Pride and Joy

26 Capítulo 26


Notas iniciais
[N/A (16/04/2012): Capítulo corrigido/revisado]

PRIDE AND JOY


_ O que quer dizer com "achou o Sasuke"? – Naruto gritou, se pondo de pé e mordendo o lábio para não protestar da pequena dor que ainda incomodava sua coxa baleada. Precisava se mostrar forte, pois chegara, finalmente, a hora de agir. Seu coração batia forte, a ansiedade de encontrar e parar definitivamente Sasuke era muito grande.

_ O lugar que suspeitávamos é mesmo o esconderijo de Orochimaru. Uma fortaleza, fora dificílimo adentrar, mas nada que anos de experiência não fossem úteis. Sasuke estava lá, apesar de eu não ter conseguido entrar no casarão, o vi quando estava no jardim, ele espiava para fora da janela.

_ Você o viu de longe? Como pode ter certeza que era ele? – Gaara questionou, juntando seus pertences na forma mais rápida que conseguia. Por mais que não houvessem combinado o procedimento ao encontrar Sasuke, era de mútuo entendimento que deveriam agir. Kakashi parecia distraído enquanto pensava em uma resposta, olhando ora para o ruivo ora para o loiro.

_ Desembucha! – Naruto gritou em voz alta, começando ele, também, a juntar suas roupas e demais itens necessários. Antes que Kakashi pudesse responder, Gaara notou a movimentação de Naruto, segurando seu pulso numa tentativa de impedi-lo de continuar a se movimentar.

_ Onde você pensa que vai?

Naruto abriu a boca para perguntar "mas do que diabos você está falando?", porém ao encarar as feições do ruivo entendeu. Ali estava o olhar de preocupação, o medo estampado em cada milímetro da face de Gaara. O ruivo o soltou, e juntando as duas mãos a frente do rosto, sussurrou de uma maneira que fez os cabelos da nuca de Naruto se arrepiarem, os olhares se cruzando de maneira expressiva.

_ Pelo amor de Deus, não faça isso comigo de novo. – suplicou em tom baixo, fazendo o grisalho se sentir levemente desconfortável por estar atrapalhando um momento intimo do casal... Se ao menos houvesse amassos...

Naruto sorriu, envolvendo as mãos unidas de Gaara com as suas, sentindo o quão frias elas estavam, e como estremeciam por antecipação e ansiedade.

_ Eu não vou ser imprudente, só quero acompanhar vocês.

_ Você ainda está hospitalizado!

_ Você mesmo disse que eu vou ganhar alta amanhã! Que diferença faz sair um dia antes? – Naruto argumentou, sorrindo mais abertamente, deixando as feições do ruivo cada vez mais desesperadas. Foi o momento que Kakashi resolveu intervir e cessar uma discussão sem proposito algum, estavam perdendo tempo precioso.

_ Orochimaru está morto. – Falou em tom firme, qualquer discussão anteriormente iniciada foi totalmente esquecida. Os olhos de Gaara e Naruto, ainda fitando cada qual a íris alheia, arregalaram de surpresa com a informação. Giraram a cabeça lentamente encarando Kakashi e questionando o mais velho com o silencio de pura ânsia por informação. O grisalho suspirou, antes de continuar a falar – Sasuke seduziu Orochimaru...

_ O QUÊ? – Naruto gritou, empurrando o corpo de Gaara para o lado e se aproximando de Kakashi. O grisalho o silenciou com um gesto de mãos, Naruto apertou os punhos na lateral do corpo, tentando se conter o máximo que conseguia.

_ Deve ter sido um plano, eu não consegui ver direito o que aconteceu, pois depois que... Ahn... Que Orochimaru beijou Sasuke...

_ O QUÊ? – Naruto gritou mais alto, mas a mão direita de Gaara se posicionou em cima da boca do loiro, impedindo-o de atrapalhar o grisalho novamente, enquanto sua mão esquerda o imobilizava com um pouco de dificuldade. Com um olhar exigindo que prosseguisse, Gaara instigou Kakashi a recomeçar, mantendo o loiro que se debatia em seu devido lugar.

