Pretty Boy
6 Stay With Me
Notas iniciais
Já fazia duas semanas que Blaine tinha passado a noite com Kurt.
Duas semanas.
Duas semanas e Kurt ainda pensava nele.
Porra, duas semanas e Kurt ainda gastava seu tempo se lembrando dos olhos castanhos brilhantes, das mãos fortes, do corpo definido, dos cachos rebeldes, da pele morena.
Oh, e o jeito que Blaine tratava ele.
Sim, especialmente isso. Blaine não só tratou-o com todo o respeito, como também foi carinhoso e gentil o tempo todo, Kurt não podia pedir nada melhor. Blaine estava pagando, muito caro por sinal, por sexo e mesmo assim foi tão atencioso e...
O que Kurt estava pensando?
Blaine se foi.
Para sempre.
Kurt era um garoto de programa, ele não teria isso em sua vida. Ele não merecia todo esse carinho e atenção, Kurt sabia que esse tipo de coisa não era pra ele, mas porra...
Já faz duas semanas.
Duas malditas semanas.
E Kurt ainda não passou um segundo sequer sem pensar naquele olhar penetrante e aquecedor.
Em apenas uma noite ele tinha se sentido tão cuidado e amado, e oh, a sensação de acordar nos braços de Blaine...
O castanho tentava limpar seus pensamentos e começar mais um dia miserável, mas tudo era tão difícil. As coisas sempre foram péssimas, mas depois daquela noite com Blaine, quando ele conheceu a sensação de se sentir bem, ele nunca mais quis outra coisa.
Infelizmente, Blaine não era pra ele. Ele já tinha voltado para Manhattan, sua casa perfeita, seu trabalho perfeito, sua vida perfeita, logo ele encontraria um marido perfeito, ele não precisava de um acompanhante...
~K&B~
Blaine passou essas duas semanas completamente perdido e desorientado, ele não sabia o que fazer, ele não sabia o que deveria falar para seus pais. Tudo o que ele queria era sumir.
Hoje deveria ser seu casamento com Sebastian. Seria o suposto melhor dia de sua vida.
Como sua vida pôde ter desmoronado tanto em tão pouco tempo? Blaine era fraco, ele não podia lidar com tantos telefonemas e emails. Não podia lidar com amigos, parentes e é claro, Sebastian batendo todo dia em sua porta.
Ele queria sumir, ele precisava ocupar sua cabeça antes que seu coração se arraste até Sebastian e implore para eles voltarem a ser o casal apaixonado que nunca foram.
Ele queria algo bom em sua vida, ele queria parar de ouvir sua mãe reclamando, ou Sebastian implorando por perdão, ele queria parar de ouvir seus amigos perguntando o que havia acontecido, e os ensaios desgastantes... Faltavam dezesseis dias para sua apresentação, e ele simplesmente não servia mais para o papel, as falas fugiam constantemente de sua cabeça, tudo estava errado.
Blaine se perguntou se ele realmente servia para essa rotina da Broadway, ele tinha certeza que iriam substituir ele até o dia da estréia. Mas ai ele se lembrava dos olhos de cor indefinida...
Lembrava-se de como Kurt queria uma chance como a dele, se lembrava do sorriso de Kurt ao falar do teatro. Ele desejou que pudesse ser forte como o menino bonito, desejou que pudesse fazer Kurt sorrir brilhantemente mais vezes, desejou que as coisas não fossem tão ruins assim na vida dele...
Ele pensou que não seria uma má ideia ir para o Bronx para fugir de seu casamento.
~K&B~
Kurt estava se despedindo do terceiro cliente daquela tarde. Tinha sido um dia longo, estressante, desgastante e cansativo...
Ele estava pronto para tomar o seu quarto banho do dia, mas foi interrompido por batidas bruscas em sua porta. Kurt destrancou a porta, mas antes que pudesse abrir já tinha sido empurrado pelo homem corpulento e grosseiro do outro lado, que não teve nenhum cuidado para não machucá-lo.
