Pretty Little Liars

13 Capitulo 13 - ENTREGA ESPECIAL


A primeira coisa que Patricia ouviu na manhã de domingo foi alguém cantando "I know this world is KILLING you": Sei que este mundo está te matando. Era um cara, com uma voz estridente e irritante como um cortador de grama cantando. Patricia jogou as cobertas para longe. Seria a TV? Seria alguém lá fora? Quando se levantou, sua cabeça parecia cheia de algodão-doce. Ela viu a jaqueta Chloé que tinha usado na noite passada jogada em cima de sua cadeira, e a lembrança de tudo voltou numa enxurrada.

Quando Patricia ia saindo de casa, sua mãe fechou a porta bem em sua cara

Pata bateu na porta, e a sra. Olliver abriu uma fresta. Suas sobrancelhas estavam franzidas.

— Ah, desculpe, você quer sair ?

— S-Sim.

Sua mãe gargalhou, e ela desistiu de sair.
Patricia correu para o seu quarto, traumatizada demais até para chorar. Ohhhhhhh... I know this world is KILLLing YOU!
Patricia foi até a porta nas pontas dos pés. A cantoria vinha de dentro de casa. Suas pernas começaram a tremer. Somente um louco seria idiota o suficiente pra cantar aquela música em Rosewood nesse momento. A polícia poderia prender alguém só por cantarolá-la em público.

Seria Rubens?

Ela endireitou a camisola amarela e entrou na sala. Na mesma hora, a porta do banheiro se abriu e de lá saiu um cara. Patricia tampou a boca com a mão. O cara estava com uma toalha sua toalha fofa da Pottery Barn, enrolada na cintura. Seus cabelos escuros estavam arrepiados. Um grito silencioso ficou preso na garganta de Patricia.

E aí, ele se virou e a encarou. Patricia deu um passo para trás. Era Darren Wilden. O policial Darren Wilden, seu tio.

— Ei. — Ele estacou. — Pata.

Era difícil não admirar seu abdome perfeito. Ele, definitivamente, não era o tipo de policial que comia rosquinhas.

— Por que você está cantando isso? — perguntou ela finalmente.

Wilden parecia envergonhado.

— Às vezes, não percebo que estou cantando.

— Eu achei que você... — Patricia parou de falar.

O que diabos Wilden estava fazendo ali?

— Você... você precisa usar aqui? — Wilden apontou para o banheiro cheio de vapor.

Patricia estava muito chocada para responder. Então, antes de saber exatamente o que estava fazendo, desembuchou.

— Eu tenho uma coisa pra contar. Uma coisa importante.

— Como? — Uma gota de água caiu de um fio de cabelo de Wilden direto no chão.

— Eu acho que sei de umas coisas sobre... sobre quem matou Marian Gomes.

Wilden levantou uma das sobrancelhas.

— Quem?

Patricia lambeu os lábios.

— Rubens Vieira.

— Por que você acha isso?

— Eu... eu não posso contar por quê. Você tem que confiar na minha palavra.

Wilden franziu as sobrancelhas e se apoiou no batente da porta, ainda seminu.

— Você vai ter que me contar um pouco mais do que isso. Você poderia estar tentando se vingar de um cara que te magoou.

Ela não sabia o que fazer. Se contasse a Wilden sobre A Coisa com Cristina, seu pai a odiaria. Todos em Rosewood iam comentar. Ela e suas amigas iriam parar em um reformatório. Mas não ia contar o segredo por causa do seu pai e do restante de Rosewood, não fazia mais sentido. Toda sua vida estava destruída, e, além disso, era verdade que foi ela quem machucou Cristina. Naquela noite, pode ter sido um acidente.

— Eu vou contar — disse ela, devagar. — Mas não quero mais ninguém envolvido. Só... só eu, tudo bem?

Wilden levantou a mão.

— Não tem importância. Nós verificamos Rubens quando Marian desapareceu. Ele tem um álibi perfeito. Não pode ter sido ele.

Patricia bufou.

— Ele tem um álibi? Quem?

— Eu não posso contar isso.— Wilden pareceu sério por um momento, mas aí os cantos de sua boca se curvaram para cima num sorriso. Ele apontou para as calças de flanela E&F com desenho de alce. — Você fica uma graça de pijaminha.

Patricia curvou os dedos dos pés no carpete. Ela sempre odiou a palavra pijaminha.

— Espera aí, você tem certeza de que Rubens é inocente?

Wilden estava quase respondendo, mas seu radiocornunicador, que estava na beirada da pia do banheiro, fez uns barulhos e ele se virou para pegá-lo, mantendo a mão na toalha em volta da cintura.

— Casey?

— Apareceu outro corpo — respondeu uma voz entrecortada. — E é de ... —A transmissão transformou-se em estática.

O coração de Patricia estava galopando novamente. Outro corpo?

— Casey? —Wilden estava abotoando a camisa do uniforme —Você pode repetir? Alô? — Mas só conseguiu barulhos de estática como resposta. Ele notou Patricia ainda parada ali — Vá para o seu quarto.

Patricia se eriçou. Que coragem a dele, de falar com ela como se fosse seu pai!

— E o outro corpo? — sussurrou ela.

Wilden pôs o rádio de volta no balcão, colocou as calças em um segundo, e tirou a toalha da parte de baixo, jogando-a no chão do mesmo modo que Patricia tinha feito tantas vezes.

