Pretty Little Liars

15 Capitulo 15 - NEM MESMO UM SISTEMA DE SEGURANÇA SUPERAVANÇADO PROTEGE VOCÊ DE TUDO


Cerca de meia hora depois, Bia estacionou em sua casa dos anos cinquenta, estilo caixote. Apoiou o celular Treo entre o pescoço e o queixo, esperando a mensagem de voz de Patricia acabar. Depois do sinal, ela disse:

— Pa, é a Bia. Se você realmente quer contar ao Wilden, por favor, me ligue. M é capaz de... de mais do que você pensa.

Ela apertou DESLIGAR, sentindo-se ansiosa. Não conseguia imaginar qual segredo horrível de Patricia que M poderia revelar se ela falasse com a polícia, mas Bia sabia, por experiência própria, que M revelaria.

Suspirando, destrancou a porta da frente e seguiu escada acima, passando pelo quarto dos pais. A porta estava entreaberta. Lá dentro, a cama dos pais estava muito bem-arrumada, ou será que aquela passava a ser apenas a cama de Leandra? Leandra tinha arrumado a cama com a colcha de retalhos com estampa de batique cor de salmão, que ela amava e Geraldo odiava. Empilhara as almofadas no lado dela da cama. A cama parecia uma metáfora para divórcio.

Bia largou os livros e caminhou meio sem rumo até a sala de televisão no andar de baixo, a ameaça de M dando voltas em sua cabeça como a centrífuga que eles tinham usado no laboratório de biologia. M ainda estava lá. E, de acordo com Wilden, o assassino da Marian também. M poderia ser o assassino de Marian, abrindo caminho pela vida de todas elas. E se Wilden estivesse certo? E se o assassino de Marian quisesse machucar mais alguém? E se o assassino não fosse apenas um inimigo de Marian, mas também de Bia, Vivi, Pata e Mili? Isso significaria que uma delas seria a... próxima?

A sala estava escura, exceto pela TV piscando. Quando Bia viu a mão de alguém sobre o braço da namoradeira de tweed, deu um pulo. Então, o conhecido rosto de Thiago apareceu.

— Você chegou bem a tempo — Thiago apontou para a tela — A seguir, um vídeo caseiro inédito de Marian Gomes, filmado uma semana antes de ela ser assassinada — disse ele, fazendo sua melhor imitação de narrador de filme.

O estômago de Bia se contraiu. Era o vídeo que tinha vazado, do qual Wilden falou. Anos atrás, Bia tinha se dedicado à filmagem, documentando tudo que podia, de lesmas no quintal às suas melhores amigas. Os filmes geralmente eram curtos, e, frequentemente, tentava fazê-los de maneira artística e profunda, focando na narina de Viviane, no zíper do casaco de Marian, ou nos dedos tamborilantes de Milena. Quando Marian desapareceu, Bia deu sua coleção de vídeos para a polícia. Os policiais os destrincharam, mas não conseguiram achar nenhuma pista sobre aonde Marian poderia ter ido. Ela ainda tinha os originais em seu laptop, embora não assistisse havia muito tempo.

Bia afundou na namoradeira. Quando um comercial da Mercedes terminou e o noticiário recomeçou, Beatriz e Thiago se endireitaram em seus lugares.

— Ontem, uma fonte anônima nos enviou este vídeo de Marian Gomes — anunciou o âncora — Ele dá uma ideia do quão inocente era sua vida apenas alguns dias antes de ela ser assassinada. Vamos assistir.

O vídeo começou com uma tomada trêmula do sofá de couro da sala da Milena.

— E porque ela usa tamanho trinta e quatro — disse Viviane, sem aparecer na tela.

A câmera mudou para uma Milena bem mais jovem, que usava uma camiseta polo cor-de-rosa e uma calça legging que batia em suas canelas. O cabelo caía em cascata em volta dos ombros e ela usava uma coroa de strass brilhante sobre sua cabeça.

— Ela está gata com essa coroa — comentou Thiago, entusiasmado, abrindo um pacote enorme de Doritos.

— Shhh — silvou Bia.

Milena apontou para o telefone LG de Marian, no sofá.

— Querem ler as mensagens dela?

— Eu quero — sussurrou Viviane, abaixando-se e desaparecendo da tela. Então, a câmera virou para Patricia, que parecia quase igual a como está hoje, o mesmo cabelo, a mesma camiseta grande demais, a mesma expressão animada-mas-preocupada. Bia de repente lembrou-se daquela noite, antes de elas terem ligado a câmera, Marian havia recebido uma mensagem de texto e não contou a elas quem era o remetente. Todas tinham ficado incomodadas.

