Primeira Melodia

5 CAPÍTULO IV – Lá Menor.


Damen costumava pensar nas reuniões familiares no Three Lights como uma espécie de tortura particular, mas agora que Byron ocupava um dos quartos de hóspedes de sua casa, as considerava até agradáveis.

O motivo por trás de sua mudança de opinião era o silêncio.

Em casa, o caos estava instaurado, com Santana e Byron discutindo o tempo inteiro, enquanto nas reuniões, ninguém sabia ao certo o que falar ou como agir. Na maior parte do tempo, tomavam café quase em silêncio absoluto, trocando informações fúteis sobre o dia-a-dia de cada um.

— Vou querer um milkshake da casa e um hambúrguer detonador, por favor.

Ele nem precisou olhar o cardápio para pedir a Hannah, que era garçonete e também filha da dona do Three Lights. O irmão seguiu a dica e pediu o mesmo lanche, com fritas de acompanhamento, trocando o milkshake por uma lata de energético caro.

Dara pediu a mesmíssima salada de frutas com iogurte sem graça de sempre, e Byron e Santana escolheram o mesmo tipo de waffles.

— Como está a universidade, Damen?

Tia Dara fez a primeira tentativa de contato daquela manhã, depois de longos minutos de silêncio desconfortável.

— Já pensou em parar de usar batom nude, tia? Você fica com cara meio anêmica.

Santana engasgou com o que devia ser uma risada mal contida, mas bancou a séria, dando um beliscão no braço do filho e balançando a cabeça em uma reprimenda que ele ignorou.

Para o rapaz, estragar aquela fantasia familiar era quase uma responsabilidade.

— Está tudo bem, eu sei que ele não falou por mal.

Dara deu uma daquelas risadinhas sem jeito, que deixava ainda mais clara sua chateação. Ela nunca foi boa em esconder sentimentos e era inesperadamente sensível para uma Montgomery.

— Acho que devia se preocupar um pouco com você, irmão. — Dylan abriu sua lata de energético para despejar no copo que a garçonete tinha deixado. — Não parece estar dormindo bem, seus olhos estão sempre tão vermelhos…

O ataque inesperado o pegou de surpresa, mas Damen devolveu assim que se recuperou.

— Com certeza durmo melhor do que você, Montgomery. Já viu suas olheiras? — Fez um gesto amplo enquanto apontava para o irmão com o canudo da bebida. — Estão bem feias. Devia cuidar disso, sabia? Garotas não gostam.

Dylan hesitou, a pele ficando ligeiramente pálida.

— Tenho tido problemas para dormir desde que voltei. — Confessou.

— Não devia tomar alguma coisa para isso, criança?

Foi Santana quem perguntou, sem parar de comer para falar.

— Não gosto. Me deixam meio... Cansado.

— Acho que essa é a ideia, irmãzinho. Cansar e dormir. — Damen sorriu, voltando ao seu maravilhoso milkshake de chocolate.

Ele costumava batizar a sobremesa, mas era um pouco difícil fazer isso com Dara à mesa — especialmente porque a tia adorava encará-lo como se fosse uma espécie de delinquente, desde menino.

Não que ele não fosse um, mas ela não precisava ter a prova.

— Eu estou na equipe de natação. Não acho que o treinador vai concordar.

Damen deixou a sobremesa de lado, erguendo os olhos para encarar o irmão.

O silêncio retornou, dessa vez com uma tensão quase palpável no ambiente.

— Dylan entrou na natação quando menino. — Dara se apressou em explicar, como se fosse necessário. — O terapeuta disse que podia fazer bem. Enfrentar os traumas, aprender a...

O Lopez levantou-se de repente, fazendo a tia parar de falar.

Jogou os trocados de seu lanche na mesa e saiu do restaurante calado, sem olhar nem se despedir de nenhum deles — e sendo imediatamente seguido por uma Santana que parecia exausta.

Dylan sentiu um buraco crescer no estômago, mas disfarçou a sensação de náusea dando um gole no energético. Espiou as janelas longas da lanchonete, vendo o irmão e tia Santana entrando numa discussão cheia de gestos.

