Primeiros Erros
20 Livro II: Capítulo cinco
Notas iniciais
livro II: Capítulo cinco.
‘’Deixar ir, não significa desistir, mas sim aceitar que há coisas que não podem ser’’ (Pedro Quintella)
Edward.
Eu estava há uma hora no gabinete do prefeito, ouvindo o próprio esbravejar e dar ordem a todos que apareciam na sua frente.
—Me coloque com o presidente! — Ele gritava ao telefone.
—Senhor… — Sua secretária de pé ao seu lado tentava argumentar.
—Ele tem que me atender! Como assim não é importante?! Um ciclone não é importante? Ah por que não é no nosso país! A minha filha está lá! Você sente muito?! Eu vou fazer você sentir muito!
—Isso não vai nos levar a lugar algum. — Murmurei me levantando. Ouvi a chegado ruidosa de Billy Black, o chefe da polícia local.
—Charlie, apenas desligue o telefone! — Ele ordenou. Billy Black e Charlie Swan eram amigos desde a infância. Um policial em posição de poder, melhor amigo de um antigo juiz e atual prefeito.
—Eles não fazem nada, Billy! Não dão notícias, não enviam ajuda! Se lá tivesse petróleo o mundo já teria parado!
—Eu entendo sua revolta e preocupação. Agora esqueça a casa branca, estou em contato direto com o MSF* e eles estão fazendo um levantamento dos médicos que tinham na área, quais já deram notícias. Logo saberemos de Bella, fique calmo.
Enzo, do outro lado da sala, tinha o rosto vermelho, sem lágrimas, o os olhos fixos no celular.
Eu gostaria de saber o que ele digitava tão freneticamente no aparelho.
—Edward. -Billy chamou minha atenção. — Pode ir, no momento não temos notícias ainda, é tudo muito cedo e a maioria das cidades de lá está sem comunicação. Assim que o MSF* tiver notícias de seus médicos eles entrarão em contato com as famílias.
—Não existe nenhum plano para envio de ajuda? Nosso presidente ainda não se pronunciou? — Era tudo muito frustrante!
—Por enquanto nada. Vou ficar por aqui com Charlie, mantê-lo na linha e ligar para pessoas certas que não envolvam a Casa Branca.
Billy terminou lançando um olhar acusador a Charlie.
—Eu preciso de notícias dela, Billy. — Falei meio engasgado.
—Eu não acredito que você não pode fazer nada! — Enzo finalmente explodiu, sua raiva direcionada ao avô.
—Filho…
—Ela é sua filha! Você tem que fazer alguma coisa! — Me aproximei de Enzo, uma mão no seu peito temendo que ele avançasse em Charlie. Eu nunca o tinha visto daquele jeito.
Meu celular tocou.
—Filho, calma! Desse jeito não vamos conseguir nada!
—Se minha mãe tiver morrido… — Ele engasgou.
—Precisamos ter fé. — Falei sério, segurando sua nuca encostei minha testa na dele. -É tudo o que temos agora, filho. Tenha fé.
Mantive minha cabeça encostada na sua até que sua respiração ofegante foi se normalizando, e ele pareceu se acalmar. A essa altura meu celular já tinha parado de tocar.
—Filho, nós vamos achar a sua mãe, nem que para isso eu tenha que revirar aquele continente. — Charlie prometeu. Enzo pegou a mochila no sofá e sem mais nenhuma palavra saiu.
—Vai ser difícil manter ele na linha. — Murmurei para ninguém exatamente. Peguei o telefone em meu bolso vendo o nome ‘’Renata’’ na tela. Ela era a empresária de Enzo, uma baixinha mandona. Retornei sua ligação sem a menor vontade, logo que estava fora do gabinete.
—-Renata…
—Precisa controlar o seu filho! Ele não pode ficar twitando o que der na telha, ele está ficando famoso, porra!
Ah, então era isso que ele digitava tão freneticamente no celular.
—Você tem noção de quantos seguidores ele tem no momento? Setecentos mil! e subindo… se ele for virar um garoto problema precisamos nos preparar, porque a imprensa vai cair matando!
—Desculpe Renata, realmente não é um bom momento para te dar atenção.
—Edward…
—Renata a mãe dele está na África! No meio de um ciclone e não temos notícias dela!
Ela ficou muda. Coloquei o celular no painel do carro e dei a partida, não sabia para onde Enzo poderia ter ido e não estava disposto a segui-lo pela cidade.
—Isso pode ser bom, podemos trabalhar isso. -Sua voz parecia distante agora.
—Renata o que…
—Muito obrigado senhor Cullen, eu mesma estou indo para Chicago, acho que o Enzo precisa de uma assessoria próxima neste momento tão difícil.
Ela desligou antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.
Sem saber bem o que fazer, com quem falar, me vi dirigindo para a casa de Rosalie.