— Acalme-se — ordenou ele. Sua gentileza se fora. Ele pôs a arma no coldre e correu escada abaixo.

Patricia o seguiu. Milena tinha ligado na noite passada para dizer que Viviane estava bem, mas e se ela estivesse enganada?

— É o corpo é de uma menina? Você sabe?

Wilden saiu quase correndo pela porta da frente. Na saída, perto do Lexus cor de champanhe da mãe, estava sua viatura. Polícia de Rosewood estava escrito em letras garrafais, na lateral. Patricia o seguiu até a viatura.

— Será que agora você pode me dizer de quem é o corpo?

Ele olhou em volta.

— Eu não posso contar isso para você.

— Mas... você não entende...

— Pata — ele disse e em seguida entrou na viatura e ligou a sirene.

Domingo, às 11:52, Bia sentou na sua cama, olhando para as unhas pintadas de vermelho. Ela se sentia ligeiramente desorientada, como se estivesse esquecendo algo... algo grande. Como naqueles sonhos que tinha de vez em quando, em que era junho e ela se dava conta de que não tinha ido para as aulas de matemática o ano todo e de que ia tomar pau.

Aí, se lembrou. Rubens era M. E hoje era domingo. Seu tempo tinha acabado.

Dar um nome e um rosto à vingança de M a apavorava, assim como o fato de que Marian e Milena estavam escondendo algo, algo que poderia ser muito, muito sério. Bia ainda não fazia a menor ideia de como Rubens tinha descoberto sobre Geraldo e Meredith, mas se ela os flagrou juntos duas vezes, outros poderiam tê-los visto juntos, também, inclusive Rubens. Ela não tinha intenção de contar a Leandra sobre tudo que aconteceria na noite anterior. Quando Juca a deixou em casa, perguntou repetidas vezes se deveria entrar com ela. Mas Bia disse que não, tinha que fazer aquilo sozinha. A casa estava escura e quieta, o único som era o barulho do lava-louças, no modo superlavagem. Bia tinha procurado as luzes da entrada, e aí, seguiu pela cozinha escura nas pontas dos pés. Normalmente, a mãe ficava acordada até uma ou duas da manhã no sábado à noite, fazendo Sudoku ou debatendo com Geraldo à mesa, tomando café descafeinado. Mas a mesa estava impecável; ela podia ver as marcas circulares da esponja na superfície.

Bia então deu um pulo no quarto dos pais, imaginando se Leandra tinha caído no sono mais cedo. A porta estava escancarada. A cama estava desfeita, mas não havia ninguém nela. O banheiro da suíte também estava vazio. Então, Bia percebeu que o Honda Civic dos pais não estava na entrada.

Aí, ela os esperou nos degraus da escada, olhando ansiosamente para o relógio a cada trinta segundos até meia-noite. Possivelmente, os pais eram as únicas pessoas no universo que não tinham telefones celulares, então, não podia ligar para eles. Isso significava que Rubens também não podia ligar para eles... ou ele tinha achado outro meio para se comunicar?

E então... ela acordou ali em cima, na própria cama. Alguém deve tê-la carregado, e Bia, que dormia feito pedra, não notou nada.
Ela ouviu barulhos no andar de baixo. Gavetas abrindo e fechando. O assoalho de madeira rangendo debaixo dos pés de alguém. Páginas de jornal sendo viradas. Será que seus pais estariam lá embaixo, ou apenas um deles? Ela foi, nas pontas dos pés, lá para baixo, um bilhão de cenas passando por sua cabeça...

Aí ela viu: pequenas gotas vermelhas, por todo o chão da entrada. Havia uma trilha que vinha da cozinha até a porta de entrada. Parecia sangue.

Bia correu para a cozinha. Rubens teria contado para a mãe, e Leandra, num acesso de raiva, teria matado Geraldo? Ou Meredith? Ou Rubens? Ou todo mundo? Ou Thiago teria matado a todos? Ou... ou Geraldo teria matado Leandra? Quando chegou à cozinha, Bia estacou. Leandra estava à mesa, sozinha. Usava uma blusa vinho, saltos altos e maquiagem, como se estivesse pronta para sair. O New York Times estava dobrado na página das palavras cruzadas, mas, em vez de letras dentro dos quadrados, a página estava cheia de rabiscos grossos em tinta preta. Leandra olhava para a frente, meio vagamente, pela janela da cozinha, apertando os dentes de um garfo contra a palma de sua mão.

— Mãe — grunhiu Bia, chegando mais perto. Só então, Bia percebeu que a blusa estava amassada e a maquiagem parecia borrada. Era como se ela tivesse dormido com aquelas roupas... ou não tivesse nem dormido. — Mãe? — perguntou Bia novamente, sua voz com um tom de medo.

Por fim, a mãe olhou para ela, lentamente. Os olhos de Leandra estavam pesados e úmidos. Ela enfiou o garfo bem fundo na mão. Bia queria tirá-lo dela, mas ficou com medo. Nunca tinha visto a mãe daquele jeito.

— O que está acontecendo?

Leandra engoliu em seco.

— Oh... você sabe.

Bia engoliu em seco.

— O que é... essa coisa vermelha na sala?

— Coisa vermelha? — perguntou Leandra, desconsolada — Ah. Talvez seja tinta, eu joguei fora uns materiais de pintura de manhã, joguei um monte de coisa fora esta manhã.

— Mãe — Bia podia sentir as lágrimas em seus olhos — Tem alguma coisa errada?