Era impossível escutá-los de dentro do restaurante, mas o som alto das vozes abafadas ainda era perceptível, mesmo com a distância.

— E te faz bem?

Ele ergueu o rosto para o pai, pestanejando em confusão.

— A natação. Que seu terapeuta falou para fazer... No fim, te faz bem?

Refletiu antes de acenar positivamente.

— Acho que sim. Me traz... Calma, eu acho. Uma sensação de controle, talvez...

A verdade é que aprender a nadar como um profissional trouxe à Dylan a segurança de que nunca mais ninguém precisaria se sacrificar por ele.

Pelo contrário. Se fosse necessário, ele seria o herói da história.

Talvez o pai entendesse os pensamentos não ditos do filho, porque permaneceu um tempo em silêncio — digerindo a informação. No fim, apenas mudou de assunto.

— Não leve a sério o que seu irmão disse sobre as olheiras.

O garoto sorriu, dando os ombros.

— Nunca levo a sério o que Damen diz. Ele gosta de magoar... Não faz muito sentido dar corda, não é? Já faz um tempo que entendi como funciona esse jogo.

Diferente da irmã, Byron engoliu a comida antes de voltar a falar.

— Não acho que ele queira te magoar. Seu irmão... Ele não é muito bom em se expressar, filho. Eu também não sou, então entendo.

Dylan sentiu um gosto estranho na boca ao ouvir Byron chamá-lo daquela forma.

“Filho”...

Depois do que tinham passado, às vezes se perguntava se o pai ainda o considerava como tal.

— Você parece cansado, e precisa cuidar disso... Por si mesmo.

Ele concordou, embora seu cérebro ainda estivesse focado naquela palavra.

— Tenho certeza que garotas não se importam com isso. — O mais velho prosseguiu.

— Garotas não se importam comigo de uma maneira geral, pai. — Dessa vez, seu sorriso foi ligeiramente tímido.

“Pai” era uma palavra estranha em seus lábios, mas não chegava a ser desagradável.

— Mas você está interessado em alguma menina da escola que eu sei. — Dara deu uma risadinha e lançou um olhar cúmplice ao cunhado. — Ele anda com o telefone para cima e para baixo. Até voltou a tocar piano.

— Tia...

— Não precisa ficar envergonhado, querido. Seu pai sempre foi muito bom com garotas, e sua tia é péssima para qualquer tipo de romance. Você precisa de um bom tutor para te ensinar as regras do jogo.

Ele revirou os olhos, mas sentiu o rosto esquentar.

Byron achou graça.

— Quem é?

Dylan franziu os lábios, tentando decidir entre a sinceridade e a fuga.

— Minha futura esposa, eu diria.

Sua tia soltou um som constrangedor, como se sua piada fosse a coisa mais adorável do mundo. Começou a bagunçar os cabelos dele de forma tão vergonhosa que o Montgomery quis enfiar a cabeça na terra.

— Só estou brincando. Nem acho que ela me olhe dessa maneira. — Ele deu um gole gordo na bebida, como se pudesse engolir a timidez junto. — Só... Estamos nos conhecendo.

Mas Byron estava sorrindo ao olhar para ele. Um sorriso de reconhecimento, como se soubesse exatamente o que o filho queria dizer com aquilo.

— Diga mais sobre sua futura esposa.



Alice deixou o CD Player para trás naquela manhã.

Ela sabia que acabaria entrando em tentação se o levasse para a escola, então decidiu trancá-lo na gaveta, bem distante.

Estava decidida a prestar atenção na aula de química, no primeiro horário.

Há algum tempo notava Dylan cansado demais… Ele tinha bolsas negras embaixo dos olhos e cochilava no refeitório quando almoçavam juntos.

Embora não se considerasse importante o bastante para que o amigo perdesse o sono para ajudá-la, pelo menos não queria ser um peso a mais.

Se ela prestasse atenção, ele não perderia tempo tentando ensiná-la nos intervalos entre as aulas e poderia dormir mais.