_ Depois que Orochimaru beijou Sasuke, ele reverteu a situação. Tenho certeza do que vi: Sasuke socou Orochimaru nas partes intimas e o jogou no chão, eles devem ter brigado. Quando vi isso, entrei em contato com meus antigos superiores imediatamente. Dentro de uma hora eles chegaram, e por mais que eu não tivesse visto Sasuke sair em local algum do terreno, ele não estava mais lá dentro. Orochimaru aparentemente se enforcou, e diversas fotos de pedofilia foram encontradas ao redor de seu corpo. Sasuke deve tê-lo ameaçado, e o homem preferiu tirar a própria vida, afinal, qualquer pessoa que já fora presa algum momento da vida sabe muito bem como pedófilos e estupradores são tratados na cadeia. Diversos outros guardas de Orochimaru foram encontrados feridos.

_ Você quer dizer que Sasuke não matou ninguém? – Gaara perguntou, finalmente liberando a boca de Naruto, que respirou avidamente como se não respirasse há dias, fuzilando o ruivo com o olhar.

_ Não diretamente. Sasuke feriu gravemente a maioria dos guardas, mas utilizou armas ninjas letais de forma invejável. Apesar de ter acertado na cabeça de dois deles e no peito de um deles, a penetração das armas não foi profunda o suficiente para matar, e tendo em vista a região dos golpes, era de grande chance de morte. Sasuke não agiu para matar, está evidente. Colocou a força necessária para ferir e apavorar os homens, fazendo-os desmaiar de dor e medo, e apenas um grande profissional seria capaz de fazer isso. O Uchiha calculou a distância dos golpes e a força necessária para chegar à velocidade exata, não é qualquer amador que consegue fazer isso, ainda mais em milésimos de segundos. Os outros guardas não foram machucados gravemente, apenas leves lesões. Dois deles foram encontrados amarrados. Mas...

_ Mas? – o casal perguntou em uníssono.

Kakashi suspirou novamente antes de responder, escolhendo bem as palavras.

_ Mas Sasuke não sairá limpo desta. Por mais que Naruto não tenha prestado queixa contra Sasuke, agora estamos lidando com mais situações... adversas. Ele pode alegar legítima defesa nos casos dos guardas, e dificilmente será condenado por lesão corporal nestes casos se ficar provado que utilizou apenas do necessário para poder escapar do cárcere. Mas no caso de Orochimaru, não há escapatória. Ele será processado por lesão corporal grave e induzimento ao suicídio...

_ Induzi-o-que? Existe esse crime? – Naruto perguntou, pendendo a cabeça na lateral, demonstrando dúvida.

_ Fique quieto Baka, se Kakashi está dizendo existe. – Gaara respondeu rapidamente, sem perder o foco na explicação de Kakashi. O grisalho, ao que tudo indicava pelo estreitamento leve de seu olhar, sorriu por detrás da gola alta que sempre usava, aceitando o elogio implícito do ruivo.

_ Existe Naruto, é um crime grave. Então, recaem sobre o pequeno Uchiha os crimes de lesão corporal grave, indução ao suicídio, e o de falsidade ideológica. O quadro não é animador.

O silêncio que se seguiu foi compartilhado pelos três, ambos imaginando a mesma coisa: Se conseguissem pegar Sasuke e Itachi, a probabilidade de Sasuke ser condenado e preso era imensa. E ninguém ficaria feliz com esse resultado final. Gaara foi o primeiro a se manifestar, pigarreando enquanto voltava a guardar seus pertences em uma maleta.

_ Isso é um problema para mais tarde. – a áurea de preocupação se dissolveu, os três voltando a se focar no principal objetivo momentâneo – Kakashi: Kabuto mudou seu padrão de movimentação e suspeito que ele esteja indo para um dos imóveis da empresa.

O grisalho fez um barulho de contemplação com a garganta, pensando de olhos fechados antes de pronunciar mais uma vez.

_ Sasuke é extremamente bom em ninjutsu, ao que tudo indica. Os capangas de Orochimaru possuíam grande armamento, mas aquele que se move nas sombras pode contornar esse fato com extrema eficiência. Se Sasuke seduziu Orochimaru antes de fugir, sendo que possuía a habilidade necessária para fazê-lo antes, isso significa que...

