Pretty Little Liars

14 Capitulo 14 - NADA COMO UM INTERROGATÓRIO À MODA ANTIGA


Você já desejou poder voltar no tempo e desfazer seus erros?

Se você não tivesse desenhado aquela cara de palhaço na bonequinha Bratz que a sua melhor amiga ganhou no aniversário de oito anos, ela não teria trocado você pela garota nova de Boston.

E no nono ano, você jamais teria matado a aula de futebol para ir à praia se soubesse que o treinador iria colocá-la no banco de reservas pelo resto da temporada.

Se você não tivesse feito algumas péssimas escolhas, talvez a sua ex-melhor-amiga-para-sempre tivesse lhe dado aquele ingresso extra para a primeira fileira do desfile de Marc Jacobs.

Ou talvez você fosse goleira da seleção nacional feminina de futebol, com um contrato para trabalhar como modelo para a Nike e uma casa de praia em Nice, você poderia estar circulando em um jatinho pelo Mediterrâneo, em vez de estar sentada assistindo à aula de Geografia, tentando encontrá-lo no mapa.

Em Rosewood, fantasias sobre voltar no tempo e mudar o destino são tão comuns quanto garotas que ganham pingentes de coração da Tiffany no aniversário de treze anos. E quatro ex-melhores amigas fariam qualquer coisa para voltar no tempo e consertar as coisas.

Mas e se elas realmente pudessem voltar? Será que elas seriam capazes de manter a quinta melhor amiga viva... ou a tragédia dela é parte do destino das outras?

Às vezes, o passado guarda mais perguntas que respostas.

E em Rosewood, nada jamais é o que parece ser.

— Ela vai ficar besta quando eu contar! — disse Milena Grigio para suas melhores amigas, Viviane Inhudes, Patricia Olliver e Beatriz Chaddad. Ela endireitou sua camiseta verde-musgo de ilhós e apertou a campainha da casa de Marian Gomes.

— Por que é você quem vai contar para ela? — perguntou Viviane, saltando do degrau de entrada para a calçada, e de volta para o degrau. Desde que Marian, a quinta melhor amiga, disse a Viviane que apenas garotas agitadas permanecem magras, Viviane vivia se movimentando.

— Talvez todas nós devêssemos contar juntas ao mesmo tempo — sugeriu Bia.

— Isso seria divertido. — Patricia colocou o cabelo atrás das orelhas — A gente podia fazer uma coreografiazinha e dizer "tan-tan-tan-taaaaan" no final.

— De jeito nenhum — disse Milena, endireitando os ombros — É o meu celeiro, eu conto pra ela — E apertou a campainha da casa dos Gomes de novo.

Enquanto esperavam, as meninas ouviram o barulho dos cortadores de grama aparando as cercas vivas da casa de Milena, ao lado, e o tchoc-tchoc das gêmeas Fairfield jogando tênis na quadra do quintal, a duas casas de distância. O ar cheirava a lilases, grama cortada, e bloqueador solar da Neutrogena. Era um típico e idílico momento Rosewood, tudo na cidade era bonito, e isto incluía sons, cheiros e habitantes. As meninas haviam vivido em Rosewood por quase toda a vida, e se sentiam sortudas por fazer parte de um lugar tão especial.

Elas amavam os verões de Rosewood acima de tudo. Na manhã seguinte, depois de acabarem a última prova do sétimo ano de Rosewood Day, a escola na qual todas estudavam, elas iriam participar da cerimônia anual de formatura. O Diretor Appleton chamaria cada aluno pelo nome, desde o jardim de infância até o último ano do ensino médio, e cada um receberia um broche de ouro de vinte e quatro quilates, o das meninas era uma gardênia, e o dos meninos, uma ferradura. Depois disso, todos estariam liberados para dez gloriosas semanas de bronzeado, piqueniques, passeios de barco e viagens para Filadélfia e Nova York onde poderiam comprar o que quisessem. Elas mal podiam esperar. Mas a cerimônia de formatura não seria o verdadeiro ritual de passagem para Mari, Bia, Mili, Pata e Vivi. O verão não começaria de verdade para elas antes da noite seguinte, na festa do pijama em que comemorariam o final do sétimo ano. E as meninas tinham uma surpresa para Marian, que faria aquele início de verão extraespecial.

Quando a porta da casa dos Gomes finalmente se abriu, a sra. Gomes apareceu na frente delas, usando um vestido rosa pálido curto, que deixava à mostra suas pernas longas, musculosas e bronzeadas.

— Olá, meninas — disse ela, friamente.

— A Ali está? — perguntou Milena.

— Eu acho que ela está lá em cima. — A sra. Gomes abriu a passagem para elas — Podem subir.

Milena liderou o grupo pelo hall de entrada, sua saia branca plissada do uniforme de hóquei balançando, a trança escura batendo contra suas costas. As meninas adoravam a casa de Marian, ela cheirava a baunilha e amaciante de roupas, igualzinho à Marian, Fotografias glamorosas de viagens dos Gomes a Lisboa, Praga e Lago Como enchiam as paredes. Havia muitas fotos de Marian e de seu irmão, Andre, desde que haviam entrado na escola. As meninas gostavam especialmente da foto de Marian, no segundo ano. O suéter rosa-schocking de Marian fazia seu rosto inteiro brilhar. Naquela época, a família dela morava em Connecticut e a antiga escola particular de Marian não exigia que ela vestisse paletós azuis abafados para as fotos do livro do ano, como em Rosewood Day. Mesmo aos oito anos de idade, Marian era irresistivelmente linda.

Milena tocou no canto inferior direito de sua foto preferida, a que mostrava as cinco meninas acampando em Poconos no último mês de julho. Elas estavam de pé ao lado de uma canoa enorme, ensopadas da água lamacenta do lago, sorrindo de orelha a orelha, felizes como só cinco melhores amigas de doze anos de idade podem ser. Bia colocou a mão sobre a de Milena, Patricia colocou a sua sobre a de Bia, e a mão de Viviane ficou por último. Elas fecharam os olhos por uma fração de segundo, cantarolaram, e se separaram. As meninas haviam criado o hábito de tocar na foto logo que ela foi colocada na parede, uma lembrança de seu primeiro verão como melhores amigas. Elas mal podiam acreditar que Marian, a garota de Rosewood Day, tivesse escolhido as quatro para compor seu círculo particular de amigas. Era algo parecido com estar inseparavelmente ligadas a uma supercelebridade.

Mas admitir isso seria... bem, ridículo. Especialmente agora.

Quando elas passaram pela sala de estar, perceberam duas becas de formatura penduradas na maçaneta de uma das portas francesas. A branca era de Marian, e a azul-marinho, mais formal, era de Andre, que iria para Yale no outono.

As meninas apertaram as mãos, animadas com a ideia de vestirem suas próprias becas e capelos, que os formandos do Rosewood Day usavam desde que a escola havia sido fundada, em 1897. Só então elas perceberam um movimento na sala de estar. Andre estava sentado no sofazinho de couro, o olhar fixo na CNN.

— Eeeeeeeei, Andre — chamou Milena, acenando — você está animado pra amanhã?

Andre olhou rapidamente para elas. Ele era a versão masculina-irresistível de Marian. Ele deu um sorrisinho e voltou a olhar para a TV, sem dizer uma palavra.

— Tuuuudo bem — as meninas todas murmuraram em coro. Andre tinha um lado hilariante. Ele e os amigos haviam inventado o jogo do "isso não". As meninas tinham tomado emprestado e reinventado a brincadeira para uso próprio, o que na maior parte do tempo significava zombar das garotas mais estudiosas na frente delas. Mas Andre definitivamente também tinha seus momentos de depressão. Marian chamava essas ocasiões de momentos Elliott Smith, por causa do cantor e compositor depressivo do qual Andre gostava. Só que Andre certamente não tinha nenhum motivo para estar chateado agora, no dia seguinte, a essa hora, ele estaria em um avião para a Costa Rica, para dar aulas de caiaque durante o verão. Buá.

— Que seja — disse Bia, dando de ombros. As quatro meninas se viraram e subiram as escadas aos pulos até o quarto de Marian. Quando chegaram no corredor, perceberam que a porta do quarto estava fechada. Milena franziu a testa.

Patricia inclinou a cabeça. Dentro do quarto, Marian deu uma risadinha.

Viviane abriu a porta suavemente. Marian estava de costas para elas. O cabelo dela estava preso em um rabo de cavalo alto, e ela havia amarrado o top de seda listrado com um laço perfeito no pescoço. Ela estava olhando para um caderno aberto em seu colo, completamente concentrada.

Milena pigarreou, e Marian se virou, assustada.

— Oi meninas — gritou ela. — O que é que está rolando?

— Nada de mais — Viviane apontou para o caderno no colo de Marian — O que é isso?

Marian fechou o caderno rapidamente.

— Ah, não é nada.

As meninas sentiram uma presença atrás delas. A sra. Gomes passou por elas, entrando no quarto de Marian.

— Nós precisamos conversar — disse ela a Marian, sua voz cortante e tensa.

— Mas mãe... — protestou Marian.

— Agora.

As meninas se entreolharam. Aquele era o tom "você-está-encrencada" da sra. Gomes. Elas não o ouviam com muita frequência.

A mãe de Marian se virou para as garotas.

— Por que vocês não esperam lá no deque, meninas?

— Só vai levar um segundo — disse Marian rapidamente, dando a elas um sorriso de desculpas. — Eu já vou descer.