– Hummel, eu já disse que você não deve trancar essa porta? – O homem falava com seu melhor tom autoritário, fazendo Kurt abaixar a cabeça enquanto passava a mão sobre o mais novo hematoma em seu braço.
– Sinto muito, meus clientes acabaram por hoje, eu iria tomar um banho. – Kurt disse com sua voz baixa e trêmula.
– Você quer que eu acredite em você? Por que está trancando a porta? O que você anda fazendo?
– Eu só queria um pouco de privacidade, eu não estou tramando nada...
– O quê? – O homem começou com um riso cruel. – Por que você quer privacidade? Você já fudeu com todos os homens gays dessa região, não existe ninguém que nunca tenha visto o seu corpo... Onde já se viu, a maior prostituta da cidade trancando o quarto para não ser visto nu... – Aquela voz grave, aquele tom zombeteiro... Kurt sentiu as lagrimas se acumulando embaixo de seus olhos, mas ele se recusava a deixá-las cair.
Erick gostava de torturar Kurt, ele sabia o peso que aquelas palavras tinham no menino, e ele não podia evitar usá-las, Kurt era tão bonito quando estava quebrado.
– Então, a minha vadia favorita foi contratada para passar a noite fora...
– Mas... – Kurt começou cuidadosamente — Eu já terminei meu trabalho de hoje, pensei que teria o resto da tarde de descanso.
– As coisas mudam. Você tem um cliente no Guest House.
– Mas eu já atendi três caras hoje e – Erick não ouviu o que menino tinha a dizer e acertou seu rosto, fazendo o castanho ficar em silêncio.
– Quem é o cliente? – Kurt disse com a voz quebrada, tentando mais do que tudo engolir seu choro. Enquanto pressionava a palma da mão na mancha vermelha em sua face.
– Ele não quis se identificar. Você vai encontrá-lo no hotel hoje às cinco e vai poder voltar amanhã às onze.
– Você está me mandando para encontrar um cara que nem sabe quem é? Você não sabe o que ele quer comigo!
– Sua voz já me irritou por hoje Kurt. Eu não me importo com o que ele quer, o que você tem a oferecer para alguém além de sexo? O que importa é que ele está oferecendo o dobro do dinheiro que você ganhou o dia todo hoje. E se eu fosse você, eu aproveitaria que alguém está interessado pagar tanto, porque o dia que você não tiver mais esse corpinho desejável e esse rostinho bonito, você não terá mais o que fazer com essa sua vidinha, porque caso você não tenha reparado, não existe mais nada em que você seja útil nesse mundo. – Escutar a verdade em voz alta doía muito mais do que em pensamentos. — Agora se apresse, não vai querer deixar o pote de ouro desapontado não é? Você tem uma hora para chegar ao hotel, fale o seu nome e diga que é o quarto 21! — Erick deixou o quarto antes de bater a porta atrás de si.
Kurt arrastou seus pés no chão, caindo contra a porta. Ele estava cansado, ele estava tão cansado. Ele não sabia quanto tempo mais poderia aguentar essa vida, mas ele sabia que não havia outra opção para ele.
O castanho não se permitiu sofrer por muito tempo, afinal, ele tinha que sair, e ainda precisava tomar um banho.
~K&B~
Kurt desceu do ônibus e caminhou mais duas quadras até chegar ao hotel. Era um lugar extremamente luxuoso, Kurt nem sabia que existia um lugar tão caro como este naquele bairro. Tudo sobre aquele hotel era impressionante, ele tinha certeza que se quebrasse alguma coisa, levaria a vida toda trabalhado para pagar.
Ele entrou um pouco inseguro e envergonhado com suas roupas, ele imaginou que seria um hotel barato então nem se preocupou com o vestuário, mas claro, estava completamente enganado. Assim que chegou ao saguão requintado a recepcionista, uma senhora muito bem arrumada, o encarou com a melhor cara de desprezo.
– Ahn, com licença...
– O quê?