…
Bella.
Eu desconhecia o caos.
Eu achava que já tinha visto tristeza, horror, e desespero o bastante ao ver pessoas em condições desumanas.
Agora era diferente, era pior.
Era o caos.
Eu estava no meio do caos.
A cidade onde estávamos, no pequeno hotel caindo aos pedaços, foi inundada rapidamente, e Heidi foi a nossa salvação, ela nos agrupou de maneira rápida e nos dirigiu para o terraço. Por sorte, o hotel que eu dizia estar caindo aos pedaços, tinha uma fundação resistente e se manteve de pé apesar da força da água. Ele tinha apenas quatro andares e somente seu último não foi invadido pela força da água. Éramos sete médicos ali naquele momento, nenhum outro apareceu, agrupamos as pessoas que estavam ali, e que se abrigaram ali da melhor forma que podíamos, muitas pessoas chegaram feridas, tentamos tratar com o que tínhamos, o que pegamos na correria para nos salvar. Meu celular tinha se perdido com certeza, e pior meus documentos. Apenas Senna ainda tinha seu passaporte, pois sempre o trazia junto a si. Passamos três dias racionando comida, até que fomos resgatados por moradores num bote salva vidas. A prioridade era das crianças e feridos, nós como médicos insistiam para sairmos por último.
—Eu não posso acreditar que não tem um maldito helicóptero de TV sobrevoando a gente! — Riley se queixou diversas vezes.
—Esse tipo de tragédia não causa comoção. -Heidi rebateu, muito abatida. Eu não entendia seu ponto, era uma tragédia em larga escala!
—Não é uma tragédia branca, Bella. — Senna me contou cansada.
—Isso é inadmissível. -Grunhi
—Esse é mundo real. -Riley sussurrou. Fui distraída pelo choro de outra médica, ela também era dos Estados Unidos, mas eu não conseguia me lembrar seu nome.
—Eu não devia ter vindo para esse lugar! Vou morrer aqui!
—Não, não vai. -Falei firme. -Nós vamos sair daqui, a ajuda vai chegar.
E a ajuda chegou, quatro dias presos naquele espaço, a água abaixou um pouco e mais botes apareceram, dessa vez pude reconhecer o símbolo do MSF* em um deles. Se algum de nós tivéssemos forças, teríamos gritado. Nosso grupo chegava a quinze, contando médicos e habitantes, estávamos sofrendo os primeiros sinais de desidratação — cercados por água, morrendo de sede — logo estávamos a salvo, em terra firme.
....
—Bella?... pode me ouvir? Você precisa acordar. — A voz era suave e urgente ao mesmo tempo. Forcei meus olhos a se abrirem. O rosto suave e cheio de arranhões de Riley entrou em foco, era tudo que eu conseguia ver.
—Riley — sussurrei, minha voz saiu arranhando minha garganta. Tentei pigarrear e doeu.
—Não tente isso, você continua desidratada. Eles quiseram te aplicar soro, mas não deixei… a agulha não era descartável, tenho certeza que já havia sido usada. — Notei o tom de revolta no fundo da sua voz. -Que bom que você acordou. — Ele fez um carinho na minha testa.
—Há quanto tempo estou dormindo? — Sussurrei. Olhei em volta tentando me situar, estávamos dentro de uma tenta, eu estava deitada numa maca baixa, o cheiro era horrível. Não muito distante de mim haviam outras pessoas, alguns enfaixadas, outras lamuriando, o chão estava coberto de barro.
—Um dia e meio desde que chegamos. Não te culpo, você passou quatro dias sem dormir.
—Onde estão as meninas?
—Senna, a sortudo que pode comprovar que é quem diz ser, e está com a saúde perfeita, foi alocada para resgatar pessoas, a água desceu muito pouco, tem muita gente ilhada. Heidi está tentando ajudar o máximo de pessoas por aqui, tentando manter o mínimo de higiene possível para que nenhum tipo de contaminação se espalha. Algumas doações chegaram, de água principalmente o que é ótimo.
Tentei me sentar, consegui sentindo minha cabeça girar e meu estômago embrulhar. O cheiro do ambiente não ajuda em nada.
—Vai devagar, você não come nada direito há dias. — Ele alertou. Me ofereceu uma garrafinha de água que por um milagre consegui beber devagar. Eu estava com muita, muita sede.
—Não quero ser chato, mas vai devagar com essa água, as doações são poucas, temos que nos manter hidratados.
Eu sabia que ele tinha razão.
—O que eu posso fazer?
—Agora? — Ele arqueou uma sobrancelha. -Se manter acordada para que ninguém te fure com uma agulha suja. Um médico chefe, ou alguém do MSF* deve estar fazendo uma contagem por aí, e logo poderemos ir para casa.
Ir para casa? Riley tinha perdido a razão?