A mãe olhou para cima. Seus movimentos eram lentos, como se ela estivesse embaixo d'água.

— Faz quatro anos que você sabe.

Bia prendeu a respiração.

— O quê? — sussurrou.

— Você é amiga dela? — perguntou Leandra, ainda com a mesma voz morta — Ela não é muito mais velha que você. E ouvi dizer que você foi à academia de ioga dela, no outro dia.

— O quê? — sussurrou Bia — Academia de ioga? Não sei do que você está falando!

— É claro que sabe. — Leandra deu o sorriso mais triste que Bia jamais havia visto — Eu recebi uma carta. Primeiro, não acreditei, mas depois perguntei ao seu pai. E pensar que achei que ele estava distante por causa de trabalho.

— O quê? — Bia deu um passo para trás. Sua visão começou a escurecer — Você recebeu uma carta? Quando? Quem mandou?

Pelo jeito ausente e frio com o qual Leandra a olhava, Bia sabia exatamente quem tinha mandado a carta. M. Rubens. E ele tinha contado tudo a ela.

Bia pôs as mãos na testa.

— Eu sinto muito. Eu... eu queria te contar, mas estava com tanto medo e...

— Geraldo foi embora — disse Leandra, quase que de maneira casual — Ele está com a garota — Ela deixou escapar uma risadinha—Talvez, eles estejam fazendo ioga juntos.

— Eu tenho certeza de que nós conseguiremos convencê-lo a voltar — Bia engasgou em lágrimas — Quer dizer, ele tem que voltar, certo? Nós somos a família dele.

Naquele momento, o relógio cuco da cozinha bateu meio-dia. O relógio havia sido um presente de Geraldo para Leandra no décimo segundo aniversário de casamento deles, no ano anterior, na Islândia; Leandra estava muito interessada na peça, pois supostamente pertencera a Edvard Munch, o famoso pintor norueguês que fez O Grito. Ela o havia trazido cuidadosamente consigo no avião, constantemente tirando o plástico bolha para ver se o relógio estava intacto. A partir de então, eles sempre tinham de ouvir as doze badaladas e ver aquele passarinho idiota sair da casinha de madeira doze vezes. Cada piado soava cada vez mais acusador. Em vez de cuco, o passarinho cantarolava: Você sabia. Você sabia. Você sabia.

— Ah, Bia — falou Leandra, com ar de censura. — Eu não acho que ele vá voltar.

— Onde está a carta? — perguntou Bia, seu nariz escorrendo — Posso ver? Eu não sei quem faria isso conosco... quem estragaria as coisas desse jeito.

Bia a encarou. Seus olhos estavam cheio de lágrimas e também enormes.

— Eu joguei a carta fora. Mas não importa quem mandou. O que importa é que é verdade.

— Eu sinto muito. — Bia ajoelhou-se perto dela, sentindo o cheiro engraçado e familiar de sua mãe: terebentina, tinta de jornal, incenso de sândalo e, estranhamente, ovos mexidos. Ela colocou sua cabeça no ombro da mãe, mas Leandra a afastou.

— Bia — disse ela, diretamente, ficando de pé. — Eu não consigo ficar perto de você agora.

— O quê? — gritou Bia.

Leandra não estava olhando para ela, mas para sua mão esquerda, a qual, Bia notou, de repente, não estava mais com a aliança de casamento. Ela passou por Bia e seguiu, como um fantasma para a sala e pelo rastro de tinta vermelha até as escadas.

— Espere — gritou Bia, indo atrás dela.

Ela cambaleou escada acima, mas tropeçou num par de tacos de lacrosse do Thiago, bateu o joelho e escorregou dois degraus.

— Maldição — xingou, raspando o carpete com as unhas. Ela se levantou e chegou lá em cima arfando de raiva. A porta do quarto de sua mãe estava fechada. Assim como a porta do banheiro. A porta do quarto de Thiago estava aberta, mas ele não estava lá. Thiago..., pensou Bia, seu coração partido novamente. Ele sabia?

Seu celular começou a tocar. Aturdida, foi até o quarto para procurá-lo. Sua cabeça estava uma bagunça. Ainda estava arfando. Ela quase queria que a ligação fosse de M, Rubens, para poder falar bastante. Mas era Milena. Bia olhou para o número, fumegando. Não importava que Milena não fosse M, ela bem que poderia ser. Se Milena não tivesse ficado do lado de Rubens lá no sétimo ano, ele nunca teria contado a Leandra, e sua família estaria inteira.

Ela abriu o telefone para atender, mas não disse nada. Apenas ficou sentada, respirando fundo, respirações suspiradas.

— Bia? — chamou Milena, cuidadosamente.

— Eu não tenho nada para te dizer — rebateu Aria — Você acabou com a minha vida.

— Eu sei — respondeu Milena, calmamente. — É que... Bia, me desculpa. Eu não queria guardar o segredo do Rubens de você. Mas eu não sabia o que fazer. Você pode se pôr no meu lugar?

— Não — respondeu Aria, rudemente —Você não entende. Você acabou com a minha vida.

— Espere aí, o que você quer dizer? — Milena pareceu preocupada. — O que... o que aconteceu?

Bia colocou as mãos na cabeça. Aquilo era tão difícil de explicar. E ela conseguia ver as coisas do ponto de vista de Milena. Claro que conseguia. O que Milena estava dizendo era assombrosamente parecido com o que Bia disse para Leandra, três minutos atrás. Eu não queria guardar segredo de você. Eu não sabia o que jazer. Eu não queria te magoar.