Pensando nisso, desceu as escadas sem nenhuma música ressoando nos ouvidos, repassando os cálculos que havia revisado na noite anterior.

Os números sumiram de sua memória quando, alcançando a ponta da escada, percebeu os pais na cozinha.

Robert usava apenas as calças xadrez que costumava vestir para dormir, e Eliza ainda estava com a camisola — o inseparável computador não estava à vista.

— Al gosta de chocolate quente no café da manhã, você não sabe disso mesmo preparando todos os dias?

O senhor Darcy estalou a língua, usando seu tom brincalhão.

— É porque preparo todos os dias que sei que ela prefere suco natural quando come ovos com bacon. O chocolate só fica bom se for um lanche doce, tipo sanduíche de pasta de amendoim.

A voz de Eliza era suave, quase desprovida de emoção.

Alice estranhou aquela interação incomum, e permaneceu escondida, escutando a conversa sem importância dos pais quando percebeu a papelada no aparador.

Ao se aproximar do móvel, reconheceu o símbolo do escritório de advocacia do avô em destaque — “B&A”, de Bowman & Associados.

Afastando o envelope, conseguiu ter uma visão geral dos documentos.

Eram formulários de divórcio…

Já completamente preenchidos, assinados por Robert Darcy e Eliza Bowman.


= ♫ =


Alice não apareceu na aula de química.

Dylan sabia que tinha ido à escola, já que a avistara nos corredores pela manhã, mas ela também não apareceu em sua segunda aula — que ele sabia ser de espanhol —, nem na terceira, pelo que Hunter havia dito no intervalo.

Apesar de não terem aula de piano àquela tarde, o Montgomery não se surpreendeu ao encontrá-la na sala de música, com os fones enormes nos ouvidos e os olhos fixos no piano, parando apenas em intervalos rápidos para anotar alguma coisa na partitura.

Ele se aproximou devagar, ocupando o micro-espaço que restava no banco.

Alice apenas o olhou por um instante, sem grandes reações, e continuou as anotações na partitura, fazendo uma pequena pausa antes de voltar a tocar sabe-se lá o quê.

Dylan não era um gênio musical, mas podia perceber que a composição de notas aleatórias não parecia fazer sentido juntas em uma melodia. Então, quando a Darcy fez mais uma pausa para anotar, ele roubou sua caneta.

A garota se empertigou.

— O quê? Agora você vai se juntar a Kloe para brincar comigo?

Reclamou, baixando os fones com irritação.

Dylan aproximou a caneta e deu uma pancada no topo de sua cabeça. Sorriu ao vê-la se encolher, soltando um grunhido exageradamente dramático e afagando o local acertado.

— Você nos fez perder pontos na aula de química, sabia? — Apontou para a partitura. — E para quê? Ficar fazendo música sem sentido?

Ela revirou os olhos escuros e tentou recuperar a caneta.

— Nenhuma música é sem sentido... — Esticou a mão para tentar pegar o objeto, mas ele tinha erguido o braço, impedindo que alcançasse.

Por mais que Dylan não fosse tão mais alto, ainda teria que fazer um pequeno esforço para alcançá-la, e Alice se recusava a passar por isso.

— Dylan Montgomery, se não me devolver…

— Eu tive uma péssima manhã, sabe. — Ele a interrompeu.

Guardou a caneta no bolso interno do paletó do uniforme ao vê-la desistir.

— Dormi mal e acordei pior ainda. Depois me vesti e fui tomar café na pior lanchonete da cidade com meu pai, que me abandonou aos seis anos e meu irmão mais velho, que adora lembrar a todos o quanto me odeia...

Respirou fundo.

— Mesmo assim, virei duas latas de energético e fui para a aula de química, porque não queria te prejudicar, e então–...

Os grandes olhos escuros de Alice estavam atentos ao seu rosto, claramente preocupados.

— Não me olhe assim. Estou irritado com você. E quero entender o que pode ter sido pior do que o que eu passei para Alice Darcy matar aula. Sei que não é disso.