—Riley, não podemos ir para casa! Temos que ajudar essas pessoas.
—Bella, nós fazemos parte das pessoas que precisam de ajuda agora. -Ele segurou minha mão. — Estamos num país estranho, sem documentos. As coisas não estão muito boas para nós. E do jeito que estão… -Ele olhou em volta, as pessoas feridas e algumas já aparentemente doentes. — podemos passar por um surto de cólera nos próximos dias.
—Tem certeza? — Sussurrei.
—Olha a sua volta Bella. A coisa tá feita, essa água suja para todo o lado, a maioria das pessoas não estão esperando as doações, estão comendo o que acham, bebendo o que tem.
—Mas temos um compromisso com essas pessoas! Não podemos apenas ir embora!
—Eu não vim aqui para morrer, ok? Acho que você já está bem consciente, vou lá fora vê se alguém está procurando por nós.
Ele se levantou do seu lugar, ajoelhado ao meu lado, e mancou para fora da tenda improvisada. Eu não tinha reparado até então que ele estava com um curativo na panturrilha, deveria ter se machucado logo que a água invadiu o lugar onde estávamos e ele nos ajudou a fugir para cima, lembro de ele gritar ao cair na escada, não conseguia me lembrar se alguma coisa o atingiu.
—Ei bela adormecida. — Heidi estava ao meu lado assim que consegui me pôr de pé. -Onde está Riley? Acreditei que ele não sairia mais do seu lado.
Aquilo me surpreendeu um pouco. Vendo minha expressão, Heidi se explicou.
—Riley ficou ao seu lado desde que chegamos aqui, cuidando de você e quase literalmente rosnando para quem se aproximasse. Você tem um fã e tanto.
Fiz uma careta.
—Ele é um bom garoto.
—Bella, ele não tem idade para ser seu filho. Nem se fosse esse o caso.
—Eu realmente não quero pensar em Riley nesses termos.
—Então por onde esta o nosso garoto? — Ela me firmou me ajudando a sair do lugar. Ignorei sua pergunta sobre Riley. Percebi que minhas roupas estavam num estado lamentável, apesar de não serem as minhas.
—Quem trocou minhas roupas?
—Riley. — Ela rebateu sem grande importância. -Devo acrescentar que você teve febre também, vem, tenho um pacote seguro de biscoitos de sal.
Heidi me levou para fora da tenda, onde consegui respirar melhor. Estávamos em um campo aberto, o céu nublado, muita lama no chão, e não muito longe eu podia ver a água. Água e destruição.
—Heidi, minha família… — Minha garganta se apertou ao imaginar o desespero do meu filho.
—Eu sei querida. Também estou pensando na minha, eles devem estar loucos sem notícias. Vamos comer, temos que estar bem quando os outros chegarem, para podermos nos reagrupar e ajudar.
—Riley disse que quer ir embora. — Contei.
—Ele é só um garoto afinal. — Ela deu de ombros. — E você?
—Não! Quer dizer… estou abalada pelo o que passamos, desesperada para falar para meu filho que estou bem, mas não quero ir embora.
Heidi deu um sorriso cansado.
—Somos duronas, não? -Ri fraco.
—Temos que ser afinal.
....
Edward.
Dez dias. Dez dias sem qualquer notícia de Bella ou das pessoas que estavam com ela. Aquilo era exasperante!
Até mesmo Renée, que vivia mais em seu mundo devido a doença, estava percebendo que algo não estava bem.
—Onde está Bella, Edward?
—Na África salvando vidas.
—Que engraçado, sonhei que ela era menina de novo, sabe? Estava correndo no jardim, os cabelos pareciam vermelhos no sol. Estava tão linda… — Ela olhou através da janela, para o jardim da sua casa. -Parecia tão real. Eu devia brincar com ela de pega-pega!
—Aposto que ela adoraria. — A respondi com a voz contida.
—Ela vai ficar bem, Edward. -Renée me disse com tanta certeza, que por um momento achei que ela soubesse exatamente o que se passava.
Charlie já tinha arrumado briga com meio mundo pela falta de resposta sobre a filha.
A empresária de Enzo estava hospedada num hotel na cidade, e tinha virado sua sombra. Segunda ela, meu filho tinha se tornado mais famoso com o fato da mãe ser uma médica voluntária desaparecida, e suas contas nas redes sociais tinha passado de um milhão de seguidores, seus vídeos no youtube só aumentando em visualizações. Eu não estava gostando nada do modo como ela falava do sumiço de Bella relacionando com a fama do meu filho, como se isso tivesse sido algo bom.
Eu evitava contato com Renata, dobrava meus turnos, mais despreocupado com Tanya agora que sua mãe estava com ela o tempo todo.
Então havia Enzo, que parecia um zumbi andando pela casa, chutando coisas, e resmungando.