Ela suspirou e limpou o nariz.

— Por que você ligou?

— Bem... — Milena esperou —Você teve alguma notícia da Viviane agora de manhã?

— Não.

— Droga — sussurrou Milena.

— Qual é o problema? — Bia endireitou-se na cadeira. — Eu pensei que você tivesse dito que tinha achado ela ontem à noite, e que ela estava em casa.

— Bem, ela estava... — Bia ouviu Milena engolindo em seco — Eu tenho certeza de que não é nada, mas minha mãe estava passando pelo bairro da Viviane e tinha três viaturas policiais na entrada da casa dela.

Viviane morava em um bairro antigo, com muitas pessoas aposentadas, e todo mundo estava em suas varandas ou no meio da rua, preocupado com as três viaturas na entrada dos Inhudes e com a ambulância que tinha acabado de ir embora. Milena foi para a calçada e avistou Bia. Ela ainda estava usando o vestido de bolinhas da Foxy.

— Eu acabei de chegar — informou Bia, assim que Milena se aproximou — Mas não consegui descobrir nada, eu perguntei para um monte de gente o que estava acontecendo, mas ninguém sabe.

Milena olhou ao redor. Havia um monte de policiais, paramédicos, e até um carro do jornal do Canal 4, provavelmente tinha acabado de vir da casa dos Gomes. Ela se sentiu como se todos os policiais estivessem olhando para ela.

E aí, Milena começou a tremer. Era tudo culpa dela. Só dela, e de ninguém mais. Ela se sentiu mal. Rubens a tinha avisado de que as pessoas iam se machucar, e ela não fez nada. Ela sentiu como se houvesse vermes se arrastando por suas veias. Alguma coisa tinha acontecido com Viviane, e ela poderia ter evitado. De repente, Milena viu a Kate parada na entrada da garagem, falando com alguns policiais. Um dos policiais curvou-se e sussurrou algo em seu ouvido. O rosto de Kate se contorceu, como se ela fosse chorar. Ela correu de volta para casa.

Bia cambaleou um pouco, como se fosse desmaiar.

— Ai, meu Deus, Vivi...

Milena engoliu em seco.

— Nós ainda não sabemos de nada.

— Mas eu posso sentir — disse Bia, seus olhos cheios de lágrimas. — M... Rubens... suas ameaças — Ela parou, tirou um fio de cabelo que havia entrado em sua boca. As mãos tremiam muito — Nós somos as próximas. Eu sei.

— Onde estão os pais da Vivi? — perguntou Milena em voz alta, tentando deixar de lado tudo o que Bia tinha acabado de dizer — Eles não deveriam estar aqui se a Viviane estivesse...? — Ela não queria pronunciar a palavra morta.

Um Toyota Prius subiu a rua correndo e estacionou atrás da Mercedes de Milena. Patricia saiu do carro. Ou era uma garota que se parecia com Pata. Ela não tinha se incomodado em trocar as calças do pijama.

Patricia as viu e correu até elas.

— O que está acontecendo? É...

— Não sabemos — interrompeu Milena.

— Pessoal, eu descobri uma coisa. — Viviane tirou os óculos escuros — Eu falei com um policial de manhã, e...

Outro carro de imprensa estacionou e Viviane parou de falar. Milena reconheceu a mulher do jornal do Canal 8. Ela deu uns dois passos em direção às meninas, com o celular no ouvido.

— Então, o corpo foi achado do lado de fora, esta manhã? — disse ela, olhando numa prancheta. — Tá bem, obrigada.

As meninas trocaram olhares desesperados. Então, Bia pegou nas mãos das outras e elas caminharam pelo jardim da casa de Viviane, pisoteando um monte de flores. Estavam bem, perto da porta da frente, quando um policial entrou no caminho delas.

— Patricia, eu disse para você ficar fora disso — disse o policial.

Milena engoliu em seco. Era Wilden, o primo de Patricia e o mesmo cara que esteve em sua casa no dia anterior. Seu coração acelerou.

Patricia tentou empurrá-lo para o lado.

— Não me diga o que fazer! — O policial segurou Patricia pelos ombros, e ela começou se contorcer — Me larga!

Milena rapidamente segurou Patricia.

— Tente se acalmar — disse Wilden. Aí, se deu conta de quem ela era. — Oh! — suspirou ele. O policial pareceu confuso, depois curioso. — Srta. Grigio.

— Nós apenas queríamos saber o que aconteceu com a Viviane — tentou explicar Milena, o estômago embrulhado. — Ela é... ela é nossa amiga.

— Pessoal, vocês deveriam voltar para casa. — Wilden cruzou os braços sobre o peito.

De repente, a porta da frente se abriu... e Viviane saiu.

Ela estava descalça e pálida, e segurando uma caneca dos Muppets, que veio de brinde no McDonalds, com água. Milenaestava tão aliviada de vê-la que até chorou. Um barulho vulnerável de dor escapou de sua garganta.

As garotas correram até ela.

—Você está bem? — perguntou Patricia.

— O que aconteceu? — quis saber Bia, ao mesmo tempo.

— O que está acontecendo? — Milena gesticulou para a multidão.

— Vivi... — Wilden pôs as mãos no quadril — Talvez você devesse ver suas amigas depois. Seus pais disseram que você deveria ficar dentro de casa.