A câmera mostrou Milena segurando o telefone de Marian.

— Está bloqueado — Havia uma tomada borrada da tela do telefone.

—Você sabe a senha dela? — Bia ouviu sua própria voz perguntar.

— Putz! É você! — disse Thiago, animado.

— Tenta o aniversário dela — sugeriu Viviane.

A câmera mostrou as mãos de Vivi se estendendo para pegar o telefone, que estava com Milena.

Thiago franziu o nariz e virou-se para Bia.

— É isso que as meninas fazem quando estão sozinhas? Eu achei que fosse guerra de travesseiro. Meninas de calcinha. Se beijando.

— Nós estávamos no sétimo ano — lembrou Bia — Isso é nojento.

— Não tem nada errado com meninas do sétimo ano de calcinha — resmungou Thiago baixinho.

— O que vocês estão fazendo? — perguntou a voz de Marian. Então, o rosto dela apareceu na tela, e os olhos de Bia se encheram de lágrimas. Aquele rosto, aqueles olhos profundos, era assustador —Vocês estavam xeretando o meu telefone? — questionou Marian, com as mãos nos quadris.

— Claro que não! — gritou Viviane.

Milena se desequilibrou para trás, segurando a cabeça para manter a coroa no lugar.

Thiago enfiou a mão cheia de Doritos na boca.

— Posso ser seu escravo do amor, princesa Mili? — perguntou ele, em falsete.

— Eu não acho que ela sairia com pré-adolescentes, que ainda dormem com seus cobertorezinhos — devolveu Bia.

— Ei! — buzinou Thiago — Não é um cobertorzinho! É meu casaco de lacrosse da sorte!

— Isso é muito pior.

Marian apareceu na tela de novo, parecendo vivaz, vibrante e despreocupada. Como é que Marian poderia estar morta? Assassinada?

Então, a irmã mais velha de Milena, Rebeca, e o namorado Ricardo passaram pela câmera.

— Ei, garotas — cumprimentou Ricardo.

— Oi — respondeu Milena, alto demais.

Bia sorriu para a TV. Ela tinha se esquecido de como todas ficavam derretidas pelo Ricardo. Ele era uma das pessoas para quem elas passavam trote de vez em quando, e também Cristina Vieira, antes de elas a machucarem; Felipe Santana porque era bonitinho; e Andre Gomes porque Milena o achava irritante. Com Ricardo, elas se revezavam fingindo ser garotas do disque sexo.

A câmera pegou Marian revirando os olhos para Milena. Depois, Milena fez careta pra Marian pelas costas. Típico, pensou Bia. Na noite em que Marian desapareceu, Bia não tinha sido hipnotizada, por isso ouviu a briga de Milena e Marian. Quando elas correram para fora do celeiro, Bia esperou um ou dois minutos, depois as seguiu. Bia chamou as duas pelo nome, mas não conseguiu alcançá-las. Ela voltou para dentro, imaginando se Marian e Milena simplesmente as tinham largado, encenando a coisa toda para poderem fugir para uma festa mais legal. Mas, finalmente, Milena voltou lá para dentro. Ela parecia tão perdida, como se estivesse em transe. Na tela, Ricardo se jogou no sofá, perto de Marian.

— E então, o que vocês, meninas, estão fazendo?

— Ah, nada de mais. — Bia ajustou o foco da câmera — Estamos fazendo um filme.

— Um filme? — perguntou Ricardo — Posso participar?

— Claro — respondeu Milena, rápido. Ela se jogou no sofá do outro lado de Ricardo — É um talk show. Eu sou a entrevistadora. Você e Marian são meus convidados. Vou pegar você primeiro.
A câmera desfocou do sofá e se fixou no telefone fechado de Marian, que estava perto da mão dela no sofá. Focou cada vez mais perto até que o minúsculo LED do telefone tomasse a tela toda. Mesmo assim, Bia ainda não havia descoberto quem mandou a mensagem para Marian naquela noite.

— Pergunte quem é o professor preferido dele em Rosewood — falou a voz mais jovem e ligeiramente mais aguda de Bia, por trás da câmera.

Marian riu e olhou diretamente para a lente.

— Essa é uma boa pergunta para você, Bia. Você deveria perguntar a ele se ele quer ter um encontro com alguma de suas professoras. Em um estacionamento vazio.

