Princesa Emily 2
29 A fábrica fechou.
Notas iniciais
Charlie parecia uma criança birrenta com aquele bico enorme estampado em seus lábios.
Emily o empurrava devagar pelos corredores do castelo em direção ao salão. Não fazia nem dez minutos que Charlie havia sido liberado, mas claro, ele teve uma "alta" simbólica, porque ainda não podia fazer esforços, nenhum tipo de esforço, nem mesmo andar.
– Da pra pelo menos parecer feliz? – Emily perguntou.
– E porque exatamente eu estaria feliz? Estou em uma cadeira de rodas!
Emily suspirou e virou a cadeira para ela se agachando em frente a ele para olhá-lo de igual pra igual.
– Tem sorte de ser temporário – ela disse – e se tivesse levado um tiro na coluna e ficasse paraplégico? – ela acariciou o rosto dele – agradeça por estarem todos bem, inclusive você.
Ele suspirou segurando a mão dela em eu rosto.
– Desculpa, estou sendo um chato – ela sorriu – mas... a cadeira de rodas é mesmo necessária?
– Sim, até amanhã pelo menos, depois você pode usar muletas por mais alguns dias – ele assentiu – depois poderá andar sozinho, devagar, claro.
– Menos mal – ela sorriu de volta e arrumou o cabelo dele.
– Com fome?
Ele assentiu e ela se levantou.
– Então vamos.
Ao entrarem no salão, viram todos ali que imediatamente olharam para Charlie.
– Por favor, não me olhem como se eu fosse um inválido – ele pediu e todos acabaram sorrindo.
– Jamais, Charlie – Anne sorriu pra ele.
Isabelle se levantou elegantemente soltando a mão de Tyler.
– Olá senhor Martin – ela disse sorrindo.
– Oi querida – ele sorriu – queria cumprimentá-la direito, mas...
– Imagina, tudo bem – ela apertou a mão dele.
Charlie olhou para a mulher.
– Me sinto um inválido.
Emily revirou os olhos.
– Quietinho General Martin – ela foi empurrando sua cadeira de rodas até seu lugar na mesa.
* * *
– Mas eu preciso...
– Senhor – o soldado o cortou – está em férias obrigatórias por uma semana, sem esforço físico nem mental.
– E oque minha cabeça tem a ver com tudo isso?
Emily apenas sentou querendo ver onde tudo aquilo ia chegar.
– Bom... realmente não sei, mas parece que o senhor não pode se estressar, então sem trabalho.
– Charlie – Carter se aproximou dele – aproveite e descanse, que coisa, nunca vi alguém gostar tanto de trabalhar.
– Doido, só pode – Emily murmurou – me casei com um maluco.
– Pensei que já soubesse – Charlie a olhou rapidamente.
– Vocês dois me comovem – Carter sorriu – mas sério Charlie, tente relaxar um pouco, usufrua da boa vontade de minha irmã.
– Hey! – Emily se protestou.
– Shiu, o papo é de homem aqui, com licença – Carter voltou a olhar para Charlie – eu vou assumir seu lugar nas investigações nessa semana, não se preocupe.
Ele olhou para Emily em um claro pedido de ajuda, mas a mulher apenas deu de ombros.
– São recomendações médicas, quem sou eu pra discordar delas?
– Certo, e oque eu farei por uma semana?
– Nada – Carter deu de ombros.
– Essa é a questão! Não aguento ficar sem fazer nada!
– Não leve ao pé da letra, meu amor – Emily revirou os olhos – não vou cuidar de nenhum assunto relacionado ao orfanato essa semana, vou ficar com você.
– Como se isso fosse bom – ele murmurou e ela arregalou os olhos – não! Não assim! Quero dizer, é meio torturante ficar perto de você sem poder fazer "esforços".
– Por favor, me poupem dos detalhes da relação sexual de vocês – Carter negou com a cabeça se levantando e Emily riu – bom descanso Charlie, e boa sorte Emily.
E assim Carter se retirou.