Viviane parou, confusa. Milena apertou os olhos, tentando ver qual era o caderno que Marian estava segurando. A sra. Gomes levantou uma sobrancelha.

— Vamos, meninas. Andem.

As quatro engoliram em seco e desceram os degraus em fila. Quando chegaram ao deque, elas se acomodaram em suas posições habituais em volta da enorme mesa da família, Milena em uma ponta, e Bia, Patricia e Vivi nas laterais. Marian se sentava à cabeceira, junto da banheira de pedra para pássaros que pertencia a seu pai. Por um momento, as quatro garotas observaram um casal de cardeais brincando na água fria e clara da banheira. Quando um corvo azul tentou se juntar a eles, os cardeais piaram e rapidamente o espantaram. Pássaros, ao que parecia, gostavam de exclusividade tanto quanto garotas.

— Foi estranho o que aconteceu lá em cima — cochichou Bia.

— Vocês acham que a Ali está encrencada? — cochichou Vivi de volta — E se ela ficar de castigo e não puder ir à festa do pijama?

— Por que ela estaria encrencada? Ela não fez nada de errado — sussurrou Pata..

— Não que a gente saiba — resmungou Milena entre os dentes.

Naquele momento, a sra. Gomes saiu correndo pelas portas francesas do deque e foi até o gramado.

— Eu quero ter certeza de que vocês estão trabalhando com o tamanho certo — gritou ela para os trabalhadores que estavam encostados preguiçosamente em uma escavadeira enorme, no quintal da propriedade. Os Gomes estavam construindo um gazebo para vinte pessoas para as férias de verão, e Marian tinha mencionado que sua mãe estava sendo bastante exigente com o processo todo, embora eles ainda estivessem na etapa de escavação. A sra. Gomes marchou até onde estavam os trabalhadores e começou a reclamar deles. Seu anel de casamento, feito de diamantes, brilhava ao sol, enquanto ela agitava os braços no ar freneticamente. As meninas trocaram olhares; parecia que a bronca que Marian tinha levado não foi muito longa.

— Meninas?

Marian estava parada na beirada do deque. Ela havia trocado o top listrado por uma camiseta azul desbotada da Abercrombie. Havia uma expressão confusa em seu rosto.

— Hum... oi?

Mili se levantou.

— Por que foi que ela brigou com você?

Marian piscou. Seus olhos se moviam para um lado e para o outro.

— Você estava se metendo em encrenca sem a gente? — gritou Bia, tentando fazer parecer que estava brincando — E por que você trocou de roupa? Aquele top que você estava usando era tão bonito.

— Você quer que a gente... vá embora? — perguntou Patricia a voz dela estava cheia de incerteza. Todas as outras olharam para Marian, nervosas: era isso que ela queria?

Marian girou a pulseira de cordão azul em seu braço três vezes. Ela desceu para o deque e se sentou em seu lugar de direito.

— Claro que eu não quero que vocês vão embora. Minha mãe estava zangada comigo porque eu... eu joguei meu uniforme de hóquei na máquina de lavar junto com a lingerie dela, de novo — Ela deu de ombros de um jeito envergonhado, e revirou os olhos.

— Ela ficou zangada com você por causa disso? — perguntou Patricia

Marian ergueu as sobrancelhas.

—Você conhece a minha mãe, Pata. Ela é mais fresca que a Milena! — Ela deu uma risadinha, Milena lançou um falso olhar raivoso para Marian — Mas não se preocupem, meninas. Eu não estou de castigo nem nada — Marian bateu palmas. — Nossa festa do pijama, pode seguir como planejada!

As outras quatro suspiraram de alívio, e o clima estranho e tenso começou a evaporar. Só que cada uma delas tinha a sensação esquisita de que Marian não estava lhes contando tudo, e certamente não seria a primeira vez. Num minuto, Marian era a melhor amiga delas; no outro, ela se afastava, dando telefonemas escondida e enviando mensagens secretas. Elas não deveriam dividir tudo? As outras meninas certamente haviam compartilhado mais do que o suficiente sobre si próprias, elas tinham contado para Marian segredos que ninguém, absolutamente ninguém mais, sabia. E, obviamente, havia o grande segredo que todas elas dividiam sobre Cristina Vieira, aquele que elas haviam jurado levar para a sepultura.

— Por falar na nossa festa do pijama, eu tenho grandes notícias — disse Milena, despertando-as de seus pensamentos — Adivinhe onde ela será?

— Onde? — Marian se inclinou para a frente, apoiada nos cotovelos, lentamente voltando a ser a velha Marian.

— No celeiro da Rebeca — gritou Mili, e o sr. e a sra. Grigio haviam reformado o celeiro nos fundos, mas deixaram a Rebeca (Meia-Irmã da Milena) tomando conta de tudo, pois já possuía idade maior do que a Mili.

— Beleza! — comemorou Marian — Mas como?

— Ela vai viajar para Praga amanhã à noite, depois da formatura — respondeu Milena — Meus pais disseram que nós podemos usá-lo, desde que a gente limpe tudo antes dela voltar.

— Muito bom — Marian se recostou e entrelaçou os dedos das mãos. De repente, seus olhos focaram em alguma coisa à esquerda dos trabalhadores. A própria Rebeca estava atravessando o quintal vizinho, dos Grigios , sua postura rígida e composta. A beca de formatura branca balançava no cabide em sua mão, e ela usava o manto azul royal de oradora sobre os ombros.

Milena deixou escapar um grunhido.

— Ela está tão metida por causa dessa história de oradora — sussurrou Milena — Ela chegou a dizer que eu deveria me sentir agradecida porque Andrew Campbell provavelmente será o orador, e não eu, quando estivermos no último ano, já que "a honra é uma responsabilidade tão grande" — Milena e a irmã se detestavam, e quase todos os dias Milena tinha uma história nova para contar sobre como Rebeca era insuportável.

Marian se levantou.

— Ei! Rebeca! — Ela começou a acenar.

Rebeca parou e se virou.

— Oh. Oi, meninas. — Ela sorriu cautelosamente.

— Animada para ir a Praga? — cantarolou Marian, dando a Rebeca seu sorriso mais brilhante.

Rebeca inclinou levemente a cabeça.

— Claro.

— O Ricardo vai? — Perguntou Marian, Ricardo era o namorado lindo de Rebeca. As meninas quase desmaiavam só de pensar nele.

Milena cravou as unhas no braço de Marian.

— Marian! — Mas a outra se desvencilhou dela.

Rebeca cobriu os olhos para protegê-los da luz forte do sol. O manto azul royal farfalhava com o vento.

— Não. Ele não vai.

— Oh! — Marian deu um sorrisinho afetado —Você tem certeza de que é uma boa ideia deixá-lo sozinho por duas semanas? Ele pode arrumar outra namorada!

— Marian! — disse Milena entre os dentes. — Pare com isso. Agora.

— Mili? — sussurrou Patricia — O que está acontecendo?

— Nada — disse Milena rapidamente. Bia, Pata e Viviane se entreolharam novamente. Aquilo andava acontecendo muito ultimamente: Marian dizia alguma coisa, uma delas dava um ataque, e as outras não faziam ideia do que estava acontecendo. Mas aquilo, claramente, não era "nada". Rebeca ajeitou o manto ao redor do pescoço, endireitou os ombros e se virou. Ela olhou por muito tempo para o buraco enorme no quintal dos Gomes e saiu andando em direção ao celeiro, batendo a porta às suas costas com tanta força que a guirlanda que a enfeitava quicou contra a madeira.

— Alguma coisa a está incomodando, obviamente — disse Marian — Afinal de contas, eu só estava brincando — Milena gemeu e Marian começou a rir. Ela tinha um sorrisinho amarelo no rosto. Era o mesmo sorriso que Marian dava a elas todas as vezes em que provocava as amigas com um segredo, dizendo que contaria para as outras se quisesse — Quem se importa, afinal? — Marian olhou para cada uma delas, seus olhos brilhando — Sabem de uma coisa, meninas? — ela tamborilou os dedos na mesa de forma animada — Eu acho que esse vai ser o Verão da Marian. O Verão de Todas Nós. Posso sentir isso. Vocês não sentem?

Um momento de espanto se passou. Parecia que uma nuvem negra pairava sobre elas, sombreando seus pensamentos. Mas, lentamente, as nuvens se desvaneceram e uma ideia se formou na mente de cada uma delas. Talvez Marian estivesse certa. Aquele poderia ser o melhor verão de suas vidas. Elas ainda podiam mudar a amizade que as unia, tornando-a tão forte quanto havia sido no verão anterior. Elas podiam esquecer todas as coisas assustadoras e escandalosas que haviam acontecido e começar de novo.

— Eu posso sentir isso, também — Vivi falou alto.

— Definitivamente — disseram Bia e Pata ao mesmo tempo.

— Claro — disse Mili, suavemente.

Todas deram as mãos e as apertaram com força.