Bia engasgou, e ouviu a si mesma mais nova engasgando na tela, também. Marian havia realmente dito aquilo? Na frente de todos eles?

E então o vídeo acabou.

Thiago se virou para ela. Ele tinha pó laranja fluorescente de Doritos em volta da boca.

— O que ela quis dizer com essa parada de se enroscar com professores? Parecia que ela estava falando apenas com você.

Um ruído seco escapou da boca de Bia. M contou a Leandra que sua própria filha sabia do caso de Geraldo durante todos esses anos, mas Thiago ainda não sabia. Ele ficaria muito desapontado com ela.

Thiago se levantou.

— Tanto faz.

Bia sabia que ele estava tentando agir de forma casual e despreocupada, mas ele deu o fora da sala, batendo num porta-retratos com a foto autografada de Lou Reed, o ídolo do rock de Geraldo, e um dos poucos pertences do ex-marido em que Leandra não havia dado sumiço. Ela o ouviu subindo para o quarto e batendo a porta com força.

Bia colocou a cabeça entre as mãos. Aquela era a milionésima vez em que desejava estar de volta a Reykjavík, escalando uma geleira, montando seu pônei islandês, Gilda, por uma área seca da erupção de um vulcão, ou até mesmo comendo gordura de baleia, que todos na Islândia pareciam adorar.

Ela desligou a TV, e a casa ficou assustadoramente silenciosa. Quando ouviu um tilintar na porta, deu um pulo. Na sala, viu sua mãe, carregando várias sacolas de compras de lona do mercado de produtos orgânicos de Rosewood.

Leandra viu Bia e sorriu, cansada.

— Olá, querida.

Desde que expulsara Geraldo, Leandra parecia mais desleixada que o normal. Seu blazer de algodão estava mais largo que nunca, as calças de seda tinham uma mancha de tahini na coxa, e o seu longo cabelo castanho-escuro estava preso num ninho de rato no topo da cabeça.

— Deixe-me ajudar — Bia pegou um monte sacolas dos braços de Leandra. As duas andaram até a cozinha, ergueram as sacolas, as puseram na bancada do meio e começaram a desempacotar.

— Como foi o seu dia? — murmurou Leandra.

Então, Bia lembrou-se.

— Meu Deus, você nunca vai acreditar no que eu fiz —exclamou, sentindo como se fosse desmaiar. Leandra olhou para ela antes de guardar a manteiga de amendoim — Eu fui até a Hollis. Porque eu estava procurando por... você sabe. Ela. — Bia não queria falar o nome de Meredith. — Ela estava dando uma aula de arte, então, eu corri para a sala, peguei um pincel, e pintei um A no peito dela .Você sabe, como aquela mulher em A Letra Escarlate? Foi demais.

Leandra parou, segurando um pacote de macarrão de trigo integral no ar. Parecia nauseada.

— Ela não entendeu o que estava acontecendo — continuou Bia — E aí eu disse: Agora todos saberão o que você fez — Ela sorriu e abriu os braços. Tchã-nam!

Os olhos de Leandra viravam de um lado para o outro, processando a informação.

— Você não se deu conta de que a Hester Prynne deveria ser uma personagem que desperta simpatia no leitor?

Bia franziu a testa. Ela estava apenas na página oito.

— Eu fiz isso por você — explicou Bia, baixinho — Por vingança.

—Vingança? — a voz de Leandra balançou — Obrigada. Isso me faz parecer muito sã. Como se eu estivesse lidando muito bem com isso. Já está difícil para mim como está. Você não percebe que a fez parecer... uma mártir?

Bia deu um passo em direção a Leandra. Ela não havia pensado nisso.

— Me desculpe...

Então, Leandra encostou-se ao balcão e começou a soluçar.

Bia ficou sem ação. Suas pernas pareciam argila saída do forno, duras e sem utilidade. Ela não podia conceber o que a mãe estava passando e tinha piorado ainda mais a situação.

— Eu não consigo nem olhar pra você agora — Leandra finalmente gaguejou.

Bia colocou a mão no peito, como se a mãe a tivesse espetado com uma de suas facas Wüsthof.

— Desculpe. Eu queria que Meredith pagasse pelo que fez. — Como Leandra não respondeu, a sensação de secura ácida no estômago de Bia cresceu ainda mais — Talvez eu devesse sair daqui por enquanto, então, se você não consegue olhar para mim.