– Eu... Tenho que ir ao quarto 21.
– Você tem reservas? – Ela media Kurt com aqueles olhos grandes cheios de ódio.
– Eu tenho um cli... Estão esperando por mim. Pode dizer que aqui é Kurt.
– Kurt o que?
– Kurt Hummel...
Kurt esperou ela fazer a ligação e logo em seguida a senhora deu a ele um cartão.
– Pode subir, ultimo andar.
Kurt se mudou rapidamente até o elevador, sentindo o olhar flamejante em suas costas.
Um apartamento por andar, sério? O que Kurt estava fazendo em um lugar como esse?Claro que Erick não se importaria com as consequências, o cliente deve realmente estar pagando uma fortuna.
Mas Kurt não vale uma fortuna.
Kurt chegou em frente a grande porta de madeira, mas não se atreveu a passar o cartão, ele optou por bater na porta e esperar. Logo um sorriso radiante dentro de um rosto conhecido estava abrindo a porta.
– Oh Kurt, entre!
– B-Blaine? – Kurt estava em choque. Esse era Blaine Anderson? Aquele rapaz que tomou conta de seus melhores sonhos durante duas semanas?
– Se lembra de mim? – Tudo o que eu queria era ter te esquecido.
– Eu... O que, o que você quer?
– Vamos lá, entre. Podemos conversar aqui dentro.
Kurt deu alguns passos cuidadosos e entrou no apartamento ridiculamente grande. O castanho sentiu uma corrente elétrica por todo o seu corpo quando Blaine pousou suas mãos fortes sobre seus ombros.
– Vamos lá, você deve estar com frio, você está tão gelado, sente-se.
Kurt se sentou tenso no sofá, com as pernas encolhidas. Mal parecia o Kurt atirado que Blaine conheceu nas ruas há duas semanas.
– Por que você não relaxa? O que você quer beber? Eu pedi uma garrafa de Uísque, mas eu imaginei que você preferiria Vinho ou Champanhe, então... O que você vai querer? – Blaine andava pela sala confortavelmente, como se ele se encontrasse com Kurt todos os dias.
– Você está oferecendo bebida para mim?
– É o que parece...
– Blaine, o que você quer? Por que me chamou aqui hoje?
– Eu estou com alguns problemas, eu precisava me distrair um pouco, então pensei na única pessoa nesse mundo que eu conheço que não vai me julgar por largar meu noivo no altar, e ainda vai me dar uma noite inesquecível.
Oh, uma noite...
Blaine só o queria para sexo, como todo mundo. Afinal, era só para isso que ele servia, não era? Kurt abriu o zíper de suas botas retirando-as e colocando ao lado do sofá. Antes que ele pudesse tirar sua camiseta, Blaine já estava falando novamente.
– Então, o que vai querer? Se você não falar nada eu vou colocar vinho, acho que combina com você...
– P-pode ser...
– Eu pensei que nós poderíamos passar a noite assistindo alguns filmes. Eu trouxe os meus favoritos, eu espero que você goste. Talvez façamos uma maratona com todos os filmes de Harry Potter... Eu trouxe meu romance favorito, Moulin Rouge. – Blaine deslizou a taça do vinho nas mãos geladas de Kurt. – Mas eu não queria que você achasse ofensivo, ou que eu estou fazendo algo só para te desagradar, eu só...
– Blaine, eu não me importo... – Blaine Anderson, qual o seu problema? Por que eu estou na cobertura de um hotel de luxo, tomando vinho caro e escolhendo um filme para assistir com meu cliente!?
– Ahn, talvez possamos assistir o meu outro romance favorito! – Blaine disse animado, vasculhando as bolsas que continham os DVDs – O que acha?
– A Pequena Sereia, sério? Isso é um filme infantil Blaine...