Choveu naquela noite, uma chuva forte e barulhenta, que fez poças nas ruas, inundou os jardins e criou minipiscinas sobre a cobertura da piscina dos Grigios. Quando a chuva parou, no meio da noite, Beatriz, Patricia, Milena e Viviane acordaram e sentaram-se em suas camas quase no mesmo instante. Um mau pressentimento tomou conta de cada uma delas. Elas não sabiam se vinha de algo que haviam sonhado ou se era por causa da animação pelo dia seguinte. Ou talvez fosse por causa de algo totalmente diferente... algo muito mais profundo.
Cada uma delas olhou pela própria janela, para as ruas tranquilas e vazias de Rosewood. As nuvens tinham desaparecido e as estrelas haviam surgido no céu. A calçada brilhava com a chuva. Vivi olhou para a garagem em frente a sua casa, apenas o carro de sua mãe estava ali agora. Seu pai havia se mudado. Pata olhou para seu quintal e a floresta além dele. Ela jamais tinha se aventurado naquelas matas, ela tinha ouvido falar que havia fantasmas ali. Bia escutou os sons que vinham do quarto de seus pais, imaginando se eles também haviam acordado, ou talvez eles estivessem brigando de novo, e ainda não tivessem ido dormir. Milena olhou para a varanda dos Gomes, e depois para o enorme buraco que os trabalhadores haviam cavado para os alicerces do gazebo. A chuva havia transformado parte da terra escavada em lama. Milena pensou em todas as coisas que a deixavam com raiva em sua vida. Então, pensou em todas as coisas que queria ter, e em todas as coisas que queria mudar. Milena esticou a mão para debaixo da cama, encontrou sua lanterna vermelha e a acendeu, fazendo-a brilhar na janela de Marian. Um flash, dois flashes, três flashes. Aquele era o código secreto entre ela e Marian, para quando ela queria escapar de casa e conversar pessoalmente. Ela pensou ter visto a cabeça de Marian se levantar da cama, também, mas Marian não enviou um flash de volta.

Todas as quatro voltaram para seus travesseiros, dizendo a si mesmas que o mau pressentimento não era nada, e que precisavam dormir. Em vinte e quatro horas, elas estariam chegando ao fim de sua festa do pijama do sétimo ano, a primeira noite do verão. O verão que mudaria tudo. Como elas estavam certas.

ATUALMENTE;

Beatriz Chaddad sentou-se para a aula de literatura na segunda de manhã, bem na hora em que o ar lá fora começou a cheirar a chuva. O amplificador rangeu, e todos na classe olharam para o pequeno alto-falante no teto.

— Olá, galera! Aqui é a Milena Grigio, sua vice-representante de turma — a voz de Milena soou alta e clara. Ela parecia desenvolta e confiante, como se tivesse feito um curso de oratória — Quero lembrar a todos que os Rosewood Hammerheads vão competir com os Eels, a equipe de natação da Drury Academy. É a maior competição da temporada, então, vamos todos mostrar espírito de equipe e aparecer lá para apoiar o time! — Houve uma pausa — Uhul!!

Uma parte da sala saiu. Bia sentiu um calafrio de desconforto. Apesar de tudo o que havia acontecido, o assassinato de Marian, o suicídio do Rubens, M, Milena era a presidente ou a vice de todos os clubes e associações que havia por ali. Mas, para Bia, a animação de Milena soava... falsa. Ela tinha visto um lado de Milena que as outras não conheciam. Milena sabia há anos que Marian tinha ameaçado Rubens Vieira para mantê-lo calado sobre o acidente da Cristina, e Bia não podia perdoá-la por esconder delas um segredo tão perigoso.

— Muito bem, turma — disse Eduardo Bragança, o professor de Literatura avançado de Bia. Ele continuou a escrever A Letra Escarlate na lousa com sua caligrafia angular e, então, sublinhou quatro vezes as palavras — Na obra prima de Nathaniel Hawthorne, Hester Prynne trai seu marido, e a cidade a força a usar um enorme, vermelho e constrangedor A em seu peito, como lembrança do que ela havia feito — O sr. Bragança virou-se para a turma e empurrou seus óculos para cima do nariz curvado — Alguém se lembra de outras histórias que tenham como tema a desonra? Sobre pessoas que são ridicularizadas ou expulsas por seus erros

João Carvalho levantou a mão e seu relógio Rolex de corrente escorregou pelo pulso.

— Pode ser aquele episódio do The Real World no qual os colegas da república votaram para a menina bizarra ir embora?

A sala toda riu, e o sr. Bragança pareceu perplexo.

— Pessoal, esta é, supostamente, uma aula de literatura avançado — O professor se virou para fileira de Bia: — Bia? E você? Alguma ideia?

Beatriz hesitou. Sua vida era um bom exemplo. Não muito tempo atrás, ela e sua família viviam harmoniosamente na Islândia, Marian não estava oficialmente morta e M não existia. Mas, então, numa horrível sucessão de eventos que começou seis semanas antes, Bia voltou para a escola de Rosewood, o corpo de Marian foi encontrado embaixo da laje de concreto atrás da casa onde ela morava, e M revelou o grande segredo da família Chaddad: que o pai de Bia, Geraldo, havia traído sua mãe, Leandra, com uma de suas alunas, Meredith. Essa revelação foi um golpe para Leandra, que imediatamente colocou Geraldo para fora de casa. O fato de Leandra ter descoberto que Bia guardou o segredo sobre Geraldo por três anos não ajudou muito. A relação entre mãe e filha não andava exatamente as mil maravilhas desde então. Claro, poderia ter sido pior. Bia não tinha recebido nenhum texto de M nas últimas três semanas. Embora Geraldo supostamente estivesse morando com Meredith, pelo menos Leandra havia voltado a falar com Bia. E Rosewood não tinha sido invadida por alienígenas ainda, embora, depois de todas as coisas estranhas que aconteceram naquela cidade, Bia não teria ficado surpresa se isso tivesse acontecido.

— Bia? — insistiu Bragança — Alguma ideia?

Felipe ( Mosca ) veio em socorro de Aria: — Que tal a história de Adão e Eva com a serpente?

— Ótimo — elogiou o professor, distraído. Os olhos dele ficaram pousados em Bia por um momento antes de seguir para outro lugar. Ela tinha ficado com o sr. Bragança "Eduardo" no Snooker, um bar frequentado pelo pessoal da universidade, antes que qualquer um dos dois soubesse que ele seria seu novo professor de literatura avançado. Foi ele quem terminou com ela e, logo depois, Bia descobriu que ele tinha uma namorada em Nova York. Mas ela não guardou mágoa. As coisas iam bem com seu novo namorado, Juca Chequer, que era um doce e, por acaso, também era bonito.

Além do mais, Eduardo era o melhor professor de literatura que ela já teve. No primeiro mês de aula, ele já havia indicado quatro livros incríveis e encenado uma comédia baseada em The Sandbox, de Edward Albee. Em breve, a classe iria fazer uma interpretação de Medeia, a peça grega na qual a mãe mata os próprios filhos, no estilo Desperate Housewives. Eduardo queria que eles pensassem fora dos padrões, e fora dos padrões era o forte de Bia. Agora, em vez de chamá-la de "Finlândia", seu colega de classe João Carvalho tinha dado a ela um novo apelido: "Queridinha do Professor". Era bom estar animada com a escola de novo, apesar de tudo, e às vezes ela nem se lembrava que as coisas com Eduardo tinham sido complicadas um dia.

Até que ele lhe lançou um sorriso sedutor, claro.

Viviane Inhudes, que sentava bem em frente a Bia, levantou a mão.

— Pode ser aquele livro em que duas garotas são as melhores amigas, mas então, de repente, uma delas fica malévola e rouba o namorado da outra?

Eduardo coçou a cabeça.

— Desculpe... eu não acho que tenha lido esse livro.

Bia cerrou os punhos. Ela sabia o que Viviane queria dizer.

— Pela última vez, Viviane, eu não roubei o Juca de você! Vocês... dois... já... tinham... terminado!

A sala inteira explodiu numa gargalhada. Os ombros de Viviane ficaram rígidos.

— Alguém é muito egocêntrica — murmurou ela para Bia, sem se virar — Quem disse que eu estava falando de você?

Mas Bia sabia que ela estava. Quando Bia voltou da Islândia, ficou impressionada ao ver que Viviane tinha mudado da escrava gorducha e desengonçada de Marian, para uma deusa magra, bonita, que usava roupas de alta-costura. Parecia que Viviane tinha tudo que sempre queria: ela e sua melhor amiga, Janu Padilha, que mandavam na escola, e Viviane tinha até conseguido ficar com Juca Chequer, o menino de quem ela era a fim desde o sexto ano. Bia só tinha dado em cima de Juca depois de ouvir que Viviane o tinha largado. Mas ela logo descobriu que havia sido o contrário.

Aria tinha esperança de que ela e suas antigas amigas pudessem ser um grupo unido outra vez, especialmente porque todas tinham recebido mensagens de M. Mas elas não estavam nem se falando, as coisas tinham voltado para o mesmo ponto em que estavam naquelas semanas estranhas e cheias de preocupação, depois do desaparecimento de Marian. Bia nem tinha contado a elas o que M fez à sua família. A única ex-amiga com quem Bia ainda tinha algum contato era Patricia Olliver.

— Bem, de qualquer forma — Eduardo colocou cópias de A Letra Escarlate na frente de cada fileira, para que os livros fossem distribuídos — quero que todos leiam do capítulo um ao cinco essa semana e façam um trabalho de três páginas sobre qualquer assunto que tenham encontrado no começo do livro para sexta-feira. Certo?

Todos grunhiram e começaram a conversar. Bia colocou o livro dentro da sua bolsa de pelo de iaque. Viviane estendeu o braço para pegar sua bolsa do chão. Bia tocou o braço fino e branquinho de Viviane.

— Olha, eu sinto muito. De verdade.

Viviane puxou o braço, apertou os lábios e, sem falar nada, enfiou seu A Letra Escarlate na bolsa. Ele ficou entalado, e ela grunhiu de frustração.