Ela estreitou os lábios e voltou ao piano.

— Não foi pior do que a sua manhã.

Deu os ombros, desconectou o cabo da caixa de som e começou a tocar para ele.

Irritantemente, era uma música e tanto.

— Viu? Não é uma melodia sem sentido, só um pouco... Caótica.

Dylan permaneceu quieto, ainda esperando por uma justificativa — embora não soubesse se estava certo em exigir alguma.

— Seus pais... Eles se divorciaram? Por isso seu pai te abandonou?

A pergunta soou hesitante.

— A morte os separou. Graças a mim.

Alice errou uma nota e voltou sua total atenção ao amigo, surpresa.

Dessa vez, foi ele quem desviou o olhar — encarou as teclas brancas e respirou fundo antes de ajeitar a postura e começar a tocar.

— Posso te contar, se quiser. Mas vai ter que me dizer por que veio para cá.

Os orbes escuros observaram os dedos desajeitados do amigo tocarem Moonlight, e decidiu acompanhá-lo num dueto — tomando o comando das teclas mais graves da melodia em seu lado do piano.

— Pode contar se quiser contar.

Ele hesitou por um minuto inteiro, como se buscasse nas notas a coragem necessária para conseguir desabafar.

— Minha mãe morreu afogada, depois de me salvar...

De certa forma, era um alívio falar daquilo com alguém fora da família.

— Eu tinha seis anos, meu irmão oito. E meu pai...

Uma pausa.

— Digamos que ele não soube lidar com a viuvez. Minha tia ficou com nossa guarda, mas meu irmão me odiava tanto que preferiu com uma desconhecida. Nós brigávamos o tempo todo, então... minha tia não teve escolha.

A pianista o espiou de soslaio.

Dylan ainda encarava o piano e tocava distraidamente.

— Você não se dá bem com sua família?

— Eles é que não se dão bem comigo. — Sorriu de um jeito tristonho. — Acho que só minha tia conseguiu me perdoar.

Deu os ombros como se não fosse grande coisa, mas era.

Sentiu o mesmo buraco no estômago de quando Damen deixou a mesa naquela manhã — dez vezes mais forte, graças às memórias.

— Minha mãe era a pessoa favorita de todos que a conheciam... — Ele tomou fôlego e apontou na direção da porta. — Ela está naquela parede, sabia? Minha tia fala que ela costumava ser bem popular na escola.

Alice tinha notado.

— Dianna Montgomery, não é?... Eu tinha minhas suspeitas.

Ele acenou devagar.

O nome da mãe causava um vazio diferente em seu peito.

— Por que suspeitas?

Alice concordou.

— Você não toca bem o suficiente para a classe avançada, então a senhora Winter deve ter gostado muito da sua mãe para aceitá-lo.

Aquilo o fez sorrir.

Por um momento, apenas as notas de piano soaram pela sala de música.

Dylan sentiu seu corpo tão relaxado que podia fechar os olhos e dormir por horas a fio. Mas Ally voltou a falar, meio que o despertando.

— Eu sinto muito. Por sua família. — Ela finalmente conseguiu soltar. — Só acho que se eles realmente te culpam são meio idiotas. Não é como se você fosse planejar isso, só... Aconteceu. Acidentes acontecem.

O Montgomery não respondeu, porque não sabia se concordava.

Ao invés disso, começou a tocar outra melodia. Algo diferente, que a garota não conseguiu acompanhar, porque não reconhecia.

— Meus pais vão se divorciar. — Alice revelou, enfim. — Eu vi os papéis de manhã, aí fugi para a escola sem que eles percebessem... Acho que iam me contar.

O olhou de lado, sorrindo sem jeito.

— Covarde, não é?

— Claro que não.

A garota suspirou, deitando a cabeça no ombro do amigo e deixando que ele continuasse a tocar sozinho. Fechou os olhos para aproveitar, porque apesar de Dylan não ser lá muito habilidoso tecnicamente, tocava com o coração.

