Princesa Emily
25 Uma espécie de psicopata?
Notas iniciais
O despertador de Charlie tocou e ele acordou bocejando.
Esfregou os olhos se sentando na cama dando um tapa no despertador o fazendo calar a boca.
Olhou para frente e suspirou cansado, seu ânimo de trabalhar havia ido para os ares há uma semana quando seu mundo virou de ponta cabeça e despencou literalmente do céu ao inferno.
Fechou os olhos ao lembrar da primeira pessoa que sempre vinha em sua mente pela manhã.
É, fazia um semana, sete dias, 168 horas, 10.800 minutos e 604.800 segundos que ele estava sem Emily, sem nada.
Às vezes ele pensava porque, porque tudo aquilo acontecia com ele, porque parecia que o universo conspirava para que tudo desse errado com ele, desde as coisas mais simples até as mais complexas, tudo! No começo poderia parecer que daria certo, mas depois tudo ia água a baixo, toda vez era assim.
Nathan não estava mais ali, provavelmente já estaria trabalhando, ele sempre saia um tempo mais cedo.
Ele se levantou da cama em um pulo vestindo seu uniforme indo até o refeitório.
Como os guardas tinham vários horários, havia relativamente poucas pessoas ali. O moreno dos olhos verdes pegou uma bandeja colocando seu café sobre ela e depois se sentou em uma mesa aleatória vazia.
O dia mal havia amanhecido direito, eram apenas 6h00min, o céu estava entre o claro e o escuro. Ele comia devagar, tomando seu café hiperquente em pequenos goles.
Queria tanto sair dali, ficar um tempo em frente aquela fonte aonde tudo começou e ouvir passinhos cuidadosos se aproximarem e logo depois o braços finos envolverem sua cintura e a cabeçinha apoiada em seu peito ouvindo as compassadas batidas de seu coração acelerado.
– Oi Charlie – Ryle disse se sentando com ele.
– Oi – Charlie respondeu tomando mais um gole de café.
– Você poderia trocar de turno comigo?
Charlie levantou os olhos.
– Ah... sim, claro, mas por quê? – ele perguntou.
– Bem, eu soube que diminuíram sua carga horária e só trabalha até as seis agora.
– É – Charlie sorriu.
– Então, eu trabalho a partir das 6h00min e vou até meia noite, mas hoje minha namorada vai vir pra me ver a noite... poderia quebrar meu galho?
Charlie o olhou. "Namorada", aquela palavra havia se tornado tão dolorida para ele, mas ele podia entender a saudade que Ryle devia sentir dela.
– Posso, fica tranquilo – Charlie sorriu – isso significa que eu posso dormir mais?
Ryle sorriu de lado.
– Pode – ele concordou.
– Então beleza – Charlie sorriu simpático – então, onde você cobre?
– Ah sim, o castelo, das 6h00min ás 09h00min eu fico na biblioteca, depois no andar real, do lado do quarto da Princesa para ser exato.
O coração de Charlie subiu até a boca. Era brincadeira?
– O quarto da Princesa? – ele perguntou e Ryle assentiu.
– É – ele concordou – sabe, é bem divertido porque ela não é chatinha, nunca me pediu nem "ordenou" algo, ela apenas me dá boa noite, entra no quarto e não sai mais, é moleza.
Charlie assentiu, tinha a sensação de que isso não daria certo.
– Agora vai dormir que eu tenho que trabalhar – Ryle sorriu para Charlie indo cobrir o turno do mesmo.
Charlie tomou o resto do café em um gole, tinha evitado tanto ver Emily nessa semana... agora não daria mais para fugir dela.
. . .
Charlie ia em direção a biblioteca, pelo menos por três horas estaria em paz, porque a biblioteca do palácio não era um lugar muito frequentado, na verdade ele tinha quase certeza de que ninguém nunca ia lá.
Entrou e cruzou a biblioteca ficando parado, era só isso que ele tinha que fazer, ficar parado.
Por algum motivo ele gostava do cheiro dos livros, o reconfortava, o trazia paz por algum motivo que ele não sabia... mas com certeza o lembrava algo. Assim como cheiro de bolo lembrava sua casa, sua mãe colocando o café na mesa, seu pai lendo o jornal e suas irmãs brigando por causa de maquiagem, escova de cabelo e coisas do tipo. Ele nunca deu valor às pequenas coisas, mas assim que saiu de casa nunca sentiu tanta falta de sua família.