No décimo primeiro dia sem notícias, eu tomei uma decisão. Peguei minhas economias no banco, comprei duas passagens para Joanesburgo.
Eu precisava conversar com Tanya, e esta conversa se deu assim que sua mãe foi dormir, e mais uma vez Enzo estava fora de casa.
—Edward, você precisa tomar uma atitude sobre Enzo. — Ela começou ao se sentar ao meu lado no sofá. -Sei que ele está sofrendo com toda essa situação, mas… não sabemos por onde ele anda, ou com quem!
—Bree está com ele. Ele tem ficado na casa dela. -Contei. Eu sabia disso desde o primeiro momento, quando ele saiu do gabinete do avô. Ela o encontrou no café favorito deles, e uma aproximação ficou mais firme após isso. Quando ele contou tudo o que estava acontecendo, ela me mandou uma mensagem, e tem me mantido informado sobre meu filho-adolescente-quase-rebelde.
—Por que não me contou? — O tom magoado dela me chamou atenção.
—Eu…- sinceramente eu não havia pensando em falar nada para Tanya. — Ele te tratou mal ou coisa assim?
—Não, Edward! Eu estou preocupada com seu filho que não dorme há dias em casa e você nem se digna a me contar que sabia onde ele estava.
—Não pensei que isso estivesse te afetando.
—Me afetando?! -Ela se levantou incrédula. — Eu me preocupo com ele! Você não parou para pensar, nem por um minuto, que eu também estou preocupada com a Bella?!
—Tanya… me desculpe, tem sido dias difíceis.
—Eu sei, mas você não precisa me excluir da sua vida assim!
Respirei fundo, eu precisava acalmá-la.
—Ei, senta aqui, não precisamos brigar.
—Esse é o seu problema Edward. Você acha que uma simples conversa é uma briga! O que aconteceu com você? Só me afasta! Eu tentei entender no começo, pela minha doença e a gravidez, mas… quanto mais o tempo passa mais distante te sinto. E não estou falando só de sexo.
—Tanya… no momento, nada disso é sobre nós. Eu não consigo pensar em nada que não seja Bella desaparecida em outro continente.
Ela respirou fundo, colocando uma mão na barriga.
—Eu também me preocupo com ela. Ela é minha amiga. Pode parecer estranho toda essa relação entre nós três… mas eu gosto dela. Mesmo que ela tenha você.
—Ela não…
—Você se afastou de mim e se aproximou dela. Eu sei, eu ouvi você conversando com ela madrugas a fim.
—Tanya, esse não é o melhor momento para termos esse tipo de conversa.
—Pelo contrário, acho que é o melhor. — Ela suspirou olhando pela janela. Eu podia vê o seu perfil, uma lágrima escorreu pela sua bochecha.
Me levantei indo em sua direção próxima a janela. A abracei, ela ficou tensa mais permitiu.
—Quando eu te conheci você estava muito magoado com a Isabella. — Ela sussurrou. — Eu não queria me envolver, mas não pude evitar.
Espalmei minhas mãos em sua barriga sentindo os pequenos movimentos da nossa garota.
—Eu sempre quis ser mãe, acho que vi um pai em você. — Ela riu, o som saiu engasgado. Eu podia ver pouco do seu reflexo pelo vidro da janela. Ela se virou nos meus braços, os olhos vermelhos. Segurou meu rosto em suas mãos. -Obrigado por tudo que tem me proporcionado.
—Tanya…
—Você quer ir atrás dela. Deve ir, é lá que seu coração está.
Eu não quis discutir mais ou argumentar.
Tanya facilitou demais as coisas para mim, e eu só podia sentir gratidão por ela. Expus meus pensamento e minha decisão de ir para África com Enzo e esperar por notícias lá.
Não falamos sobre nosso relacionamento.
…
Encontrei meu filho na casa da ex-namorada.
—Ele está insuportável. — Foi o que a própria Bree me disse logo que abriu a porta para mim.
—Por isso você é responsável por ele, me lembro de uma época em que você não era a melhor companhia para se ter. — Ela fez uma careta, me dando espaço para adentrar a casa que dividia com a mãe.
—Me diz que tem notícias da Senhora C. -Implorou.
—Nada. Mas estávamos indo encontrar ela.
Enzo estava jogado no pequeno sofá da sala, os pés com tênis no estofado. Digitava no celular.
—Achei que sua empresária o tivesse proibido de usar as redes sociais.
—Sim, ela trocou minhas senhas, e agora só ela as usas! Olha que ridículo ela postou res.’’ minhas preces estão com as famílias que assim como eu aguardam notícias de seus familia’' Eu to me fudendo para as outras famílias! Eu quero saber da minha mãe.
—Pensei que ele diria ‘’eu quero a minha mãe’’ como o bebê chorão que ele é. — Bree resmungou cruzando os braços ao meu lado.