— Eu sou adotada. Meus pais... Perderam a filha recém-nascida quando eram mais novos, de um jeito terrível... Eu acho que pensaram que uma menininha diferente podia substituir o vazio. Obviamente não aconteceu.

Ele acenou em compreensão. Queria envolver os ombros dela, mas tinha a impressão de que Alice preferia música a consolos físicos.

— Tenho certeza que não pensam em você como uma substituta, Ally.

— Talvez não... Mas é o que eu sou. Então, quando vi os papeis... Não sei. Acho que me senti culpada, como se minha adoção não tivesse servido para nada. Talvez se a garota certa estivesse com eles, isso nunca teria acontecido.

— Divórcios não são o fim do mundo, Ally. As pessoas se separam o tempo todo, com ou sem filhos.

Ele beijou a cabeleira escura carinhosamente, desistindo de conter o impulso e a envolvendo em um abraço carinhoso.

Sentiu que a garota se encolhia em seus braços, então a apertou com mais força.

— Não seja boba. É claro que não é sua culpa.

Alice limpou o nariz com as mãos, engolindo as próprias lágrimas.

— Também não é sua culpa! Sobre sua mãe... Ela foi sua heroína, ponto. Tenho certeza que sua família pensa assim também.

Dylan queria pensar assim, mas sabia que não era verdade.

— Você não conhece minha família.

Ele deu um sorriso sem jeito enquanto ajeitava os cabelos desgrenhados da Darcy.

— Se sua família é um bando de idiotas, deixe que sejam. Você não pode se culpar, entendeu?... Sua mãe ficaria mais triste do que qualquer um se soubesse que o filho passa a vida se culpando. É por isso que você não está dormindo direito?

Ela voltou a limpar o nariz, dessa vez na manga da camisa.

— Não chore...

O Montgomery pousou as mãos no rosto dela.

Sentiu o pulso acelerar, de repente muito consciente da pouca distância entre os dois.

Ele umedeceu os lábios e respirou fundo, tentando se lembrar que aquela, definitivamente, não era uma conversa para beijos — embora seu corpo estivesse reagindo sem permissão.

— Vamos fazer um acordo... Você para de pensar que é culpada pelo divórcio dos seus pais, porque isso não faz nenhum sentido...

Riu, tentando ignorar o nervosismo.

— E faço meu melhor para parar de me culpar sobre isso, ok?

Alice concordou devagar.

Sua cabeça girou ao perceber a aproximação, e não pela primeira vez, seu coração saltitou no peito de um jeito desagradável — dessa vez, os saltos vieram acompanhados pela sensação de borboletas inconvenientes dançando por seu estômago.

— Desculpe, estou ridícula. Eu-... Preciso de um lenço.

Ela resmungou ao se levantar, só para ter uma desculpa para se afastar do amigo.

Nenhum dos dois percebeu a sombra de Kloe espreitando a sala.


= ♫ =


— Por que você não simplesmente conta tudo para o Damen?

Linda Evans estava dirigindo um conversível vermelho que combinava muito com sua personalidade. Com os cabelos loiros ao vento, os óculos de sol no rosto e batom vermelho nos lábios, ela só precisava de um echarpe voando para parecer uma estrela de cinema.

— Por que eu contaria para o Damen? Devia contar para o Dylan que aquele projetinho de meretriz tem um compromisso com alguém e está fazendo ele de tonto.

Mesmo que fossem melhores amigas há quase uma década, Linda nunca ia compreender os motivos de Kloe dificultar coisas que eram muito simples, como sua relação com Damen.

— Klo, você pode enganar todo mundo com essa ladainha de “eu não me importo com o Lopez”... Mas sou sua melhor amiga, caso não se lembre. Não pode me enganar.

— Eu não me importo mesmo, oras.

Apesar de parecer muito convicta, ambas sabiam que era uma mentira.

Kloe Smythe conheceu Damen Lopez aos nove anos de idade, quando o garoto, aos dez, foi adotado por sua vizinha — que também era a melhor amiga de seu pai.