Ela parou, esperando Leandra se pronunciar e dizer: Não, não é isso que eu quero, mas a mãe ficou quieta.

— Sim, talvez seja uma boa ideia — concordou ela, baixinho.

—Ah. — Os ombros de Bia afundaram e o queixo tremeu — Então, eu... eu não vou voltar para cá amanhã, depois da escola — Ela não tinha ideia de para onde iria, mas isso não importava agora. Tudo que importava era fazer a única coisa que deixaria sua mãe feliz.

Na terça-feira à tarde, enquanto a maioria dos alunos do ensino médio de Rosewood Day estava almoçando, Milena sentou-se em cima da mesa de conferência que ficava na sala do livro do ano. Oito computadores Mac G5 piscavam, um bando de câmeras Nikon de lentes longas, seis calouras, e um calouro nerd e ligeiramente efeminado a cercavam. Ela tocou as capas de alguns livros do ano antigos de Rosewood Day. A cada ano, os livros eram apelidados de A Mula por causa de alguma piada apócrifa interna de 1920 que até mesmo os professores mais velhos já tinham esquecido havia muito tempo.

— Na Mula desse ano, acho que nós devíamos tentar capturar um pouquinho de como é a vida dos alunos de Rosewood Day. Os funcionários do anuário rapidamente escreveram "um pouquinho de como é vida" nos seus cadernos de espiral —Tipo... talvez nós pudéssemos fazer algumas entrevistas rápidas com alunos aleatórios — continuou Milena — Ou perguntar às pessoas qual é a sua lista favorita de músicas de seus iPods, e depois publicar em tabelas perto das fotos de cada um. E como está indo a natureza morta? — Na última reunião, eles tinham planejado pedir para alguns garotos esvaziarem o conteúdo de suas bolsas para documentar o que as meninas e meninos de Rosewood Day estavam carregando por aí.

— Eu tirei fotos ótimas das coisas na mala de futebol do Brett Weaver e da bolsa da Janu Padilha — informou Brenna Richardson.

— Fantástico — elogiou Milena — Continuem assim.

Milena fechou a agenda de couro verde-folha e dispensou o pessoal. Quando eles saíram, ela agarrou sua bolsa Kate Spade de tecido preto e pegou o Sidekick. Lá estava. A mensagem de M que ela ficou torcendo para que nunca estivesse lá.

Quando ela colocou o telefone de volta na bolsa, seus dedos encostaram em algo no bolso interno: o cartão de Darren Wilden. Ele não foi o primeiro policial que perguntou a Milena sobre a noite em que Marian desapareceu, mas ele era o único que tinha parecido... suspeitar de algo mais.

A lembrança daquela noite era ao mesmo tempo clara como cristal e incrivelmente borrada. Ela se lembrava de vários sentimentos: animação por ter o celeiro para passar a noite com as amigas, irritação por Rebeca estar lá, vertigem por Ricardo estar lá também. O beijo deles tinha rolado algumas semanas antes. Mas então Marian começou a falar sobre como Rebeca e Ricardo eram o casal mais bonito, e as emoções de Milena balançaram de novo. Marian já tinha ameaçado contar a Rebeca sobre o beijo.
Quando Ricardo e Rebeca saíram, Marian tentou hipnotizá-las, e ela e Milena tiveram uma briga. Marian saiu, Milena correu atrás dela, e depois... nada. Mas o que ela nunca contou aos policiais ou a sua família, ou às amigas foi que, às vezes, quando pensava sobre aquela noite, parecia que havia um buraco negro no meio dela. Que tinha acontecido alguma coisa de que ela não conseguia se lembrar.

De repente, uma visão apareceu diante dos olhos de Milena. Marian rindo sarcasticamente e se virando para ir embora.

Milena parou no meio do corredor lotado e alguém trombou nas suas costas.

— Você pode se mexer? — reclamou a garota atrás dela — Alguns de nós precisam chegar à aula.

Milena deu um passo à frente sem muita convicção. O que quer que ela tivesse acabado de lembrar desaparecera rapidamente, mas ela sentia como se tivesse estado num terremoto. Ela olhou em volta procurando por vidro estilhaçado e estudantes correndo para todos os lados, certa de que todos tinham sentido isso também, mas tudo parecia perfeitamente normal. A alguns passos de distância, Jéssica Zeigler inspecionava o próprio reflexo no pequeno espelho de seu armário. Dois calouros perto da placa de Professor do Ano riam da barba pontuda e dos chifres desenhados na foto do senhor Craft. As janelas que davam de frente para o pátio não tinham nenhum sinal de rachadura, e nenhum dos vasos na vitrine de Cerâmica III havia caído. O que teria sido essa visão que Milena acabou de ter?