– Kurt, é uma história super complexa e apaixonante, com certeza você não assistiu do jeito certo. Vamos assistir esse, por favor, por favooor. – Oh, aqueles olhos de cachorro pidão, Kurt estava viciado naquele homem. Por que ele estava pedindo permissão para sua prostituta para ver um filme em um hotel que ele está pagando? Blaine definitivamente não estava pensando em usar Kurt apenas para sexo, como alguém pode ser tão bom?
– Você pode fazer o que você quiser você sabe...
– Mas eu não quero fazer o que eu quero, eu quero fazer o que nós queremos. Então, pode escolher o filme... O que você quer comer? Eu preparei uns lanches mas podemos pedir alguma coisa...
– Eu... Eu não quero comer. – Isso parecia uma mentira, já que Kurt ainda não tinha se alimentado desde o café da manhã.
– Vamos lá, eu nunca mais vou deixar você passar mal perto de mim. Vou me certificar de você estar bem alimentado sempre...
– Blaine, o que você está fazendo aqui? Por que não está em Manhattan? Como você me encontrou? Eu não entendo... Que tipo de problemas você está fugindo? — O moreno se sentou no sofá, soltando um longo suspiro e passando as mãos pelos seus cabelos.
– Hoje seria o dia do meu casamento. Pelos meus cálculos nesse momento eu estaria na festa. Talvez tirando fotos para o meu álbum, ou tendo minha primeira dança, eu deveria estar feliz com o meu marido e minha família estaria orgulhosa de mim. Hoje seria o suposto dia mais feliz da minha vida. – Kurt viu as lágrimas se acumularem nos olhos de Blaine.
– Blaine... – Kurt encarou o moreno com aqueles olhos piedosos. Ele queria abraçar Blaine e dizer que tudo ficaria bem, mas ele não sabia se devia se aproximar.
– Não. Olha, hoje seria o melhor dia da minha vida e eu ainda pretendo ter um dia bom, na verdade uma noite boa já que meu dia se foi... – Blaine se sentou animado no sofá. -Por isso eu te chamei, acho que nós devíamos nos conhecer melhor, poderíamos ser amigos. Então, o que pode ser melhor do que comida, uísque e pequena sereia?
– Eu consigo pensar em coisas melhores, mas eu aprecio sua paixão... – Kurt disse enquanto ria. Mas por dentro ele estava vibrando, Blaine realmente queria conhecê-lo melhor? Eles poderiam ser amigos? A ideia de ter um amigo fazia Kurt sorrir, ele não se lembrava de conversar com alguém a um bom tempo...
– Ótimo! Vamos nos divertir muito hoje...
– Parece bom pra mim. – Kurt disse com um sorriso sincero.
Em poucos minutos Blaine tinha arrumado, bagunçado na verdade, toda a sala. Ele espalho cobertores e almofadas em cima do tapete, e arrumou alguns lanches que ele tinha preparado anteriormente em cima da mesa, depois despejou mais bebidas nas taças e se acomodou ao lado de Kurt no chão antes de começar o filme.
Kurt comeu mais desesperadamente do que queria, Blaine assistiu ele por algum tempo, mas manteve o silêncio. O filme passou tranquilamente, com algumas pausas para Blaine rir, ou chorar, ás vezes acompanhar a música tocada... Assim que os créditos começaram a rolar na tela Blaine quebrou o silêncio.
– Oh, pequena sereia, você simplesmente não pode ter o suficiente... Será que você acharia ruim eu voltar o filme?
– Você é exatamente igual a uma criancinha Blaine...
– Oh vamos lá! Vai me dizer que você não é completamente apaixonado pela Ariel? Kuuurt, é um filme embaixo d’água! Ela é uma sereia, tem coisa mais legal que isso?
– Oh meu deus... Quantos anos você tem Blaine?
– Vinte e três, e você? – Blaine não entendia exatamente o conceito de pergunta retórica.
– Vinte e três anos e você já é formado, se apresenta na Broadway e é tipo... Rico?
– Eu me formei no final do ano passado eu comecei a faculdade assim que sai do ensino médio, não é grande coisa... Eii me fale quantos anos você tem!
– Vinte e quatro.