Mas Viviane balançou a cabeça, quase irritada.

— Não, não tem problema.

Viviane passou pelo policial e as levou para um canto do quintal. Elas pararam atrás de uma roseira na lateral da parede da casa, assim teriam um pouco de privacidade. Viviane tinha olheiras bem escuras, suas pernas estavam todas arranhadas, mas, fora isso, parecia bem.

— O que aconteceu? — perguntou Milena.

Viviane tomou fôlego.

— Um ciclista de montanhismo achou o corpo de Rubens na floresta atrás da minha casa, esta manhã. Eu acho... eu acho que foi uma overdose de comprimidos ou algo assim.

O coração de Milena parou. Patricia engasgou. Bia empalideceu.

— O quê? Quando? — perguntou ela.

— Foi durante a noite — explicou Viviane — Eu ia ligar para você, mas um policial estava me vigiando como uma águia — A boca tremia — Minha mãe está visitando minha avó neste final de semana, e meu pai esta ocupado. — Ela tentou sorrir, mas acabou saindo uma careta, e teve um espasmo no rosto, em seguida, começou a soluçar.

— Tudo bem — consolou-a Patricia.

— Ele estava agindo feito um louco na noite passada — disse Viviane, limpando o rosto com a blusa. — Ele me trouxe para casa depois da Foxy. Num minuto estava tudo normal, no outro, ele estava me contando o quanto odiava a Marian. Ele disse que não podia perdoá-la pelo que ela tinha feito, e que estava feliz por ela estar morta.

— Ai, meu Deus. — Milena cobriu os olhos. Era tudo verdade.

— Foi quando eu me dei conta. Rubens sabia — continuou Viviane, suas mãos pálidas e sardentas irrequietas — Ele deve ter descoberto o que Marian fez e... e eu acho que ele a matou.

— Espere um minuto — interrompeu Patricia, levantando a mão — Eu não acho que ele...

— Shhh. — Milena colocou uma das mãos sobre o pulso fino de Patricia, que olhou, como se quisesse dizer alguma coisa.

— Eu fugi dele... o caminho todo até minha casa — prosseguiu Viviane — Quando entrei, Milena ligou, mas a ligação foi cortada. Depois... depois Rubens estava na porta dos fundos. Eu disse a ele que sabia o que ele tinha feito e que iria contar à policia. Ele pareceu surpreso por eu ter descoberto — Viviane parecia sem fôlego por toda essa conversa.

— Pessoal... como Rubens soube?

O estômago de Milena despencou. As linhas telefônicas tinham caído antes que pudesse explicar a verdade sobre a Coisa com Cristina, na noite anterior. Ela preferiria não ter que contar para Viviane naquele momento, ela parecia extremamente fragilizada. Já havia sido ruim o suficiente contar para Bia e Patricia, mas a verdade destruiria o mundo de Viviane.

Bia e Patricia estavam olhando para Milena com expectativa, então, Milena tomou coragem.

— Ele sempre soube — disse ela — Ele viu a Marian. Só que ela o chantageou para que ele assumisse a culpa. Ela me fez guardar segredo — Milena parou por um momento para tomar fôlego e notou que Viviane não estava reagindo como ela achou que iria. Ela estava ali, parada, completamente calma, como se estivesse ouvindo uma palestra de geografia. Isso desequilibrou Milena — Então... hum... quando Marian desapareceu, eu sempre pensei que, talvez, não sei... — Milena olhou para cima em direção ao céu, percebendo que o que ela estava prestes a dizer era verdade — Eu achei que Rubens tinha algo a ver com isso, mas estava apavorada demais para dizer qualquer coisa. Mas então, ele voltou para assistir ao funeral... e minhas mensagens de M se referiam ao segredo de Rubens. A última dizia: Você me magoou, então, vou te magoar também. Ele queria se vingar de todas nós. Ele devia saber que todas nós estávamos envolvidas.

Viviane ainda estava parada, estranhamente calma. Então, devagar, seus ombros começaram a tremer. Ela fechou os olhos. Num primeiro momento, Milena pensou que ela estivesse chorando, mas, então, percebeu que ela estava rindo.
Viviane virou a cabeça para trás, rindo mais alto. Milena olhou para Bia e para Patricia, preocupada. Viviane, obviamente, não tinha entendido

— Vivi... — Milena a cutucou, gentilmente.
Quando Viviane virou a cabeça de volta para a frente, o lábio inferior estava tremendo.

— Ali tinha jurado para nós que ninguém sabia o que tínhamos feito.

— Acho que ela mentiu — disse Viviane, secamente.

Os olhos de Viviane piscaram, como que procurando por algo.

— Mas como ela pôde mentir para nós desse jeito? E se Rubens decidisse contar? — Ela chacoalhou a cabeça — Isso... isso aconteceu quando todas nós estávamos na casa da Marian, olhando para a porta da frente? — perguntou Viviane — Naquela mesma noite?

Milena assentiu, solene.

— E Marian voltou para dentro e disse que tudo estava bem, e quando nenhuma de nós, exceto ela, conseguiu dormir, nos consolou coçando nossas costas?

— Sim. — Os olhos de Milena se encheram de lágrimas. Claro que Milena se lembrava de cada detalhe.

Viviane olhou para o nada.