_ ... foram negócios. – Naruto completou, com as feições extremamente sérias. O ruivo e o grisalho o olharam suspeito, não era comum Naruto perceber esses pormenores tão prontamente, sem grandes explicações. Dando de ombros, Naruto foi até o armário do quarto de hotel, pegando uma muda de roupas e tratando de colocar a camiseta enquanto continuava a falar – O Sasuke viu que você o encontrou Kakashi? – falou, antes de sua cabeça passar pelo colarinho da camiseta.

_ Sim, ele sorriu para mim antes de Orochimaru aproximar-se da cama onde ele estava deitado.

Naruto não respondeu, e seu ar de seriedade apenas fez Gaara ficar mais confuso. Estava na cara que o loiro havia descoberto algo que os três ainda não perceberam. Mas, depois de anos de convivência com Naruto, ele sabia muito bem que se o loiro não havia vocalizando suas constatações, não adiantaria nada pressiona-lo. O Uzumaki era o tipo de pessoa que falava pelos cotovelos, mas quando decidia guardar algo para si não havia santo que o fizesse falar.

Deixando a indagação de lado, voltou a conversar com Kakashi sobre o endereço do imóvel, enquanto Naruto, pensativamente, guardava todos os seus pertences de maneira mecânica, sua mente jamais deixado de pensar nas atitudes de Sasuke Uchiha.


(***)


Itachi sentia-se mais forte. Não o suficiente para se liberar daquelas correntes malditas, por mais que Sakura houvesse afrouxado-as há dez dias atrás, mas forte o suficiente para se pôr em pé e caminhar se fosse necessário. Entretanto, não havia deixado a mascara cair em nenhum momento: Encontrava-se despojadamente no chão, aparentando fraqueza e desnutrição perante as câmeras.

Os remédios estavam começando a fazer efeito, e apesar de Itachi não saber qual seria seu problema de saúde, o sangue agora raramente sujava suas mãos e roupas quando ele tossia. Sakura havia agido por conta própria, colocando algumas vitaminas no alimento de Itachi, além dos requeridos medicamentos.

Não vira mais a rosada desde a conversa que tiveram há dez dias, ela aparentemente preferia agir em silêncio para evitar maiores suspeitas. Em contrapartida, lá estavam todos os bilhetes, colados ao fundo dos copos simples contendo água cristalina.

Nada de extraordinário acontecera. Ela escrevera certo dia que Fugaku estava impaciente com o sumiço de Sasuke e pretendia contratar mais pessoas além de Orochimaru, pois não estava confiando mais na cobra. Mas fora esta informação, nada de novo acrescentara aos planos de Itachi.

O Uchiha adquiriu um habito: dormir. Dormir gastava menos energia, dormir o fazia descansar e não pensar tanto no que Sasuke estaria fazendo. Dormir ajudava na sua sanidade mental.

Não desmaiar de fome/sede/dor. Simplesmente dormir.

Dormir também o fazia aparentar mais cansaço perante as câmeras. Era difícil no começo, mas depois de minutos de tentativa ele eventualmente dormia. Sakura, em algumas ocasiões, o buscava e fazia uma espécie de higiene paliativa, ali mesmo na cela. Como ele não mais desmaiava, acompanhava o processo com os olhos fechados, sem trocar olhares ou informações com a rosada.

Sentira-se envergonhado na primeira vez que a rosada o tocou, todavia não sofria mais com este sentimento. Afinal, era o mínimo que Sakura poderia fazer por ele depois de tudo que ela havia feito em seu desfavor.

Não que adquirisse alguma espécie de rancor pela garota. Pelo contrário, passou a admira-la por sua iniciativa e força de vontade em se redimir. Como ela mesma havia pontuado, ela poderia muito bem ter fugido e livrado sua cara de toda essa grande palhaçada de Fugaku Uchiha, mas decidira arcar com as consequências. E isso, por si só, a fez conquistar o perdão e admiração de Itachi.

Mas ele necessitava de ajuda, e sua higiene, assim como alimentação, era um desses quesitos.

No exato momento, estava acordando de um sono sem sonhos. Focalizou o prato à frente com rapidez, seus olhos acostumados à escuridão quase eterna. Com a maior rapidez que sua fachada poderia admitir, alcançou primeiro o copo, colocando-o nos lábios e solvendo até a última gota de água. Analisou seu fundo e leu o conteúdo do bilhete com extrema rapidez.