Por que se sentia tão... sorrateira?

Ela deslizou para dentro da sala de economia avançada e desabou em sua carteira, que ficava do lado de um retrato bem grande de um J. P. Morgan de cenho franzido. Quando o restante da turma entrou e todos se sentaram, Lula Molusco caminhou para a frente da sala.

— Antes do vídeo de hoje, eu tenho um aviso. — Ele olhou para Milena. O estômago dela revirou. Não queria todo mundo olhando para ela justo naquele momento — Como primeiro trabalho de redação, Milena Grigio fez uma discussão convincente e muito eloquente sobre a teoria da mão invisível — proclamou Lula Molusco, tocando a gravata, que tinha a estampa de uma nota de cem dólares com o rosto de Benjamin Franklin — E, como vocês devem ter ouvido, eu a indiquei para o prêmio Orquídea Dourada.

Lula Molusco começou a aplaudir, e o resto da classe o seguiu. Isso durou quinze insuportáveis segundos.

— Mas eu tenho outra surpresa — continuou Lula Molusco. — Eu acabei de falar com um membro do júri, e, Milena, você foi para a final.

A classe explodiu em aplausos de novo. Alguém no fundo assobiou. Milena permaneceu sentada, imóvel. Por um momento, ela perdeu a visão por completo. Tentou colocar um sorriso no rosto.
Felipe Santana, que sentava perto dela, deu um tapinha em seu ombro.

— Bom trabalho.

Milena olhou em volta. Ela e Felipe mal se falavam desde muito tempo atras. Na maioria das vezes, ele lançava olhares desprezíveis para ela.

— Obrigada — grunhiu ela, quando achou a voz.

— Você deve ter trabalhado duro de verdade nisso, não? Você usou fontes extras?

— Hum-hum. — Milena pegou com fúria a papelada na pasta de economia e começou a arrumá-la. Alisou as orelhas e dobras e tentou organizar tudo por data. Na verdade, a única "fonte extra" de Milena havia sido o trabalho de Rebeca. Quando ela tentou fazer a pesquisa necessária para o trabalho, até mesmo a definição na Wikipédia de mão invisível era complexa demais para ela. As primeiras frases do trabalho da irmã eram bem mais claras: "O conceito da mão invisível, do grande economista escocês Adam Smith, pode ser resumido muito facilmente, seja descrevendo os mercados do século XIX ou aqueles do século XXI: pode-se pensar que as pessoas estão fazendo coisas para ajudar, mas, na verdade, todo mundo está fazendo por si mesmo." Mas quando ela leu o resto do trabalho, sua mente ficou tão enevoada quanto a sauna a vapor de sua casa.

— Que tipo de fontes? — continuou Felipe — Livros e artigos de revistas? — Quando ela olhou para ele de novo, ele parecia ter um sorrisinho no rosto, e Milena se sentiu tonta. Ele sabia?

— Ah, fontes como... como os livros que McAdam sugeriu na lista dele — balbuciou ela.

— Ah... bem, que bom, então, parabéns. Espero que você vença.

— Obrigada — respondeu ela, decidindo que Felipe não teria como saber. Ele só estava com ciúmes. Felipe provavelmente monitorava todas as conquistas de Milena como um corretor de valores monitora o índice Dow Jones. Milena voltou a arrumar a pasta, apesar de aquilo não estar fazendo com que se sentisse melhor.

Enquanto Lula Molusco diminuía as luzes e começava o documentário Microeconomia e o consumidor, com uma musiquinha brega e ritmada, o celular Sidekick de Milena vibrou em sua bolsa. Devagar, ela conseguiu alcançá-lo e o pegou. Uma nova mensagem.

Eu sei o que você fez. Mas não conto para ninguém, se, você fizer EXATAMENTE o que eu mandar. — M

Alguém ao lado de Milena limpou a garganta. Ela olhou em volta e lá estava Felipe, encarando-a. Os olhos dele brilhavam, iluminados pela luz que vinha do filme. Milena virou o rosto na direção do documentário, mas ela ainda podia sentir os olhos de Felipe no escuro, pregados nela.

Momentos depois, Bia passou pelas portas embaçadas da piscina de Rosewood Day e juntou-se a Milena e Viviane, que estavam conversando baixinho perto das máquinas de refrigerante.