— E ela nos deu isso. — Ela ergueu um dos braços. A pulseira que Marian tinha mandado fazer para elas, para simbolizar o segredo, estava firmemente atada em volta do seu pulso. Todas as outras já a haviam retirado. As pernas de Viviane ficaram bambas, e ela caiu na grama. Então, começou a destruir a pulseira em seu pulso, tentando arrancá-la, mas a corrente era velha e resistente — Caramba — Viviane juntou os dedos para tentar encolher a mão e puxar a pulseira sem abri-la. Então, tentou com os dentes, mas a pulseira não cedeu.

Bia colocou a mão no ombro de Viviane.

— Está tudo bem.

— Eu não consigo acreditar em nada disso — Ela esfregou os olhos, desistindo da pulseira. Em seguida, arrancou um monte de grama com a mão — E eu não consigo acreditar que fui para Foxy com o... assassino da Marian.

— Nós estávamos apavoradas por sua causa — sussurrou Milena.

Patricia chacoalhou os braços.

— Gente, isso é o que eu estou tentando contar para vocês. Rubens não é o assassino da Marian.

— Como assim? — Milena franziu as sobrancelhas. — Do que você está falando?

— Eu... eu falei com o meu primo esta manhã — Patricia apontou na direção de Wilden, que estava falando com o pessoal do jornal — Eu contei a ele sobre o Rubens... que eu achava que ele tinha matado a Marian. Ele disse que o tinham investigado, tipo, anos atrás. Rubens nem sequer é um suspeito.

— Ele, com certeza, é o culpado. — Viviane permanecia desconfiada — Na noite passada, quando eu mencionei para Rubens o que ele tinha feito, o garoto entrou em pânico e me implorou para não contar aos policiais.

Todas se entreolharam, confusas.

— Então você acha que os policiais estão errados? — Patricia mexeu com o pingente em forma de coração na sua pulseira.

— Espere um minuto — disse Viviane, lentamente. — Milena, com o que Marian o estava chantageando? Como ela fez para Rubens levar a culpa da... da Coisa com a Cristina?

— Milena disse que a Marian não contou para ela — lembrou Bia.

Milena sentiu um nervosismo enorme tomar conta de seu corpo. É melhor do meu jeito, Marian havia dito. Nós guardamos o segredo do Rubens, ele guarda o nosso. Mas Rubens estava morto. Marian estava morta. Não tinha mais importância.

— Eu sei — sussurrou ela.

Milena então notou alguém vindo, dando a volta na lateral do quintal, e seu coração acelerou. Era Cristina Vieira.

Ela vestia uma camiseta preta e um jeans preto justinho, e seus cabelos escuros estavam presos no alto da cabeça. Seu rosto estava parcialmente encoberto por enormes óculos de sol. Ela segurava uma bengala branca em uma das mãos e a coleira de seu golden retriever na outra. Ele a guiou para a beirada do grupo.
Milena estava certa de que estava prestes a desmaiar. Ou isso ou começaria a chorar novamente.

Cristina e seu cachorro pararam bem perto de Patricia.

— A Viviane Inhudes está aqui? — perguntou Cristina.

— Sim — sussurrou Viviane. Milena podia sentir o medo na voz da velha amiga. — Estou aqui.

Cristina virou-se na direção da voz de Viviane.

— Isto é seu — Ela estendeu uma bolsa rosa de cetim. Viviane a pegou cuidadosamente, como se fosse feita de vidro — E tem uma coisa que você deveria ler — Cristina tirou do bolso um pedaço de papel amassado. — É do Rubens.

Viviane colocou o cabelo atrás das orelhas e olhou para Cristina. Os óculos de sol que ela usava iam do osso da bochecha até acima da sobrancelha, mas Viviane ainda pôde ver algumas cicatrizes rosadas e enrugadas, cicatrizes de queimadura na testa dela. Ela pensou naquela noite. Em como a casa de Marian cheirava a velas de menta. Em como seus pés roçavam nas reentrâncias do piso de madeira da sala de jantar dos Gomes, quando estava parada em frente à janela, vendo Marian correr pelo gramado da casa dos Vieiras. O barulho dos fogos de artifício, dos paramédicos subindo a escada da casa da árvore, em como a boca da Cristina parecia um retângulo de tanto que ela chorava.

Cristina entregou a ela o pedaço de papel sujo e amassado.

— Eles acharam isto com ele — disse ela, sua voz falhando na palavra ele. — Ele escreveu para todas nós. Sua parte está em algum lugar pelo meio.

O papel era a lista do leilão da Foxy; Rubens tinha rabiscado algo atrás. Ver como as palavras do Rubens não estavam sobre as linhas, que ele quase não tinha usado nenhuma letra maiúscula e que tinha assinado o bilhete como Rubens, com um garrancho de letra cursiva, fez Viviane se contorcer por dentro. Embora ela nunca tivesse visto a letra de Rubens antes, isso parecia trazê-lo de volta à vida ao lado dela. Ela podia sentir o cheiro do sabonete que ele usava, sentir sua mão enorme segurando a dela. Naquela manhã, ela tinha acordado não no balanço da varanda, mas na sua cama. A campainha estava tocando. Ela desabalou escada abaixo, e havia um cara vestindo calção de ciclista e um capacete, esperando na porta.

— Posso usar seu telefone? — perguntou ele — É uma emergência.

Viviane o encarou, zonza, ainda não tinha acordado. o ciclista começou a se explicar.