Começou a tocar música clássica no alto-falante, indicando que a aula havia acabado. Viviane se levantou como se a carteira estivesse pegando fogo. Bia levantou-se lentamente, guardando a caneta e o caderno na bolsa e encaminhando-se para a porta.

— Bia.

Ela se virou, Eduardo estava debruçado em sua mesa de carvalho com sua velha maleta de couro cor de caramelo apertada contra o quadril.

— Tudo bem? — perguntou ele.

— Desculpe por tudo isso — disse ela — Viviane e eu estamos temos algumas desavenças. Não acontecerá novamente.

— Sem problemas. — Eduardo abaixou sua caneca de chá — Todo o resto está bem?

Bia mordeu o lábio e pensou em contar a ele o que estava acontecendo. Mas, por quê? Pelo que ela sabia, Eduardo era um fraco, como seu pai. Se ele realmente tinha uma namorada em Nova York, então ele a havia traído ao ficar com Bia.

— Está tudo bem — ela conseguiu dizer.

— Bom. Você está fazendo um ótimo trabalho na aula. — Ele sorriu, mostrando dois dos dentes inferiores, adoravelmente encavalados.

— Sim. Eu estou gostando muito. — Bia deu um passo em direção à porta. Mas, ao fazê-lo, tropeçou nas suas botas de saltos finos superaltos, indo parar na mesa de Eduardo, ele segurou a cintura dela e a puxou para cima... e para perto dele. O corpo dele era quente e seguro, e ele cheirava bem a pimenta em pó, cigarro e livros velhos.

Bia se afastou depressa.

— Você está bem? — perguntou Eduardo.

— Sim — Ela se ocupou arrumando o blazer do uniforme da escola — Desculpe.

— Não tem problema — Eduardo enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta — Então... até mais.

— Sim. Até logo.

Bia saiu da sala com a respiração acelerada. Talvez ela estivesse louca, mas estava certa de que Eduardo a havia segurado um segundo a mais do que o necessário. E ela tinha certeza de que havia gostado.

Durante o tempo livre na segunda-feira de manhã, Viviane e sua melhor amiga, Janu Padilha estavam sentadas num canto da Steam, o café de Rosewood Day, fazendo o que sabiam fazer melhor: fofocando sobre pessoas que não eram tão fabulosas quanto elas.

Janu cutucou Viviane com a ponta do seu biscoito coberto de chocolate. Para Janu, comida era mais um acessório do que algo com que se alimentar.

— Jennifer Feldman tem umas toras, não tem?

— Pobrezinha. — Viviane fingiu sentir pena. Taras era o termo que Janu usava para pernas grossas: coxas sólidas e sem forma, e canelas sem linhas dos joelhos ao tornozelo.

— E os pés dela parecem salsichas estufadas brotando dos calcanhares! — gralhou Janu.

Viviane deu uma olhada quando Jennifer, que estava no time de mergulho, pendurou um cartaz na parede dos fundos da cafeteria, onde se lia COMPETIÇÃO DE NATAÇÃO AMANHÃ! ROSEWOOD DAY HAMMERHEADS CONTRA DRURY ACADEMY EELS! OS tornozelos dela eram mesmo horrorosamente grossos.

— É nisso que dá meninas com tornozelos gordos tentarem usar Louboutins — suspirou Viviane. Ela e Janu eram as sílfides de tornozelo fino para as quais sapatos de Christian Louboutin eram feitos, obviamente.

Janu tomou um grande gole do seu Americano e sacou sua carteira-diário, da Gucci, da bolsa Botkier cor de beringela. Viviane acenou com a cabeça, em sinal de aprovação. Elas tinham outras coisas para fazer naquele dia, além de criticar as pessoas, como planejar não uma, mas duas festas: uma para elas duas, e a segunda para o resto da elite de Rosewood Day.

— Primeiro as prioridades. — Janu destampou a caneta — O Amiganiversário. O que nós deveríamos fazer esta noite? Compras? Massagem? Jantar?

— Tudo — respondeu Viviane — E nós temos mesmo que passar na Otter, sem falta — Otter era uma nova butique de alta classe no shopping.

— Eu estou amando a Otter — concordou Janu.

— Onde a gente deve jantar? — perguntou Viviane.

— Rive Gauche, claro — Janu falou por cima do estrondo do moedor de café.

—Você está certa. Eles, definitivamente, vão nos dar vinho.

— Será que nós deveríamos convidar os meninos? — Os olhos de Janu brilharam — João Carvalho sempre me chama para sair. Talvez o João pudesse ser seu par?

Viviane franziu a testa. Apesar de ser bonito, muitíssimo rico e parte do supersexy clã dos irmãos Carvalhos, João não fazia nem um pouco o seu tipo.

— Sem meninos — decidiu — Embora seja muito legal esse negócio do João.

— Este vai ser um fabuloso Amiganiversário — Janu deu um sorriso tão largo que suas covinhas apareceram — Você consegue acreditar que é o nosso terceiro?

Viviane sorriu. O Amiganiversário marcava o dia em que Viviane e Janu tinham falado no telefone por três horas e meia, o indicador óbvio de que eram melhores amigas. Embora elas se conhecessem desde o jardim da infância, nunca tinham conversado antes do teste para líder de torcida, algumas semanas antes do primeiro dia do oitavo ano. Naquela época, Mari estava desaparecida havia dois meses e as velhas amigas de Viviane haviam se tornado muito distantes, então ela decidiu dar uma chance a Janu. Valeu a pena, Janu era engraçada, sarcástica, e apesar de sua queda por mochilas de animais e scooters Razor, ela devorava a Vogue e a Teen Vogue em segredo, tão apaixonadamente quanto Viviane. Em algumas semanas, elas decidiram ser melhores amigas e transformar-se nas meninas mais conhecidas da escola. E olha só. Agora elas eram.

— Agora, para o grande plano — Janu virou outra página do caderno — Festa de dezessete anos — Ela cantou o tema de abertura do programa da MTV My Super Sweet Sixteen.

— Vai ser demais — disse Viviane.

O aniversário de Janu era naquele sábado, e ela já tinha quase todos os detalhes da festa arranjados. Ia ser no planetário da Hollis, onde havia telescópios em todos os cômodos, até mesmo nos banheiros. Tinha contratado um DJ, bufê, uma escola de circo, de forma que os convidados poderiam balançar em trapézios, acima da pista de dança, bem como um cinegrafista, que iria filmar a festa e simultaneamente projetar as imagens num telão Jumbotron. Janu havia informado nos convites que os convidados deveriam vestir apenas roupas formais e que se alguém aparecesse usando jeans ou camisetas da Juicy, os seguranças iam mandá-los embora sem muita educação.

— Então, eu estava pensando... — Janu enfiou um guardanapo dentro da xícara de café vazia — É meio de última hora, mas eu vou ter uma corte.

— Uma corte? — Viviane levantou uma das sobrancelhas perfeitamente feita.

— É uma desculpa para comprar aquele vestido Zac Posen fabuloso pelo qual você vive babando na Saks. A prova é amanhã. E vamos usar tiaras e fazer os meninos se curvarem para nós.

Viviane segurou uma gargalhada.

— Nós não vamos fazer uma dança de abertura, né? — Ela e Janu tinham ido à festa de dezesseis anos de Julia Rubenstein, no ano anterior, na qual Julia fez com que as meninas que compunham sua corte dançassem uma coreografia com um monte de modelos da D-list. O parceiro de dança de Viviane cheirava a alho e tinha logo perguntado a ela se queria se encontrar com ele na chapelaria mais tarde. Ela passou o resto da festa fugindo dele.

Janu tirou sarro, quebrando seu biscoito em pedacinhos menores.

— Eu faria uma coisa brega como essa?

— Claro que não.— Viviane apoiou o queixo nas mãos — Então, eu sou a única menina na corte, certo?

Janu revirou os olhos.

— Claro.

Viviane deu de ombros.

— Quer dizer, eu não sei quem mais você poderia escolher.

— Nós só precisamos arranjar um acompanhante para você — Janu colocou um minúsculo pedaço de biscoito na boca.

— Não quero que seja ninguém de Rosewood Day — disse Viviane rapidamente — Talvez eu convide alguém da Hollis. E eu quero ter mais de um acompanhante — Os olhos dela se acenderam — Eu poderia ter um monte de rapazes me carregando para todos os lados a noite toda, como Cleópatra.

Janu cumprimentou-a batendo a palma da mão na dela.

— Agora sim.

Viviane mastigou a ponta do canudinho.

— Será que o Juca vai?

— Não sei — Janu levantou uma das sobrancelhas.

Bia se empoleirou no para-choque traseiro do Carro de Juca, dando uma olhada em sua peça favorita de Jean-Paul Sartre, Sem Saída. Era a segunda-feira depois da escola, e Juca disse que daria a ela uma carona para casa, depois que pegasse alguma coisa no escritório do técnico de futebol... só que ele estava demorando um tempo absurdo. Quando ela virou a página para o segundo ato, um grupo de meninas típicas de Rosewood Day, loiras, quase idênticas, de pernas compridas, usando bolsonas de couro também parecidas, entrou no estacionamento de estudantes e olhou de cara feia para ela. Aparentemente, as botas de plataforma de Bia e seu gorro de tricô com cobertura de orelha indicavam que ela era uma pessoa abominável. Bia suspirou. Estava se esforçando bastante para se ajustar a Rosewood Day, mas não era fácil. Ainda se sentia uma boneca Bratz livre-pensadora esquisita, usando calça de couro artificial num mar de Lindas Princesinhas da Escola da Barbie.