Eles tinham muito em comum: eram orgulhosos, controladores e gostavam de ter o mundo ao seu favor, então prezavam a popularidade e os poderes que ela os trazia.

Em sua infância, costumavam se juntar para pregar peças em crianças mais novas da vizinhança, e quando a puberdade chegou, trocaram todas as primeiras experiências possíveis.

Supostamente deviam ser almas gêmeas.

A primeira paixão e o primeiro amor um do outro, mas no último ano, Damen simplesmente havia escolhido Alice Darcy como sua primeira namorada — um compromisso que ele levou muito a sério.

Era bem feito que agora estivesse a ponto de levar um par de chifres.

— É muito bem feito que a Santa Alice de Calcutá seja quem vai traí-lo.

Ela afundou no banco, soltando um suspiro frustrado.

— Damen não é do tipo passivo. Se contar, ele vai retribuir na mesma moeda. E aí vocês finalmente vão transar e o espírito obsessor que está no seu corpo desde que eles começaram a namorar vai te deixar em paz.

— Você é insuportável, Linda.

A loira riu quando a amiga atirou o batom em sua direção.

— Certo... Chegamos no seu ponto, princesa. — Avisou, estacionando com cuidado. — Se você por acaso decidir parar de ser teimosa, me ligue para contar os detalhes sórdidos, por favor.

Kloe ergueu o dedo médio na direção da amiga antes de descer do carro.

A Evans buzinou duas vezes, lançou beijos para o ar e deu partida.

— No és mi madre, Santana!

Os gritos vindos da casa dos Lopez chamaram a atenção da Smythe, que diminuiu o ritmo dos passos na medida em que foi se aproximando de casa.

— Então pare de agir como um maldito pirralho!

Santana nunca tinha sido do tipo compreensiva.

Ela era um furacão: um poço de personalidade, palavras ácidas e energia, tão geniosa que Kloe achava curioso o fato de que se desse tão bem com seu pai — o pacífico, tranquilo e racional Blake Smythe.

— Não é feio fofocar, Smythe?

A morena deu um salto assustado e sentiu o rosto aquecer ao ver a figura de Damen sentada no balanço de seu quintal — completamente à vontade na casa dos outros.

Ele vestia a jaqueta de couro favorita e tinha um cigarro suspeito preso à boca.

— Que cara é essa?

Kloe se aproximou, puxando o cigarro dos lábios dele e atirando no chão para esmagar antes de sentar-se ao seu lado. Como o balanço era largo, o Lopez não precisou se mexer para que ela se encaixasse.

— Quem é o novo vizinho?

Ele pareceu pensar muito antes de responder.

Tio.

Apesar de sentir que ele escondia algo, ela não tentou insistir.

— Não sabia que sua mãe tinha irmãos... Meu pai sabe?

Voltou sua atenção para o jardim dos Lopez, apesar de Santana e o irmão já estarem dentro de casa, onde certamente continuavam aquela discussão.

— Não sei. Eles são só meio-irmãos.

Ela puxou a mão de Damen com hesitação.

— Parece que é uma péssima visita, não é?

Recostando a cabeça na corda que segurava o balanço, Damen observou Klo por um longo tempo... Os olhos castanhos espertos, os cabelos negros na altura dos ombros, que ele sabia serem macios e cheirosos.

A boca pintada discretamente, de um jeito que fazia com que a cor rosada de seus lábios parecesse natural e ele tivesse o impulso de mordê-los.

Foi um alívio sentir aquele impulso.

Os sonhos com Isabella estavam começando a perturbá-lo. Então, sentir algo por Kloe deixava claro que ele só precisava transar.

Ela parecia bastante disposta a convencê-lo daquilo também, já que tinha começado a roçar os lábios rosados na tatuagem que tinha feito há uns três meses, quando sua vida começou a virar de cabeça para baixo — o corpo dele se arrepiava com o toque.

A garota reconheceu a fagulha brilhando nos olhos cor de mel.

Então, tomou coragem para se aproximar, puxando o rosto do vizinho enquanto se esticava para roubar um beijo — que foi imediatamente repelido.

