Primos conflitantes

1 Akai - Vermelho sem fim


Notas iniciais
Isso foi um pesadelo que tive anos atrás

Aka – Vermelho sem fim

Katherine Pov’s On

Não importa onde nossos pés nos levassem, sempre encontraríamos morte, dor e sofrimento.
Tudo começou no inverno de 1999, Sibéria. Meu avô e a avó do meu primo se casaram, unindo ainda mais os laços familiares já existentes. Nossos pais haviam morrido e quem cuidava de nós eram eles e agora juntos, formaríamos uma família mais forte e feliz. Ou pelo menos foi o que eu pensei que iria acontecer.

No ano seguinte, já morávamos juntos em uma cabana simples de madeira, que mais parecia com um chalé de caça. Todos os dias a neve caía sem parar e isso me dava um caía pressentimento de que talvez os céus estivessem prevendo o que estava por vir.
Nossa cabana era quentinha em meio às montanhas e tanta neve. Isolada de tudo e de todos, morávamos nós quatro a 20 minutos da cidade.

De manhã cedo ao acordar, sempre ia direto ao espelho do banheiro para pentear meus longos cabelos castanhos e me olhava no espelho, vendo que a espinha do outro dia havia desaparecido por completo, constatando que aquele remédio que outrora minha avó comprou era mesmo eficaz.

Branquinha de olhos verdes e o corpo nem era gordo nem magro. Não poderia ser mais diferente de meu primo. Um suspiro deixou meus lábios, ao pensar nele e imediatamente parei de pentear meus cabelos ondulados, pensando se algum dia conseguiria alcançar aquele garoto. Tudo nele era diferente de si. Seus pensamentos, seus desejos, seu físico... A única coisa que compartilhavam era a idade e o gosto por jogos.

Ele era alto e moreno seu olhar profundo e dourado parecia ler a todos. Seus lábios não conheciam o significado da palavra alegria. Sério como adulto nenhum conseguia ser, Mauro tinha os cabelos lisos e as pontas onduladas de um negrume maior que a noite, os mantinha penteados de forma uniforme e mesmo seus cabelos sendo na altura do ombro e soltos, jamais estavam bagunçados, mas não era isso o que mais chamava a atenção. Eram aquelas duas pintinhas pretas cada qual em um local mais estratégico que o outro, sendo uma acima do lábio superior e a outra do lado do olho esquerdo.
Em um dia como outro qualquer, tivemos de comprar pão para o desjejum e nossos avós nos levaram para um “passeio à cidade” como eles chamavam, pois sempre que nos levavam, compravam alguns doces e ficávamos na loja de videogames onde jogávamos nosso tempo e dinheiro fora.
Mas neste dia, fora diferente. Após nos deixar na loja de videogames, foram sozinhos ao mercadinho e sorrindo, disse inocente ao primo enquanto ligava o jogo que costumava jogar.

– Hoje vou matar mais que você, Mauro! Você vai ver! – Comecei a “atirar” apertando nos botões coloridos e movendo o cursor com a alavanca amarela, concentrada na tela brilhante diante de mim.– Há! Até parece que vou perder pra uma garota. – Ele ria de forma sarcástica. Sim, ele ria, mas apenas era o sarcasmo brotando de seus lindos lábios. Eu não gostava desse sorriso, mas era a única forma que encontrava para vê-lo sorrir e isso só me fazia matar mais monstros e zumbis.

De repente, olhei para os lados e não mais o encontrei em sua máquina favorita. Onde estaria ele? Foi no banheiro?

Dei pause no jogo que se tornara monótono após tantas vezes jogando o mesmo e procurei pelo local, caminhando, até que me veio uma ideia na mente:

“Se o chamar pelo segundo nome, ele logo vai responder irritado com aquela boca retorcida e engraçada.”

Pensando nisso, fui procurá-lo, caminhando pelo local abandonado por todos, menos por nos dois e o dono do estabelecimento, que não se encontrava em lugar algum também, o que era muito incomum, pois quando estávamos devendo dinheiro pra ele, sempre nos olhava jogando com a face emburrada e não tirava os olhos da gente até que pagássemos.

Continuei a chama-lo, mas minha voz foi morrendo aos poucos, ao me deparar com uma cena que me fez tremer como em filmes de terror:

– Mauro Filho, a vovó vai chegar logo e não vai gostar de... Sangue.