"Homem grisalho de óculos, vigiando a casa há 20 minutos." O pequeno bilhete dizia. O coração de Itachi bateu mais rápido, finalmente uma informação palpável.

Seu cérebro trabalhou muito em poucos segundos. Se havia um homem vigiando a casa, poderia tanto ser alguém do governo como alguém de Orochimaru. Obvio que Orochimaru estava enrolando Fugaku: se o encontrara tão rápido, era impossível que não fosse capaz de encontrar Sasuke, não importa o quão genial seu irmão fosse. A cobra havia aparecido algumas poucas vezes em sua cela para questiona-lo de assuntos presunçosos e suspeitos sobre a empresa de Fugaku, deixando no ar que se Itachi ajudasse-o no que ele desejava ele seria liberto instantaneamente. Se Orochimaru ainda estava vivo, tudo indicava que as câmeras de vigilância de Fugaku não possuíam áudio. E se Orochimaru achava ser capaz de libertar Itachi sob o nariz de Fugaku, tudo indicava que ele não era qualquer violãozinho de araque.

Por obvio, Itachi negou qualquer pacto com a cobra. Não estava interessado em deixar de ser prisioneiro de um criminoso para se tornar escravo de outro, e por mais que Fugaku fosse um homem asqueroso, ainda pretendia mande-lo vivo por mais um tempo. Orochimaru nada mais era do que uma grande incógnita em seu cérebro, e ele não estava pronto para trocar o certo pelo duvidoso.

De qualquer forma, seja lá quem fosse o homem grisalho de óculos, certamente esperava pela chegada de Fugaku. E se fosse um dos homens de Orochimaru ou do governo, estava evidente que algo de grandioso aconteceria.

Sem sequer tocar na comida, cruzou os talheres, lembrando do código combinado com a rosada. Só desejava que ela também recordasse do combinado.

Ou que tivesse tempo para agir antes da bomba explodir.


(***)


Kabuto estacionou o carro duas quadras antes da casa de Fugaku, e percorreu o restante do caminho a pé para não levantar dúvidas. Decepcionou-se ao perceber a ausência do carro de Fugaku na garagem da casa, sabendo que apenas a garota de cabelos rosas deveria estar no interior da casa, a qual não fazia parte de sua missão.

Estava ansioso, fazia tempos que não trabalhava tão avidamente com Orochimaru, e sabia que desta vez receberia uma grande recompensa quando seus planos chegassem ao sucesso eminente. Lentamente, escondeu-se atrás de um arbusto próximo à porta da frente, de modo que quando Fugaku fosse adentrar a casa, não seria nem capaz de perceber de onde partira o tiro.

Por obvio, Sasuke havia exigido que Fugaku fosse mantido preso, não morto. Sua arma era de caça, e não de abate: possuía sonífero, e não balas. Apesar de que sempre andava com seu revolver de estimação na barra da calça, só por precaução.

Aguardou alguns minutos, mas ninguém apareceu. Assistia a rosada trabalhar na cozinha pela janela, e em um determinado instante suspeitou que ela tivesse percebido sua presença, retirando este pensamento tolo da mente assim que ela continuara a realizar suas tarefas domésticas.

Fugaku Uchiha estava demorando...

Cansado, deixou-se sentar no chão, e no mesmo instante que relaxara, ouvira o barulho de alguém se aproximar por trás. Girou o corpo com rapidez, com ambas as armas, a letal e a paralisante, em mãos. Deu de cara com a última pessoa que pensaria em encontrar naquele lugar: Sasuke Uchiha.

E moreno sorriu, abrindo os braços como se desejasse se render. Mas antes que Kabuto pudesse proferir qualquer palavra, o garoto abriu as palmas das mãos, mostrando duas estrelas metálicas encaixadas perfeitamente entre seus dedos. Sem entender, Kabuto voltou a encarar o Uchiha, que ainda sorria.

_ Bu! – ele falou em tom de chacota. Antes que o grisalho pudesse sequer pensar em apertar o gatilho, as duas estrelas de Sasuke foram arremessadas cada qual para uma de suas armas, fazendo-as voar longe. Ao mesmo tempo, Sasuke sacava sua própria arma, a tão bela e cobiçada joia, mirando com rapidez para a cabeça do homem apavorado e assustado.

_ Como...? O que...? – Kabuto sussurrou mais para si mesmo do que para o Uchiha, que apenas sorriu mais largamente.