– Totalmente lindo desse jeito, eu te daria vinte...
– Você sabe, não precisa me cantar para dormir comigo, ainda tem uma noite paga...
– Kurt, eu estou falando sério! E você é tão jovem, por que – Blaine foi interrompido antes de terminar a pergunta.
– Blaine, por favor, a ultima coisa que eu preciso é de alguém para ficar me julgando.
– Eu não estou te julgando! Eu só não entendo, por que você faz isso Kurt? Eu não acho que você gosta...
– Mas é claro que eu não gosto! Você acha que eu gosto de dormir com esses homens desprezíveis? Você acha que eu me sinto bem em abrir as pernas para qualquer maldito ser humano que tenha algum dinheiro para me pagar? Você acha que eu tenho orgulho de mim? Não, eu não tenho! Eu nem gosto de mim, eu não lembro a ultima vez que eu gostei de mim, ou que eu me orgulhei de alguma coisa que eu fiz... – O alto volume da fala de Kurt foi abaixando, ele já estava sussurrando nas ultimas palavras.
– Kurt, eu não quis dizer isso, eu sinto muito, eu não queria te ofender. Me desculpe por ter falado sobre isso, eu só...
– Sabe, não é um sonho de infância. Nunca na minha vida escolar eu olhava para frente e me imaginava me esfregando nos caras, eu nunca nem tinha tido um namorado, eu detestava falar de sexo... Eu sempre achei que eu faria algo grande, que eu poderia mostrar que todos estavam errados sobre mim, eu achei que eu tivesse nascido para brilhar, eu queria olhar na cara de cada pessoa que me empurrou contra os armários, ou jogou raspadinha na minha cara, aqueles que me espancavam depois da aula, eu queria mostrar pra essas pessoas que eu sou muito melhor que elas. Mas eu não sou Blaine! Aqui estou eu, só mais uma prostituta no meio de muitas em Nova Iorque... Eu tenho certeza que todos eles estão melhores do que eu. – A voz de Kurt quebrou no meio do caminho e ele parou de falar por um momento.
– Mas Kurt, por que exatamente você começou a fazer isso? — Blaine não queria mais cutucar a ferida do menino bonito, mas quando ele percebeu já tinha perguntado...
– Eu havia acabado de terminar o ensino médio, e eu tinha conseguido entrar em NYADA, e eu tinha um estágio na Vogue.com, eu aluguei um pequeno apartamento. Eu estava na cidade dos meus sonhos, e eu achei que estivesse no meio de um caminho importante para as coisas darem certo, pela primeira vez eu estava completamente feliz. – Kurt começou a contar uma parte de sua vida que ninguém deveria saber, mas o álcool não impediu ele de parar. — Mas então meu pai ficou gravemente doente, e ele precisava de dinheiro para o tratamento, ele pagava a mensalidade da minha faculdade e eu ganhava muito pouco no estágio, eu não tinha como ajudá-lo. Eu tentei desesperadamente encontrar outros empregos, mas a situação dele foi piorando, as consultas eram muito caras, os exames também, eu não tinha o que fazer... E então ele foi internado em coma, e eu precisava pagar a cirurgia dele urgentemente, eu estava desesperado... – Blaine percebeu que Kurt precisava falar isso para alguém, ele parecia tão machucado e magoado, mesmo assim, fazia bem conversar sobre os problemas...
A voz de Kurt foi tomada pelos soluços, lembrar desse dia era desgastante, doía fisicamente. Ele parou uns segundos para secar as lágrimas e sentiu uma mão forte segurando a sua, Blaine queria mostrar que estava lá para ele, ele tentou evitar chorar na frente de Kurt.