Sorriu ao pensar que Lindsay, Megan e Taylor iriam se divertir o ajudando com seus problemas amorosos. Elas eram trigêmeas e tinham uma espécie de ligação surreal. Tinham os cabelos mais claros que os de Charlie e os olhos eram azuis, tinham puxado mais a mãe do que o pai, já Charlie era a cópia de seu pai Jack, a cópia.
Charlie saiu de casa para virar guarda com 17 anos, a idade mínima, na época as meninas só tinham 18, agora elas estavam com 20. E pensar que nesses dois anos que esteve fora, só conseguiu ver sua família duas vezes nas férias de fim de ano. Sentia tanta falta deles.
Os pensamentos do garoto se dispersaram quando ele viu uma certa Princesa loira, com um vestido azul curto e um pouco brilhante, os cabelos loiros em um rabo de cavalo com um pedaço da franja encaracolada solta e os cachinhos no rabo.
Ela foi andando diretamente para um lugar especifico e Charlie fechou os olhos se chamando de burro lembrando de todas as vezes que se encontraram na fonte e ela estava com um livro nas mãos. ELA GOSTAVA DE LER e ele não teve a capacidade de assimilar que com isso ela entrava na biblioteca, nem que fosse uma vez ou outra para pegar um livro. E é claro que ela tinha que entrar naquele dia, naquela exata hora.
Ele virou a cabeça para cima e fechou os olhos. "Mundo, você me odeia, não é? Pode falar" ele pensou respirando fundo.
Vontade de ir até ela? Ele tinha. Tentar resolver tudo? Ele queria. Deixar o orgulho de lado e criar coragem para fazer tudo isso? Eis a questão!
Tentou evitar não olhar pela estante vendo-a ler calmamente com a pequena mecha da franja levemente encaracolada caída do jeito mais perfeito sobre seu olho azul elétrico.
Doía nele só o fato de olhá-la, doía saber que ela não era mais dele por uma decisão... dele mesmo, mas por culpa dela... ou não.
Ela era tão linda...
Charlie suspirou com a cabeça enfiada entre os livros graças ao espaço que ele abriu na estante para colocar sua cabeça e observá-la. Suspirou tão forte que um pouco da poeira foi em seu nariz o fazendo espirrar.
Olhou sutilmente novamente pelo buraco e viu Emily com o cenho franzido olhando para os olhos provavelmente pensando de onde teria vindo aquele espirro. Relaxou o cenho e voltou a ler o livro.
Felizmente (ou não) ela leu apenas as primeiras páginas do livro e saiu com ele em mãos fazendo Charlie fechar os olhos se apoiando na estante, queria, mas não queria que ela ficasse ali. Era apenas muito chocante vê-la depois de uma semana depois do... ocorrido.
. . .
– Oi Charlie, viu o Ryle? Ta na hora dele e eu to morrendo de sono – perguntou Dexter.
– Eu troquei meu turno com ele hoje, pode ir Dexter – Charlie deu um tapinha no ombro de Dexter que sorriu parecendo bem cansado.
– Valeu Charlie, boa sorte – ele devolveu um tapinha no ombro de Charlie e saiu.
Charlie se alinhou no lugar de Ryle e ficou ali, querendo que às três horas ali passassem bem rápido.
A verdade é que ficar no castelo era bem entediante, no jardim fazendo ronda pelo menos ele ficava andando podendo respirar um pouco, no castelo ele não podia nem se mexer, apenas olhar fixamente para frente como uma estatua.
Ele ficava apenas vendo as pessoas passaram para lá e para cá com ternos ou vestidos bonitos. Todos meio apressados, "ocupados" com algo "importante" de mais.
É, ele definitivamente preferia mil vezes acordar cedo, trabalhar até as seis e ficar descansando, sentiu dó de Ryle pó fazer isso todo o dia. Era entediante!
Até que no meio do silencio um garotinho, loiro de olhos azuis, de terno (para variar) se aproximou do quarto de Emily e bateu na porta. "Príncipe Carter" Charlie pensou enquanto ele batia insistentemente na porta branca do quarto da irmã.