_ Você é um incompetente mesmo Kabuto. – Sasuke falou, andando de maneira lenta para as armas de Kabuto, recolhendo-as, mas sem jamais tirar a cabeça do homem de sua mira. Este o encarava de boca aberta, com as duas mãos sobre a cabeça – Não lembra que me ensinou sobre as propriedades da Kekkei Genkai Inc. há duas semanas? Não foi difícil somar dois mais dois e imaginar onde estava Fugaku Uchiha.

_ Orochimaru-sama... – sussurrou, mas foi interrompido antes mesmo de questionar sua dúvida.

_ Orochimaru-sama está queimando no Inferno, onde é o seu devido lugar. Não se preocupe, você vai se juntar a ele em breve.

Um arrepio percorreu a espinha de Kabuto, mas este não se moveu. Não podia imaginar que Sasuke houvesse eliminado Orochimaru, tal pensamento apenas o deixava sem reação. Orochimaru era invencível!

_ Orochimaru é um rival a altura, mas ainda sim dono de uma grande prepotência, o que causou sua ruína. – Sasuke falou despreocupado, como se acabasse de ler a mente do grisalho, gesticulando com a joia enquanto guardava as demais armas na parte de trás na cintura de sua calça – Você não passa de um grande incompetente.

Kabuto olhou de canto de olho para a janela aonde a rosada trabalhava, percebendo, para o seu pavor, que ela havia acabado de se retirar. Não havia ninguém para perceber a afronta do Uchiha, ninguém a quem ele pudesse pedir socorro. Não havia mais os planos de Orochimaru para se concretizarem. Não havia mais sequer Orochimaru-sama.

_ Não vou nem perder meu tempo trocando palavras com um incompetente como você Kabuto. – engatilhou a arma, o som fez o grisalho estremecer. Sasuke colocou as feições frias e sérias a postos, qualquer vestígio de sorriso deixado solenemente para trás – Dê minhas saudações à Orochimaru no Inferno.

Kabuto riu, abaixando os braços e ajeitando os óculos, encarando Sasuke com a dignidade que lhe restara. Afinal, seu orgulho era a única coisa que sobrara, o qual ele possuiria até seu último momento de vida.

_ Dê você mesmo Sasuke. Você é um assassino também. Acha que vai acabar disfrutando do Paraíso enquanto nós estivermos no Inferno? Você não é diferente de nós.

Sasuke não alterou as feições nem um pouco, mas seus olhos brilharam em raiva por ter sido contrariado. Respirando fundo, abriu um pequeno, mas maligno sorriso, antes de colocar a apatia novamente a postos.

_ Pode até ser. Mas escreva o que eu digo: Enquanto vocês estarão queimando no espeto do demônio, eu vou dançar com as chamas do Inferno. Eu não tenho medo das consequências, ao contrário de vocês, covardes.

O som de tiro ecoou por todo quarteirão, o corpo de Kabuto, inerte, caíra por cima da moita. Seu sangue espirrou com o tiro, sujando a face intacta do Uchiha, e pequenas gotículas atingiram seus lábios.

Sasuke lambeu-as, achando o sangue alheio extremamente adocicado em comparação com o seu, afinal, a vingança era algo doce. Dando as costas à carcaça do grisalho incompetente, caminhou em direção ao seu verdadeiro objetivo.


(***)


Sakura estava na cozinha, lavando alguns pratos e organizando alguns enlatados na dispensa para se distrair da monotonia que acompanhava sua rotina naquele lugar. Havia acabado de deixar a refeição de Itachi, com o bilhete importante colado no fundo do copo. Seu corpo tremia de ansiedade, era obvio que alguém havia encontrado o cárcere privado onde estavam submetidos. Deus queira que, seja lá quem fosse, fosse alguém predisposto a ajuda-los.

Suspirou, limpando o suor da testa com a manga de seu moletom, iniciando a secar a louça que acabara de enxaguar. Secou o primeiro prato e se virou para guarda-lo no armário, mas esse se espatifou no chão quando a rosada pousou seus olhos esmeraldas na figura parada a porta, seu corpo arrepiando de susto e pavor.

_ H-Hiro...