– E tinha esse cara... Ele sempre ficou atrás de mim, e ele disse que se e-eu, se eu dormisse com ele, ele me pagaria e então eu não tive outra escolha, eu precisava tanto desse dinheiro. E então eu fiz, foi horrível, mas eu pude pagar a cirurgia do meu pai, e eu pensei que tudo ficaria bem. Eu tive que largar a faculdade porque eu não poderia mais pagar, mas o pior veio depois. Continuar o tratamento, e os remédios, tudo era tão caro, e eu continuei com essa forma de arranjar o dinheiro, eu dormi com meus ex-colegas de faculdade, e com conhecidos, depois com desconhecidos e quando eu percebi eu tinha virado uma prostituta de rua. Eu tive que largar meu emprego na Vogue para continuar com essa nova vida, e todo o dinheiro que eu ganhava eu mandava para o meu pai. Quando eu tive certeza que meu pai estava bem eu parei de mandar o dinheiro, e sumi da vida dele, eu não conseguia mais olhar nos olhos dele, eu estava tão envergonhado... Ele ficou atrás de mim, então eu larguei meu apartamento, e troquei de celular, era melhor ele achar que eu tinha morrido do que ele descobrir a verdade.
Eu continuei sobrevivendo desse jeito, eu estava juntando dinheiro para reconstruir minha vida, eu pensava que talvez eu pudesse ir respirar ares novos, talvez na Europa, eu poderia ser um designer em Paris. Mas então eu conheci Erick, ele me chamou para trabalhar para ele, no início eu recusei, mas depois percebi que eu não teria escolha. E Blaine... Ter um cafetão é a pior coisa do mundo, ele escolhe quantas vezes eu vou trabalhar, ele escolhe meus clientes na maioria das vezes e eu nunca vejo o dinheiro. Eu não recebo nada além do dinheiro que eu escondo e aquele maldito quarto. Eu achei que eu poderia fugir, mas eu sempre acho que ele quer me matar, ás vezes eu penso que talvez fosse melhor morrer do que continuar assim... – Essas memórias pareciam tão recentes, Kurt sabia que nada mudaria daqui para frente, ele causou toda a sua desgraça.
O castanho chorava agora descontroladamente, Blaine o abraçou firmemente, acariciando seus cabelos e despejando beijos em sua cabeça, ele não podia mais evitar suas lágrimas.
Blaine já não sabia mais o que pensar, ele odiava todos. Ele odiava os colegas do ensino médio, odiava seus colegas da faculdade, sua família, seus clientes, Erick. Como alguém pode aguentar ver esse menino sofrer e não fazer nada?
Kurt era tão jovem, tão bonito, tão bondoso, tão frágil. Ele não merecia nada disso. Blaine não o conhecia, mas sabia que ele deveria estar em um lugar melhor.
– Kurt, sempre que você precisar eu vou estar aqui para você...
Kurt não disse nada, eles não sabiam quanto tempo já estavam ali, Kurt só continuou chorando até finalmente adormecer nos braços de Blaine.
Blaine carregou Kurt até o quarto e o colocou na cama, jogando um cobertor em cima. Ele passou seus olhos sobre o menino bonito, ele ainda estava com raiva do mundo por ser tão injusto com ele. Ele ainda estava com ódio de si mesmo por reclamar de problemas tão insignificantes...
~K&B~
Kurt acordou sem saber onde estava, ele olhou para os lados e só mais tarde se lembrou que ele estava com Blaine. E se lembrou da conversa que eles tiveram e que terminou em lágrimas, se lembrou que tinha sido carregado para o quarto.
Ele contou tudo para Blaine.
Ele sentiu um desespero, por um lado era bom ter tirado esse peso das costas. Por outro, isso não era da conta dele, por que Kurt tinha que ser tão fraco? Oh como ele odiava o poder da bebida...
Ele se levantou indo em direção a sala, em busca de seu cliente.
Kurt parou para dar uma olhada na mesa, tinham velas acesas e mais garrafas de vinho, algumas caixas de comida. Tudo parecia muito com um... encontro.
– B-blaine? – Que cara ele deveria olhar o moreno agora?
– Kurt! Você acordou, pensei que dormiria até amanhã. – Blaine deu aquele sorriso brilhante. – Toma, isso aqui é pra você!
