Prisioneiros
2 Armadilha
Notas iniciais
Há algumas horas atrás, eu jamais pensaria que estaria correndo por um bosque de mãos dadas com um cara que mal conheço, e que estaria fugindo dos Caçadores de Dons. Esses caras são “dá pesada” e procuraram sempre raptar jovens com talentos raros, e vangloriar-se com a captura bem sucedida.
Mas para o meu azar, aqui estou eu. Correndo feito louca, de mãos dadas com um estranho (que usa um cajado parece até um profeta). Um estranho particularmente bonito. Mas como o destino gosta de brincar com as pessoas, aqui estamos nós. Extremamente encrencados.
Corríamos por um bosque não muito grande, então não tínhamos muita chance de escapatória. Porém, eu conhecia alguns atalhos, mas não era eu que estava guiando naquela euforia toda. E sim o Josh. E pra ser bem sincera, eu estava gostando de ser guiada por ele, pois parecia que ele sabia o que estava fazendo. Restou-me apenas confiar.
Os tiros pareciam que iriam nos acertar, porém o habilidoso Josh usava seu cajado para criar barreiras de gelo entre nós e as balas. Ele era extremamente rápido e ágil. Eu estava encantada com a sua destreza.
– Qual é a do cajado? – perguntei interessada – Você não consegue usar sua magia apenas com as mãos?
– Na verdade sei, mas prefiro usar o cajado, pois a magia saí mais certeira – responde ele sorrindo com a pergunta – E também é bom para o ponto de magia de nós, APS.
– Ponto de magia? – definitivamente, eu não sabia o que era isso.
– Ponto de magia nada mais é que controlar a sua fonte de poder. Você sente o poder dentro de si. Você o controla. Você e o seu dom. O dom e você – ele sorriu ao dizer isso – Uma das características de se dominar esta técnica, é poder usar objetos a sua volta como fonte de poder. Todos nós temos poderes dentro de nós, Tessa. Basta saber até onde você poderá chegar. A magia sempre esteve presente e sempre estará presente em nós.
– Entendi – ouvindo aquelas palavras, senti uma força revigorante. Como se cada palavra me fortalece-se. Como se cada palavra me motivasse para lutar.
Ouço os sons de tiros cada vez mais distantes. Isto era uma boa notícia, afinal ninguém gostaria de morrer com uma bala na cabeça. Eu estava toda ofegante e meu cabelo estava todo embaraçado, sorrio quando Josh me fita.
– Que foi? – digo entre passos largos.
– Nada – respondeu ele, com um sorriso esbranquiçado – É que eu notei agora que você fica muito bonita de cabelo solto.
Eu poderia jurar que minhas bochechas ardiam como fogo. E que provavelmente eu estava toda vermelha como pimenta.
– Obrigada, eu acho – falei timidamente.
– Estamos indo para uma caverna logo depois do bosque – disse Josh, sério.
Caverna? Eu não me lembro de ter alguma caverna aqui perto.
– Existem cavernas aqui perto?
– Claro que existe – aquilo parecia meio irônico, mas eu estava pensando em acreditar – São chamadas de Minas de Keiroter. Foi desativada há muito tempo, porém com seus diversos labirintos poderemos despistá-los. E dificilmente os caçadores irão achar a mina, pois ela é escondida.
Escondida? Claro. Eu não sou boa pra achar coisas escondidas. Aliás, eu não sou boa em nada. Sorte que eu nasci com esses dons, se não eu estava ferrada. Ouço os sons dos tiros ficarem cada vez menores. Isto quer dizer que os Caçadores de Dons estavam desistindo de nos buscar.
Minhas pernas estavam trêmulas de dor. Correr o bosque todo foi muito exaustivo, mas chegamos onde ficava a suposta “mina”. Meu senso crítico me alertava que era uma cilada, mas o meu senso mais emocional dizia o contrário. Que merda, agora estou toda confusa.
– Falta muito pra gente chegar?