Vermelho. Apenas esta palavra veio a minha mente quando vi o chão e a parede molhados pela minha segunda cor favorita. Não conseguia olhar para o corpo diante de mim que tinha os olhos serenos e fechados, pois meu olhar atravessava o homem barbudo apenas para ver a parede atrás dele. Vermelho. Líquido vermelho por toda parte.

Aquilo não era sangue, aquilo não era sangue. Meu cérebro se recusava a entender aquilo como o que realmente era.

Mas infelizmente, o liquido vermelho saia de dentro dele. Da barriga do homem que estava deitado no chão. Encostado na parede com seu corpo torto como se houvesse sido atropelado ao invés de esfaqueado.

–Se ficar olhando demais, vão pensar que foi você. – Mauro interrompeu meus pensamentos. Sequer havia conseguido mover um músculo de meu corpo e sequer havia percebido que não conseguia.

“Estava em choque? Por isso não chorava? Por isso não gritava?”

– Ouviu o que eu disse? Temos de sair daqui. – Então eu vi uma mão na minha frente. Vermelho. Era ele, me chamando para sair do transe, estendendo sua mão manchada com o crime recente para me ajudar.

Seu olhar... O olhar que achava o mais belo dentre todos, estava frio como jamais fora.

– Mauro... Você tem de se limpar, ou vão pensar que foi você. – Dizia como quem repetisse o que o maior havia dito. Minha voz saiu tremula, deixando uma lágrima cair de meus olhos marejados e aceito a mão que antes desejava me guiar para a saída, puxo para dentro do banheiro masculino com força, sem me importar com mais nada, muito menos com o corpo que tivera de passar por cima para entrar no toalete.

– Ei! – Não me puxa assim! – Ele ainda tinha coragem de reclamar como se nada houvesse acontecido. Desesperada, abro a torneira no máximo, lavando as mãos do assassino, voltando a chorar, agora com lágrimas espessas e pesadas.

– Cala a boca! Cala a boca, Mauro Filho! – A voz que antes gritava com o outro que sempre estava tão sério e calmo, se tornou cada vez mais fraca, até morrer em um simples choro. O silêncio dizia tudo. Ele se calou e não se incomodou por ter sido chamado pelo segundo nome. Ele sabia que tinha feito algo imperdoável, mas não sabia do porque ela o estar ajudando.

Katherine Pov’s Off

– Apenas... Apenas cala a boca. – Ele não sabia, mas ela chorava por ele, não pelo homem no cômodo ao lado, então, ele a abraçou, com as mãos vermelhas ainda, mas de tanto que ela as esfregou, molhando sua roupa com a água que ainda estava ligada ao máximo.

O silêncio ainda reinava no banheiro, até que a garota levantou o olhar, mais calma e se afastou do moreno, suspirando sem mais chorar:

– Devemos voltar. – Limpava as lágrimas com a costa das mãos, indo na frente tremendo um pouco, mas sem mais chorar e passa pelo homem novamente, sem o olhar.

Ao voltar para o salão de jogos, ficando de frente para seu game pausado, fica a pensar se deveria continuar. Não iria conseguir fazer nada com empolgação, apenas entraria no modo automático e sabia disso, mas quando os avos chegassem, iriam perceber que não estaria em seu vício favorito, então, apenas voltou a jogar, tentando pensar em qualquer outra coisa, sem conseguir.

Logo seu primo volta, caminhando com as mãos dentro do bolso da calça e como sua prima, volta para seu jogo, mas sem hesitar, volta a jogar, com a face indecifrável.

Uma buzina estridente se faz soar do lado de fora do ambiente onde os jovens se encontravam e a garota desliga o jogo, indo até o jipe verde musgo, mas ao ter uma demora extra por parte do moreno, o avô desceu do carro e foi buscar o menino, que ao ver o avô, desligou imediatamente a máquina. Sempre faziam isso, mas Katherine foi uma exceção naquele dia.

– Nossa, veio rápido hoje. Nem precisei chamar. O que houve? – Perguntou a avó preocupada, obtendo como resposta um muxoxo aparentemente emburrado. – Perdi no jogo. — Logo entraram no carro, o avô acompanhado do neto moreno que mantinha seu ar sério habitual.

Ao chegarem na cabana, a garota foi direto para o quarto, sendo seguida pelo primo sem perceber, que tratou de trancar a porta assim que adentrou o lugar:

– Você não contou. Por quê? – Vermelho. Sua blusa era vermelha. Foi por isso que eles não perceberam as manchas na blusa dele? Vermelho no vermelho. Parece até premeditado.