— Eu estava pedalando pelo seu bosque e achei um garoto. Primeiro eu achei que ele estava dormindo, mas... — ele parou, e os olhos de Viviane se arregalaram. Ela correu para dentro para pegar seu celular. Viviane ligou para sua mãe, e logo ficou parada na varanda, tentando entender o que estava acontecendo. Ela pensou em Rubens na sua varanda na noite anterior. Em como ele tinha batido violentamente na porta de vidro corrediça, depois corrido para o bosque.

Ela olhou para o ciclista.

— Esse garoto do bosque, ele estava tentando machucar você? — sussurrou ela, seu coração disparado. Era horrível que Rubens tivesse acampado lá fora, no bosque, a noite toda. E se ele tivesse voltado para a varanda depois de Viviane ter caído no
sono?

O ciclista segurou o capacete junto ao peito. Ele parecia ter mais ou menos a mesma idade do pai da Viviane, com olhos verdes e barba grisalha.

— Não — disse ele, gentilmente. — Ele estava... azul.

E agora, aquilo: a carta. Um bilhete suicida.

Rubens parecia tão atormentado, correndo para o bosque. Teria ele tomado os comprimidos lá mesmo? Será que Viviane poderia tê-lo impedido? E Patricia estaria certa? Rubens não era o assassino de Marian?

O mundo começou a rodar. Ela sentiu a mão de alguém pesar no meio de suas costas.

— Ei — sussurrou Milena — Está tudo bem.

Viviane se endireitou e olhou para a carta. As amigas se debruçaram também. Lá, bem no meio, estava o nome dela.

Viviane, três anos atrás, prometi a Marian Gomes que guardaria o segredo dela, se ela guardasse o meu. Ela jurou que o segredo nunca vazaria, mas acho que vazou. Eu tentei lidar com isso e esquecer, quando nos tornamos amigos, achei que eu poderia... pensei que eu mudaria e que minha vida tinha mudado. Mas acho que nunca podemos mudar o que somos. O que eu fiz com a Cristina foi o maior erro que já cometi. Eu era jovem, confuso e burro, e nunca quis machucá-la. E não posso mais
viver com isso. Já chega para mim.

Viviane dobrou o bilhete novamente, o papel estalando em suas mãos. Aquilo não fazia sentido, eram elas que tinham machucado Cristina, não Rubens, do que ele estava falando? Ela devolveu a carta para Cristina.

— Obrigada.

— De nada.

Quando Cristina se virou para ir embora, Viviane limpou a garganta.

— Espera — grunhiu ela — Cristina.

Cristina parou. Viviane engoliu em seco. Tudo o que Milena tinha acabado de contar a ela, que Rubens sabia, e que Marian mentia, tudo que Rubens disse na noite anterior, toda a culpa que ela tinha carregado por tantos anos... tudo isso extravasou.

— Cristina, eu preciso me desculpar com você. Nós éramos... nós costumávamos ser tão más. As coisas que fizemos... os apelidos, não era engraçado.

Patricia deu um passo à frente.

— Ela está totalmente certa. Não era engraçado mesmo. —Viviane não via Patricia com uma expressão torturada havia muito tempo — E você não merecia isso — adicionou.

Cristina tocou na cabeça do cachorro.

— Está tudo bem — disse ela — Eu já superei isso.

Viviane suspirou.

— Mas não está tudo bem. Não está tudo bem mesmo. Eu... eu nunca soube como... como uma pessoa se sente... quando tiram sarro porque ela é diferente. Mas agora eu sei — Ela contraiu os músculos dos ombros, na esperança de que isso a impedisse de chorar. Parte dela queria contar para todo mundo o que a estava atormentando. Mas ela se segurou. Não era o momento certo. Havia mais coisas que queria dizer, também, mas como ela conseguiria? — E eu sinto muito pelo seu acidente, também. Eu nunca cheguei a dizer isso para você — Ela queria acrescentar: me desculpe pelo que nós acidentalmente fizemos, mas estava com muito medo.

O queixo de Cristina tremeu.

— Não foi culpa sua. E, de qualquer forma, não foi a pior coisa que me aconteceu — Ela puxou a coleira do cachorro e andou de volta para a frente do jardim.

As meninas ficaram quietas até que Cristina não pudesse mais ouvi-las.

— O que poderia ser pior do que ficar cega? — sussurrou Bia.

— Teve uma coisa pior — interrompeu Milena — O que a Marian sabia... — Milena ostentava aquele olhar de novo, como se tivesse um monte de coisas para falar, mas preferisse ficar calada, ela suspirou — Rubens costumava... tocar... Cristina — sussurrou ela — Era isso que ele estava fazendo na noite do acidente. É por isso que a Marian mirou os fogos de artifício por engano na casa da árvore, "Quando Marian chegou à casa da árvore do Rubens", continuou Milena ; "ela o viu na janela e acendeu os fogos de artifício. E aí... ela viu que a Cristina estava lá, também. Tinha alguma coisa esquisita na expressão da Cristina, e sua blusa estava desabotoada. Então, Marian viu Rubens subir em cima dela e colocar a mão no seu pescoço. Ele moveu a outra mão para debaixo da blusa da Cristina, Marian disse que ficou tão chocada que desencaixou os fogos de artifício. A chama subiu rápido pelo pavio e soltou o foguete. Então, houve um clarão confuso e brilhante. Vidros espatifaram. Alguém gritou... e a Marian correu, quando Rubens veio até nós e contou a Marian que a tinha visto, Mari disse ao Rubens que ela o tinha visto... fazendo aquilo a Cristina, O único jeito de ela não contar aos pais do Rubens, era ele assumir que tinha acendido os fogos de artifício. E Rubens concordou, Marian me fez prometer que não contaria sobre o que o Rubens tinha feito, junto com todo o resto."