Lá estava Sasuke Uchiha, em carne e osso. Apontava para ela uma arma reluzente e dourada, cuja beleza seria apreciada se não fosse um perigo eminente à sua vida. Deixando de encarar a arma, analisou a figura de Sasuke, apenas para sentir seu corpo arrepiar ainda mais.

Sasuke parecia que acabara de fugir de um hospício. Sua roupa estava rasgada em alguns pontos, suja de sangue seco e escuro. Seu rosto, por sua vez, continha pingos de sangue fresco que ainda escorriam pela sua pele, e ao julgar pela expressão do Uchiha ele não era o dono de nenhum centímetro de carmesim de sua roupa ou face. Imensas olheiras adornavam seus anteriormente belos olhos negros, agora nada mais possuíam de beleza, estando repletos de fúria e insanidade. Mas o pior era seus lábios, que se contorciam em um sorriso de deboche e malícia.

Sakura, que sempre achara o garoto a sua frente um belo espécime da raça humana, agora não possuía qualquer pensamento de apreciação percorrendo seu cérebro. Estava diante de um predador, e ela era a atual caça.

Ele engatilhou a arma e Sakura engoliu em seco, sentindo suas mãos tremerem. Ele gargalhou em deleite.

_ Ora Sakura, não haja como se não soubesse meu nome, sendo você a cumplice de todo esse circo ridículo. – falou com a voz suave, suave demais. Sakura tremia mais forte, lágrimas de puro pavor escorriam pelos seus olhos assustados.

Não foi capaz de responder. Não conseguia. Esse não era o Sasuke que ela imaginava encontrar no momento que ele aparecesse. Céus, duvidava até que ele um dia viesse! Sabia que a ira o havia cegado de qualquer argumento, sabia que palavras apenas o tornariam mais raivoso e maníaco do que já se encontrava. Calou-se, sem saber se por medo ou por racionalidade.

O Uchiha caçula aguardou alguns instantes, esperando alguma reação da rosada. Ela, covardemente, nada disse. Rindo de leve, retirou a arma de Kabuto da barra de sua caça, segurando-a com a mão direita enquanto segurava de qualquer maneira a joia com a mão esquerda.

_ Estou muito bem humorado esta noite Sakura. Gostaria de jogar um jogo comigo? – o Uchiha questionou, abrindo a câmara do revolver de Kabuto e retirando todas as seis balas de seu tambor. Segurou uma única bala com a mão esquerda, jamais liberando a joia de seus dedos, colocando-a novamente em uma das câmaras do tambor do revolver. – O que acha de um jogo de azar? Roleta Russa é o meu favorito. ¹

Sakura trancou a respiração. Sasuke não podia estar falando sério.

_ Por favor... – Implorou, caindo de joelhos no chão, suas pernas não mais aguentando o peso de seu corpo. As lágrimas agora escorriam como cascata em seu rosto, molhando o chão abaixo do corpo que tremia freneticamente. Soluçava e chorava, incapaz de vocalizar mais uma palavra para implorar por sua vida.

Sasuke gargalhou novamente, girando o tambor do revolver antes de engatilha-lo, apontando para o corpo jogado aos seus pés. Sakura chorou mais alto.

_ Veja bem, suas chances são grandes! Cinco em seis de vida, estou sendo extremamente generoso, Sakura-chan.

Suas lágrimas cessaram. Por quanto tempo ela desejou que Sasuke se dirigisse a ela como Sakura-chan? Ela sequer conseguia lembrar, mas tudo que sempre adquiriu do jovem foi a mais pura e bela indiferença. Agora ela daria tudo na vida para readquirir essa indiferença, deixando de lado o ódio a ela direcionado. Fechou os olhos, inspirando profundamente, acariciando as bochechas com a palma das mãos tremulas para retirar os vestígios das lágrimas salgadas, encarando Sasuke antes de falar com a voz fraca e trêmula, mas recheada de coragem.

_ Eu não te dei essa intimidade, Uchiha.

Seu sorriso torto apenas aumentou de tamanho, ele parecia se divertir imensamente com a repentina coragem de Sakura.

_ Estamos quites então, Haruno.

Apertou o gatilho, o barulho de metal contra mental ecoou na cozinha silenciosa, a rosada deixara de respirar.