– Contar o que? Não aconteceu nada. Eu apenas perdi no jogo. – O que eu diria? Que meu primo é um assassino? Que o homem que eu amo está tão morto por dentro a ponto de matar alguém? Não. Não há o que dizer.

– Hum... Você está bem com isso? – O olhar incrédulo dela respondeu a pergunta do moreno, que até então não mostrava o que se passava em sua mente, mas ela quase sempre podia o ler. Quando o conheceu, tanto os pais da garota quanto os dele morreram devido à queda do avião onde estavam. Uma segunda Lua de mel que os dois casais haviam resolvido fazer juntos no Brasil

– Como você ousa perguntar isso? – Mais lagrimas deixavam os olhos de Katherine úmidos, que desde muito tempo tentava as prender para que os avós não percebessem. Embora ela soubesse que ele estava preocupado, não sabia o motivo. Não mais reconhecia o moreno.

–... – Nada. Ele não dizia nada e não era necessário. Ele sabia que ela não estava bem. Então, uma pergunta pôde ser ouvida com dificuldade, devido ao tom fraco que escapou dos lábios da menina.

– Porquê? – Surpreendendo mais uma vez a garota de olhos verdes, o moreno a abraçou mais uma vez. Aquela havia sido a segunda vez que isso acontecia em toda sua vida. Mauro sempre odiou abraços, então porque a estava consolando tanto? Nem ele sabia o motivo.

– Por que ele te fez mal. Ele mereceu Kath. – Kath? Era a primeira vez que ele a chamava por um nome tão carinhoso. Apenas seus avós a chamavam pelo apelido e aquilo a fez retribuir o abraço, sem entender as palavras do moreno, que mantinha seu olhar e voz normais de sempre, até que um lampejo em sua memória veio como se aquilo houvesse acontecido naquele momento.

7 Dias atrás ...

Katherine havia acabado de pausar o jogo

– Mauro, aproveita pra matar e colher pontos extras enquanto eu não estou jogando, mas quando voltar do banheiro, você vai ver que eu vou vencer você dessa vez! – Seu olhar demonstrava confiança, tanta, que fez o primo rir um pouco alto, a olhando com os lábios curvados em puro sarcasmo.

– Oh, jura? Vai sonhando! Você nunca me venceu nos games!

– Hump! – A mesma lhe deu as costas com o nariz empinado, desdenhando o que o outro havia lhe dito, caminhando em direção ao banheiro a passadas largas e quase pesados, por estar levemente irritada, tanto que sequer percebeu que o senhor de 45 anos, dono do estabelecimento, se levantou e foi na mesma direção que ela havia ido.

Ninguém perceberia nada de estranho, pois o banheiro masculino é praticamente ao lado do feminino, tendo uma parede bloqueando o acesso a visão das portas, mas Mauro havia notado. Sempre fora observador e perfeccionista, por isso observava a todos e se enojava delas, ou tinham os fios de cabelos bagunçados demais ou a

manga da blusa estava dobrada, ou a barriga estaria aparecendo.

Sempre percebia os defeitos mais banais, mas o que o incomodou naquele dia, mesmo que jogando, pôde perceber um movimento e virou o olhar para observar que o dono dos videogames se levantara de sua cadeira sem fazer ruído algum, como sempre o fazia ao levantar e ao caminhar em direção ao banheiro, mantinha nos lábios um sorriso malicioso, fitando as costas da jovem que acabara de sumir detrás da parede pintada de azul celeste.

O cenho do rapaz se franziu imediatamente, pausando o jogo com paciência e procurou por algo que pudesse utilizar como arma, caso precisasse e por não encontrar nada, quebrou parte da decoração plástica, que era pontiaguda, caminhando sem pressa ao local onde ambos haviam ido, com a mão que segurava o objeto, atrás de si, caso fosse precipitado, não perceberiam.

Dentro do banheiro, Katherine se olhava no espelho, pensando que realmente jamais havia ganho de seu primo, mas que era sempre bom ver aquele sorriso nos lábios dele, mesmo que não fosse de alegria. Assim ela poderia imaginar como seria. Uma porta se abriu e o dono do local entra, bloqueando a saída com seu corpo um pouco gordo e sorriu para a menina, que o olhou sem entender.

– Seu Félix, o senhor entrou no banheiro errado. Este é o banheiro feminino.