—Bree…
—Lorenzo! Que porra, estamos todos preocupados com a sua mãe. Ninguém é obrigado a aturar sua atitude de merda! Sabe por que? Não está ajudando em nada! -Ela se virou para mim. — Se o senhor não der um jeito nele, eu vou quebrar esse rostinho bonito dele.
Ela saiu batendo o pé.
—O que você quer? — Ele bufou.
—Bree tem razão, você precisa parar com essa atitude de merda. — Falei de frente para ele.
—Pai eu não…
—Nós vamos atrás da sua mãe. Eu e você. Mas não quero ter que cuidar de um bebê chorão como a Bree mesmo disse. Seremos dois homens adultos, ou você vai continuar aqui choramingando.
—É claro que eu vou com você!
—Então pegue suas coisas, peça desculpas a Bree pelo grande incomodo que você tem sido, e vamos.
O dei as costas.
—Pai! Espera… o senhor… está bravo comigo?
—Pelo o que Enzo? — Não me virei, ele teria que ser mais específico.
—Pelas...coisas que eu disse. Antes. Eu estava com raiva, não quis… magoar o senhor.
—Realmente pensa aquelas coisas sobre mim?
—Não! — Ele gritou, senti sua mão no meu braço. — O senhor é incrível. Eu só… estava sofrendo e queria descontar em alguém.
—Seu sofrimento não é desculpa pra magoar ninguém.
—Eu sei. Agora eu me lembro. Só que na hora…
—Aceito suas desculpas. Te espero no carro. Ah, não economize palavras com Bree, ela tem sido muito boa com você.
—Ela é incrível. — Ele concordou.
—Ainda gosta dela, filho?
—Sim. -Ele não hesitou em responder.
—Então faça a sua.
—Ela não me quer mais, só tem… pena de mim.
—Duvido que algo tão trivial quanto a pena faria Bree perder o tempo dela com um moleque mal humorado como você. Seja rápido, precisamos mesmo ir.
—PAI! — ele me gritou antes que eu chegasse a porta.
—Enzo, eu estou perto de você da para parar de gritar?- fui surpreendido pelo seu abraço. Ele estava quase do meu tamanho agora e encolheu a cabeça a encostando no meu ombro. Retribui o abraço.
—Desculpa, pai, eu não sei o que está acontecendo comigo! É tanta coisa ao mesmo tempo… e se a mamãe não voltar…
—Você precisa ter fé filho. — Sussurrei.
—É muito difícil!
—Eu sei que não posso prometer que ela esteja bem, mas eu sinto isso dentro de mim, e acredito com todas as minhas forças.
—Eu também quero acreditar. — Ele sussurrou. — Deus não pode ser mal ao ponto de tirar a minha mãe.
—Não vá por esse caminho, filho. — Aconselhei. — Deus não é culpado. Agora vamos nos concentrar no que podemos fazer, manter a fé e esperança, e embarcamos nessa… jornada. — Falei a última palavra incerto.
…
Eu odiava voar. Não tinha nada a ver com alturas, ou medo daquela lata gigante cair. Eu odiava ficar confinado em lugar sem ter o que fazer.
—Você pode ler um livro. — Enzo sugeriu.
—Minha cara de intelectual te sugere qual? — Debochei.
—Ok, entendi. Tem filme passando.
—Você parece mais calmo desde que embarcamos. — Ignorei seu comentário sobre filmes e fiz o meu próprio.
—Finalmente estamos fazendo alguma coisa. Eu não aguentava mais ficar em casa, sem notícias e sem fazer nada por ela.
—Será que vamos arrumar problemas com a sua empresária? — Eu realmente não tinha pensando nisso até tê-lo no avião, e uma moça pedir para tirar uma foto com ele.
—falei com a tia Alice, ela disse que cuida das coisas com a Reneta. Relaxa pai, eu não sou tão famoso.
—Tem muitos seguidores na internet- Bufei. Eu tinha um medo real que a fama pudesse fazer mal a ele.
—Mas não sou conhecido da grande mídia. Eles estão falando um pouco sobre mim por conta dos twettes de antes. -Ele fez uma careta, provavelmente se lembrando dá bronca que tomou de Renata.
—Que loucura. -Comentei sem saber o que dizer.
Seguimos para o hotel rapidamente, eu já havia entrado em contato com a MSF* avisando que assim como outros membros familiares de alguns médicos desaparecidos, eu estaria ali. Nesta mesma noite haveria uma reunião com os familiares dos médicos desaparecidos até o momento para nos deixar a par de como estavam as buscas.
— E se a gente não encontrar ela? — Enzo me perguntou a certa altura, logo que nos instalamos no hotel. Ele havia finalmente deixado seu celular de lado após falar com Bree.
—Não vamos pensar nisso agora.