– Não. – disse Josh, com um sorriso maior que o normal – Só mais alguns metros e a gente chega à entrada da mina.
– Certo – respondi – Vamos nos esconder por algum tempo lá e depois vamos para minha casa. Preciso alimentar minha cachorra e levar alguns remédios, pois ela está doente.
– Onde fica sua casa? – disse ele arqueando uma das sobrancelhas.
– No bosque – murmurei.
– No bosque?! – respondeu Josh, surpreso. Como se tivesse levado um soco na barriga – Você não tinha um lugar melhor pra morar?
– Olha, eu me esforcei por muito tempo trabalhando e juntando minhas economias para comprar aquela casa, ok?
– Desculpa se pareci grosso – ele abaixou os olhos com tristeza – Mas é que eu não quero ser pego pelos Caçadores de Dons. Eles fazem coisas horríveis com as pessoas, e não quero isto pra você e nem pra mim.
Para mim? Ele se importa comigo?
– E porque esta atenção especial para mim? – finjo ser seca.
– Por que você é a única APS que eu vejo em sete meses – respondeu ele olhando fixamente em meus olhos. E como os olhos dele eram lindos, aquele azul de uma intensidade tão grande que me fazia ter desejos de mergulhar em águas mais profundas.
Depois de longos segundos, respondo:
– A única? Como posso ser a única APS que você viu nos últimos meses? Você deve ter visto outras pessoas. Só não se lembra.
Josh me olha com aqueles olhos ainda mais tristes. Certamente ele estava falando a verdade.
– Eu queria poder estar enganado, mas nestes últimos meses os Caçadores de Dons tem intensificado suas buscas, e isto está sendo uma grande ameaça para todos nós. Muitos amigos meus sumiram da noite para o dia. Famílias, vizinhos, até mesmo o padeiro que ficava trabalhava perto de casa. Todos eles sumiram. E eu nunca mais os vi...
Meus olhos ardiam a cada palavra dita por Josh. Ele tinha uma família e a perdeu. Diferente de mim que nunca teve ninguém, e consequentemente eu não saberia a dor de perder alguém querido.
Suspirei e fui em direção a Josh estendendo meus braços para um abraço quente e confortável. Todos nós tínhamos uma história para contar. Eu, Josh e os outros jovens que estão fugindo dos Caçadores de Dons. Todos nós estamos sendo caçados, mortos e o pior, sendo levados para uma ilha que fica escondida no meio do Mar da Nuvem.
Josh me envolveu com aqueles braços fortes e me apertou cada vez mais. Eu poderia reclamar do aperto, mas era bom. Quanto mais ele apertava, menos dor eu sentia. E provavelmente, ele também.
– Vamos? – disse ele, se soltando do nosso abraço.
– Vamos – digo, embaraçada com a situação.
Chegando à mina, nós adentramos aquele lugar rochoso e sem vida. Depois de muito andar, nós resolvemos andar mais lentamente até o final de uma fileira de rochas. Quando vejo algo incrível.
Havia uma enorme clareira, com casas de madeira. Logo em seguida havia um conjunto de árvores que formavam um “mini bosque” o que era bem estranho. Pra falar a verdade, eu nunca tinha visto árvores tão estranhas. Algumas tinham formatos engraçados, outras tinham diversas cores.
Passamos pelas casas e adentramos cada vez mais fundo no “mini bosque” até chegarmos a outra clareira. No meio da clareira havia um pequeno lago e logo depois outra casa, porém esta casa era feita de tijolos. A casa parecia pequena, e os desgastes dos tijolos davam um ar de velhice e mistério.
– Chegamos – disse Josh, em um tom alegre.
Não digo nada, apenas sorrio e olho pra frente.
Eu queria pular de alegria, mas a casa não era nada convidativa. O meu senso crítico gritava cada vez mais alto “você vai ser estuprada” “você vai ser estuprada” “corra antes que você perca o que você mais valoriza”. Aquilo tudo ficava martelando na minha cabeça, porém Josh parecia um cara legal. Ele não seria capaz de fazer tais atos.
