Pretty When I Cry
1 Pretty when I cry
Notas iniciais
Pretty when I cry
O lugar que ele deitara ainda estava quente.
Eu não devia esperar algo a mais, não poderia, na verdade. Deveria acabar no momento em que ele saísse pela porta.
Apesar de ter completa noção de tudo isso, meu coração não se importava e insistia em bater mais rápido sempre que o seu número aparecia na tela do meu celular me ligando.
Mesmo antes de atender, eu sempre sabia o motivo da ligação e o rumo que aquilo tomaria. Sabia, inclusive, que todas as minhas noites com ele sempre acabariam dessa mesma forma: chorando abraçada no travesseiro.
Fazia mais de dois meses que ele vinha até mim. Confiante, desde a primeira noite ele já sabia o que queria e como queria. Nunca foi tímido, diferente dos meus clientes de primeira viagem, o que fez eu perceber que ele tinha uma certa experiência como cliente nesse ramo — coisa que foi confirmada em nosso terceiro encontro. Eu era a sétima garota de programa que ele já tinha saído.
— Você é diferente de todas! — Conseguia ouvir a voz dele dentro da minha cabeça repetindo isso milhões de vezes, de uma forma tão clara que parecia estar revivendo aquele nosso encontro num motel barato. — Sabe, estou em crise no meu casamento, foi ótimo te encontrar.
Não era a primeira vez que um cliente me falava aquilo, mas confesso que eu, sem querer, acreditei.
Aos poucos ele foi se tornando parte da minha rotina. Trocávamos algumas mensagens durante a semana e toda quinta-feira saíamos. Nossas saídas se resumiam em idas ao motel, mas mesmo assim foi se tornando importante para mim.
Ele fazia eu me sentir especial.
Elogios, flores, chocolates. Ele me prometia o mundo. Dizia que se separaria da mulher e ficaria comigo se eu quisesse. Eu sorria e o chamava de mentiroso, torcendo mentalmente para estar enganada. Como resposta, ele sempre colocava uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha e me dava um beijo na testa, sorrindo. Eu me sentia muito sortuda e, nesses momentos, esquecia de tudo de ruim que eu já tinha passado.
Mas as semanas foram passando e o carinho foi diminuindo. As flores se transformaram em dólares amassados jogados de qualquer jeito em cima do criado-mudo e os carinhos se transformaram em tapas que me deixavam marcada.
O dinheiro já não valia nada comparado com a minha montanha-russa de emoções quando eu estava com ele.
Talvez a minha pouca idade fora o motivo para a ingenuidade em acreditar nas falsas promessas que ele insistira em fazer no início, mas eu segui em frente. Sentia falta do pagamento, não vou mentir, mas passei a ignorá-lo.
Não atendia mais suas ligações, não respondia mais as suas mensagens.
Sentia um vazio no meu peito que não era preenchido por cliente nenhum. Fazia de tudo durante as noites — desde simples felações em rapazes universitários até os fetiches mais estranhos que os magnatas da cidade conseguiam imaginar —, mas nada ocupava minha mente mais do que ele.
Certo dia ele parou de ligar.
Eu esperei um, dois, três dias. Esperei uma semana, um mês.
Ele não me ligou mais.
Suspirei quando me flagrei discando seu número no meu celular. Não, eu não podia fazer aquilo. Eu era uma profissional.
Estaria, logo eu, apaixonada?
Isso era impossível.
Joguei o celular no canto da cama e enfiei minha cara no travesseiro. Chorei, suspirei, gritei. Eu não queria aquilo para mim.
Após uma noite perdida em crise, me levantei. Tomei um banho me observando no espelho.
Eu era linda.
Apesar de ter um coração partido, eu continuava linda.
Sorri e limpei uma última lágrima que insistia em cair.
Lembrei de uma aula que tive pouco tempo atrás, antes de terminar o ensino médio. Quando somos feridos, as cicatrizes apareciam e deixavam a pele mais forte.
Aquilo era real e estava acontecendo comigo.
Aquela primeira paixão bobinha por um cliente era apenas uma cicatriz que servia para blindar meu coração.
Eu sou mais forte que qualquer homem que passe por mim, inclusive você.
Porque eu sou bonita quando eu choro.
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