O moreno apareceu com um buque de rosas brancas e azuis.
– Eu não sabia que cor você gostava, então pensei em branco e azul, porque me lembra sua pele de porcelana e seus olhos, mesmo que seus olhos não sejam exatamente azuis, a floricultura do hotel não tem muitas variedades... – Blaine falava sem parar e Kurt tentava processar o que estava acontecendo. -
– Blaine?
– E aqui eu não podia cozinhar nada, então achei melhor pedir algo, espero que você goste de comida japonesa, os rolinhos primavera daqui são os melhores.
– Blaine...
– Oh, você odiou não é?
– Eu só, não entendo... Por que tudo isso? Você sabe, não precisa ter dó de mim, eu não devia ter te contado nada...
– Não é dó Kurt! Eu só queria te conhecer melhor, e eu percebi que não tinha preparado um encontro decente, estava tentando arrumar as coisas...
– Blaine, você não precisa preparar um encontro decente para uma prostituta.
– Mas eu quero! As coisas funcionam melhor comigo assim... Venha, vamos comer!
Blaine puxou a cadeira para Kurt, ele sentou um tanto inseguro.
– Relaxa, sou só eu... – Oh, mal sabia ele que essa era uma das maiores preocupações de Kurt.
Kurt comeu em silêncio, ele ainda não acreditava que tinha cotado tudo para Blaine, e chorado em seu colo. Blaine assistia Kurt, ele era lindo, muito lindo. Blaine não queria ficar com dó, ele só queria poder ajudar Kurt de alguma maneira.
– Então... Você conversou com Sebastian? Ainda se sente mal pelo término?
– Eu não quero conversar com ele, eu não sou do tipo de pessoa que consegue lidar diretamente com os problemas... Mas ás vezes eu penso que as coisas vão ser melhor sem ele, eu vou aprender a viver minha vida assim, não é?
– Eu acho... Você sempre pode encontrar alguém melhor.
– Sim Kurt, as coisas sempre podem melhorar, mesmo quando você pensa que tudo está perdido... — Blaine precisava de um jeito de fazer Kurt acreditar em si mesmo.
– Eu não sei sobre isso. Mas eu não quero mais falar sobre minha vida com você, se é isso que está pensando.
– Oh, tudo bem... — Blaine procurou a maneira mais fácil de quebrar a tensão, falar com Kurt era como andar em um campo minado — O que você gosta de fazer?
– Eu não sei... — Kurt realmente não sabia, já fazia muito tempo que ele fazia algo por prazer, mas ele não queria ser tão mal com Blaine. — Que tal você me explicar toda essa fascinação por filmes da Disney?
– Oh vamos lá, não tem como não amar! Aposto que você tem um filme pelo qual é apaixonado...
– Talvez eu tenha uma queda por Rei Leão...
– Há! Eu sabia, podemos assistir agora, também tenho Mulan, Tarzan, Irmão urso...
– Você trouxe a locadora inteira para o hotel?
– Nha, eu não sabia que tipo de filme você iria querer...
Logo a conversa ficou confortável para ambos, eles deitaram no chão novamente, mais próximos do que antes. Não pararam um minuto de beber, o excesso de álcool no sangue fazia Kurt mais sentimental, e um pouco mais atrevido, ás vezes mais depressivo. Blaine se perguntou se Kurt tinha problemas com bipolaridade...
– Blaine Anderson, você é incrível.
– Hmm, nada que eu não saiba... – Blaine disse sorrindo. – Mas só pra constar, você também é.
Blaine não conseguia manter suas mãos para si mesmo, eles conversaram muito, sobre tudo e sobre nada, conseguiram se conhecer melhor e ainda assim mantiveram as roupas. Nenhum deles percebeu a hora que caíram no sono, mas no meio da noite, eles se aproximaram o máximo que era humanamente possível.
Naquela noite eles não fizeram sexo. Mas dormir com Blaine fez Kurt se sentir próximo de alguém como nunca tinha sentido em toda a sua vida.
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