— Você não deveria sentar no para-choque desse jeito — comentou uma voz atrás dela, fazendo Bia pular — Pode estragar a suspensão.

Bia se virou. Eduardo estava a alguns centímetros dela. O cabelo castanho estava espetado em picos bagunçados e o blazer ainda mais amassado do que pela manhã.

— Eu pensei que tipos literários não entendiam coisa alguma sobre carros — brincou ela.

— Eu sou cheio de surpresas. — Eduardo lhe lançou um sorriso sedutor. Ele enfiou a mão na maleta de couro surrada. — Na verdade, tenho uma coisa pra você. É um trabalho sobre A Letra Escarlate, questionando se adultério não seria, em algumas situações, permissível.

Bia pegou as páginas xerocadas dele.

— Não acho que adultério seja permissível ou desculpável — disse ela suavemente — Nunca.

— Nunca é tempo demais — murmurou Eduardo.

— Bia? — Juca estava bem ao lado dela.

— Oi — gritou Bia, surpresa. Ela pulou para longe de Eduardo, como se ele estivesse carregado de eletricidade — Você... você já terminou?

— Já — respondeu Juca.

Eduardo deu um passo à frente.

— Oi, Juca, não é? Eu sou Ed... quer dizer, sr Bragança, o novo professor de literatura avançado.

Juca o cumprimentou com um aperto de mão.

— Sou da turma de inglês regular. Sou o namorado de Bia.

Uma sombra de algo,desapontamento, talvez, passou pelo rosto de Eduardo.

— Legal — balbuciou ele — Você joga futebol, certo? Parabéns pela vitória da semana passada.

— Isso aí — assentiu Juca, modesto — Estamos com um bom time este ano.

— Legal — repetiu Eduardo — Muito legal.

Bia sentiu que deveria explicar para Eduardo por que ela e Juca estavam juntos. Claro, ele era um típico menino de Rosewood, mas, na verdade, era muito mais profundo. Bia se conteve. Não devia nenhuma explicação a Eduardo. Ele era seu professor.

— Nós temos que ir — disse ela abruptamente, pegando no braço de Juca. Queria sair dali antes que um deles a constrangesse. E se Juca cometesse um erro gramatical? E se Eduardo deixasse escapar que eles tinham ficado juntos? Ninguém em Rosewood sabia disso. Ninguém, exceto M.

Bia sentou-se no banco do carona, sentindo-se desconfortável. Ansiava por alguns minutos de privacidade para se recompor, mas Juca sentou-se no banco do motorista bem perto dela e beliscou sua bochecha.

— Senti sua falta hoje — confessou ele.

— Eu também — disse Bia, automaticamente, com a voz presa na garganta.

Ao olhar pela janela lateral, viu Eduardo no estacionamento dos professores, entrando em seu Fusca velho e surrado. Ele tinha colocado um novo adesivo no para-choque — ECOLOGIA ACONTECE — e parecia que tinha lavado o carro no final de semana. Não que ela estivesse reparando nele obsessivamente ou algo assim.

Enquanto Juca esperava outros estudantes saírem da frente dele, acariciou seu queixo bem barbeado e brincou com a gola da camiseta polo Penguin.

— Quer sair mais tarde? — perguntou Juca — Jantar? Dar uma volta com Leandra?

— Vamos sair — decidiu Bia. Era tão meigo Juca gostar de sair com Leandra e Bia. Os três tinham até assistido juntos a um DVD do Truffaut, da coleção de Leandra, apesar do fato de Juca dizer que realmente não entendia filmes franceses.

— Um dia desses, você tem que conhecer minha família.

~ Juca finalmente saiu do estacionamento de Rosewood atrás de um SUV Acura.

— Eu sei, eu sei. — Bia ficava nervosa ao pensar em conhecer a família de Juca. Tinha ouvido que eles eram muito ricos e superperfeitos. — Em breve.

— Bem, o treinador quer que o time vá àquela grande competição de natação amanhã, para dar apoio à escola. Você vai assistir à Patricia, certo?

— Claro — respondeu Bia.

— Bem, talvez na quarta-feira, então? Jantar?

— Talvez.

Quando eles entraram na rua cercada de árvores que ladeava Rosewood Day, o celular de Bia vibrou. Ela o pegou, nervosa, seu joelho tremia toda vez que recebia uma mensagem, que poderia ser de M, apesar de que, aparentemente, M tinha desaparecido. A nova mensagem, entretanto, era de um número desconhecido com código 484, da área leste da Pensilvânia. As mensagens de M sempre vinham com o remetente bloqueado. Ela clicou em LER.


Precisamos conversar. Podemos nos encontrar do lado
de fora do prédio de artes da Hollis, hoje, às 16h30? Estarei no campus, esperando Meredith terminar de dar aula. Adoraria conversar com você. — Seu pai, Geraldo

Bia olhou para a tela, desgostosa. Aquilo era perturbador em muitos níveis. Um, seu pai agora tinha um telefone celular? Por anos, ele os havia evitado, dizendo que davam câncer no cérebro. Dois, ele tinha mandado um torpedo para ela, o que viria depois, um perfil no MySpace? E três... a mensagem em si. Especialmente aquela especificidade de: Seu pai, no final. Ele pensava que ela tinha esquecido quem ele era?

— Você está bem? — Juca tirou os olhos da rua sinuosa e estreita por um momento.

Bia leu para Juca a mensagem de Geraldo.

— Dá para acreditar nisso? — perguntou ela ao terminar — Parece que ele só precisa de alguém para ajudá-lo a matar o tempo, enquanto espera a vagabunda terminar a aula.

— O que você vai fazer?

— Não vou encontrá-lo — Bia estremeceu, pensando nas vezes em que tinha visto Meredith e o pai juntos. No sétimo ano, ela e Marian tinham visto os dois se beijando no carro de Geraldo, e, depois, umas semanas atrás, ela e seu irmão mais novo, Thiago, tinham esbarrado neles na Victory, uma cervejaria. Meredith tinha dito a Bia que ela e Geraldo estavam apaixonados, mas como aquilo era possível? — Meredith é uma destruidora de lares. Ela é pior que a Hester Prynne!

— Quem?

— Hester Prynne, a personagem principal de A Letra Escarlate, o livro que estamos lendo na aula de literatura. É sobre essa mulher que comete adultério e a cidade a isola. Acho que Rosewood devia isolar Meredith. Rosewood precisa de um cadafalso para humilhá-la.

— Que tal aquele negócio em que prendiam os escravos que desobedeciam aos senhores? — sugeriu Juca, desacelerando quando passaram por um ciclista —Você sabe, aquele negócio de madeira, com buracos, para colocar a cabeça e os braços? Eles prendem a pessoa naquilo e ela simplesmente fica ali. Nós costumávamos tirar fotos naquela coisa.

— Perfeito — Bia praticamente gritou — E Meredith merece ter um "ladra de marido" marcado na testa. Só costurar uma letra A vermelha no vestido dela seria muito sutil.

Juca riu.

— Parece que você está mesmo gostando de A Letra Escarlate.

— Não sei. Eu só li oito páginas. — Bia ficou calada, apreciando a ideia. — Na verdade, espere. Deixe-me na Hollis.

Juca lhe deu uma olhada de lado.

— Você vai se encontrar com ele?

— Não exatamente. — Ela sorriu com alguma maldade.

— Tááá bom...

Juca dirigiu umas quadras pelo campus, que era cheio de prédios de pedra e tijolos, velhas estátuas de bronze dos fundadores da faculdade e onde vários estudantes andavam de bicicletas. Parecia que era sempre outono em Hollis, as folhas coloridas caíam de um jeito perfeito por ali. Quando Juca parou numa vaga de estacionamento de duas horas no campus, ele parecia preocupado.

— Você não vai fazer nada ilegal, vai?

— Não — Bia deu um beijo rápido nele — Não me espere. Eu posso ir para casa andando daqui.

Aprumando os ombros, ela marchou para a entrada principal do prédio de artes. A mensagem do pai surgiu diante de seus olhos. Estarei no campus, esperando Meredith terminar de dar aula. A própria Meredith tinha contado a Bia que ensinava artes plásticas na Hollis. Ela passou por um guarda, que deveria checar identidades, mas, em vez disso, ele estava assistindo a um jogo dos Yankees numa TV portátil. Os nervos de Bia estalavam, trêmulos, como se eles fossem fios subterrâneos.

Havia apenas três salas de aula no prédio, que eram grandes o suficiente para aulas de pintura, que Bia conhecia porque tinha frequentado aulas de arte aos sábados, na Hollis, por anos. Naquele dia, apenas uma sala estava sendo usada, então, tinha de ser aquela. Bia entrou ruidosamente pelas portas da sala e foi imediatamente tomada pelo cheiro de terebintina e panos não lavados. Doze estudantes de arte, com cavaletes organizados em círculo, viraram-se para olhar para ela. A única pessoa que não se mexeu foi o velho modelo enrugado e careca, completamente nu no meio da sala. Ele empinou o peito curvado, manteve as mãos nos quadris e nem piscou. Bia teve que dar a ele uma nota dez pelo esforço.

Ela espiou Meredith empoleirada numa mesa, perto da janela dos fundos. Com seu cabelo castanho longo e lustroso. Com uma tatuagem cor-de-rosa de teia de aranha no pulso. Meredith parecia forte e confiante, e havia um vermelho irritantemente saudável em suas bochechas.