– Deveria ficar do meu lado, sabia? – Charlie impulsionou as rodas com as mãos até ficar de frente pra mulher.
– Estou do seu lado – ela colocou a mão sob a perna dele – só quero que melhore logo ok?
Ele bufou derrotado. Charlie poderia ser adulto, mas havia horas que meu deus, era pior que criança.
Emily olhou o relógio em seu pulso e se levantou desfazendo o coque em seus cabelos.
– Vou tomar banho, você vem?
Ele a olhou bravo.
– Obrigado, dispenso a tortura.
Ela riu e foi até ele novamente se ajoelhando em frente ao marido.
– Quer um beijo? – ela fez beicinho e ele sorriu fraco.
– Você é impossível – ele segurou o rosto dela entre as mãos e a beijou.
– Eu sei – ela voltou a se levantar indo até a porta do banheiro – quer ajuda pra se deitar?
– Não, eu me viro.
– Mas e o pijama...
– Emily...
– Charlie – ela cruzou os braços – quer saber? Desisto, faça oque quiser, apenas grite se precisar de mim.
Charlie suspirou assim que a viu fechar a porta do banheiro. Ignorou a cadeira de rodas e se levantou, afinal não estava aleijado, apenas não era recomendável ficar andando. Foi até o closet e pegou um dos shorts de seu pijama e trocou de roupa devagar sentindo uma dor chata no peito toda vez que se mexia. Olhou seu reflexo no espelho vendo a cicatriz em seu peito e suspirou inclinando a cabeça de leve para o lado. A tocou devagar pensando como Emily reagiria a ela depois de um tempo, será que sentiria repulsa dele?
Colocou a camisa por se sentir mal. Fazia um bom tempo que ele não usava camisa pra dormir, mas o incomodava o fato daquilo ficar exposto.
Voltou para o quarto devagar e se deitou na cama. Pegou o livro que estava no lado de Emily na cama e foi ver sobre oque ela estava lendo, admirava muito o gosto pela leitura que ela tinha, gosto esse que nunca o atraiu.
Uma pontada mais forte atingiu seu peito e ele instintivamente colocou a mão na região. "Droga" suspirou afundando a cabeça nos travesseiros.
– Amor, você precisa tomar esse remédio e passar isso – Emily saiu do banheiro com sua curta camisola branca que exibia metade de sua bunda e toda sua perna, como Charlie se acostumou a ver. E não que eles transassem todo dia, mas ser impedido de fazer isso só aumentava seu desejo, e bem, vê-la daquele modo não ajudava nada.
– Ok.
Ela o olhou passando uma mecha do cabelo para trás da orelha e franziu o cenho.
– Porque está de camisa? Você nunca dorme de camisa.
Ele deu de ombros.
– Senti frio.
Ela ergueu uma sobrancelha e cruzou os braços indo até ele.
– Sentiu frio?
Ele assentiu.
– Por acaso já disse alguma vez que você não sabe mentir? – ela disse abrindo a gavetinha ao lado do criado pegando o remédio e a pomada – toma isso – ela lhe entregou o comprimido junto com a água e ele tomou rapidamente.
– Gosto ruim.
– É, me falaram – ela disse abrindo a pomada – agora levanta a camisa pra eu passar.
– N-não, pode deixar que eu passo.
Ela voltou a franzir o cenho.
– Não tem problema Charlie, eu passo.
– É que... você não vai dar boa noite as crianças?
– Já dei... qual o seu problema?
– Nenhum.
Ela deu de ombros segurando a barra da camisa dele para levantá-la, mas ele segurou sua mão antes.
– Ta, qual o problema?
Ele a olhou e segurou a mão dela dando um beijinho em seu pulso.
– Não quero que sinta nojo.
Emily o olhou por alguns segundos e soltou a pomada se sentando ao lado dele na cama.
– Acha mesmo que eu vou sentir nojo de você por causa de uma cicatriz?
Ele deu de ombros.
Emily o olhou novamente, segurou sua nuca e o beijou. Suas línguas se tocaram com calma até ela encerrar o beijo com um selinho.