Milena olhou para a multidão de jovens na antessala da ala de natação.

— Eu... eu preciso ir. — Com isso, ela disparou pelas portas giratórias e correu pelo estacionamento.

Bia virou-se para Viviane.

— Milena correu como se ela fosse M — disse, brincando.

— Ouvi dizer que ela é finalista em algum concurso de trabalhos escolares — Viviane pegou seu pó compacto da Chanel e começou a passar no queixo — Você sabe que ela fica doida quando está competindo. Provavelmente foi para casa estudar.

— Verdade — sussurrou Bia.

De repente, alguém arrancou o capuz de Bia, por trás. Ela se virou.

— Thiago — engasgou ela. — Santo Deus.

O irmão riu.

— Você me arruma o telefone da Patricia?

— Claro que não — Bia observou seu irmão. O boné de lacrosse STX estava amassado sobre seus cabelos negros, e ele usava o casaco branco e azul do time da Rosewood Day. Ela não o via desde a noite anterior.

— Então — Thiago colocou as mãos nos quadris — Ouvi dizer que você foi expulsa de casa.

— Eu não fui expulsa — defendeu-se Bia — Eu apenas achei que seria melhor ficar fora por um tempo.

— E você vai mudar para a casa do Juca?

— Vou — respondeu Bia. Depois de Leandra ter dito a ela que fosse embora, Bia ligou para Juca, histérica. Ela não estava pedindo um convite, mas Juca ofereceu, dizendo que não seria problema algum.

O queixo de Vivi caiu.

—Você vai se mudar para a casa do Juca? Tipo assim, para a casa dele? — perguntou Viviane.

— Viviane, não é porque eu quero — explicou Bia, rapidamente — É uma emergência.

Vivi desviou o olhar.

— Que seja. Eu não me importo. Você vai odiar. Todo mundo sabe que ficar com os pais do namorado é o suicídio da relação.

Ela se virou, empurrando a multidão para chegar à porta.

— Vivi — chamou Bia, mas Vivi não se virou. Ela fitou Thiago —Você tinha que tocar no assunto quando ela estava bem aqui? Você não tem tato algum.

Thiago deu de ombros.

— Desculpe, eu não falo TPMês. — Ele pegou uma barra de cereal do bolso e começou a comê-la, sem se incomodar em oferecer a Bia. —Você vai à festa da Janu?

Bia fez beicinho.

— Não tenho certeza. Ainda não pensei a respeito.

— Você está deprimida ou algo assim? — perguntou Thiago, com a boca cheia.

Bia não teve que pensar muito a respeito.

— Mais ou menos. Quer dizer... papai foi embora. Como você se sente?

A feição de Thiago mudou de aberta e brincalhona para dura e resguardada. Ele deixou o papel cair ao seu lado.

— Então, na noite passada eu perguntei umas coisas pra mamãe. Ela me disse que o papai estava vendo a menina antes de irmos pra Islândia. E que você sabia.

Bia colocou as pontas do cabelo na boca a encarou a lata azul de reciclagem no canto. Alguém tinha desenhado um par de peitos na tampa.

— Sim.

— Então, por que você não me contou?

Bia olhou para ele.

— Geraldo me pediu pra não contar.

Thiago deu uma mordida violenta na barra de cereal.

— Mas tudo bem contar pra Marian Gomes. E tudo bem ela dizer isso num vídeo que está em todos os noticiários.

— Thiago... Eu não contei a ela. Ela estava comigo quando aconteceu.

— Que seja — grunhiu Thiago, esbarrando no tubarão mascote ao forçar a porta dupla da piscina. Bia pensou em ir atrás dele, mas não foi. Ela se lembrou, de repente, de um dia em Reykjavík, quando deveria ter tomado conta de Thiago, mas em vez disso foi ao spa geotérmico Lagoa Azul com seu namorado, Hallbjorn. Quando voltou, cheirando a enxofre e coberta de sais curativos, descobriu que Thiago tinha ateado fogo a metade das treliças do quintal. Bia entrou numa fria por causa disso e, realmente, havia sido sua culpa. Ela notou o irmão olhando com voracidade para os fósforos da cozinha antes de ir para o spa. Poderia tê-lo impedido. Provavelmente, poderia ter impedido Gerlado também.

— Então, este aqui é seu. — Juca conduziu Bia pelo corredor com piso de mogno, imaculadamente limpo, até um grande quarto branco. Tinha um assento colado numa janela grande, cortinas brancas, e um buquê de flores igualmente brancas na mesa ao fundo.