— Bia? — chamou Meredith pela sala cavernosa, cheia de correntes de vento — Que surpresa.

Bia olhou em volta. Todos os alunos tinham seus pincéis e tintas perto das telas. Ela marchou até o aluno mais próximo, pegou um pincel grande, em formato de leque, passou-o na tinta vermelha e encaminhou-se para Meredith, a tinta pingando no caminho. Antes que alguém pudesse fazer alguma coisa, Bia pintou um A enorme e malfeito no lado esquerdo do peito no delicado vestido de algodão de Meredith.

— Agora todos saberão o que você fez — rosnou Bia.

Sem dar tempo para Meredith reagir, ela se virou e caminhou para fora da sala. Quando chegou ao verde gramado de Hollis de novo, começou a rir louca e alegremente. Não era um "ladra de marido" escrito na testa dela, mas bem que podia ser.

Aí, Meredith. Toma essa.

Segunda-feira de manhã, no treino de hóquei, Milena correu à frente das colegas de time na volta de aquecimento ao redor do campo. Era um dia inesperadamente quente e as meninas estavam um pouco mais lentas que o normal. Kirsten Cullen forçou os braços para alcançá-la.

— Eu soube do concurso Orquídea Dourada — disse Kirsten, sem fôlego, arrumando o rabo de cavalo loiro — É incrível.

— Obrigada. — Milena abaixou a cabeça. Era impressionante como as notícias se espalhavam em Rosewood Day. Sua mãe havia lhe contado apenas seis horas antes, desde então, pelo menos dez pessoas tinham vindo falar com ela a respeito.

— Ouvi dizer que o John Mayer ganhou um Orquídea Dourada quando estava no ensino médio — continuou Kirsten — Foi tipo... com algum trabalho de teoria de música avançada.

— Ahhh — Milena tinha certeza de que John Mayer não ganhara o prêmio, ela conhecia todos os ganhadores dos últimos 15 anos.

— Aposto que você vai ganhar — disse Kirsten. — E, então, você vai estar na TV! Posso ir com você à sua estreia no programa Today?

Milena deu de ombros.

— É uma competição muito acirrada.

— Fala sério! — Kirsten deu uma tapinha no ombro dela — Você é sempre tão modesta.

Milena rangeu os dentes. Mesmo ela tentando minimizar o lance do Orquídea Dourada, a reação de todo mundo foi a mesma: Você vai ganhar, com certeza. Prepare-se para sua foto! e isso a estava deixando louca. Ela tinha arrumado e rearrumado de um jeito tão obsessivo o dinheiro na sua carteira naquele dia, que uma nota de vinte dólares tinha rasgado bem no meio.

O treinador McCready tocou o apito e gritou:

— Vamos trabalhar a corrida lateral!

O time todo se virou e começou a correr de lado. Elas pareciam competidoras de adestramento hípico do Devon Horse Show.

— Você soube do Perseguidor de Rosewood? — perguntou Kirsten, um pouco ofegante. Correr de lado era mais difícil do que parecia — Estava em todos os noticiários ontem à noite.

— Sim — resmungou Milena.

— Ele está no seu bairro. Andando pelos bosques.

Milena desviou de um suporte no chão.

— Provavelmente é apenas um idiota — retrucou ela, ofegante.

Mas Milena não conseguia parar de pensar em M. Quantas vezes M já não tinha mandado mensagens de texto para ela sobre coisas que ninguém poderia ter visto? Ela olhou para as árvores, quase certa de que veria a sombra de alguém. Mas não havia nada ali.

Elas voltaram a correr normalmente, passando pelo lago dos patos de Rosewood Day, pelo jardim com esculturas e pelas plantações de milho. Quando seguiam em direção às arquibancadas, Kirsten deu uma olhada e apontou na direção dos bancos de metal mais baixos, onde estava o equipamento de hóquei das meninas.

— Aquela é a sua irmã?

Milena se encolheu. Rebeca estava parada perto de Ricardo, o novo assistente do treinador. Era o mesmo Ricardo que Rebeca havia namorado quando Milena estava no sétimo ano, e o mesmo Ricardo que tinha beijado Milena na entrada da garagem, anos atrás.

Elas completaram a curva e Milena parou em frente a Rebeca e Ricardo. Sua irmã tinha se trocado e estava usando quase a mesma roupa que sua mãe vestia mais cedo: jeans apertados, camiseta branca, e um relógio caro da Dior. Ela até estava usando Chanel Nº. 5, como a mamãe. Que ótimo clonezinho, pensou Milena.

— O que você está fazendo aqui? — inquiriu ela, sem fôlego.

Rebeca apoiou um dos cotovelos em um dos coolers de Gatorade que estavam no banco. Sua pulseira antiga de pingente tilintava contra o pulso.

— Por que uma irmã mais velha não pode assistir à caçula jogar? — Mas então seu sorriso fingido esmaeceu, e ela passou um dos braços na cintura de Ricardo — Ajuda também o fato de meu namorado ser o técnico.

Milena torceu o nariz. Ela sempre suspeitara de que Rebeca não esquecia Ricardo. Eles tinham terminado logo após a formatura. Ricardo estava lindo, como sempre, com seu cabelo louro ondulado, corpo lindamente proporcional e um sorriso preguiçoso e arrogante.

— Bem, bom pra você — respondeu Milena, querendo cair fora da conversa. Quanto menos ela falasse com Rebeca, melhor, no mínimo até o lance do Orquídea Dourada acabar. Se pelo menos os juízes andassem logo e eliminassem o trabalho plagiado de Milena da competição... Ela pegou sua maleta com o equipamento, puxou os protetores de canela, e amarrou um em torno da canela esquerda. Depois amarrou o outro em volta da direita. Então, desamarrou ambos, amarrando-os de novo, mais apertado. Subiu as meias e depois as abaixou de novo. Repetiu, repetiu, repetiu.

— O TOC de alguém está feroz hoje — provocou Rebeca. Ela se virou para Ricardo — Ah, você sabe da grande novidade da Milena? Ela ganhou o Orquídea Dourada. O Philadelphia Sentinel vem entrevistá-la esta semana.

— Eu não ganhei — grunhiu Milena, rapidamente — Fui apenas indicada.

— Oh, tenho certeza de que você vai ganhar — Rebeca deu um sorriso afetado que Milena não conseguiu interpretar. Quando a irmã piscou para ela, Milena sentiu uma onda de terror. Ela sabia? Ricardo assobiou.

— Um Orquídea Dourada? Caramba! Vocês, irmãs Grigios, são inteligentes, bonitas e atléticas. Você deveria ver como a Milena arrebenta no hóquei, Rebeca. Ela joga no meio de campo.

Rebeca fez biquinho com os lábios brilhantes, pensando.

— Lembra quando o treinador me colocou jogando nessa posição porque a Zoe estava com mononucleose? — ela falou quase miando com Ricardo — Eu marquei dois gols. Em um tempo.

Milena rangeu os dentes. Ela sabia que Rebeca não seria caridosa por muito tempo. Rebeca já conseguiu transformar algo inocente em uma competição. Milena procurou em sua longa lista mental por um insulto falsamente gentil apropriado, mas aí decidiu deixar para lá. Não era hora de arranjar briga com Rebeca.

— Tenho certeza de que foi o máximo, Rebeca — concordou ela —Aposto que você jogava muito melhor que eu.

A irmã ficou paralisada. O monstrinho que Milena tinha certeza de que vivia dentro da cabeça de Rebeca estava confuso. Claramente, ele não esperava que Milena dissesse uma gentileza.
Milena sorriu para a irmã e depois para Ricardo. Ele ficou olhando por um momento e depois lhe lançou uma piscadela cúmplice.

O estômago de Milena revirou. Ela ainda se sentia esquisita quando Ricardo olhava para ela. Mesmo três anos depois, Milena se lembrava de cada detalhe do beijo dele. Ricardo estava usando uma camiseta Nike cinza, short verde-exército e tênis Merrills marrons. Ele cheirava a grama recém-cortada e a chiclete de canela. Em um segundo, Milena estava dando um beijinho de despedida na bochecha dele, apenas flertando, nada mais. No momento seguinte, ele a estava agarrando contra a lateral do carro dele. Milena tinha ficado tão surpresa que manteve os olhos abertos.

Ricardo apitou, tirando Milena de seus devaneios. Ela correu de volta para perto do time, e Ricardo a seguiu.

— Certo, pessoal. — Ricardo bateu palmas. O time o cercou, olhando para o seu rosto dourado — Por favor, não me odeiem, mas hoje nós vamos fazer arrancadas, agachamentos e a corrida montanha acima. Ordens do treinador.

Todas, incluindo Milena, grunhiram.

— Eu falei pra vocês não me odiarem! — gritou Ricardo.

— Não podemos fazer outra coisa? — reclamou Kirsten.

— Pense em quantos traseiros você vai chutar no nosso jogo contra a Pritchard Prep — falou Ricardo — E olha só, se nós fizermos todos os agachamentos, vou levá-las ao Merlin depois do treino de amanhã.

O time de hóquei adorou. Merlin era famoso por seu sorvete de chocolate de baixa caloria, que era mais gostoso do que aqueles cheios de gordura.
Quando Milena se debruçou no banco para amarrar os protetores de canela,de novo, sentiu a presença de Ricardo parado atrás dela. Quando o encarou, ele estava sorrindo.

