimentando, fugindo, me escondendo, lutando. Hoje graças á invenção das bolsas de sangue eu não tenho que matar ninguém.
—Qual é o seu nome?
—Ravenna. Eu não tenho sobrenome. Essa era uma coisa que não se usava antigamente, alguns poucos tinham renome e títulos. Mas, os meus dons me proporcionaram conforto por muito tempo.
—Como assim conforto?
—Depois que eu descobri como fazer, ficou fácil. Eu olhava nos olhos deles e mandava, dai eles obedeciam. Eu Ravenna, a filha de uma simples aldeã, coloquei o César de Roma aos meus pés. Morei no palácio dele, comi a comida dele, dormi na cama dele, me utilizei do seu título para ter o que eu queria.
—Então você é uma vadia.
Ela olhou feio para o Derek e falou:
—Eu prefiro sobrevivente. Você não sabe como é difícil ser mulher nesse mundo e nem precisa. Nem consegue imaginar como era a dois mil anos atrás. Não havia mobilidade social, a criadagem era tratada pior que um cão. Mulheres eram violadas na rua e ninguém ligava, eram espancadas e ninguém ligava. Então, sim senhor Hale, eu usei os meus poderes para proteger a mim e minha mãe enquanto ela viveu. Sim, eu forcei os poderosos á minha vontade. Sim, eu dormi com vários homens ao longo das eras, por interesse. Me chame de vadia, de mulher desajustada ou o que quer que caiba na sua história, mas eu me orgulho de ter sobrevivido todo esse tempo sozinha.
—Você é mesmo um monstro.
—Sou? Só Deus sabe os erros que eu cometi e desde então, faço tudo em meu poder para tentar corrigi-los, mas você também é um monstro não é? Diga-me senhor Hale, o que foi feito da pobre e inocente senhorita Paige? Você a matou. Não matou?
—Calma, gente, calma.
—Você não é ninguém pra me julgar.
Eu queria voar no pescoço dela. Quem ela pensa que é para falar da Paige?
—Você não sabe de nada.
—Você menos ainda. Esse mundo onde você vive? É o paraíso. Direitos trabalhistas, proteção á testemunha, proteção á mulher, mulheres violadas são tratadas como vítimas, toda essa comida, casas que resistem á enchentes. Eu me lembro que meus irmãos e eu vivíamos em uma cabana. Não como essas de hoje. Eram cinco pessoas, seis contando a minha mãe, todos nós amontoados num quarto menor que essa sala. Ninguém realmente ligava se estávamos doentes ou saudáveis, com frio, com fome. Os governantes não podiam estar mais pouco se importando para nós. No inverno, alguns pais cortavam a garganta de seus filhos, mães afogavam seus bebês para não ter que vê-los morrer de frio.

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