– Sei que não é muito – disse ele, em um tom melancólico – mas é o que temos pra agora. E garanto que se os Caçadores de Dons chegarem aqui, teremos chance de entrar mais fundo na mina e fugir o mais rápido possível.
Eu podia sentir o orgulho em seus olhos, por ter pensando em me salvar dos Caçadores.
– Relaxa Josh. Já estive em lugar piores – sorrio.
Sinceramente, eu já estive SIM em lugares piores. Logo depois que eu saí do orfanato, eu comecei a passar muita necessidade. A ponto de ter que morar na rua. Este passado negro ainda me assombra.
Josh retribuiu o sorriso e segue em minha frente. Ele vai até a casa, tira uma chave do seu bolso e abre a porta. O engraçado é que ele faz referência para eu entrar primeiro. Como um cavalheiro de contos de fadas.
Dou uma risada, agradeço e entro.
– Bem vinda a minha casa.
Até que o lugar não era tão ruim. A sala era muito bem mobiliada e há uma lareira na parede. Tudo era muito arrumado e aconchegante. Observei uma foto em cima da lareira e vou até lá. Peguei a foto na mão e olha só! Era o Josh! E a sua...
– É a minha família – disse ele sério – Está é a minha mãe, meu pai, meu irmão e eu.
Ele apontou para cada membro na foto. Todos estavam muito alegres em frente a um vasto campo florido. Eles pareciam realmente felizes.
– Sua família é linda...
– Era linda, até os Caçadores de Dons colocarem as garras neles – Josh andou até a janela da sala e tentou conter as lágrimas que formaram em seus olhos. Havia ira em seus olhos e sede de vingança.
Vou até ele e coloco minha mão sobre seu ombro.
– Vai ficar tudo bem – sussurrei em seu ouvido.
– Eu sei – respondeu ele, forçando um sorriso.
Aquele clima não estava muito bom, porém nas horas seguintes a tristeza e o silêncio constrangedor entre nós foram melhorando aos poucos.
A casa tinha no total de três quartos, dois banheiros, uma cozinha, uma sala e uma sala de jantar. E o mais impressionante, debaixo de um tapete na sala, havia uma pequena porta por onde você entrava e dava direto a uma caverna! Isso mesmo havia uma caverna debaixo da casa!
A noite caiu e nenhum sinal dos Caçadores de Dons. Ou seja, estávamos seguros por enquanto. Josh havia preparado a cama no segundo quarto da casa. Eu agradeci e fui me deitar. Tudo havia acontecido muito rápido hoje. A perseguição dos caçadores, a doença da minha cachorra e o mais importante, Josh. Ele havia me salvado das perseguições e também me fez ter outra visão do horror que os Caçadores de Dons estavam fazendo.
A minha noite foi sem sonhos. Uma completa escuridão. Um nada.
Na manhã seguinte, eu acordei e fui até a sala. Estava enrolada em um cobertor e fitava a paisagem através da janela da sala. Tudo estava muito quieto. O que era bom, o silêncio às vezes ajuda. Principalmente numa hora como essas.
– Bom dia – disse Josh, com uma xícara de café em suas mãos – Quer café?
– Bom dia. – Virei-me e sorrio ao ver ele me fitando – Quero sim.
Levantei-me e fui ao encontro do mesmo, peguei a xícara de suas mãos e tomei um pequeno gole daquele café. E como estava delicioso! Fazia um bom tempo que eu não tomava um bom café. Fomos até a cozinha e comemos alguns pães que o Josh havia esquentado. Engraçado, que a cada momento ele me olhava com aqueles olhos cor do céu.
– Então – falei, cortando o silêncio entre nós. – Vamos até a minha casa hoje?
Josh me analisou erguendo uma de suas sobrancelhas. Aquilo dava um charme especial a ele.
– Não sei – ele coloca a sua mão direita no seu queixo, começa a passar suavemente seus dedos em sua barba rala e fingiu um pensamento. – Será que devemos ir? Sei não viu – Josh começou a rir.