Damen afastou as mãos de seu rosto e levantou, deixando-a de lado.

Ainda estava meio lento por conta do cigarro, mas não era tonto. Soltou um suspiro cansado, pressionou os olhos e baixou-se para pegar o cigarro, muito consciente que todos saberiam a origem caso fosse encontrado.

Deu uma última olhada em Klo, sem ter certeza se deveria ou não se desculpar pela esquiva. Mas como não estava errado ao fazer aquilo, simplesmente rumou na direção do próprio jardim.

O desprezo fez a Smythe soltar, sem pensar:

— Sabia que sua namorada arranjou um namoradinho na escola?

Tomou a atenção imediata do outro.

— O quê?

A morena sorriu como se tivesse ganhado uma partida.

— Darcy, ué. Parece que agora que não está mais por perto, ela decidiu arranjar um namoradinho rico. E se quer saber...

— Não quero.

A voz firme a calou.

Em silêncio, Kloe o assistiu pular o muro do quintal e voltar à propriedade dos Lopez.


Damen não acreditou naquilo nem por um segundo, é claro. Era fácil imaginar alguém se apaixonando por Ally com ele fora do radar, mas a conhecia bem o suficiente para saber que “traição” não fazia parte de seu vocabulário.

Mesmo assim, a ideia de que Klo estava espalhando rumores pela British o irritou profundamente, e a culpa por sua própria ausência voltou a assolá-lo.

Ele puxou o telefone que vibrava em seu bolso e fez uma careta ao ver “Cachinhos Dourados” no identificador. Maya sempre preferiu se comunicar por mensagens, então ligações eram incomuns... O que significava que algo não estava certo.

Pensou em ignorar.

Damen já tinha problemas demais na própria cabeça para ter que lidar com os problemas de sua melhor amiga, mas fez um esforço.

— Sim?

Foi um esforço bem-vindo, porque Maya precisava ser salva.



Os Darcy esperavam Alice na sala de estar quando finalmente retornou do colégio.

A papelada do divórcio tinha sumido, mas a tensão no ar era o suficiente para que ela compreendesse que aquele era o momento da revelação.

— Nós... Passamos alguns anos dentro desse impasse, e tentamos...

Robert falava devagar, meio perdido no próprio discurso.

Eliza era um poço de silêncio.

— Tentamos fazer dar certo. — A voz dele estava vazia, sem sentimentos. — Mas chegamos à conclusão de que o melhor... É encerrar por aqui, porque...

Alice notou os olhos inchados da mãe e os ombros caídos — como se sua alma tivesse sido arrancada do próprio corpo.

Perguntou-se há quanto tempo aquilo se desenrolava — bem embaixo de seu nariz.

Papéis de divórcio não surgem do dia para a noite.

— Sua avó voltou para a cidade... — A voz do pai era um eco distante. — Então... Vou continuar aqui, na nossa casa. Sabemos que é uma decisão difícil, querida, e não precisa dar sua resposta agora, mas–...

— De quem foi a ideia?

Alice não reconheceu a própria voz — soava inesperadamente tranquila.

Os pais a olharam com confusão.

— A ideia do divórcio. De quem foi?

O silêncio se estendeu entre os Darcy.

Eliza foi a primeira a abrir a boca, mas as palavras morreram em sua garganta.

— Minha. — Robert disse por fim, ignorando o cerrar de olhos da ex-mulher em sua direção. — Eu sinto muito, Al...

— Se é assim… — A garota voltou a interrompê-lo. — Vou ficar com a mamãe.

Deu os ombros como se a lógica fosse muito simples.

Levantou, puxou a bolsa e subiu para o quarto sem olhar para trás.

Quando finalmente afundou o rosto no travesseiro, chorou até que não restasse uma lágrima.


~ ♫ ~

Notas finais
Bem, já que os capítulos estão prontos, porque não continuar postando?... Mas ainda assim, espero que algum dia um leitor me dê um sinal de vida. ^^"