Pretty Little Liars

7 Capitulo 7 - A VERDADE ESTÁ NO VINHO... OU, NO CASO DE BIA, NA CERVEJA


Enquanto ia entrando apressadamente na casa avant-garde de linhas retas de sua família, que se destacava naquela rua típica de Rosewood, cheia de casas no estilo neoclássico vitoriano, Bia ouviu os pais falando baixinho na cozinha.

– Mas eu não entendo — dizia sua mãe, Elisandra (os pais de Bia preferiam que ela os chamasse por seus primeiros nomes) — Na semana passada você me disse que conseguiria ir ao jantar dos artistas. É importante. Acho que Jason pode comprar algumas obras que eu fiz em Reykjavík.

– Mas eu já estou atrasado na correção dos trabalhos — respondeu o pai dela, Geraldo. — Eu ainda não voltei ao ritmo das aulas.

Elisandra suspirou.

– Como é que eles já entregaram trabalhos, se você só deu aula dois dias? — pergunta Elisandra.

– Eu lhes dei a primeira tarefa antes de o semestre começar. — Geraldo pareceu distraído. -Vou compensar você, prometo. E sobre o Otto's? Sábado à noite?

Bia entrou pelo vestíbulo. Sua família tinha acabado de voltar de uma estadia de dois anos em Reykavík, na Islândia, onde o pai dela tirara um período sabático de seu trabalho como professor em Hollis, uma faculdade de artes liberais, em Rosewood. Tinha sido uma pausa agradável para todos eles. Bia precisava dar um tempo após o desaparecimento de Marian; seu irmão, Thiago, precisava adquirir alguma cultura e disciplina; e Elisandra e Geraldo, que haviam começado a passar dias sem se falar, pareciam ter se apaixonado de novo na Islândia. Mas, então, novamente no lar da família, todos eles estavam de volta aos seus hábitos disfuncionais.

Bia foi até a cozinha. O pai havia saído e a mãe estava em pé, perto da bancada, com a cabeça apoiada nas mãos. Ela se animou quando viu Bia.

– Como você está, gatinha? — perguntou Elisandra, atenciosa, mexendo no cartão que fora dado como lembrança do serviço fúnebre de Marian.

– Estou bem — murmurou Bia.

–Você quer falar sobre isso? — perguntou Elisandra.

Bia sacudiu a cabeça.

– Mais tarde, talvez. — diz Bia.

Ela saiu apressada para a sala, sentindo-se esgotada e incapaz de se concentrar, como se tivesse bebido seis latas de Red Bull. E não era apenas por causa do funeral de Marian.

Na semana anterior, M a atormentara por causa de um de seus segredos mais sombrios: no sétimo ano, Bia pegara o pai aos beijos com uma de suas alunas, uma garota chamada Meredith. Geraldo pediu que Bia não contasse nada para a mãe, e Bia nunca havia contado, apesar da culpa que sentia por causa disso. Quando M ameaçou contar a Elisandra toda a verdade, Bia pensou que M fosse Marian. Marian estava com Bia no dia em que ela flagrou Geraldo e Meredith juntos, e Bia nunca contara isso para mais ninguém.

Naquele momento, Bia sabia que M não podia ser Marian, mas a ameaça de M ainda a rondava, com a promessa de arruinar a família dela. Ela sabia que devia contar a Elisandra antes que M o fizesse, mas não conseguia se obrigar a fazer isso.

Bia foi até a varanda de trás, passando a mão pelo cabelo. Um facho de luz esbranquiçada passou zunindo. Era seu irmão, Thiago, correndo pelo quintal com sua rede de lacrosse.

– Ei! — chamou ela, tendo uma ideia, como Thiago não respondeu, ela foi até lá fora, no gramado, e se plantou na frente dele. -Vou dar um pulo no centro, quer vir?

Thiago fez uma careta.

– O centro está cheio de hippies sujos. Além do mais, estou treinando.