—Mas e se… se ela morreu? Nós temos que pensar sim nisso! — Ele afirmou.
—Então nós seguiremos em frente sem ela. — Fui seco em minha resposta. — É isto que você quer ouvir de mim, Enzo? Se sua mãe estiver morta, a vida continua, para mim para você, para tudo mundo.
Ele engoliu em seco.
—Eu tenho muita fé e esperança de que ela está bem. Se você não consegue compartilhar isso comigo… sinto muito. Mude de roupa, te espero lá em baixo. — O deixei sozinho no quarto que dividimos.
A situação não era das melhores, nas listas apresentadas com os médicos que já haviam sido localizados ela não estava.
Fui informado que haviam corpos a serem identificados que foram encontrados no local onde ela estava hospedada quando o furacão chegou.
—Nunca deveríamos ter deixado ela vir para cá. — Enzo reclamou.
—Filho, sua mãe é adulta não podemos e nem deveríamos tentar impedi-la de nada.
—Você parece muito confiante. — Ele resmungou.
Foi preciso três dias de incerteza, até que uma lista não oficial chegasse ao nosso conhecido e o nome dela estava lá. Eu quis deixar Enzo no hotel, mas ele foi irredutível, assim fomos juntos até o abrigo temporário onde ela estava.
…
—Onde está a ajuda? — Enzo sussurrou para mim, dentro da van da organização que tinha mandado Bella para aquele continente.
—Eles são a ajuda.
—Pai, eu vi crianças bebendo essa água imunda! Não parece ter muita ajuda por aqui. E olha essa estrada… isso é uma estrada mesmo?
A van sacolejava bastante no seu caminho por uma estrada de barro, por mais que a água já tivesse baixado bastante, era visível seus efeitos de destruição por onde passou.
Estávamos com outras três pessoas representando a família de algum médico, eles pareciam mais aflitos que nós.
O local que nos foi descrito como abrigo, consistia em um grande campo aberto, com alguns prédios destruídos em volta, incontáveis tentadas se estendiam a diante.
—Vocês esperem aqui, vou chamar as pessoas desta lista. — A mulher que servia de nossa guia informou, balançando diante de si a prancheta.
—Isso é tão estúpido. Eu podia achar minha mãe em dois minutos. — Enzo voltou a resmungar, cruzando os braços no peito.
Mantive-me calado, meu coração estava acelerado com medo da possibilidade de outra Isabella aparecer na minha frente.
Talvez estivesse sendo fácil demais, e tudo não passasse de uma brincadeira do destino.
Fiquei olhando em volta, o lugar estava cheio de desabrigados andando de um lado para o outro.
—Mãe?! — Me despertei ao ouvir a palavra dita ao meu lado. Lá estava ela, com roupas grandes demais para seu corpo, o cabelo curto loiro amarrado no alto da cabeça, sem brilho. olheiras profundas e uma rosto muito cansado. Quando ouviu a voz do nosso filho, seu rosto se abriu num sorriso surpreso.
—Eu não acredito… vocês são loucos?! — Gritou e logo foi abraçada por Enzo que a ergueu no ar com facilidade.
O mundo pareceu girar e entrar nos eixos. Bella estava finalmente na minha frente. Não pensando em nada mais a não ser naqueles dois, me aproximei deles e os abracei.
—Edward… -ela sussurrou. -Como vocês… não acredito que estão aqui!
Ela tentou se libertar do nosso aperto, estava chorando. Assim como Enzo, que a soltou, mas manteve os braços ao seu redor.
—Estávamos em pânico sem notícias suas! O papai quis vir e nem demorou para trazerem a gente para cá!
—Eu quis dar notícias, mas não tinha como! O máximo foi dar o meu nome..
—Não precisa se explicar, Bella. Nós sabemos que você nos daria notícias se pudesse.-Falei
Ela piscou mais vezes, como se fosse muito difícil acreditar que era eu alí na sua frente.
Não consegui me conter, a puxei para um abraço.
Seu cheiro era uma mistura de suor, sal, terra. Nada que eu já houvesse sentido em sua pele, em seus cabelos. A fazia parecer mais real, mais viva.
—Que bom que você está a salvo. -sussurrei.
—Edward… -Ela entoava meu nome sem parar.
—AH isso é tão incrível! Porque não tem sinal aqui, eu quero fazer uma live!
—Nada de lives garoto. Lembra o que Renata disse. -Brinquei soltando sua mãe sem a menor vontade.
Eu queria Bella perto de mim.
—Como vocês chegaram aqui? Se eu soubesse que estavam vindo… ah eu sinto tanto! Por tudo que fiz vocês passarem.
—Mãe, estamos felizes por você está bem. -Enzo disse limpando as lágrimas do rosto. Ela fez um carinho na bochecha dele.