— Eu amei — O quarto parecia o hotel parisiense em que a sua família ficou hospedada quando o pai foi entrevistado por um canal francês de televisão, por ser especialista em gnomos — Você tem certeza de que não causei nenhum incômodo?

— Claro — Juca deu um beijo suave numa das bochechas de Bia — Vou deixar você se acomodar.

Bia olhou pela janela, para o tom rosado do fim de quinta-feira e não conseguiu evitar comparar aquela vista com a de sua casa. A propriedade dos Chequer's estava localizada bem no meio do bosque e envolta por pelo menos dez acres de terras intocadas. A casa mais próxima, que parecia um castelo robusto com torres em estilo medieval, estava a pelo menos três quadras de futebol de distância. A casa de Bia ficava numa vizinhança adorável, mas capenga, perto da faculdade. As únicas coisas que ela conseguia ver no quintal de seus vizinhos eram uma ridícula coleção de banheiras de passarinho, animais de pedra e bonecos de jardim.

— Tudo certo com o quarto? — perguntou a sra. Chequer, madrasta de Juca, ao ver Bia descer as escadas para a cozinha.

— É ótimo — disse Bia — Muito obrigada.

A sra. Chequer sorriu docemente de volta. Ela era loira, meio gordinha, com olhos azuis inquisitivos e uma boca que parecia sorrir mesmo quando estava relaxada. Quando Bia fechava os olhos e imaginava uma mãe, a sra. Chequer era bem o que ela tinha em mente. Juca havia lhe contado que antes de se casar com o pai dele, ela trabalhava como editora de uma revista na Filadélfia, mas que, após o casamento, se tornara dona de casa em tempo integral, mantendo a monstruosa a casa dos Chequer's sempre pronta para uma sessão de fotografia. As maçãs na tigela de madeira na bancada estavam sem um arranhão, as revistas no console da sala estavam todas viradas para o mesmo lado e as franjas do gigantesco tapete oriental estavam arrumadas, como se tivessem acabado de ser
penteadas.

— Estou fazendo ravióli de cogumelos. — A sra. Chequer convidou Bia a cheirar a panela de molho — Juca me falou que você é vegetariana.

— Eu sou — concordou Bia, docemente — mas a senhora não precisava fazer isso por mim.

— Sem problemas — disse a sra. Chequer, calorosa. Havia também batatas fatiadas, salada de tomate e um filão do delicioso pão gourmet de sete grãos da Fresh Fields, do qual Leandra tanto tirava sarro, afirmando que qualquer um que pagasse onze dólares por um pouco de farinha e água precisava fazer um exame mental.
A sra. Chequer tirou a colher de madeira da panela e a colocou no canto da bancada — Você era muito amiga da Marian Gomes, não era? Eu vi o vídeo de vocês no noticiário.

Bia abaixou a cabeça.

— É — Um bolo cresceu em sua garganta. Ver Marian tão viva no vídeo tinha trazido o luto à tona novamente.

Para surpresa de Bia, a sra. Chequer passou o braço em volta de seu ombro e deu uma apertadinha.

— Sinto muito — murmurou ela. — Não consigo imaginar o que você está sentindo.

Lágrimas surgiram nos olhos de Bia. Ela sentiu como se estivesse aninhada nos braços de uma mãe, mesmo que aquela não fosse a sua.

Juca sentou-se perto de Bia no jantar, e tudo era a antítese do que acontecia na casa da Bia. Os Chequer's colocavam o guardanapo no colo, não tinha televisão ligada com o jornal zunindo ao fundo, e o sr. Chequer, que era rechonchudo e meio careca, mas tinha um sorriso carismático, não lia o jornal na mesa. Os gêmeos pequenos Chequer's, Colin e Aidan, deixaram os cotovelos fora da mesa e não cutucaram um ao outro com o garfo, Bia só podia imaginar as atrocidades que Thiago cometeria se ele tivesse um irmão gêmeo.

— Obrigada — agradeceu Bia, enquanto a sra. Chequer colocava mais leite em seu copo, mesmo com Leandra e Geraldo tendo dito que leite contém hormônios sintéticos e causa câncer. Bia tinha contado a Eduardo sobre como seus pais haviam banido o leite na noite em que ela passou no apartamento dele, umas semanas antes. Eduardo tinha rido, dizendo que a família dele tinha suas doideiras a respeito da granola também.