– Eu te amaria mesmo que tivesse duzentas cicatrizes – ela disse.
– Não, você não teria se apaixonado por mim se eu fosse feio e cheio dessas coisas.
– Charlie, olha pra mim – ela segurou o rosto dele – me apaixonei por sua gentileza, por sua coragem e por sua doçura – ela disse – claro que sua beleza me atraiu, mas oque me fez ficar foi oque você tem por dentro – ela se arrumou na cama – caso não lembre haviam 15 meninos me disputando enquanto eu estava com você, e sim, havia alguns bem bonitos.
– Emily, não quero ouvir isso.
– Mas – ela simplesmente não ligou – você era o guarda simpático, e ninguém conseguia ser como você. oque realmente importa é o conteúdo, meu amor.
– Certo, você se apaixonou pelo garotinho romântico e bobo que eu era. Mas agora eu tenho uma marca estranha no peito.
– Você não era bobo, e ainda continua sendo romântico – ela revirou os olhos sorrindo.
Segurou a camisa dele a levantando. Levantou o suficiente para ver a cicatriz e se inclinou a beijando devagar.
– Eu amo essa marca, e amo ainda mais o porquê de ela estar ai – ela acariciou o peito dele – você levou um tiro por nossa culpa, e eu sou infinitamente grata por me protegido e protegido nosso filho.
Ele sorriu e a puxou para um abraço.
– Linda – ele beijou o topo da cabeça dela.
– É sabemos, sou uma ótima esposa – ela brincou terminando de tirar a camisa dele que se deitou.
– E mãe também – ele completou.
Ela sorriu e logo depois se deitou no ombro dele devagarzinho para não machucar e ele sorriu a envolvendo com um braço.
– Isabelle está bem instalada em seu quarto?
Emily sorriu.
– Nós dois sabemos que ela não vai dormir em seu quarto, Tyler deve estar indo buscá-la discretamente agora.
– É... me lembra alguém, sabe? – Emily sorriu respirando o cheiro gostoso de Charlie – pelo menos ele não precisa escalar a janela para buscá-la.
Ela sorriu mordendo o lábio ao lembrar daquela época.
– Não acha que eles... ?
– Não, com certeza não – Charlie disse e Emily o olhou.
– Como pode ter tanta certeza?
– Bem, conheço meu filho o suficiente para saber que ele é igual a mim – ele disse – e se eles tivessem transado, com certeza ele estaria com cara de idiota e os dois ficariam trocando olharezinhos envergonhados e apaixonados e rindo de piadinhas internas.
Emily riu.
– Você ficou todo bobão depois da nossa primeira vez?
– Certo, essa não era uma coisa que você precisava saber – ela voltou a rir.
– Achei adorável – ela acariciou a barriga dele – até porque, eu fiquei igual.
Ele sorriu pra ela acariciando seu rosto.
– Mas você acha que eles planejam isso?
Charlie deu de ombros.
– Não sei, mas acho que ele quer esperar mais um pouco, e Isabelle não parece do tipo fácil.
– Então eu era fácil?
– Não! Quer dizer, só... transamos antes de casar pelas circunstâncias extremas, certo?
Ela assentiu.
– Tive muito medo de não poder fazer isso com você – ela disse – então foi só por garantia.
Ele riu.
– Então, creio eu que tanto Alex quanto Tyler tem essa mentalidade. Eles tratam o amor como algo realmente sério, coisa que geralmente adolescentes não fazem.
– Sim, também percebo isso – Emily disse – mas acho que parte disso é culpa nossa, afinal, eles sempre tiveram nosso exemplo, e bem, eu tive esse exemplo com meus pais e por isso sempre encarei o amor com seriedade.
– Olha só, fizemos algo certo na vida – ele disse e Emily riu.
– Fizemos três coisas certas.
– Quatro – ele sorriu beijando o nariz dela que abraçou seu pescoço – oque acha de uma quinta...?
– A fábrica fechou, General. – ela disse apenas e ele gargalhou.
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