—Eu estou muito feliz em ver vocês dois, mas não aqui. Não deveriam ter vindo é perigoso.
—Sim, mas viemos apenas buscar você.- falei. Ela franziu a testa parecendo culpada.
—Fico muito agradecida, mesmo. Mas não posso voltar para casa agora.
—Acho que eu não ouvi direito. Deve ter entrado barro no meu ouvido. Você não vai pra casa?
—Filho… -Isabella tentou pegar suas mãos. Ele se esquivou.
— A gente viaja para esse fim de mundo sem saber se você estava viva ou morta e você me diz que não vai voltar para casa com a gente?
—Enzo precisa entender que tem muitas coisas acontecendo agora, não posso deixar tudo e simplesmente ir!
—É claro que pode!
—Ei Bella, consegui um kit de lanche para você…
Um rapaz loiro nos alcançou. Ele parecia mais sujo que Bella, mas a expressão cansada parecia feliz. E então surpreso ao ver que ela não estava só.
—Esse é seu filho? — Ele perguntou.
Ela pareceu sem graça, olhou para mim como se pedisse desculpas e se voltou para o homem.
—Sim. Esse é Enzo e aquele Edward. -Ela nos indicou, senti que nós já tínhamos sido objeto de conversa.
—Ei cara eu ouvi a sua música, é realmente muito boa. -Ele disse a Enzo estendendo a mão num comprimento. Enzo olhou a mão estendida como se fosse uma armadilha. Encarou Bella e depois o cara.
—Eu não acredito que você está fazendo isso de novo. -Ele disse a ela
—O que… -Ela pareceu confusa.
—Não quer voltar para casa porque já tem planos com seu namorado novo! -Ele cuspiu.
Bella pareceu em choque.
—Não Enzo! Riley e eu…
—Você é sempre assim! Só pensa em você! Por isso não se preocupou em dar notícias, porque seu namorado estava aqui ao seu lado, e ele é tudo que importa para você agora.
—Filho você entendeu tudo errado!
—Cara eu e a sua mãe…
—Não fala comigo! -Enzo se irritou.
—Enzo não vivemos aqui para isso. -Senti a necessidade de me meter.
—Pai você sabe o que eu estou falando!
—Cara eu e a sua mãe somos apenas amigos! -O cara gritou rápido.
Um silêncio caiu sobre nós quatro. Bella estava corada e Enzo parecia querer fugir.
—toma Bella. -o cara deixou um embrulho em suas mãos. -Se precisar de alguma coisa é só gritar.
Ficamos observando ele se afastar.
Bella respirou fundo e abriu o pacote.
—Por favor, não estejam com fome eu não como nada o dia todo. -Bella implorou vendo o sanduíche simples embrulhado.
—Mãe desculpa. Eu não queria ser… babaca.
—Você foi um babaca. -Bella deu de ombros, mordeu seu sanduíche.-Você foi um babaca e eu te dei motivos para isso. Supere o Damon, Enzo. Eu não sou mais aquela mulher.
Bella parecia tranquila ao falar e comer ao mesmo tempo.
—Você está bem mesmo? — Lancei a pergunta que me incomodava realmente.
—Sim, Edward. Dado às circunstâncias… eu e meus amigos tivemos muita sorte. Houveram prédios que desabaram com a força da água, e o nosso se manteve de pé. Também não me feri.
—Você está muito magra. -Enzo comentou com uma careta
—As doações demoram chegar e os recursos são poucos. Estamos dando preferência para os que realmente precisam.
—Se você não estiver bem não pode ajudar ninguém. -sinalizei.
Ela sorriu fraco, estendeu os braços para mim. Fiquei surpreso com seu gesto de afeto, mas logo me aproximei enlaçando seu corpo num abraço de lado.
—Ah Edward tudo o que faço parece tão pouco! Eu estou bem de verdade.
—Que horas podemos ir embora? -Enzo interrompeu olhando ao redor.
—Estou adorando ver vocês, mas concordo com Enzo. Não devem ficar muito tempo aqui. -Ela se afastou de mim.
—Você vai com a gente. -Falei.
Ela arregalou os olhos.
—Edward….pensei que estivesse claro que não vou a lugar algum.
—Como não mãe? Não é seguro aqui! Você vai voltar para casa com a gente.
—Essas pessoas aqui precisam de mim. -Bella disse seria mirando nosso filho.
—Eu preciso de você! Eu… eu pensei que você tivesse morrido!
—Mas não morri! Estou muito bem, obrigado.
—Você é inacreditável!
Estávamos atraído atenção indesejada.
Uma mulher ruiva, que julguei ser médica pelas suas roupas se aproximou.
—Não sabia que hoje era dia de visita da família! Onde está a minha?! Ela correu pelo barro, se chocou contra Bella a segurando e mantendo no lugar.