Bia apoiou o garfo. Como é que Eduardo tinha entrado nos seus pensamentos tranquilos durante o jantar? Rapidamente, olhou para Juca, que mastigava uma garfada de batatas. Ela se curvou e tocou o pulso dele. Ele sorriu.

— Juca nos disse que você está fazendo aulas avançadas, Bia — comentou o sr. Chequer, espetando uma cenoura.

Bia encolheu os ombros.

— Só Literatura e artes plásticas.

— Literatura foi a minha especialização na faculdade — disse a sra. Chequer, entusiasmada. — O que você está lendo agora?

— A letra escarlate.

— Eu amo esse livro! — gritou a sra. Chequer, tomando um pequeno gole de vinho tinto — Ele realmente mostra como a sociedade puritana costumava ser restritiva. Pobre Hester Prynne.

Bia mordiscou a bochecha. Se ao menos ela tivesse falado com a senhora Chequer antes de ter marcado Meredith.

— A Letra Escarlate. — O sr. Chequer colocou um dos dedos nos lábios — Fizeram um filme desse livro, não fizeram?

— A-hã — fez Juca — Com a Demi Moore.

— Aquele em que o homem se apaixona por uma moça mais nova, certo? — acrescentou o sr. Chequer — Tão escandaloso.

Bia inspirou. Sentiu como se todos estivessem olhando para ela, mas, na verdade, apenas Juca a olhava. Os olhos dele estavam arregalados e voltados para baixo, mortificados. Desculpe, dizia a expressão dele.

— Não, querido — corrigiu a sra. Chequer, baixinho, numa voz que indicava que ela fazia alguma ideia da situação de Bia — Esse é Lolita.

— Ah. Certo. — O sr. Chequer deu de ombros, aparentemente sem se dar conta do seu fora. — Eu misturo todos eles.

Depois do jantar, Juca e os gêmeos subiram para fazer a lição de casa, e Bia os seguiu. Seu quarto de hóspedes era silencioso e convidativo. Em algum momento entre o jantar e aquela hora, a sra. Chequer tinha posto uma caixa de lenços de papel e um vaso de lavanda na mesa de cabeceira. O cheiro de casa de vó que as flores tinham enchia o quarto. Bia despencou na cama, ligou no noticiário para ter companhia e abriu o Gmail no seu laptop. Havia apenas uma mensagem. O nome do remetente era uma série de letras e números misturados. Bia sentiu o coração parar ao clicar duas vezes para abrir a mensagem.

Bia, você não acha que o Juca deveria saber do trabalho extracurricular que você fez com certo professor de literatura?
Afinal, bons relacionamentos são construídos com base na verdade. — M

Naquele momento, o aquecimento central desligou, fazendo Bia sentar-se ereta. Lá fora, um galho bateu. Depois outro. Alguém estava observando. Ela engatinhou até a janela e deu uma olhada. Os pinheiros projetavam sombras disformes na quadra de tênis. Uma câmera de segurança, pendurada na beirada da casa, virava vagarosamente da direita para a esquerda. Uma luz tremeluziu, depois nada. Quando ela olhou de volta paro o quarto, alguma coisa no noticiário chamou sua atenção. Maníaco visto novamente, informava a legenda na parte de baixo da tela.

— Recebemos a informação de que algumas pessoas viram o Maníaco de Rosewood — disse o repórter, no momento em que Bia aumentava o volume — Aguarde para mais detalhes. Passava a imagem de um carro de polícia em frente a uma casa enorme, com torres de castelo. Bia voltou-se para a janela de novo, lá estavam eles. Sem dúvida, a luz azul da polícia estava piscando nos pinheiros mais distantes.

Ela saiu para o corredor. A porta do Juca estava fechada; podia-se ouvir Bloc Party vindo lá de dentro.

— Juca? — Ela empurrou e abriu a porta do quarto dele. Os livros estavam espalhados pela escrivaninha, mas a cadeira estava vazia. Havia um amassado na cama perfeitamente
arrumada, onde o corpo dele esteve. A janela estava aberta, e um vento frio soprou, fazendo as cortinas dançarem como fantasmas.
Bia não sabia mais o que fazer, então, voltou para seu computador. Foi quando viu um novo e-mail.

PS.: Posso ser um pé no saco, mas não sou assassino. Aqui vai uma pista para quem não faz ideia: alguém queria alguma coisa da Marian. O assassino está mais perto do que você pensa.
– M

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.