Bia revirou os olhos. Thiago estava tão obcecado em fazer parte da equipe de lacrosse de Rosewood Day que nem tinha se importado em tirar o terno cinza-chumbo que usara no funeral antes de começar seus exercícios. O irmão dela era a cara de Rosewood — usando o boné encardido de beisebol, viciado em PlayStation e economizando para comprar um Jeep Cherokee verde-exército assim que fizesse dezesseis anos. Infelizmente, não havia dúvida que eles tinham os mesmos genes, tanto Bia como seu irmão eram alto, tinham cabelo castanhos e feições angulares inesquecíveis.

– Bem, eu vou tomar um porre — informou ela a ele. — Você tem certeza de que quer treinar?

Thiago estreitou os olhos para olhar para ela, processando a informação.

– Você não está me arrastando para algum sarau de poesia sem que eu saiba? — perguntou Thiago.

Ela negou com a cabeça.

– Nós iremos ao mais sórdido boteco de faculdade que conseguirmos achar. — diz Bia.

Thiago deu de ombros e largou a rede de lacrosse.

– Então vamos lá — respondeu ele.

Thiago desabou em um dos reservados do bar.

– Este lugar é demais. — diz ele.

Eles estavam em Victory Brewery, que era mesmo o bar universitário mais sórdido que encontraram. De um lado, o bar era vizinho de um estúdio que colocava piercings e do outro, de uma loja chamada Hippie Gypsy, que vendia "sementes hidropônicas" — estranho, muito estranho. Havia uma mancha de vômito na calçada em frente ao bar, e um segurança que devia pesar uns cento e cinquenta quilos, meio cego, tinha sinalizado para eles entrarem direto. Estava muito envolvido na leitura de uma revista Dubs para reparar neles.

Lá dentro, o bar era escuro e imundo, com uma mesa de pingue-pongue em péssimo estado nos fundos. Esse lugar era bem parecido com o Snooker's, outro bar encardido, frequen-tado por universitários de Hollis, mas Bia havia jurado que nunca mais colocaria os pés lá. Ela havia conhecido um cara sexy chamado Eduardo no Snooker's, duas semanas antes, mas aí ele acabou se revelando não ser bem um menino, e sim um professor de literatura, o professor de literatura dela. M enviou mensagens perturbadoras para Bia sobre Eduardo e, quando Eduardo, acidental-mente, viu o que M havia escrito, presumiu que Bia estivesse contando para toda a escola sobre eles. E assim acabou o romance de faculdade de Bia.

Uma garçonete de peitos enormes e usando tranças como as de Heidi, uma personagem de livros infantis, se aproximou da mesa deles e olhou para Thiago cheia de suspeita.

– Você tem vinte e um anos? — perguntou a garçonete.

– Ah, tenho. — Thiago cruzou as mãos sobre a mesa. — Na verdade, eu tenho vinte e cinco anos.

– Nós vamos querer uma jarra de Amstel — interrompeu Bia, chutando Thiago por debaixo da mesa.

– E — acrescentou Thiago — eu quero uma dose de Jaeger.

Heidi Peitões parecia desconfortável, mas voltou com a jarra e a dose de licor. Thiago bebeu o Jaeger num único gole e fez uma careta horrorizada, de garotinha. Ele bateu o copo com força na mesa de madeira e olhou para Bia.

– Acho que descobri por que você ficou tão maluca. — Thiago tinha dito, na semana passada, que achava que Bia estava agindo de forma ainda mais maluquinha que o normal e jurara descobrir o porquê disso.

– Estou morrendo de curiosidade — disse Bia, seca.

Thiago uniu os dedos como se desenhasse uma torre, uma atitude professoral que o pai deles sempre assumia.

– Acho que você está dançando em segredo na Turbulence. — diz Thiago, e Bia deu uma risada tão forte que a cerveja saiu pelo seu nariz, Turbulence era uma boate de striptease duas cidades adiante, perto de um aeroporto com uma só pista — Dois caras disseram ter visto uma garota por lá que era igualzinha a você — continuou Thiago. -Você não precisa esconder isso de mim, eu sou legal.