Sem nada dizer, o homem se aproximou da garota a passos rápidos e tapou sua boca, a segurando junto a si com força desnecessária, assustando-a quando a mesma sentiu o outro roçar seu corpo contra o seu, tentando se desvencilhar do loiro a todo custo, sendo inútil todo o processo, sendo ele muito mais forte que ela, que se desesperou ao sentir que o maior se excitava as custas dela, então, a porta foi aberta em um rompante, assustando tanto a garota, eu tinha os olhos marejados e falta de ar, pelo outro prender sua respiração sem perceber e ao homem, que ao ouvir a porta se abrir com força, a soltou imediatamente, a fazendo cair no chão de qualquer jeito, soltando algumas lagrimas e buscando o ar perdido.

– M — Mauro, o que faz aqui? – O mais velho perguntou ao menor, que o olhava com seus olhos âmbar completamente nulos de qualquer emoção, fazendo o loiro recuar um passo ao sentir uma calafrio na espinha. Parecia que o moreno iria o matar.

– Essa pergunta quem deveria fazer sou eu. Este é o banheiro feminino e não teria como você ter errado, já que a porta é cor de rosa e tem até mesmo o símbolo e o nome na porta.
O moreno estava certo e não havia como escapar desta situação a menos que...

– E — eu ouvi a sua prima passar mal quando ia ao banheiro e entrei para ajuda-la, não é mesmo, menina? – Se voltou para a mesma, que se arrastou pelo chão como que fugisse do outro, sem conseguir falar qualquer palavra, tamanho o medo que sentia e expressava em seu olhar.
– Recue! Ou eu mesmo o farei desaparecer. – O moreno falou em seu tom habitual, mas havia algo mais. Parecia ódio, nojo e desprezo, misturados a intenções assassinas.

– Mas... – Quando Félix se aproximou novamente da garota para a ajudar a levantar, a mesma tentou se proteger dele, pondo os braços em ‘X’ a frente dela, o que apenas fez com que o rapaz se aproximasse devagar, gritando e empurrando o maior como se o mesmo não fosse nada, o fazendo ser jogado contra a parede e ajuda sua prima a levantar:

– CHEGA! Não ouse se aproximar dela novamente, idiota! É sua vida que está em jogo e você sabe disso.

7 Dias depois...

– Ma — Mauro... Você... – O abraçara com maior força, tremendo sem sequer perceber, mantinha os olhos arregalados, lembrando o que ocorrera, engolindo em seco. O que houvera ocorrido havia a abalado e ambos saíram do lugar deixando os jogos pra trás sem sequer se importar de sair na neve e procurar seus avós, mas sequer tocaram no assunto para eles. Na opinião de Mauro, isso era desnecessário, sendo que ele já estava cuidando disso, mas na visão da garota, aquilo apenas os iria preocupar e não queria isso.

–... Parando pra pensar... Porque você havia entrado no banheiro àquela hora?

– Porque eu sabia as intenções dele quando estava indo ao banheiro e só demorei um pouco porque estava procurando algo para o matar caso fosse preciso. Mas cheguei a tempo.

–... Obrigada. – Sorriu com o canto da boca, envergonhada. Pensava apenas agora que aquela situação havia sido muito difícil e assustadora, mas pensar que Mauro a salvou e matou por ela, a fez sentir-se uma princesinha e talvez ele até gostasse dela.

– Hum – Assentiu o outro com a cabeça, saindo do abraço prolongado. Ele realmente detestava abraços.

Ou talvez ele simplesmente quisesse matar o homem por outro motivo qualquer. Repensou quando o mesmo se desfez do abraço, batendo na roupa que ainda usava como que se limpasse de alguma sujeira que ela poderia ter lhe deixado, o que a irritou um pouco, mas sabia que ele era assim com todos.

– Ok, agora chega. Vou pro meu quarto ver televisão e você fique aí penteando seus cabelos. – Riu sarcástico novamente, encrencando com a prima, que ficou rubra pela observação do outro.

– Ora seu... Eu ainda te pego! – Mas antes que pudesse dar os cascudos que o outro merecia, o mesmo destrancou a porta e saiu, fechando rápido antes que ela viesse atrás dele, rindo peralta. Desta vez, ele ria por diversão. Era a primeira vez que isso acontecia e Katherine fora impedida de ver por conta da porta fechada. Acabou deixando pra lá e voltou-se pra cama. Não demorou muito e seus olhos se fecharam, dando-se início a mais um sonho.

Continua...

Notas finais
Atualizado: 09/09/2015