— Para constar — disse Ricardo em voz baixa, fazendo concha com as mãos em volta da boca para protegê-la das outras integrantes do time — você joga melhor que a sua irmã. Não há dúvida sobre isso.

— Obrigada — Milena sorriu. Seu nariz coçou com o cheiro da grama cortada e o filtro solar Neutrogena de Ricardo. Seu coração acelerou — Isso é muito importante para mim.

— Eu fui sincero quanto às outras coisas também — O canto esquerdo da boca de Ricardo levantou-se em um meio sorriso.

Milena teve uma sensação de tontura, um tremor de emoção. Ele quis dizer o lance de ser "inteligente" e "bonita"? Ela olhou para o outro lado do campo, onde Rebeca estava parada. A irmã estava debruçada sobre seu BlackBerry, sem prestar a menor atenção.
Ótimo.

Segunda-feira à noite, Viviane estacionou o carro Prius na entrada lateral e desceu. Tudo que ela tinha a fazer era mudar de roupa, e, então, sairia para encontrar Janu para jantar. Aparecer com o seu blazer do Rosewood Day e saia plissada seria um insulto para a instituição dos Amiganiversários. Ela tinha de se livrar dessas mangas compridas, pois se não suaria o dia inteiro. Viviane tinha se borrifado com seuspray de água mineral Evian umas cem vezes no caminho de casa, mas ainda se sentia superaquecida.
Quando virou a esquina, notou o carro Lexus champanhe da mãe estacionado perto da garagem e parou. O que sua mãe estaria fazendo em casa? A sra. Inhudes geralmente trabalhava além do horário na McManus & Tate, sua empresa de publicidade na Filadélfia. Ela geralmente não chegava antes das dez da noite. Então, Viviane notou os outros quatro carros, enfiados um atrás do outro na garagem: o carro Mercedescinza cupê certamente era de Milena; o carro Volvo branco, de Patricia; e o carro Subaru verde esquisito, de Beatriz. O último carro era um Ford branco, com as palavras DEPARTAMENTO DE POLÍCIA DE ROSEWOOD escritas na lateral.

Que diabo era isso?

— Vivi.

A mãe de Viviane estava na varanda lateral. Ainda usava suas pantalonas pretas e os saltos altos de pele de cobra.

— O que está acontecendo? — questionou Viviane, incomodada— Por que minhas antigas amigas estão aqui?

— Eu tentei ligar para você. Você não atendeu — disse a mãe — O policial Wilden queria fazer umas perguntas sobre Marian para todas vocês. Elas estão lá nos fundos.

Viviane pegou o celular BlackBerry do bolso. Claro que tinha três ligações perdidas, todas da mãe.

A sra. Inhudes se virou. Viviane a seguiu para dentro da casa e pela cozinha. Ela parou perto da mesa de telefone, de tampo de granito.

— Tem alguma mensagem pra mim?

— Sim, uma — O coração de Viviane deu um salto, mas aí a mãe continuou: — Do sr. Ackard. Eles estão fazendo uma reorganização na clínica de pessoas queimadas e não vão precisar mais da sua ajuda.

Viviane piscou. Essa era uma surpresa boa.

— Alguém... mais?

Os cantos dos olhos da sra. Inhudes se curvaram para baixo, entendendo o que ela queria dizer.

— Não — Ela tocou o braço de Viviane com gentileza — Eu sinto muito, Vivi. Ele não ligou.

Apesar da vida perfeita–de-novo de Viviane em outros aspectos, o silêncio do pai a magoava. Como ele podia cortar Viviane de sua vida tão facilmente? Ele não percebia que ela tinha um bom motivo para dar o cano no jantar deles e ir à Foxy? Ele não sabia que não deveria ter convidado sua noiva, Isabel e sua filha perfeita, Kate, para o final de semana especial deles? Mas aí, o pai de Viviane iria se casar com a sem graça e excêntrica Isabel em breve, e Kate seria oficialmente sua enteada. Talvez ele não tivesse ligado de volta para Viviane porque Vivi estava sobrando.

Dane-se disse Viviane para si mesma, tirando o blazer e arrumando a camiseta transparente cor-de-rosa Rebecca Taylor. Kate era uma chata certinha, se seu pai escolheu Kate em vez dela, então eles se mereciam.

Quando ela olhou pela porta-balcão em direção à varanda dos fundos, viu Mili, Bia e Pata sentadas em volta da grande mesa de teca do pátio, a luz das janelas de vidro manchado brilhando nas bochechas delas. Wilden, o mais novo membro da força policial de Rosewood e o novíssimo namorado da sra. Inhudes, estavam perto do grill Weber.

Era surreal ver as três ex-melhores amigas aqui. A última vez em que elas tinham sentado na varanda dos fundos de Vivi foi no fim do sétimo ano, e Viviane era a mais boba e feia do grupo. Mas, agora, os ombros de Patricia estavam mais largos e seu cabelo, ligeiramente cheio. Milena parecia estressada e constipada. E Beatriz era um zumbi, com seu cabelo contra a pele. Se Viviane fosse um vestido de noite da Proenza Schouler, então, Bia era um vestido de manga comprida e sem gola, da linha Target.
Viviane respirou fundo e abriu as portas francesas. Wilden se virou. Ele tinha uma expressão séria no rosto. O pedacinho de uma tatuagem aparecia sob a gola do seu uniforme de policial. Viviane ainda ficava impressionada com o fato de Wilden, um ex-encrenqueiro de Rosewood Day, e primo de patricia, ter se tornado um aplicador da lei.

— Viviane. Sente-se.

Viviane pegou uma cadeira da mesa e sentou ao lado de Milena.

— Isso vai demorar muito? — Ela olhou para o relógio Dior incrustado de diamantes — Estou atrasada para um compromisso.

— Não, se nós começarmos agora — Wilden olhou para todas elas. Mili encarava as próprias unhas, Bia mascava um chiclete ruidosamente, com os olhos fechados de uma maneira bizarra, e Pata tinha os olhos fixos na vela de citronela em cima da mesa, com se estivesse prestes a chorar.

— Primeira coisa — falou Wilden — Alguém entregou um vídeo caseiro de vocês para a imprensa — Ele olhou para Bia — É um dos vídeos que vocês deram para a polícia de Rosewood, anos atrás. Então, vocês provavelmente o verão na TV Todos os canais de notícias o pegaram. Estamos atrás de quem deixou o vídeo vazar: essa pessoa será punida. Eu queria que vocês soubessem disso primeiro.

— Que vídeo? — perguntou Beatriz.

— Alguma coisa sobre mensagens de texto? — respondeu ele.

Viviane recostou-se, tentando lembrar que vídeo poderia ser. Havia tantos. Bia costumava filmá-las obsessivamente. Viviane sempre tentava com todas as forças se livrar de cada vídeo, porque, para ela, aparecer na TV não engordava cinco quilos, mas dez. Wilden estalou os dedos e brincou com um moedor de pimenta-do-reino de aparência fálica, que estava no centro da mesa. Um pouco de pimenta caiu na toalha de mesa, e o ar imediatamente ficou temperado.

— A outra coisa de que quero tratar é a própria Marian. Temos motivos para acreditar que o assassino dela seja alguém de Rosewood. Alguém que possivelmente ainda viva aqui hoje... e essa pessoa pode ainda ser perigosa.

Todo mundo tomou fôlego.

— Nós estamos procurando com novos olhos — continuou Wilden, levantando-se da mesa e caminhando em volta, com as mãos cruzadas atrás das costas. Provavelmente, ele viu alguém no CSI fazer aquilo e tinha achado legal — Estamos tentando reconstituir a vida de Marian pouco antes do seu desaparecimento. Queremos começar com as pessoas que a conheciam melhor.

Bem nessa hora, o celular BlackBerry de Viviane tocou. Ela o pegou na bolsa. Janu.

— Janu — Viviane atendeu baixinho, levantando e indo em direção ao lado mais distante da varanda, perto das roseiras da mãe— Vou me atrasar alguns minutos.

—Vagabunda — provocou Janu — Que saco. Eu já estou na nossa mesa do Rive Gauche.

— Viviane — chamou Wilden, ríspido — Você pode ligar para quem quer que seja depois?

Na mesma hora, Beatriz espirrou.

— Saúde — falou Patricia.

— Onde você está? — Janu parecia desconfiada — Você está com alguém?

— Estou em casa — respondeu Viviane — E eu estou com a Pata, Bia, Mili e o pol..

— Você está com suas velhas amigas? — interrompeu Janu.

— Elas estavam aqui quando cheguei — protestou Viviane.

— Deixe-me ver se entendi — A voz de Janu ficou mais alta —Você convidou suas velhas amigas para irem à sua casa. Na noite do nosso Amiganiversário.

— Eu não as convidei — Viviane riu. Ainda era difícil de acreditar que Janu se sentisse ameaçada por suas velhas amigas. — Eu só estava...

— Quer saber de uma coisa? — cortou Janu — Esquece. O Amiganiversário está cancelado.

— Janu, não seja... — Então, parou. Wilden estava do lado dela.

Ele arrancou o telefone da mão dela e desligou, fechando-o.

— Nós estamos discutindo um assassinato — disse ele, em voz baixa. — Sua vida social pode esperar.

Viviane o encarou pelas costas, brava. Como Wilden se atrevia a desligar o telefone dela? Só porque estava saindo com sua mãe não significava que podia bancar o pai com ela. Ela voltou para a mesa com passos firmes, tentando se acalmar. Janu era a rainha do exagero, mas não conseguia dar um gelo em Viviane por muito tempo. A maioria das brigas delas só durava algumas horas, no máximo.