– Emy, abre a porta – ele pediu – chata... rabugenta... Emy!
"Devo falar que ela não está ali?" Charlie se perguntou, mas antes de ter uma resposta o Príncipe se aproximou dele.
– Boa tarde, o senhor poderia me informar se a Princesa está em seus aposentos?
– Ela não está, Príncipe Carter – Charlie respondeu apenas.
– Certo, obrigado soldado... – ele leu a plaquinha no peito de Charlie – Martin – ele completou se afastando e descendo as escadas.
Charlie sorriu, o garoto era muito fofo.
Quando eram pouco mais de 23h00min Emily apareceu, parecia meio exausta e sem cerimônias abriu a porta do quarto entrando. "Ela nem me viu" pensou Charlie por um lado cabisbaixo.
O movimento aquela hora no castelo diminuiu bastante, na verdade, mais ninguém passava ali, se duvidasse, só os guardas da noite estavam acordados, ou pelo menos fora dos quartos.
Aquele silencio angustiante juntamente com o escuro do céu revelado pelas janelas de vidro deixavam aquele castelo meio "assombrado" naquele momento. Tão solitário e silencioso que os ouvidos de Charlie até tilintavam de angustia como sinos finos com um badalar continuo sem pausas.
Estava tão quieto que a própria respiração de Charlie era absurdamente barulhenta como uma bomba nuclear.
Finalmente seu turno havia acabado, exatamente a meia noite o guarda da madrugada Gatsby veio assumir e Charlie agradeceu saindo. O moreno havia dormido tanto aquela tarde que ainda não estava com sono.
Ele saiu do castelo rondando o jardim até chegar aos dormitórios dos guardas, mas no meio do caminho parou de andar olhando para cima vendo a janela do quarto de Emily que parecia estar com uma frestinha aberta.
Ele suspirou brigando consigo mesmo com o que estava pensando em fazer. Hesitou um belo tempo ali dando um passo para frente e depois uma para trás, fez isso repetidas vezes até ser vencido e ir escalar até o quarto da Princesa.
A sorte é que a parede era meio que coberta por árvores de certa forma o camuflando enquanto ele escalava.
É, não era tão fácil quando pode parecer. Machucou a palma das duas mãos e por isso colocou a manga do blazer para amortecer a dor enquanto subia.
Olhou rapidinho para o quarto dela vendo que a mesma dormia tão profundamente e de um modo tão delicado...
Abriu a janela e pulou silenciosamente dentro do quarto fechando a janela atrás de si.
Andou até Emily a olhando. Mesmo dormindo, com o cabelo levemente bagunçado todo passado para um lado e a bochecha um pouco espremida contra o travesseiro continuava linda como sempre.
Bem devagar ele sentou na beirada da cama de frente para ela a observando dormir.
"Porque você não pode ficar comigo?" ele pensou suspirando sendo um pouco ousado ao tocar levemente o rosto de porcelana dela.
– Eu te amo muito, por favor, nunca se esqueça disso – ele sussurrou sentindo a pele quente de seu rosto contra sua mão – estou sofrendo tanto sem você... faça algo sobre isso, você é a Princesa, pode mudar as coisas – ele disse agora um tanto indignado.
E ele ficou ali, apenas a observando dormir, não tinha medo de que ela acordasse e o visse ali, talvez isso fosse até bom para eles poderem conversar e ele falar o real motivo de ter acabado tudo.
Ele viu o beijo inteiro e ouviu também, e ficou mais que claro que foi aquele... filho de uma égua que avançou nela e ela claramente resistiu. Mas ali, vendo aquela cena ele percebeu que ela nunca seria dele, e foi levado pelo calor do momento formado pelo ciúme e tristeza e terminou tudo para que ambos não sofressem quando aquilo tivesse que acabar.
Era meio coisa de psicopata ficar observando uma pessoa enquanto ela dormia... mas ele não tinha nenhum motivo ruim para fazer aquilo, só queria olhá-la mesmo... e deitar com ela, a abraçar, dar vários beijos naquela boca...
– Dorme bem e seja feliz, minha Princesa – ele depositou um delicado beijo na testa de Emily se levantando da cama a olhando pela última vez.
Suspirou e começou a descer pela parede.
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