– Vamos sim! – protestei.
Ele riu e me abraçou, depois passou um de seus braços por meu ombro e sussurrou:
– Mas é claro que vamos – me arrepiei quando sua voz passou por meus ouvidos – Porém teremos que ser rápidos, ok?
– Ok – respondi.
Sai de seus braços e fui até a porta.
– Vamos?
Josh sorriu, pegou a chave, saiu. Eu o sigo e ele tranca a porta.
Começamos a nossa pequena jornada até a minha casa. O ruim dessa historia toda é que eu moro no meio do bosque que foi alvo dos Caçadores de Dons. Eu não sabia se eles ainda estavam por lá, mas algo de muito valioso estava na minha casa. A minha cadelinha.
Ela estava muito doente e precisava dos meus cuidados, porém com o decorrer da situação, eu não consegui voltar para casa e medicá-la. Espero que ela esteja bem.
Andamos por longos minutos pelo bosque, estávamos fazendo o mínimo de barulho possível. As árvores balançavam suavemente com a brisa, vi ao longe a grande cratera que a bomba havia formado no lago, consequentemente o lago acabou ficando seco.
Avistei ao longe a minha casa e apontei para que Josh visualizasse. Ele sorriu quando avistou minha casa. Chegando lá, fui até um vaso azul na janela, levantei-o e peguei a chave da porta. Tudo parecia normal, mas eu estava enganada.
Quando eu abri a porta da sala, encontrei a minha casa toda revirada. Os móveis estavam todos espalhados pelo chão e muitas das minhas flores estavam danificadas. As gavetas dos armários estavam todas arrancadas. Tudo estava um verdadeiro desastre. Não pensei duas vezes e comecei a gritar o nome da minha cadelinha.
– Andrômeda! Onde você está?! – grito entre choros.
Josh me ajudou a procurá-la, mas ela não estava na sala. Corri por todos os cômodos, quando entrei no meu quarto. Ela estava estendida na minha cama. Havia sangue por todo lado. Perto da cama havia algo que parecia tripas. Meu grito de horror ecoou por toda casa. Josh veio ao meu encontro e se horroriza ao ver tal cena. Aquilo era demais pra mim.
Fui ao encontro da minha cadelinha e comecei a chorar. A dor era insuportável. Eu gritava cada vez mais forte e chorava cada vez mais. Josh tentava me acalmar, mas era em vão. Quem poderia ter feito uma atrocidade dessas? Quem teria coragem de matar algo tão inocente, como um cão?
Olhei mais atentamente para a minha cadelinha, quando percebi que havia balas nela. Ela havia tomado tiros! E então percebi o que estava acontecendo! Aquilo era uma armadilha!
– Josh! – gritei ao olhar pra ele – Balas!
Josh a analisou e me olhou espantando.
– Merda! – gritou ele.
Ele sabia o que estava acontecendo. Quando tivemos a ideia de correr, os vidros da janela se espatifam em milhões de pedaços, e vários homens mascarados entraram no quarto. Vários deles estavam apontando armas para nós.
Porém nós tínhamos poderes, aquelas armas seriam em vão contra nós. No momento em que Josh iria usar seu cajado para congelá-los, um dos homens mascarados atirou em nós. Uma onde de choque percorreu por todo meu corpo, fazendo-o ficar imóvel. Eu caí no chão, logo seguido por Josh. Estávamos caídos no chão, indefesos.
Minhas pálpebras estavam pesadas. Eu sabia o que estava acontecendo. Eu iria dormir. Eu tentava lutar contra aquilo, mas era falho. Aquilo era muito mais forte que eu. Eu não conseguia nem usar meus poderes para tentar escapar! Que merda! Estávamos ferrados.
Antes de adormecer, ouço uma voz feminina ao longe:
– Levem eles para a escola, vamos precisar deles. Ambos são poderosíssimos, e será de grande ajuda ter um aliado como eles – disse a voz feminina, com um riso maléfico.
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