—Heidi, esses são Edward e Enzo, meu filho. — Bella fez as apresentações. -Gente, esta é Heidi, médica voluntária e amiga.
—Somos amigas íntimas. -Ela piscou para Enzo. -Então você é o filho cantor! Vem comigo, achamos um violão que com certeza está muito desafinado, você toca não é? Precisamos de ajuda para manter as crianças entretidas!
Sem esperar uma resposta do meu filho, ela o puxou pelo braço. Entendi que sua intenção era deixar Bella e eu a sós.
—Ela não é famosa pela sutileza. -Bella fez uma careta ao ver eles se afastarem.
Ela suspirou, entrelaçou seu braço no meu e me puxou pela a estrada enlameada.
—Vamos caminhar um pouco. Estou muito feliz por você estar aqui, Edward.
E eu estava feliz por estar ali, tê-la tão próximo, saber que estava bem e viva.
…
Caminhamos um pouco em silêncio, algumas vezes circulei sua cintura com meu braço para a ajudar a se equilibrar. Ela me falou como as coisas estavam e quais eram as previsões do que aconteceriam nos próximos dias. Seu envolvimento e paixão por aquelas pessoas era tão nítido que eu só fiquei quieto observando ela falar e gesticular, sem conseguir colocar em evidência o que me levava até ali.
—Mas eu falei tanto! Acho que estou nervosa por você está aqui. -Ela riu no fim — Sei que devem ter tomado um susto enorme quando ficaram sabendo o que houve.
—Você não faz ideia. -Suspirei. Paramos de andar, ela subiu numa pedra, tentando se equilibrar, ficando da mesma altura que eu. Apesar do olhar cansado, o sorriso em seu rosto era verdadeiro, muito me fazia lembrar a Bella de dezessete anos atrás. Permaneci na sua frente, ela pousou as mãos no meu ombro, ficamos nos olhando.
—Nem nos meus devaneios mais loucos, imaginei você vindo aqui.
—Não ter notícias suas foi torturante. — Expliquei, segurando em seus quadris.
—Antes de ter ver, eu imaginei muitas coisas… coisas que diria a você quando te visse de novo. Primeiro eu achei que era loucura minha, mas agora… olhando para você aqui, desse jeito…
—Eu sei. -Sussurrei. Não era necessário verbalizar que ambos nos sentíamos do mesmo jeito. As inúmeras conversas e ligações, e que de fato nos religaram.
—Eu amo você. — Ela disse. Pegou meu rosto, me fazendo olhar em seus olhos. — Eu amo você. Hoje, muito mais do que já amei um dia. É um sentimento bom, Edward, que não dói, não machuca, e… não precisa ser vivido. — Sua voz abaixou no fim da frase.
—Bella…
—Tanya. — Ela disse. Aquilo me despertou. Havia uma Tanya, a milhares de quilômetros dali, me esperando mesmo que não tivesse verbalizado isto.
—Você ter vindo para cá, apesar de ser pelo Enzo também… você veio porque me ama.
—Mais hoje do que já amei. -Repete sua fala o que fez com que nós dois sorrimos. Ela estendeu as mãos entre nós, e entrelacei meus dedos aos seus.
—Eu fiz tantas merda, eu me confundi tanto… — Ela respirou forte.
—Eu também confundi as coisas.
—Você tinha todo o direito de se envolver com alguém. Eu que não posso… me aproveitar desse momento difícil de vocês.
—Bella. — Segurei seu queixo entre o polegar e o indicar, a obrigando a olhar para mim. — Eu amo você. Eu sou responsável pelas minhas escolhas, e o único culpado.
Caímos em um silêncio, em nada desconfortável.
Eu estava preso as decisões que havia tomado quando estava magoado demais com Bella. Tanya estava grávida da minha filha, e precisava de mim.
—As coisas são como são. -Bella disse me trazendo de volta ao presente.
—Isso não quer dizer que você tenha que ficar.
—Eu quero ficar, Edward. Sou necessária aqui.
—Até quando?
Ela deu ombros.
—Não sei. Vou sentir quando for hora de partir.
Eu não queria pensar nos ‘’e se…’’ mas era inevitável.
Mais uma vez, Bella parecia ler minha mente.
—As coisas são como são, e como tem que acontecer. Tem um propósito para tudo.
—Até para eu te amar hoje, e não poder estar com você?
Ela riu, era um som feliz. Abriu os braços e me abraçou pelo pescoço, se pendurando em mim, deixando seu peso pender.
—Sim. Sim! Mil vezes sim! Eu amo você Edward Cullen, e sei que um dia, ficaremos juntos de novo.
Era impossível não rir com ela, sua alegria, certeza, positividade eram contagiantes. Eu a mantive apertado em meus braços, pelo tempo que pude, sabendo que demoraria até poder tê-la assim tão perto de novo.
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