Bia deu um puxão discreto em seu sutiã de angorá. Ela havia feito um para ela mesma, e também para Marian e para suas velhas amigas no sexto ano, e havia usado o seu no memorial de Marian, como um tributo. Infelizmente, no sexto ano, Bia usava um número menor, e agora o tecido a apertava e dava uma coceira dos infernos.

– Você quer dizer que não acha que eu estou agindo de forma estranha porque: a) nós estamos de volta a Rosewood e eu odeio isso aqui; e b) minha antiga melhor amiga está morta?

Thiago deu de ombros.

– Eu acho que você não gostava de verdade daquela garota. — diz Thiago.

Bia se virou. Tinha havido momentos nos quais ela realmente não gostava de Marian, isso era verdade. Em especial, quando Marian não a levava a sério, ou quando ela a infernizava, querendo saber detalhes sobre Geraldo e Meredith.

– Isso não é verdade — mentiu.

Thiago colocou mais cerveja em seu copo.

– Não é muito estranho que ela estivesse, sei lá,jogada num buraco? E, tipo, coberta de concreto? — pergunta Thiago.

Bia estremeceu e fechou os olhos.

– E aí, você acha que alguém a matou? — perguntou Thiago.

Bia deu de ombros, essa era a pergunta que a assombrava — uma pergunta que ninguém mais havia feito, no memorial de Marian, ninguém teve peito de dizer que ela havia sido assassinada, só que ela havia sido encontrada. Porém o que mais poderia ter acontecido, além de assassinato? Num minuto, Marian estava na festinha delas. No instante seguinte, tinha desaparecido. Três anos depois, o corpo aparece em um buraco no quintal da casa dela.

Bia se perguntou se M e o assassino de Marian tinham alguma ligação, e se essa questão envolvia, de alguma forma, a coisa com Cristina. Quando o acidente de Cristina aconteceu, Bia pensou ter visto alguém além de Marian ao pé da casa na árvore de Rubens. Mais tarde, naquela noite, aquela visão manteve Bia acordada e ela decidiu que deveria perguntar a Marian sobre aquilo. Ela viu Marian e Milena cochichando atrás da porta fechada do banheiro, mas, quando Bia pediu para entrar, Marian disse a ela para voltar a dormir. E, pela manhã, Rubens confessou tudo.

– Eu aposto que o assassino é, tipo, alguém que vai sair do nada — disse Thiago. — Como... alguém que você jamais adivinharia, nem em um milhão de anos.- Os olhos dele brilharam. — Que tal a sra. Craycroft?

A sra. Craycroft era a vizinha idosa deles, à direita, uma vez, ela guardou cinco mil dólares em moedas dentro de jarras de Poland Spring e tentou trocá-las por dinheiro na Coinstar mais próxima. O canal de TV local fez uma matéria com ela e tudo.

– Ah, tá, você resolveu o caso — disse Bia, inexpressivamente.

– Bem, alguém como ela. — Thiago bateu com os nós de seus dedos na mesa. — Agora que eu sei o que está acontecendo com você, posso voltar minha atenção a Mari D.

– Mande bala. — Se a polícia não tinha habilidade suficiente para encontrar Marian em seu próprio quintal, Thiago podia muito bem tentar dar uma ajudazinha para eles.

– Bem, acho que precisamos jogar um pouco de cerveja-pong — sugeriu Thiago, e, antes que Bia pudesse responder, ele já havia reunido algumas bolas de pingue-pongue e um copo com capacidade de 500 ml. — Esse é o jogo preferido de Noel Kahn.

Bia sorriu de forma maliciosa. Noel Kahn era um dos meninos mais ricos da escola e o mais perfeito exemplo de garoto de Rosewood, o que, em suma, fazia dele um ídolo para Thiago. E, ironia das ironias, parecia ter uma queda por Bia, que ela estava tentando ao máximo desencorajar.

– Deseje-me boa sorte. — Thiago segurou a bola de pingue-pongue em posição de saque. Ele errou o copo e a bola rolou da mesa para o chão.

– Primeira bola fora — cantarolou Bia, com voz monótona, e o irmão envolveu seu copo de cerveja com as mãos e derramou todo o conteúdo garganta abaixo.