— Ok — disse Wilden, quando Viviane sentou-se novamente — Eu recebi algo interessante algumas semanas atrás, e acho que devíamos conversar a respeito — Ele pegou seu bloco de anotações— Seu amigo Rubens Vieira? Escreveu um bilhete suicida.

— N-nós sabemos — gaguejou Milena — A irmã dele nos deixou ler uma parte.

— Então, vocês sabem que ele menciona Marian —Wilden folheou o bloco para trás — Rubens escreveu: "Prometi a Marian Gomes que guardaria o segredo dela, se ela guardasse o meu." — Seus olhos cor de oliva escrutinaram cada uma das meninas — Qual era o segredo da Marian?

Viviane afundou no assento da cadeira. Fomos nós que cegamos a Cristina. Esse era o segredo que o Rubens havia guardado para Marian. Viviane e suas amigas não tinham se dado conta de que Rubens sabia disso até que Milena resolvera abrir a boca, três semanas atrás.

Milena desembuchou.

— Nós não sabemos. Marian não contou a nenhuma de nós.

As sobrancelhas de Wilden se fecharam. Ele se debruçou na mesa da varanda.

— Patricia, há algum tempo você achava que Rubens tinha matado Marian.

Patricia deu de ombros, impassível. Ela tinha procurado Wilden quando elas achavam que ele era M e havia matado Marian.

— Bem... Rubens não gostava da Marian.

— Na verdade, ele gostava da Marian, mas a Marian não gostava dele — esclareceu Milena — Ele costumava espioná-la o tempo todo. Mas eu não sei se isso tem a ver com o segredo dele.

Viviane deu um pequeno soluço. Patricia olhou para ela, desconfiada. Tudo de que Viviane falava ultimamente era a respeito de como se sentia culpada em relação a Rubens. E se ela quisesse dizer a Wilden que elas eram responsáveis pela morte do Rubens e pelo acidente de Cristina? Viviane poderia ter assumido a culpa pela coisa com Cristina semanas atrás, quando ela não tinha nada em que se agarrar, mas não havia nenhum jeito de ela confessar naquele momento. Sua vida finalmente tinha voltado ao normal, e ela não estava no clima de ficar conhecida como uma das Cegadoras Loucas, ou o que quer que elas inevitavelmente fossem chamadas na TV.

Wilden virou algumas páginas do bloco.

— Bem, quero que todas pensem a respeito. Continuando... vamos falar da noite em que Marian desapareceu. Milena, diz aqui que pouco antes de desaparecer, Marian tentou hipnotizá-la. Vocês duas brigaram, ela saiu correndo do celeiro, você correu atrás dela, mas não conseguiu encontrá-la. Certo?

Milena ficou rígida.

— Hum. Sim. Certo.

—Você não tem ideia de para onde ela foi?

Milena deu de ombros.

— Desculpe.

Viviane tentou se lembrar da noite em que Marian sumiu. Em um minuto, Marian as estava hipnotizando; no próximo, ela tinha sumido. Viviane realmente sentiu que Marian a tinha colocado num transe: quando Marian contou regressivamente a partir de cem, com o cheiro da vela de baunilha espalhado de forma pungente pelo celeiro, Viviane estava se sentindo pesada e sonolenta, a pipoca e o Doritos que ela tinha comido antes se revirando desconfortavelmente em seu estômago. Imagens assustadoras começaram a aparecer diante de seus olhos: Marian e as outras correndo por uma densa selva. Grandes plantas devoradoras de homens as cercaram. Uma planta deu um bote e agarrou a perna de Marian com suas mandíbulas. Quando Viviane conseguiu se livrar disso, Milena estava parada na porta do celeiro, parecendo preocupada... e Marian havia sumido.

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Wilden continuou a caminhar em volta da varanda. Ele pegou um vaso de cerâmica e o virou de cabeça para baixo, como se estivesse procurando uma etiqueta de preço. Babaca enxerido.

— Eu preciso que vocês todas se lembrem do máximo possível. Pensem no que estava acontecendo quando Marian desapareceu. Ela tinha namorado? Alguma amiga nova?

— Ela tinha namorado — tentou Bia — Matt Doolittle. Ele se mudou. — Ao se recostar, sua camiseta escorregou de um dos ombros, mostrando uma alça de sutiã vermelho-sangue, rendada. Vagabunda.

— Ela estava saindo com umas meninas mais velhas, do hóquei — falou Patricia.

Wilden olhou as anotações.

— Certo. Katy Houghton e Violet Keyes. Eu sei. E o comportamento da Marian? Ela andava agindo de maneira estranha?
Elas ficaram em silêncio. Sim, estava, pensou Viviane. Ela lembrou-se imediatamente de um momento. Em um dia turbulento de primavera, algumas semanas antes de Marian desaparecer, o pai dela as tinha levado a um jogo dos Phillies. Marian passou a noite inteira agitada, como se tivesse comido pacotes e mais pacotes de Skittles. Ela ficou checando as mensagens de texto no celular o tempo todo e parecia inconformada com a caixa de entrada vazia. Durante o intervalo do sétimo tempo, quando elas foram de fininho para o balcão para paquerar um grupo de meninos bonitos que estavam sentados num camarote, Viviane notou que as mãos de Marian estavam tremendo.

—Você está bem? — perguntou Viviane.

Marian sorriu para ela.

— Estou só com frio — ela tinha explicado.

Mas isso seria suspeito o suficiente para contar? Parecia irrelevante, mas era difícil saber o que a polícia estava procurando.

— Ela parecia bem — disse Milena, devagar.

Wilden olhou diretamente para Milena.

— Sabe, minha irmã mais velha era muito parecida com a Marian. Ela era a líder da sua turma também. O que quer que minha irmã mandasse, suas amigas faziam. Qualquer coisa. E elas guardavam todos os tipos de segredos por ela. Era desse jeito com vocês, meninas?

Viviane encolheu os dedos dos pés, subitamente irritada com o rumo que a conversa estava tomando.

— Eu não sei — murmurou Patricia — Talvez.

Wilden olhou para baixo, para o celular que vibrava preso ao seu coldre.

— Com licença — Ele desviou até a garagem, puxando o telefone do cinto.

Quando ele estava fora de alcance, Patricia deixou escapar a respiração que estava presa.

— Gente, nós temos que contar a ele.

Viviane focou o olhar.

— Contar o quê a ele?

Patricia jogou as mãos para cima.

— Cristina está cega. Nós fizemos isso.

Viviane balançou a cabeça.

— Me deixe fora disso. E, de qualquer forma, Cristina está bem. Sério. Você já reparou nos óculos de sol Gucci que ela usa? Você precisa ficar, tipo, numa lista de espera de um ano para conseguir um daqueles. Eles são mais difíceis de conseguir que uma bolsa da Birkin.

Bia olhou para Vivi, boquiaberta.

— De que sistema solar você veio? Quem se importa com óculos de sol Gucci?

— Bem, obviamente, não alguém como você — Viviane atirou de volta.

Beatriz travou o queixo e recostou-se.

— O que isso quer dizer?

— Eu acho que você sabe — rosnou Viviane.

— Pessoal — advertiu Milena.

Bia suspirou e virou o rosto para o jardim. Viviane olhou para Bia. Nem mesmo o perfil da Beatriz era tão bonito quanto o seu.

— Nós deveríamos contar a ele sobre Cristina — urgiu Patricia — E sobre M, a polícia deveria cuidar disso. Nós estamos atoladas até o pescoço.

— Nós não vamos contar nada a ele, e ponto final — silvou Viviane.

— É, eu não sei, Patricia — disse Milena, lentamente, enfiando as chaves do carro por entre as tábuas do tampo da mesa. — Essa é uma decisão séria. Isso afeta toda a nossa vida.

— Nós já discutimos isso antes — concordou Bia — Além do mais, M foi embora, certo?

—Vou deixar vocês fora disso — protestou Patricia, cruzando os braços sobre o peito — Mas eu vou contar a ele. Acho que é a coisa certa a fazer.

O celular de Bia tocou alto e todas pularam. Então, o celular Sidekick de Milena vibrou, dançando em direção à beira da mesa. O celular BlackBerry de Viviane, que ela tinha enterrado de volta na bolsa, soltou um apito abafado. E o pequeno celular Nokia de Patricia tocou com um "trim" de telefone antigo.

A última vez em que os telefones de todas elas haviam tocado ao mesmo tempo elas estavam do lado de fora do velório da Marian. Viviane teve a mesma sensação de quando seu pai a levou nas xícaras que dançam, no parque de diversões de Rosewood, na época ela tinha cinco anos: a mesma náusea e tontura. Bia abriu o telefone. Depois Pata, e então Mili.

— Ai, meu Deus — sussurrou Patricia.

Viviane nem se deu ao trabalho de pegar seu celular BlackBerry; ela se debruçou sobre o celular Sidekick de Milena.

Vocês realmente acharam que eu tinha desaparecido? Qual é! Eu estou observando o tempo todo. Aliás, eu posso estar observando vocês agora mesmo. E, meninas, não contem a
NINGUÉM sobre mim, ou vão se arrepender. — M

O coração de Viviane disparou. Ela ouviu passos e se virou. Wilden estava de volta.

Ele colocou o celular dentro do coldre. Depois, olhou para as meninas e levantou uma das sobrancelhas.

— Perdi alguma coisa?

Ah, se perdeu.