—Jesus — sussurrou Bia — Então, Cristina deve ter ficado feliz quando Rubens foi mandado para outro lugar.

Viviane não fazia ideia de como reagir. Ela se virou para olhar para Cristina, parada do outro lado do jardim com a mãe, falando com um repórter. Como será que ela se sentia, com o meio-irmão fazendo aquilo com ela?

Isso a dilacerou por dentro, também. Fazer isso à própria meia-irmã era horrível, mas também era... patético. É claro que Rubens estava querendo deixar isso para trás, para seguir com a vida dele. E ele estava conseguindo... até Viviane assustá-lo, fazendo-o pensar que tudo estava voltando à tona para assombrá-la.
Ela ficou horrorizada, cobriu o rosto com as mãos e respirou fundo várias vezes, engolindo em seco. Eu acabei com a vida do Rubens, pensou. Eu o matei.

As amigas a deixaram chorar um pouco, todas elas estavam chorando, também. Quando as lágrimas de Viviane secaram, ela ficou reduzida a soluços convulsivos e olhou para cima.

— Eu não consigo acreditar nisso.

— Eu acredito — disse Patricia — Marian só se importava consigo mesma. Ela era a rainha da manipulação.

Viviane olhou para ela, surpresa. Patricia deu de ombros.

— Meu segredo do sétimo ano? O que só Marian sabia? Ela me torturou com ele. Toda vez que eu não concordava com alguma coisa que ela queria que eu fizesse, Marian ameaçava contar para todas vocês. E para todo mundo.

— Ela fez isso com você também? — Bia parecia surpresa — Houve vezes em que ela disse coisas sobre o meu segredo que o tornavam tão... óbvio — Ela baixou os olhos. — Antes de o Rubens... tomar os comprimidos, ele falou sobre esse segredo comigo. O segredo que Marian sabia, e aquele com o qual , M, Rubens, estava me ameaçando.

Todas elas prestaram atenção.

— Que seria...? — perguntou Patricia.

— Eram... só uns lances de família — Os lábios de Bia tremeram — Eu não quero falar sobre isso agora.

Todas ficaram em silêncio por um tempo, pensando. Viviane olhou para os pássaros pulando para dentro e para fora do comedouro que o pai instalara no quintal.

— Faz o maior sentido que Rubens seja M — sussurrou Viviane — Ele não matou Marian, mas ainda queria vingança.

Milena deu ombros.

— Eu espero que você esteja certa.

Tudo estava claro e calmo novamente na casa da Viviane. Seus pais ainda não estavam em casa, mas Kate tinha acabado de fazer pipoca de micro-ondas, e toda a casa estava impregnada com aquele cheirinho característico. Para Viviane, pipoca de micro-ondas tinha um cheiro muito melhor do que o gosto, e, apesar de sua falta de apetite, o estômago roncou. Ela pensou, Rubens jamais sentirá cheiro de pipoca de micro-ondas de novo, nem a Marian.

Ela olhou para o jardim da janela do seu quarto. Há algumas horas, Rubens estivera parado ali, implorando para Viviane não contar para os policiais. E pensar que o que ele queria dizer era: por favor, não conte a eles o que eu fiz com a Cristina.

Viviane pensou em Marian de novo. Como Marian havia mentido para elas sobre tudo. Depois que as ambulâncias foram embora e Marian voltou para dentro de casa. Marian estava tão calma e protetora, tão segura. Viviane estava desesperada assim como as outras garotas, mas Marian estava lá para fazê-las sentirem melhor.

— Está tudo bem — sussurrava Marian para elas — Eu juro. Tudo vai ficar bem. Vocês tem que acreditar em mim.

— Mas como pode estar tudo bem? — Patricia soluçou. — Como você sabe?

— Porque eu sei.

Viviane sentou-se na cama olhando distraidamente pela janela. Ela se sentia vazia, como se alguém tivesse tirado tudo de dentro dela, como quem limpa uma abóbora de Halloween. O quarto estava muito quieto; o único som era o das pás do ventilador de teto girando. Viviane abriu a gaveta superior de sua mesinha de cabeceira e achou um par de tesouras velhas para canhoto. Ela posicionou as lâminas entre os fios da pulseira que Marian fez para elas havia tantos anos e, com um rápido movimento, cortou-os. Ela não queria muito jogar a pulseira fora, mas também não queria deixá-la no chão, onde pudesse vê-la. No final, empurrou-a bem para debaixo da cama com a beirada do pé.

Um barulho do outro lado da sala a assustou. Viviane tinha pendurado a bolsa rosa que Cristina trouxe de volta na maçaneta da porta do seu quarto. Ela podia ver seu telefone piscando, através do tecido fino. Lentamente, levantou-se e pegou a bolsa. Na hora em que conseguiu pegar o telefone lá dentro, já tinha parado de tocar.

Estava escrito no pequeno Nokia: NOVA MENSAGEM DE TEXTO.

Viviane sentiu o coração acelerar.


Pobrezinha da Viviane, tão confusa, eu aposto que você precisa de um abraço agora não é mesmo? Mas não fique muito à vontade, não está tudo acabado até que eu diga que está. —M