A primeira leva de oxigênio a adentrar seus alvéolos foi como um sopro de renascimento. Suspirou fundo, as lágrimas de pura gratificação à Deus escorriam silenciosamente por sua face. Sasuke, novamente, deu uma risada curta, abrindo novamente o tambor do revolver e colocando as balas nas câmaras vazias, guardando a arma novamente na barra de sua calça.

_ Acho que está com sorte essa noite. – andou com passos firmes até o corpo de Sakura, abaixando-se à sua altura. Ergueu o queixo da rosada com a arma dourada, fazendo-a estremecer com o contato do metal gelado em sua pele quente. Sasuke não mais sorria.

O moreno estreitou o olhar, a fúria apenas triplicando em seus olhos. Sakura novamente engoliu em seco, crente de que morreria naquele exato instante. Sasuke sibilou em tom tão baixo que foi preciso alguns segundos para que ela compreendesse a mensagem e percebesse que não, não havia delirado.

_ Suma da minha frente. – Ele repetiu, afastando-se do corpo de Sakura. Não foi necessário repetir uma terceira vez, em poucos instantes a rosada voava para fora da cozinha, utilizando a porta previamente arrombada por Sasuke para se retirar de seu cativeiro, rezando para todos os deuses que o encontro de Sasuke e Itachi fosse mais amigável.

Sasuke acompanhou a movimentação de Sakura com o olhar, encarando-a na porta de entrada até que ela desaparecesse no horizonte negro da madrugada. Com as duas armas letais em punhos, voltou a se concentrar na casa, arrombando cada porta com um chute.

No primeiro andar não havia ninguém. A casa estava com cheiro de mofo e mal cuidada, como se ninguém morasse ali a muitos e muitos anos. Nada de diferente encontrara no segundo andar, sequer parecia ocupado.

Desceu as escadas, frustrado por não achar nada de interesse, quando se deparou com uma abertura para o porão no interior da casa, algo nada convencional: geralmente as portas dos porões ficavam do lado de fora.

Sorriu em satisfação, rompendo seu cadeado com um tiro do revolver, certeiro em sua tranca. Sua mira estava melhor do que ele imaginara.

Abriu a porta lentamente, entrando no estabelecimento repleto de televisões. As televisões preto-e-brancas mostravam cada aposento da casa, todos vazios, com exceção a um. Estava escuro, não era possível ver muita coisa na imagem, mas ao que tudo indicava um homem estava acorrentado a uma parede.

Sasuke já havia revistado todos os cômodos do andar de cima... Não pensou duas vezes em girar os calcanhares e se deparar com uma porta de madeira fina, com cupim, extremamente frágil. Não foi sequer necessário girar a maçaneta para abri-la, tendo em vista o estado de deterioração do objeto.

Entrou no aposento escuro e com cheiro de limo, entendendo perfeitamente a falta de necessidade de uma porta mais durável. O homem estava ali, e Sasuke encarou primeiramente seus punhos machucados e inchados sob o colo do prisioneiro, grossas correntes o amarravam à parede de pedra. Ergueu o olhar, encontrando os olhos arregalados de Itachi Uchiha.

Foi a primeira vez nas ultimas duas horas que fora ele quem perdera o fôlego, e não a sua vítima.

_ Sasuke... – Itachi suspirou. Mas antes que Sasuke pudesse ter qualquer reação, seus pensamentos foram interrompidos. E ele daria tudo para que a repetição de seu nome fosse apenas um eco.

_ Sasuke... – A voz de Fugaku Uchiha sussurrou em seu ouvido. – Largue as armas – falou com a voz igualmente suave, o caçula pode sentir o cano metálico encostar às suas costas.

Apavorado, Itachi observou as duas armas de Sasuke caírem e quicarem no chão, e os braços de seu irmãozinho se erguerem em direção ao céu ao mesmo tempo que Fugaku retirava mais uma arma das cintura da calça de Sasuke e jogava-a no chão, acompanhando as demais.

Sakura tinha razão, ele estava à espera de um milagre.


... continua...


Notas finais
¹ - para entender melhor, procure a diferença entre revolver e pistola no google. Roleta Russa só pode ser feita com revolver, por isso Sasuke utilizou a arma de Kabuto e não a joia. A joia é uma Colt calibre 45, ela é uma pistola.
Eu ando meio mafiosa e viciadinha em armas, eu sei =P.