Thiago tentou, pela segunda vez, jogar a bola de pingue-pongue no copo de Bia, mas errou de novo.

– Você é péssimo! — provocou Bia, a cerveja começando a fazer com que ela se sentisse meio tontinha.

– Como se você fosse melhor — retrucou Thiago.

– Quer apostar? — perguntou Bia.

Thiago bufou.

– Se você não conseguir, tem que me colocar para dentro da Turbulence. Mas não enquanto você estiver trabalhando — acrescentou ele, depressa.

– Se você não conseguir, vai ter que ser meu escravo por uma semana. E durante a escola também — disse Bia.

– Fechado — concordou Thiago. -Você não vai mesmo conseguir, então não importa.

Ela empurrou o copo para o lado da mesa em que Thiago estava e mirou. A bola fez uma curva desviando-se de uma das muitas irregularidades da mesa e aterrissou direitinho dentro do copo de vidro, sem sequer encostar nas laterais.

– Ahá! — gritou Bia. -Você já era!

Thiago estava aturdido.

– Foi só uma jogada de sorte.

– Não importa! — Bia riu, se divertindo. — Assim sendo... será que eu deveria fazer você rastejar de quatro atrás de mim pela escola? Ou vestir o faldur da mamãe? — Ela deu uma risadinha. O faldur de Elisandra era um chapéu pontudo, tradicional da Islândia, que fazia quem o usasse parecer um elfo maluco.

– Dane-se. — Thiago tirou a bola de pingue-pongue do copo. Ela escorregou da mão dele e saiu quicando para longe.

– Eu pego — ofereceu-se Bia, sentindo-se agradavelmente bêbada. A bola tinha rolado até a frente do balcão e Bia inclinou-se até o chão para pegá-la. Um casal passou por ela e se espremeu em assentos difíceis de serem espionados, num canto escondido e discreto. Bia notou que a mulher tinha cabelos escuros e compridos e uma teia de aranha tatuada no pulso.

Aquela tatuagem lhe era familiar. Muito familiar. E, quando ela sussurrou alguma coisa para o cara com quem estava, ele começou a tossir feito um louco. Bia endireitou o corpo.

Era o pai dela, com a Meredith.

Ela correu ao encontro do irmão.

– Temos que ir. — diz Bia.

Thiago virou os olhos.

– Mas eu acabei de pedir uma segunda dose de Jaeger. — diz Thiago

– Deixe para lá. — Bia pegou o casaco. — Vamos embora. Agora.

Ela jogou quarenta dólares em cima da mesa e puxou Thiago pelo braço até ele ficar em pé. Ele cambaleava um pouco, mas ela conseguiu empurrá-lo na direção da porta.

Infelizmente, Geraldo escolheu exatamente aquele momento para dar umas de suas risadas inconfundíveis, que Bia sempre disse que parecia o som de uma baleia morrendo. Thiago ficou imóvel, também reconhecendo a risada. O rosto do pai deles estava de perfil e ele estava tocando a mão de Meredith do outro lado da mesa.

Bia viu que Thiago reconheceu o pai. Ele juntou as sobrancelhas.

– Espera aí — guinchou ele, olhando confuso para Bia.

Ela queria que seu rosto aparentasse despreocupação, mas, em vez disso, sentiu os cantos de sua boca desabarem. Sabia que estava fazendo a mesma cara que Elisandra fazia quando tentava proteger Bia e Thiago das coisas que poderiam ferilos.

Thiago estreitou os olhos para encará-la e, depois, olhou de volta para o pai e Meredith. Ele abriu a boca para dizer alguma coisa, depois a fechou e deu um passo na direção deles. Bia o alcançou para detê-lo, não queria que isso acontecesse justo naquele momento. Ela não queria que isso acontecesse nunca. Depois, Thiago endureceu o queixo, deu as costas para o pai e arrancou para fora do Victory, esbarrando na garçonete.

Bia saiu logo atrás dele. Parada na vaga junto ao meio-fio, ela cerrou os olhos por causa da claridade da tarde, olhando de um lado para o outro procurando por Thiago. Mas o irmão havia ido embora.